quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sweetnighter, o disco funky do Weather Report

A imagem da contracapa de Sweetnighter
Quando Wayne Shorter e Joe Zawinul resolveram montar o Weather Report, já eram músicos respeitados e conhecidos. Tinham uma coisa em comum: participaram das formações de Miles Davis em épocas diferentes.

Zawinul estudou no Conservatório de Viena antes de emigrar para os EUA, em 1959, e entrar na Berklee School of Music de Boston. Apesar do aprendizado clássico, pelo jeito, seu interesse era pelo jazz. No início da carreira tocou com o trompetista Maynard Ferguson, acompanhou Dinah Washington, foi da banda de Cannonball Adderley e gravou um belo álbum com Ben Webster (Soulmates, Riverside, 1963) antes de entrar na banda de Miles Davis.

Shorter nasceu em Newark, região pobre de maioria negra, e formou-se na New York University. Tocou com Maynard Ferguson, também. Depois, entrou na banda de Art Blakey e rapidamente passou a desempenhar o papel de diretor musical. Entrou para a nova banda que Miles formou, com ele no saxofone, Herbie Hancock no piano, Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria. Esse quinteto foi um dos mais perfeitos da história do jazz. Tudo o que gravaram são obras-primas. Paralelamente, Wayne Shorter lançou vários discos como líder pela Blue Note. Hancock fez o mesmo. Ambos, bons compositores, são autores de vários standards que estão registrados nesses discos.

Depois da dissolução do quinteto, com Miles partindo para as suas aventuras eletrônicas, é a vez de Joe Zawinul entrar na vida do trompetista. É de sua autoria uma das composições que representam essa passagem de Miles: In a Silent Way. É o compositor também de Pharaoh's Dance, faixa de abertura de Bitches Brew, álbum divisor de águas do jazz.

Miles é o responsável – ou o “irresponsável” por desvirtuar o gênero – da nova vertente do jazz, que ficou conhecida por vários nomes: jazz fusion, jazz-rock, jazz progressivo. É sempre difícil classificar novas linguagens; é como essa história de pós-moderno ser depois do contemporâneo. Zawinul, um apaixonado por eletrônica, não ficou muito tempo com Miles. Tinha luz própria e não podia ficar ficar eclipsado pela sombra do mestre.

Joe e Wayne haviam se encontrado em outras oportunidades e não foi quando estiveram com Miles. Foi lá no início, com outro trompetista: Maynard Ferguson. Joe gostava de explorar as sonoridades dos teclados eletrônicos. Wayne nunca abriu mão do som acústico do saxofone tenor e do soprano. Mas a combinação revelou-se perfeita. Formaram o Weather Report, que viria a se tornar a grande banda do jazz fusion.

Se Miles empreendia uma grande revolução com Bitches Brew, a dupla análogo-eletrônica representou um avanço na exploração do jazz eletrônico. Na primeira formação, contaram com o baixista Miroslav Vitous, Airto Moreira e o baterista Alphonso Mouzon.

I Sing the Body Electric, título tirado de poema de Walt Whitman e do conto de ficção científica de Ray Bradbury, é o segundo álbum. Airto e Mouzon saíram e entraram outro brasileiro – Do Um Romão – e Eric Gravatt. Das sete faixas, as três últimas são registros ao vivo de uma apresentação em Tóquio. Algumas participações especiais são… especiais. A melhor é a de Ralph Towner, um dos grandes virtuoses do violão clássico no jazz, em The Moors, composição de Wayne Shorter.

Os dois primeiros discos, bem experimentais. eram de uma riqueza sonora muito original. Tinha algo das experimentações de Miles em In a Silent Way, pelas ambiências criadas por Zawinul, agora, não submetidas ao crivo do trompetista. Já eram admirados, mas não conhecidos como quando agregaram Jaco Pastorius à banda.

À primeira vista, Sweetnighter (Columbia, 1973) parecia descaradamente comercial. Passado o susto, ficava despudoradamente bom. Os temas eram melódicos, menos abstratos e experimentais. Era um prenúncio do som que ficou como marca mais característica do Weather Report a partir de Black Market. O álbum entre Sweetnighter e este – Mysterious Traveller – ainda tema muito a ver com os dois primeiros.

O início de Sweetnighter é matador. Em Boogie Woogie Waltz, além do contrabaixo de Vitous, há o baixo elétrico de Andrew White. A percussão é de Do Um Romão e Muruga, e a bateria, de Hershell Dwellingham.

Ouça Boogie Woogie Waltz.





Manolete, a segunda, é uma composição de Shorter. Os solos do sax são acompanhados por belas linhas de baixo. Ouça.




Adiós, de Zawinul, tem um pouco da atmosfera de suas outras composições.




Em 125th Street Congress, de Zawinul também, retomam os elementos funkies de Boogie Woogie Waltz, novamente com dois baixos, um elétrico e outro, acústico, e percussão de Do Um Romão e Muruga.




Will, a única composição de Miroslav Vitous, é um belo tema com ele no baixo elétrico, com Andrew White no corne inglês. É outro bom momento; menos funky e mais melódico.




A última é Non-Stop Home. Ouça. Com dois bateristas (Eric Gravatt e Herschell Dwellingham), apenas o baixo elétrico de Andrew White, sintetizadores pilotados por Zawinul, é um típica composição de Shorter, com ele no soprano.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O “criacionismo” de Keith Jarrett

Aquele 24 de janeiro de 1975 tinha tudo para dar errado. Estava marcada uma apresentação de Keith Jarrett, à noite, no teatro Köln Oper. Tradicional, fundado no século XIX, severamente destruído na Segunda Guerra, a nova Ópera fora projetada por Wilhelm Riphahn e reinaugurada em 1957.

Por algum mal entendido, o piano Bösendorfer 290 Imperial não estava no teatro. Havia apenas um da mesma marca, de modelo inferior, usado apenas para os ensaios. Técnicos passaram a tarde tentando afiná-lo e constataram deficiências nas notas mais altas e graves. Keith tinha acabado de chegar de Zurique, Suiça, de carro. Ao saber da situação, disse que não se apresentaria. O staff da gravadora ECM estava com os equipamentos para registrar o show e a produtora estava à beira do desespero. Com muito custo, convenceram o americano.

Aquele dia 24 tornou-se histórico. Jarrett sentou-se ao piano e começou a improvisar do “nada”. O teatro lotado caiu aos seus pés com a apresentação antológica. O prenúncio de que seria um desastre, por milagre, foi glorioso. Deus devia estar por lá.

Apesar de ter feito o mesmo em outras ocasiões, registradas no álbum Bremen-Lausanne, o álbum que dele resultou – Köln Concert – tornou-se o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

Ouça a Part I do concerto, a melhor.



Keith, antes e depois
No início da carreira, Jarrett tocou nas bandas de Charles Lloyd e Art Blakey. Por breve período, esteve com Miles Davis também. Montou um trio com Charlie Haden e Paul Motian, com quem gravou o primeiro solo, em 1967. Seus primeiros são pela Vortex e, a seguir, pela Atlantic, Impulse e Columbia. Quando passou a lançar seus discos pela ECM, montou seu “quarteto europeu” com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen. Era o contraponto ao seu “quarteto americano”, composto por ele, Haden, Motian e Dewey Redman.

Jarrett já era bem conhecido quando Köln Concert foi lançado. Mas foi a sua consagração como compositor e pianista. A sólida formação e o interesse pela música erudita fê-lo enveredar por várias vertentes. Estimulado por Manfred Eicher, dono da ECM, registrou álbuns diferenciados. Dessa época do disco do recital de Colônia, destacam-se Arbour Zena, com orquestra, Haden e Garbarek, Ruta & Datya, um interessante duo com Jack DeJohnette, quando tocou pela última vez algum instrumento elétrico. Gravou também clássicos de Johann Sebastian Bach, Shostakovich, Handel e Mozart.

Ouça You Know, You Know, com ele no piano Fender.


Ouça o belíssimo álbum Arbour Zena, com Charlie Haden, Jan Garbarek e orquestra, na íntegra.



Gravou, no início dos anos 1980, dois álbuns intitulados Standards I e II, no formato mais tradicional do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. Ficou afastado um tempo do piano em razão da CFS, a síndrome de fadiga crônica que o acometeu no fim dos anos 1980. Após o restabelecimento, passou a gravar solos com maior frequência que seguiam o modelo de Köln Concert, na maioria, tiradas de apresentações ao vivo.

O solo novo
De hoje em dia, tudo se grava, tudo se fotografa e tudo se registra por meios mais simples. Basta um telefone celular ou um iPad. Ficou fácil gravar, com qualidade. Como as horas de estúdio são caras, óperas e concertos são captadas “ao vivo”. E vamos combinar: “improvisos” são espontâneos. É mais fácil ‘inspirar-se” com gente ouvindo do que na solidão de um estúdio.

Quase todos os álbuns do pianistas lançados nos últimos anos são registros de shows, inclusive os de seu trio com Peacock e DeJohnette. As exceções são The Melody at Night, With You (1998) e os duos Jasmine e Last Dance, com Charlie Haden, gravados na casa de Jarrett. Os últimos solos são Radiance (2002), Carnegie Hall Concert (2005), Paris/London: Testament (2008) e Rio (2009). São todos de qualidade superior. Tudo o que sai de suas mãos é muito bom, tão bom que parece que está sempre fazendo mais do mesmo, e assim mesmo, original.

Acaba de ser lançado mais um. O título é um pouco pernóstico: Creation. Mas, perdoa-se, se é a música de Jarrett. Desta vez, as músicas não fazem parte de uma cadeia de “inspirações”, normalmente intituladas Part I, Part II etc. Bem, os títulos são esses, mas cada parte foi tirada de apresentações em Toronto (Roy Thomson Hall), Paris (Salle Pleyel), Tóquio (Kioi Hall e Orchard Hall) e Roma (Auditorium Parco della Musica), mas mesmo assim, a escolha de cada trecho apresenta uma unidade.

A Parte I se inicia em tom menor, dramática, e não faltam os grunhidos característicos de fundo. Jarrett exige que a plateia fique em silêncio e já chegou a interromper apresentações por causa de gente tossindo. Só ele pode fazer os seus “barulhos”. Não é o pioneiro em “cantar” junto. Thelonious Monk é um que fazia isso, assim como Charles Mingus e Massabumi Kikuchi. Os “grunhidos”, no entanto, mais célebres são os do pianista erudito Glenn Gould.

É difícil destacar alguma parte. Pelo meu gosto, prefiro as do meio para a frente, a partir da Part VI, que é uma das minhas preferidas. A seguinte é muito boa também. A mão direita faz a base e boa parte da melodia flui nas notas médias com a mão esquerda.

Nota: Tentei disponibilizar o áudio de uma das “partes” no YouTube, mas não foi possível por razões de direitos autorais. Era apenas uma forma de divulgar e não era por razões comerciais.


Ouça um sample de Creation.