Por algum mal entendido, o piano Bösendorfer 290 Imperial não estava no teatro. Havia apenas um da mesma marca, de modelo inferior, usado apenas para os ensaios. Técnicos passaram a tarde tentando afiná-lo e constataram deficiências nas notas mais altas e graves. Keith tinha acabado de chegar de Zurique, Suiça, de carro. Ao saber da situação, disse que não se apresentaria. O staff da gravadora ECM estava com os equipamentos para registrar o show e a produtora estava à beira do desespero. Com muito custo, convenceram o americano.
Aquele dia 24 tornou-se histórico. Jarrett sentou-se ao piano e começou a improvisar do “nada”. O teatro lotado caiu aos seus pés com a apresentação antológica. O prenúncio de que seria um desastre, por milagre, foi glorioso. Deus devia estar por lá.
Apesar de ter feito o mesmo em outras ocasiões, registradas no álbum Bremen-Lausanne, o álbum que dele resultou – Köln Concert – tornou-se o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.
Ouça a Part I do concerto, a melhor.
Keith, antes e depois
No início da carreira, Jarrett tocou nas bandas de Charles Lloyd e Art Blakey. Por breve período, esteve com Miles Davis também. Montou um trio com Charlie Haden e Paul Motian, com quem gravou o primeiro solo, em 1967. Seus primeiros são pela Vortex e, a seguir, pela Atlantic, Impulse e Columbia. Quando passou a lançar seus discos pela ECM, montou seu “quarteto europeu” com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen. Era o contraponto ao seu “quarteto americano”, composto por ele, Haden, Motian e Dewey Redman.
Jarrett já era bem conhecido quando Köln Concert foi lançado. Mas foi a sua consagração como compositor e pianista. A sólida formação e o interesse pela música erudita fê-lo enveredar por várias vertentes. Estimulado por Manfred Eicher, dono da ECM, registrou álbuns diferenciados. Dessa época do disco do recital de Colônia, destacam-se Arbour Zena, com orquestra, Haden e Garbarek, Ruta & Datya, um interessante duo com Jack DeJohnette, quando tocou pela última vez algum instrumento elétrico. Gravou também clássicos de Johann Sebastian Bach, Shostakovich, Handel e Mozart.
Ouça You Know, You Know, com ele no piano Fender.
Ouça o belíssimo álbum Arbour Zena, com Charlie Haden, Jan Garbarek e orquestra, na íntegra.
Gravou, no início dos anos 1980, dois álbuns intitulados Standards I e II, no formato mais tradicional do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. Ficou afastado um tempo do piano em razão da CFS, a síndrome de fadiga crônica que o acometeu no fim dos anos 1980. Após o restabelecimento, passou a gravar solos com maior frequência que seguiam o modelo de Köln Concert, na maioria, tiradas de apresentações ao vivo.
O solo novo
De hoje em dia, tudo se grava, tudo se fotografa e tudo se registra por meios mais simples. Basta um telefone celular ou um iPad. Ficou fácil gravar, com qualidade. Como as horas de estúdio são caras, óperas e concertos são captadas “ao vivo”. E vamos combinar: “improvisos” são espontâneos. É mais fácil ‘inspirar-se” com gente ouvindo do que na solidão de um estúdio.
Quase todos os álbuns do pianistas lançados nos últimos anos são registros de shows, inclusive os de seu trio com Peacock e DeJohnette. As exceções são The Melody at Night, With You (1998) e os duos Jasmine e Last Dance, com Charlie Haden, gravados na casa de Jarrett. Os últimos solos são Radiance (2002), Carnegie Hall Concert (2005), Paris/London: Testament (2008) e Rio (2009). São todos de qualidade superior. Tudo o que sai de suas mãos é muito bom, tão bom que parece que está sempre fazendo mais do mesmo, e assim mesmo, original.
Acaba de ser lançado mais um. O título é um pouco pernóstico: Creation. Mas, perdoa-se, se é a música de Jarrett. Desta vez, as músicas não fazem parte de uma cadeia de “inspirações”, normalmente intituladas Part I, Part II etc. Bem, os títulos são esses, mas cada parte foi tirada de apresentações em Toronto (Roy Thomson Hall), Paris (Salle Pleyel), Tóquio (Kioi Hall e Orchard Hall) e Roma (Auditorium Parco della Musica), mas mesmo assim, a escolha de cada trecho apresenta uma unidade.
A Parte I se inicia em tom menor, dramática, e não faltam os grunhidos característicos de fundo. Jarrett exige que a plateia fique em silêncio e já chegou a interromper apresentações por causa de gente tossindo. Só ele pode fazer os seus “barulhos”. Não é o pioneiro em “cantar” junto. Thelonious Monk é um que fazia isso, assim como Charles Mingus e Massabumi Kikuchi. Os “grunhidos”, no entanto, mais célebres são os do pianista erudito Glenn Gould.
É difícil destacar alguma parte. Pelo meu gosto, prefiro as do meio para a frente, a partir da Part VI, que é uma das minhas preferidas. A seguinte é muito boa também. A mão direita faz a base e boa parte da melodia flui nas notas médias com a mão esquerda.
Nota: Tentei disponibilizar o áudio de uma das “partes” no YouTube, mas não foi possível por razões de direitos autorais. Era apenas uma forma de divulgar e não era por razões comerciais.
Ouça um sample de Creation.

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