quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Dois tributos a dois grandes músicos: “I Remember Clifford” e “Django”

Django, o cigarro e a guitarra
A tragédia real de Django Reinhardt foi o que ocorreu quando tinha 18 anos. Diz a história que esbarrou em uma vela ao chegar em casa. Bella, sua mulher, à época, fazia flores de celulóide para vender. Por ser (muito) inflamável, aconteceu um incêndio e Django teve metade de seu corpo queimado. A consequência mais grave foi ter dois dedos da mão esquerda paralisados. Problema sério, mas não foi impedimento para que, mais tarde, ficasse conhecido como o pai da guitarra no jazz. Com Stéphane Grappelli, que foi seu parceiro mais frequente, são os protagonistas seminais do jazz francês e, consequentemente, europeu.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a França era o destino de músicos americanos como Coleman Hawkins e Josephine Baker, a deusa negra que balançou a febril Paris, cidade preferida de escritores (ou aspirantes a) como Ernest Hemingway, John dos Passos, Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Quem pensa que foi simples entertainer deve ouvir seu J’ai deux amours. Baker era tremenda cantora, também.

O acidente que aconteceu com Reinhardt moldou seu jeito tão original de tocar. Como nasceu no início do século XX, sofreu as consequências das duas guerras mundiais. Durante a segunda, Grappelli ficou na Grã-Bretanha e Reinhardt, na França. Voltaram a reunir-se após o fim da guerra. O violinista teve vida longa, mas Reinhardt morreu cedo, com 43 anos, em decorrência de uma hemorragia cerebral, numa estação de trem. Demorou o dia inteiro para ser socorrido. Depois da guerra excursinou pelos EUA e chegou a tocar com a banda de Duke Ellington. Segundo seus biógrafos, voltou para a França diferente. Como puro sangue cigano, não fixava residência e faltava às apresentações marcadas, e quando ia, às vezes, nem levava a guitarrra. Provavelmente, andava deprimido: passava dias sem se levantar da cama.

A tragédia de Clifford Brown foi bem diversa. Encontrava-se no auge como músico quando morreu em um acidente automobilístico. Richie Powell, pianista talentoso e membro de sua banda, irmão de Bud Powell, estava com ele no carro. Brown era genial e bom páreo para Miles Davis e Dizzy Gillespie.

Brownie, como era conhecido, morreu dias antes de completar 26 anos, no dia 26 do 6 de 1956. Leia mais sobre Clifford Brown em http://bit.ly/Wj3bxT para maiores detalhes, se você for um curioso.

Benny Golson (sobre ele, leia http://bit.ly/Umy71H), saxofonista e autor de poucas e boas canções, compôs I Remember Clifford, em homenagem ao trompetista. É um dos grandes standards do jazz. Diferentemente dos clássicos consagrados de George e Ira Gershwin, Cole Porter, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein II, Lorenz Hart, Irving Berlin e outros, a música tributo a “Brownie” foi composta como tema instrumental, tal qual composições de Thelonious Monk, Bill Evans, John Coltrane e Jimmie Rowles. Posteriormente, alguns desses temas, como ’Round Midnight, Blue in Green, Naima e The Peacocks, receberam letras para serem interpretadas por cantores como Carmen McRae, Thierney Sutton, Mark Murphy e Mary Stallings.

Elegância do Modern Jazz Quartet
Tão boa quanto I Remember Clifford, ou até melhor, é Django, tema composto por John Lewis em homenagem ao guitarrista cigano. Lewis foi o criador do Modern Jazz Quartet, com Milt Jackson (vibrafone), Percy Heath (contrabaixo) e Kenny Clarke (bateria). Este último foi substituído por Connie Kay três anos depois da criação da banda, em 1955. Clarke seguiu carreira musical na Europa e teve uma big band com o pianista belga Francy Boland.

O MJQ trouxe a elegância ao jazz, sem desmerecer os impecáveis costumes que músicos como Artie Shaw, Miles Davis e Charlie Parker vestiam em suas apresentações. Incorporaram uma nova atitude nas salas de espetáculos. Eram algo como apresentações de música erudita em salas de concerto. Eram, por assim dizer, um conjunto de câmara, não apenas um quarteto. O som etéreo do vibrafone de Milt Jackson e o piano econômico de Lewis impunham silêncio à plateia; e as composições fugiam da voga do swing e do bebop. E Django representa a essência do Modern Jazz Quartet. John Lewis foi um dos primeiros representantes do que seria cunhado de “Third Stream”, expressão inventada por Gunter Schuller em 1955. Seus interesses pela música erudita e, principalmente, por Johann Sebastian Bach, moldaram seu estilo. Gravou com os Swingle Singers (formação vocal que ficou conhecida por vocalizações a partir de temas eruditos), compôs suites à maneira dos eruditos e adaptou temas clássicos, como em Blues on Bach, tocando, inclusive, cravo.

O melhor I Remember Clifford é, na minha opinião, a de Bud Powell com o saxofonista Don Byas. Ouça.




A interpretação de Django, pelo Modern Jazz Quartet, é excepcional. Existem muitas outras, mas essa é a original.



Ouça uma interpretação de Helen Merrill (sem letra; é só vocalizada) com John Lewis ao piano.



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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

David Bowie reaparece


Você já ouviu o novo David Bowie? Se não, você não é um dos 132 mil – até ontem, 19 horas – que acessou o link do clip de Where Are We Now? É o que está escrito no site da Folha      (http://bit.ly/U1iBbN). No primeiro dia, na loja do iTunes, vendeu mais que Rihanna, Taylor Swift e Britney Spears com Will.i.am.

Nas últimas Olimpíadas, Bowie foi convidado a se apresentar, mas recusou. Depois do infarto que sofreu, em 2006, “desapareceu”. De vez em quando era visto levando o filho à escola. Ficou aquele mistério e a central de fofocas espalhou que estava com sérios problemas de saúde.

Bowie, desde quando surgiu, é um sujeito polêmico. Praticamente introduziu a androginia no rock como atitude (se não considerarmos o pioneirismo de Little Richard ou figuras folclóricas como Liberace). Como, ao longo do tempo, foi se transformando – e por isso o apelido de o “camaleão do rock” – o sumiço me fez lembrar das personagens que viveu em O Homem Que Caiu na Terra, de Nicolas Roeg, e em Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott. Leia sobre esse belíssimo filme em http://bit.ly/Vbaw6j.

O novo disco está previsto para ser lançado em março. O último foi Reality, em 2003. Bom, são quase dez anos.

Assista ao clipe.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O melhor disco ao vivo do mundo. Ou, pelo menos, o dele: Antony and The Johnsons

A imagem de Antony Hegarty na capa de Cut the World
Fiquei surpreso com o fato de Roberto Menescal, compositor de O Barquinho e Surfboard, violonista, produtor e, atualmente, dono do estúdio Albatroz, ter citado Cut the World, de Antony and The Johnsons, como exemplo de um disco ao vivo bem gravado. Pelo jeito, Antony Hegarty não é tão desconhecido por essas paragens.

Em seus tempos de A&R na Philips, discos ao vivo eram cheios de aplausos irritantes. Muitos deles eram um “faz-de-conta”. Gravados em estúdio, os aplausos eram acrescentados depois. Em outros casos, como no álbum Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, gravado no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), partes que poderiam causar problemas com a censura do regime militar (em 1972, a coisa era muito séria e o pau, como se dizia, corria solto contra qualquer manifestação que os militares pudessem considerar como ameaça) eram “tapados” – ou camuflados – com ondas de aplauso. Quando Chico Buarque cantava Bárbara, os trechos “perigosos”, eram camuflados com “exaltados” aplausos. Outro caso de álbum estragado por aplausos é o de João Gilberto gravado no teatro da TV Globo, em 1980.

Menescal cita o disco de Antony and The Johnsons em razão, justamente, de ser um disco ao vivo em que não se ouve um aplauso ou algum ruído da plateia. A exceção é na faixa Future Feminist (logo mais vai ficar claro por que). Em registros de apresentações ao vivo, mesmo não sendo irritantes, o aplauso é um componente natural. Novas tecnologias permitem que sejam completamente suprimidas. É comum o uso dessa técnica em discos de musica erudita. Orquestras são numerosas e fica muito caro colocá-las em um estúdio. As óperas, praticamente, deixaram de ser gravadas desse modo devido ao custo e ao trabalho que dá registrar vozes e instrumentos separadamente. Mesmo que o custo hora de estúdio tenha diminuído drasticamente, reunir muitas pessoas em um estúdio necessita de uma logística absurda.

Cut The World foi gravado em Copenhagen com a Danish National Chamber Orchestra. E o resultado é excepcional. Se Antony Hegarty é bom com pouco acompanhamento ou apenas ao piano, impressionante como sua música ganha com uma orquestra.

Fora a primeira, que é a canção título e a segunda, que, em vez de ser canção, é um longo discurso sobre uma nova sexualidade – Jesus como uma garota ou Buda como uma mãe, do patriarcado ao matriarcado, coisas do tipo –, as restantes são conhecidas por seus fãs.

Aliás, o “discurso” de Future Feminism cai bem partindo de uma figura andrógina como Antony. Cabelos longos, uma franja à la Veronica Lake, lembrando vagamente a arquiteta Lina Bo Bardi. Um pouco gordo, rosto bem rechonchudo, os cabelos caindo para um lado, apresenta-se com frequência vestindo batas ou roupas bem largas. Quando se veste de branco é como um anjo torto, “um patinho feio que se transforma em um magnífico cisne”, conforme descrição publicada no The Independent em 4 de agosto de 2012. A comparação não é casual: o quarto álbum se chama Swanlights. Os gestos no palco, como você irá ver no vídeo de Cripple and the Starfish, são bem estranhos. Não são desse mundo (o dos normais, digo), e Antony não é homem nem mulher; é um outro gênero, – um transgênero, se isso existe – talvez algo que explica parcialmente Future Feminism.

As cordas, flautas e sopros da orquestra da Danish National Chamber Orchestra, reforçam as qualidade da música e do vocal de Antony. A melancolia fica mais melancólica, o (melo)dramático se torna mais dramático, a desesperança é mais dolorida, soturna. Ele se definiu, em uma entrevista como alguém que tende a ficar em pequeno barco e navegar em volta de enormes embarcações. Para quem gosta de excessos é um prato cheio. Algumas de suas qualidades se originam de sua participação em espetáculos que não exclusivamente musicais. É um performático (desculpe pela expressão meio fora de moda), em atuações que conjugam a dança (é apaixonado pelo butoh e por Kazuo Ohno), o teatro e o cinema.

Cut the World, a inédita, tem como parceira criativa a artista (performática) Marina Abramović. Transformou-se em um curta, dirigido por Nabil Elderkin. Assista. O refrão “But when will I turn and hurt the world?/ When will I turn and cut the world?” é uma boa pista do que acontece. Assista.



Veja Antony em Cripple and the Starfish;




em The Crying Light.



I Fell in Love with a Dead Boy.




Leia “Kazuo Ohno e Antony and The Johnsons”: http://bit.ly/OCkQyK