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| Dexter Gordon, por Herman Leonard |
Entre Paris e Copenhagen, foram quatorze anos. Seus discos não deixaram de ser lançados nos EUA, pelo Blue Note e Prestige, e na Europa, lançou vários no selo Steeple Chase.
Os veteranos Ben Webster e Coleman Hawkins ainda estavam ativos e, apesar de não estarem mais no auge, mandavam muito bem. São clássicos os álbuns que gravaram juntos pelo selo Verve: “Ben Webster Encounters Coleman Hawkins” (1959) e “Ben Webster and Associates” (1961), Afinal, os dois e mais Lester Young, foram o trio de ouro da era do swing.
Na adolescência, Coltrane foi o rei para mim. Ao ouvir Webster em “Art Tatum & Ben Webster – The Tatum Group Masterpieces”, este passou a ser o meu ídolo no sax, com seu sopro cheio, terno e romântico na medida. Hawkins veio depois, junto com a descoberta dos discos de Lester Young com Oscar Peterson e Teddy Wilson. E como uma coisa leva à outra, percebi que aquele sax sublime e discreto dos velhos álbuns de Billie Holiday pela Columbia era dele.
Mal chegado à maioridade, descubro Dexter Gordon. Se não me engano, um dos LPs dele saiu em edição nacional, pela CBS, acho que “Sophisticated Giant” (1977). Nesse disco, toca com uma banda de onze elementos, em que se destacavam Slide Hampton, trombonista e autor dos arranjos, Bobby Hutcherson no vibrafone, George Cables ao piano, Frank Wess no alto e flauta, Howard Johnson na tuba e sax barítono e Benny Bailey e Woody Shaw no trompete e flugelhorn. A música, para mim, chegou em outro nível, superior, que, a partir daí, seria o meu parâmetro do que era a boa música. Claro que há um exagero nessa afirmação, mas para um jovem, uma paixão anula a outra. Com o tempo, aprendemos a balancear nossos ímpetos exacerbados.
Sob o regime austero das mesadas, em uma viagem ao Rio de Janeiro para assistir ao Rio Monterrey Jazz Festival, em que as atrações eram Pat Metheny, McCoyTyner e Weather Report, comprei dois discos importados que até hoje são simbólicos para mim: “Manhattan Symphonie” (1978) e “Grazing Dreams” (1977), de Collin Walcott, percussionista e citarista do Oregon. Nesse período, todo o meu dinheiro, em vez de hambúgueres e milk shapes, eram revertidos em discos, e posso dizer que tinha uma pequena coleção de respeito, com Art Tatum, Duke Ellington, John McLaughlin, Miles Davis, Weather Report, Pat Metheny, Soft Machine, Oregon, Ben Webster, Coleman Hawkins, Billie Holiday e outros inclusos.
A volta
O ano de 1976 foi um grande ano. Apresentava-se depois de muito tempo em Nova York. Foi no Village Vanguard, com Woody Shaw, Ronnie Mathews, Stafford James e Louis Hayes. Gordon tinha se tornado um “forgotten man” para as audiências americanas. Seu reencontro com a América resultou no álbum duplo “Homecoming - Live at The Village Vanguard” (CBS, 1977). Os americanos o redescobriram e nós brasileiros, descobrimos, pois era, praticamente, um desconhecido e um “hidden treasure” dos fãs mais fanáticos do jazz.
Depois de “Homecoming”, com um bom orçamento disponibilizado pela Columbia, produzido por Michael Cuscuna, ensaiaram por quatro dias e gravaram em dois. “Sophisticated Giant” é uma obra-prima sob vários aspectos. Gordon estava no auge, não só no sax tenor, como no soprano, na brilhante “How Insensitive”, de Antônio Carlos Jobim, nos arranjos de Slide Hampton são um primor de sofisticação e energia, com uma banda de onze músicos. É difícil destacar-se o que é melhor, pois é um álbum inteiro. Aliás, convém prestar atenção nos arranjos. Os inícios de “Laura” e “The Moontrane”, de Woody Shaw, são espetaculares. O solo de Gordon, em “Laura”, meio arrastado é um primor. Emociona. Outro arranjo espetacular é o “Fried Banana”. O standard “You’re Blasé”, de Ord Hamilton, é especial também. O americano foi um grande intérprete de baladas, com seu sopro robusto, arrastado, entremeando cacos de outros standards em solos longos e belos.
Em 1978, com formação mais clássica, um quarteto composto por George Cables, Rufus Reid e Rufus Reid, sob produção do mesmo Cuscuna, lançou “Manhattan Symphonie”. Menos ambicioso que o anterior, a tônica está em bem interpretar. É outro álbum excepcional, abrindo com pompa interpretando o clássico “As Time Goes By”, em ritmo lento, explorando cada nota. Presta reverência à John Coltrane em “Moments Notice” em andamento rápido. As restantes são “Tanya”, “Body and Soul” e “LTD”. O grande momento é tocando o clássico de Johny Green. O final é espetacular, de tirar o fôlego.
Ainda, comemorando a “homecoming”, a Columbia registoru em álbum duplo a apresentação do saxofonista na casa de espetáculos mais tradicional de Nova York, em “Live at Carnegie Hall” (1978). É com o mesmo quarteto do anterior, com a participação especial de Johnny Griffin, rememorando as antigas “sax battles” dele com Wardell Gray. Foi o encontro de gigantes: do “Little Giant”, como ficou conhecido o baixinho Griffin, e o verdadeiro gigante, tanto no talento e no tamanho, com quase dois metros de altura.
Ouça uma seleção que fiz de Dexter Gordon.
