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quinta-feira, 28 de março de 2019

Violinistas mulheres e Bach

Bem, não posso dizer com muita propriedade que, antigamente, os principais violinistas eram homens. É meio chute. Creio que o mais conhecido no século passado foi Jascha Heifetz, assim como, David Oistrakh, Nathan Milstein e, talvez, Isaac Stern e Arthur Grumiaux. Em termos de fama, devemos citar Yehudi Menuhin, muito popular, por seu carisma e por suas aparições em programas de TV. De uma geração posterior, Gidon Kremer e Itzhak Perlman.

Um destaque, entre mulheres, uma das pioneiras foi Sarah Chang, considerada menina prodígio. Pouco se fala dela, hoje. A primeira, realmente, a ser considerada um fenômeno foi Anne-Sophie Mutter. Tinha 13 anos, quando Herbert von Karajan convidou-a para fazer parte da Filarmônica de Berlim. Foi assunto até em veículos não especializados em música clássica. Muitos membros da orquestra não gostaram nem um pouco. Mas o “kaiser” Karajan, ex-membro do Partido Nazista nos tempos de Hitler, fez valer sua autoridade. Por bem ou por mal, o maestro sabia o que estava fazendo. Logo, Mutter , por seu talento, calou a boca de seus detratores e firmou-se como uma das estrelas da música erudita. Inaugurou, de certo modo, a era dos astros desse gênero, como estratégia de mercado: intérpretes estrelas, aliando talento e beleza física. Mutter tocava maravilhosamente, com vestidos confeccionados especialmente para ela por casas como a Dior,

A alemã abriu um enorme caminho em um terreno antes dominado por músicos do sexo masculino. Era a vez delas, começando por Viktoria Mullova, pouco mais velha que Mutter. De curioso, sobre Mullova, nascida em 1958, é a de que despontou ainda no período em que o regime soviético “protegia” muito seus talentos. Em excursão na Finlândia, fugiu espetacularmente para o Ocidente. Sua vontade de fugir da ditadura comunista era tão grande que deixou o Stradivarius, que o regime colocou à sua disposição, no hotel. 

Hilary Hahn, uma das grandes violinistas atuais
Vieram outras depois: Hilary Hahn, Julia Fischer, Nicola Benedetti, Rachel Podger, Isabelle Faust e Amandine Beyer. Os homens ficaram em minoria. Os melhores, como Maxim Vengerov e Gil Shaham, foram eclipsados pela nova “big wave”.

Bach, sempre Bach
Na última semana, fiquei a ouvir obsessivamente as “Partitas” e “Sonatas”, os “Concertos para Violino” e as “Sonatas para violino e cravo (ou piano)”,  de Johann Sebastian Bach. Coincidiu com seu aniversário. Bach, acima de tudo e de todos. É o maior compositor de todos os tempos, na minha opinião.

Começou assim: ao ouvir pela primeira vez as “Sonatas e Partitas”, com Amandine Beyer, resolvi fuçar na minha discoteca à procura das mesmas peças com outros intérpretes. Uma coincidência: das mais recentes, todas são do sexo feminino. Além da francesa, ouvi várias com o violino, solos, duos e concertos com Isabelle Faust, Rachel Podger e Hilary Hahn. Não tenho conhecimento suficiente para dizer qual delas é a melhor tocando Bach. Sei que acho todas de primeiríssimo nível. Vale a pena ouvir qualquer uma delas.

Veja Beyer tocando a “Partita BWV 1002 – Allemande”.




Ouça, da mesma “Partita”, o quarto movimento.




Uma das violinistas mais impressionantes da atualidade é Hilary Hahn. Veja-a a tocar a mesma peça.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Surpresa dupla com Avi Avital

Um bom programa para amanhã, 10 de junho, é a apresentação de Avi Avital, na Sala São Paulo. É parte da programação da Série TUCCA de Concertos Internacionais. Esta entidade existe há 15 anos e dedica-se à pesquisa e à assistência de crianças e adolescentes carentes com câncer.

Fora o belo trabalho que desenvolvem, essa associação é responsável por um dos melhores programas de concerto do Brasil, mais interessantes até do que o da Osesp, por ter um foco também em outros gêneros, além da música erudita. Para se ter uma ideia, depois de Avi Avital, estão programadas apresentações de Miloš Karadaglić (9 de setembro), um dos melhores violonistas da atualidade, Alice Sarah Ott e Francesco Tristano (14 de outubro), pianistas que acabam de lançar o belo Scandale (Deutsche Grammophon, 2014), e, em 11 de novembro, a do quarteto de Gerald Clayton, com Cyrille Aimée e Sachal Vasandani, dois cantores “rising stars”.

É evidente que o foco dos programadores da série da TUCCA é outro, pois o da Osesp é mais específico. Essa liberdade propicia ao público conhecer novos nomes. Avital, Karadaglić, Ott e Tristano não são estranhos àqueles que acompanham a música clássica, pois são contratados de Deutsche Grammophon, que há muito vem apostando em repertórios mais ecléticos, misturando o popular com o erudito.


Avi Avital  O mandolin – ou bandolim, como é conhecido no Brasil – surgiu por volta de 1750 e, apesar de razoavelmente popular, nunca foi muito utilizado na música erudita. Do pouco que se conhece, a obra mais conhecida que o utiliza, é o Concerto de Mandolin, RV 425, de Antonio Vivaldi. Conforme publicações especializadas, foi usado também, nunca como solista, por Beethoven, Mahler, Schoenberg e Mozart. Na conhecida Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler, o bandolim é utilizado brevemente.

Na esfera do popular, ele e suas variantes, como o banjo e o mandolim elétrico, são populares nas músicas country e folk americanas e acredito que também na Europa Central. No Brasil é o instrumento muito usado no choro. Cooperaram para a sua popularidade Jacob do Bandolim, Joel Nascimento e Déo Rian. Dentre os atuais, o grande nome é Hamilton de Holanda. É um dos músicos brasileiros com maior prestígio internacional atualmente. O Que Será?, com o italiano Stefano Bollani, lançado pela ECM, mereceu elogios empolgados tanto dos críticos como do público apreciador da música instrumental. (leia e ouça em http://bit.ly/1MgoefE)

O israelense Avi Avital, nascido em Beersheba, cidade do sul do país, começou a tocar o bandolim com sete anos e logo foi estudar em Jerusalém e depois, em Pádua, escolha lógica, pois a Itália é o berço desse instrumento. Em razão de poucas peças compostas para ele, seus estudos voltaram-se às transcrições, principalmente de obras para o violino.

Seu primeiro álbum lançado pela Deutsche Grammophon, intitulado, simplesmente, Bach, é composto por três concertos e duas sonatas do alemão. São transcrições muito interessantes e perfeitamente adaptadas ao bandolim. Ouça o Concerto BWV 1052R.





Veja Avital executando o Primeiro Movimento da Cello Suite nº1. Acho que não há nenhum registro em disco dessa peça.




Ano passado, Avital lançou o álbum Vivaldi, dedicado ao veneziano, compositor das peças mais conhecidas da música clássica e também autor de uma das poucas para o bandolim, o Concerto em Dó maior, RV 425. E nada melhor do que ser acompanhado pela Venice Baroque Orchestra ao homenagear o “il prete rosso”.

Pode-se dizer que Avi é uma estrela, guardando-se as proporções e não se comparando aos ídolos do rock. É jovem, carismático e transita pelo crossover, algo entre o clássico e o pop. Ser indicado ao Grammy atesta o quanto é conhecido. Ser popular tocando música erudita significa que você está no nível de um André Rieu? Errado. Em muitos casos, o aumento da popularidade está relacionada a um empobrecimento musical. Mas não é esse o caso, nem de Avi, nem de outros como Daniel Hope. O perigo, no entanto, pode estar próximo.

Veja Avi com a Venice Baroque Orchestra no Concerto para Bandolim.




Um destaque, devido a sua popularidade, é Quatro Estações. Ouça um dos movimentos de Verão.




Pelo mundo  O álbum mais interessante, no entanto, considerando-se que a seara de Avital é o crossover, até por conta de o bandolim não ser um instrumento de concerto muito utilizado, é Between Worlds (DG, 2014). Ele explora o repertório erudito, tocando composições de Manuel De Falla, Vittorio Monti, Heitor Villa-Lobos e Béla Bartók. Mais interessante, no aspecto “world”, são as execuções de composições da Geórgia, Bulgária, não deixando de incluir uma composição de sua conterrânea Ora Bat Chaim. Dos “exemplares” étnicos, uma bem interessante é a búlgara Bučimiš.





Avital fala sobre Czárdás, de Vittorio Monti, que é executada com Richard Galliano.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Variações das Variações Goldberg

Catrin Finch e a harpa
As Variações poderiam ser chamadas simplesmente assim. O complemento “Goldberg” é por conta do cravista que a executava para o conde Hermann Karl von Keyserling: Johann Goottlieb Goldberg. Há controvérsias, entretanto. Se 1741 é considerado o ano que fora composta, Goldberg teria nessa época, 14 anos. A história que corre é a de que o conde Keyserling vivia doente e passava as noites insones. Encomendou então a Johann Sebastian Bach uma peça que pudesse ouvir durante as noites em claro – não sei se é exatamente a expressão se anterior à invenção da eletricidade – e conseguisse aplacar suas dores. Pensando bem, parece um tanto fantasiosa, mas como está foi dito em O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962), filme de John Ford: “Quando a lenda torna-se fato, que fique a lenda.”

O que é lenda? Ao contrário do que se propaga, a frase não é de A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951). Impressionante como a internet pode servir para a desseminação de informações equivocadas. A confusão pode ocorrer, pois no filme de Billy Wilder, o protagonista é um jornalista inescrupuloso, vivido por KirkDouglas. Em O Homem Que Matou o Facínora, Ransom Stoddard (James Stewart) muda-se para uma pequena cidade do oeste americano. No caminho, sua carruagem é assaltada pelo gangue de Liberty Valance (Lee Marvin), o bandido mais temido da região e é severamente espancado. Depois que chega à cidade, é humilhado novamente por Liberty, mas este é rechaçado por Tom Doniphon (John Wayne).

Os dois ficam amigos e apaixonam-se pela mesma mulher: Hallie (Vera Miles). Quando descobre que Tom é analfabeto, dispõe-se a ensiná-lo a ler e escrever. Tom, por sua vez, ensina Ransom a usar uma arma de fogo, depois de receber um conselho dele. “Você tem duas saídas: ou vai embora da cidade ou aprende a atirar.” É mais ou menos o que Tom diz a Ransom. Para encurtar, Stoddard desafia Valance para um duelo. O lógico seria de que o jovem advogado vindo da “civilização” levasse a pior. Pois acontece o contrário.

Muito tempo depois, Ransom não mora mais em Shinbone, está casado com Hallie e é senador. Está de volta a Shinbone para o enterro de Tom. O político confessa a um jornalista que está presente que o homem que “matou o facínora” não fora ele, e sim Doniphon, que ficara escondido sabendo que o amigo não era páreo para Valance. Depois de contar a história, pergunta: “Você não vai usar essa história, sr. Scott?” Este responde: “Não senhor. Isso aqui é o Oeste. Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda.” Bom, seria interessante que esse equívoco fosse corrigido.

As variações. Verdade ou não, fantasiosa ou não, certo é que é uma das obras-primas da música e peça obrigatória de qualquer pianista ou cravista. Para o instrumento para o qual foi composto, as interpretações consagradas são a de Wanda Landowska e a de Gustav Leonhardt. Das mais recentes, uma bem interessante é a de Andreas Staier, de 2010, lançada pela Harmonia Mundi. Há outras ótimas, como a de Christophe Rousset e Kenneth Gilbert.

Ouça as Variações, com Gustav Leonhardt, ao cravo.




A potência sonora do pianoforte e depois a do piano moderno substituiu o cravo para a maioria das obras de teclado de Bach, com exceção das compostas para o órgão. Há centenas de registros ótimos. É até difícil dizer qual é a melhor. Tempos atrás, qualquer gravação de Glenn Gould de Bach era considerada definitiva pela maioria dos críticos. Os que não gostavam, odiavam os maneirismos do canadense excêntrico, que sempre levava para as suas apresentações e gravações a cadeirinha construída por seu pai quando era criança. Depois que morreu precocemente, com 50 anos, a aura de gênio empalideceu. As Variações Goldberg ocupam lugar especial no currículo de Gould. O registro de 1955 foi a sua estreia pelo selo Columbia. Em 1981, voltou a gravar a mesma obra, completamente diferente da primeira. Esta, gravada analogamente (Gould tinha paixão pelas tecnologias de gravação em estúdio), tinha a duração de 38m26s, enquanto a última, registrada digitalmente,  51m14s. Em 1982, morreu.

Assista ao vídeo com Glenn Gould interpretando as Variações, na versão de 1981.



Uma das minhas favoritas é a de András Schiff. Aliás, é um dos meus preferidos tocando qualquer coisa.



Outras Variações. Há tempos conheci duas versões diferentes. Uma delas é para trio de cordas, com Julian Rachlin (violino), Nobuko Imai (viola) e Mischa Maisky (violoncelo). A transcrição é de autoria de Dmitry Sitkovetsky, em 1984. Ouça.




Foi lançado em 2009 um disco interessante: uma transcrição para a harpa, de Catrin Finch, pela Deutsche Grammophon.

Veja Catrin Finch na harpa executando a Aria das Variações.




No mesmo ano foi lançado pela Lontano (Warner), com o harpista Sylvain Blessel. Assista a alguns trechos aqui. Andrew Clements, do The Guardian, considera-a a melhor dentre as duas. A de Sylvain não é uma transcri(a)ção, como a de Finch. As reservas de Clements são quanto às “liberalidades” e “efeitos de harpa pelos dedos de Finch”.
















terça-feira, 8 de julho de 2014

O meu primeiro Bach

Johann Sebastian Bach. O maior?
Há muito tempo, e, bote-se tempo aí, dois órgãos de tubo encontravam-se em bom estado de conservação em São Paulo: o do Theatro Municipal e o da Igreja de São Bento. Há muito tempo não vou à Igreja. A do Municipal, com seus belos e vistosos tubos tornaram-se parte da decoração do Theatro. Certo que a sua conservação é cara, mas é uma pena.

Na época em que cursava o ginásio, que hoje corresponde ao segundo grau, fiquei amigo do Domingos DArsie. Natural que adolescentes gostem de rock’n’roll, mais especificamente, naquele tempo, de Led Zeppelin, King Crimson, Black Sabbath e outros menos votados. Ele, no entanto, gostava de música erudita e, principalmente, Bach. Aliás, amava. E odiava rock. Nós, seus amigos não podíamos nos conformar de que não gostasse. E nem achávamos que fosse “metideza”, arrogância ou qualquer outra atitude de superioridade. Bem, pensando bem, nem tanto. Estudantes de uma escola pública, ninguém tinha uma calça Lee. Ele era o único, na classe, o que lhe proporcionava um status diferente de nós pobres filhos da classe média. Explicação: o maior objeto de desejo de consumo era a tal da calça Lee, concorrente da Levis’ no EUA, de importação proibida. As calças em azul índigo, hoje, podem ser compradas por 15 reais no Largo 13 ou na rua 25 de Março, em São Paulo, mas não eram fabricadas no Brasil e podiam ser adquiridas apenas por contrabando e por preços exorbitantes. O produto mais parecido era uma da marca Topeka, azul, bem escura mas que não desbotavam como as ‘indigo blue”. Eram chamadas de calça rancheira. Quanto ao seu gosto “superior”, isso não era problema. Achávamos apenas que era um cara meio esquisito.

Esquisito por esquisito, o negócio é que acabei entrando de gaiato nesse seu gosto. Era fanático pela música do alemão e, especialmente por sua obra para o órgão. O acesso à música erudita nunca foi barato. É como a história de quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? É caro porque é consumido por um público restrito ou é restrito porque é caro? Para membros da desassistida patuleia, como eu e o Domingos, existiam os tais concertos matinais, que aconteciam nas manhãs de domingo. Eram as nossas oportunidades de ouvir música por preços módicos. Em várias ocasiões a programação incluía recitais de órgão pelo único virtuose nesse instrumento no Brasil: Angelo Camin. Tivemos também a oportunidade de ver uma apresentação de Karl Richter, um dos maiores organistas da época, tocando Bach, mas dessa vez, tivemos de pagar uma “fortuna” para vê-lo do poleiro, como chamávamos o setor do anfiteatro, pertinho do teto, de onde, a partir da segunda fila não se via nada.

A razão do gosto pela música clássica de Domingos vinha do fato de que estudava piano no Conservatório Musical Brooklin. Seu diretor à época, Sígrido Levental, considerava-o promissor. Mas havia um problema: não gostava de tocar em público. Sempre arrumava um pretexto para não tocar em audições do Conservatório. Mesmo quando pedíamos para tocar, recusava-se. Um bom jeito de ouvi-lo era ficar na porta de sua casa enquanto ensaiava. Se apertássemos a campainha, fim da música. Foi desse modo que tive a oportunidade de escutá-lo tocando em várias oportunidades, geralmente, Johann Sebastian Bach. O que mais gostava de tocar era a Tocata e Fuga em ré menor, BWV 565. É uma obra escrita para o órgão. Como é um instrumento mais comum em igrejas e menos em salas de concerto em razão dos custos, dimensões e manutenção, não é muito executada em seu formato original.

A “forçada” do amigo funcionou. Bach foi minha “iniciação” na música erudita. Não deixei de gostar de Led Zeppelin, mas passei a explorar a obra do alemão e de compositores mais modernos, como Debussy, Ravel e Stravinsky. Daí a gente descobre que a fama de Beethoven, Brahms, Schubert e Mozart não é gratuita. É uma desinformação absurda ouvir alguém dizer que Brahms é chato ou careta. Dizer de quem compôs o Réquiem Alemão ou as quatro sinfonias e peças geniais de música de câmara?

Vamos voltar a Tocata e Fuga em ré menor. A humanidade deve conhecê-la, mas é sempre um prazer ouvi-la. A primeira, no original, é interpretada pelo maestro e organista que vimos no Theatro Municipal: Karl Richter.



Dentre as transcrições, existem duas diferentes (são as que conheço): a dos maestros Leopold Stokowski e a de Stanislaw Skrowaczewski. A primeira é a mais conhecida pois foi utilizada em Fantasia, filme de Walt Disney, que contribuiu para a divulgação da música erudita.

terça-feira, 20 de maio de 2014

As Quatro Estações, recompostas por Max Richter

André de Ridder, Richter e Daniel Hope, unidos por Vivaldi
É quase impensável imaginar Johann Sebastian Bach esquecido ou Antonio Vivaldi, autor de uma das obras mais conhecidas da música erudita, ter, em vida, passado por dificuldades financeiras em virtude de não ter mais sua obra apreciada pelo público contemporâneo. Um dos responsáveis de tirar o alemão do ocaso foi outro compositor: Felix Mendelssohn.

Vivaldi, deprimido e endividado, nunca imaginaria que suas peças tornariam-se tão populares e por tanto tempo. Se royalties pudessem ser enviados post mortem e usufruídos no paraíso ou no inferno, ótimo. O fato de ter sido padre, certamente, não deve ter sido garantia para a abertura das portas do céu.

O fato de Max Richter ter menos de 50 anos é uma boa pista para o tipo de música que compõe. Percebem-se influências dos mais velhos minimalistas como Philip Glass e Steve Reich e neoclássicos como Arvo Pärt e até da “ambient music” de Brian Eno.

A releitura que faz das Quatro Estações no álbum intitulado Recomposed by Max Richter, lançado em abril pelo selo Deutsche Grammophon é Vivaldi que passou por esses compositores incorporando elementos da linguagem tonal contemporânea.

O compositor. O nome de Max Richter pode não ser muito conhecido, até pelo público amante da música erudita. É, no entanto, autor de trilhas de filmes visto por milhares de pessoas, como Valsa para Bashir, de Ari Folman, e A Chave de Sarah, de Gilles Paquet-Brenner. Tendo como referência dois álbuns de Richter lançados pela Deutsche Grammophon – Songs from Before (2006) e 24 Postcards in Full Colour (2008) –, percebe-se a sua preferência por sons climáticos, bem apropriados para o cinema. As Quatro Estações não foram compostas para algum filme, evidentemente, mas funcionam muito bem para esse propósito. Essa é uma das razões do tremendo acerto na “recomposição” empreendida por Max Richter. Um dos destaques é Summer 3 pela energia e maestria do violinista Daniel Hope.

Confira.




Veja a íntegra de Vivaldi Recomposed by Max Richter, com o próprio nos teclados eletrônicos, Daniel Hope e orquestra.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O óbvio e belo Bach de Richard Galliano

Em alguns almoços domingueiros da minha infância na cidade de Passos, Minas Gerais, uma senhora um tanto gorda pegava seu acordeon e ficava tocando após as refeições. Uma coisa ficou marcada: era um instrumento para pessoas de grande porte.

Quando assisti a um filme de Federico Fellini – não lembro qual foi – uma cena trouxe-me à lembrança a senhora do acordeon. No dia em que peguei um na mão na casa de um amigo de ginásio, percebi que era pesado mesmo. Não era preciso ser grande para tocá-lo, mas era necessário físico para aguentá-lo por um período grande de tempo pendurado por duas alças presas aos ombros.

Não é o instrumento mais popular no jazz, mas alguns nomes se destacam. Um deles é Joe Mooney, organista e acordeonista muito admirado por aqueles que gostavam de seu jeito relaxado de cantar e tocar. Você o conhece? Se não, dê uma espiada em http://bit.ly/1ld4MFp. Mais conhecido que ele deve ter sido Art van Damme.

Em compensação, no Brasil é um instrumento popular, com bons acordeonistas, ou sanfoneiros, como gostamos de chamá-los, na música instrumental como na cantada. O maior nome, sem dúvida, é Luiz Gonzaga. O mais conhecido fora daqui foi Sivuca. Outro albino manda bem no acordeon: Hermeto Pascoal. Os outros são Dominguinhos, Toninho Ferragutti e Oswaldinho do Acordeon.

Os maiores destaques internacionais são o italiano Gianni Coscia, parceiro musical frequente de Gianluigi Trovesi, e o francês de descendência italiana, Richard Galliano, o mais conhecido. O que ele toca não pode ser chamado especificamente de jazz. Cabe melhor o termo música instrumental, apesar de ter participado de gravações com Gary Burton, Paolo Fresu, Jan Lundgren, Michel Portal, Eddy Louiss e Ron Carter. Nos últimos anos, enveredou por um gênero híbrido, entre o erudito e o popular gravando discos com a obra de Vivaldi e Bach, para a Deutsche Grammophon. Abstraindo-se de que é uma das formas de se ampliar o espectro do erudito, coisa que a gravadora alemã tem feito com Elvis Costello, Sting e outros nomes conhecidos, o que se pode dizer é que alguns produtos são bem interessantes. Os de Galliano entram nessa classificação. Hoje, especificamente, trato de Galliano Bach (DG 2010).

Algumas obras de Johann Sebastian Bach são bem conhecidas até pelo leigo em música erudita. Afinal, tanto ele como a Deutsche querem vender. A vantagem é que almejam isso apresentando-nos música de qualidade. A primeira faixa é Badinerie, da Suite Orquestral no.2. Brilhante abertura.

Ouça.





Outra obra conhecidíssima de Bach é a Ária da Suíte em Ré, da Suite Orquestral no.3. Ouça.




Garanto que você conhece. E também essa: Largo, do Concerto para Cravo e Cordas, BWV 1056. Ouça.





Para arrematar, o Prelúdio da 1a. Suite de Violoncelo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Hélène Grimaud, o “Cravo Bem Temperado”, de Bach, e suas várias interpretações

Hélène Grimaud
Duas matérias recentes em O Estado de S.Paulo sobre Hélène Grimaud, por conta de apresentação na Sala São Paulo, em maio, trazem referência aos animais. O título de matéria/entrevista de João Luiz Sampaio (9/5/2013) é “Dança com lobos”. Grimaud, além de pianista, tem dois livros publicados e criou e cuida de uma fundação dedicada à preservação de lobos. Em outra, João Marcos Coelho (11/5/2013) inicia o texto da seguinte forma: “Além da beleza felina, a francesa Hélène Grimaud é uma pianista excepcional, que faz do palco a arena de saltos mortais sem rede.” Sendo mais direto, é uma gata, se bem que essa é uma expressão que está caindo em desuso.

A beleza é a primeira qualidade referida. Os versos iniciais de Retrato de mulher – “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental. É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” –, de Vinícius de Moraes, ditas e escritas de memória e ouvidas de outrem foram aliteradas e pouco distorcidas. No final, querem dizer a mesma coisa. Se beleza não é fundamental, pelo menos, ajuda, independente de gênero.

Hélène e os lobos
Mesmo em um mercado como o da música erudita, a beleza tem sido explorada. Vai longe o tempo de intérpretes geniais como Wanda Landowska, Ingrid Haebler, Birgitt Nilsson ou Montserrat Caballé, que não primavam pelos atributos físicos. Nem conta o fato de que Elisabeth Schwarzkopf, Martha Argerich e Kiri Te Kanawa fossem belas. É que tal predicado não era importante como chamariz para vender discos. O mundo sob a avalanche da exploração de celebridades e consumismos tornou-se mais frívolo. Intérpretes atuais como Anna Netrebko, Anne-Sofie Mutter, Anne Sophie Mutter, Sol Gabetta, Alison Balsom, e a própria Hélène Grimaud são talentosas e beleza entra como o chantilly do bolo.


Hélène Grimaud, Bach e uma comparação com outras interpretações
Num claro sinal de que estou ficando velho, tenho pouca curiosidade de conhecer novos intérpretes. Elegi meus preferidos e tendo a ouví-los ou sou obrigado em razão de tê-los disponíveis nas minhas prateleiras. Habitam-nas Sviatoslav Richter – falo de pianistas –, Glenn Gould, András Schiff, Willhem Kempff, Valdimir Ashkenazy, Walter Gieseking, Artur Schnabel, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich, Nelson Freire, Radu Lupu e alguns outros. Acho que os meus preferidos estão entre os citados. Por insistência de um amigo, ouvi Lang Lang. Muito bom. Não sei se compraria um CD dele. Meu senso crítico, em relação à música, é limitado: passando de bom, para mim é ótimo.

Dois intérpretes mais jovens (dos com menos de 60), entretanto, me impressionaram: Grimaud e Paul Lewis. Nunca imaginei que um dia pudesse ouvir um Schubert melhor do que o de Richter e Brendel. Enganei-me. E não é só Schubert. Lewis é magistral executando Beethoven. Um terceiro nome interessante é o de Yuja Wang. A pequena chinesa – de novo a referência à beleza – se apresenta com roupas bem ousadas, curtas e (ou) decotadas. Quando a vi, usava um longo preto com um corte lateral de deixar qualquer cristão perturbado. Até hoje fico a pensar de como consegue usar os pedais do piano com aqueles sapatos com salto 15.

Grimaud é uma mulher de atitude. Foi muito noticiado o entrevero que teve com o Claudio Abbado. Maestros são como imperadores – ou ditadores? Suas ordens devem ser obedecidas e, pronto. Abbado foi o escolhido para suceder o “kaiser” Herbert von Karajan na Filarmônica de Berlim. Ficou pouco em razão de ter tido um câncer no estômago. Alguns dizem que foi por culpa dos músicos.

Pela gravidade da doença, não se imaginava, mas voltou e tem gravado bastante e, atualmente está à frente da Orquestra Mozart, de Bolonha. A história com HG aconteceu na gravação do Concerto nº 23 para Piano e Orquestra, de Mozart. Grimaud queria tocar a cadenza de Busoni e Abbado preferia a de Mozart. É raro pianistas criarem suas próprias cadenzas. Poucos têm essa capacidade improvisativa, tão comum no jazz. A francesa não foge à regra.

Abbado concordou e a registrada foi a escolhida por Grimaud. Depois que a orquestra foi dispensada, este pediu que ela gravasse a de Mozart, separadamente. Quando a Deutsche Grammophon enviou a gravação para a aprovação de Hélène, esta percebeu que a cadenza que escolhera fora substituída. Nos bateres de pés, o disco não saiu: disse que a parte do solista quem decidia, por direito, era ela.

Pegou mal para Abbado. Manchou a reputação do defensor do meio ambiente, criador de uma orquestra de jovens da Europa e ainda, historicamente ligado ao Partido Comunista Italiano. Bom, mas Abbado, apesar da fama de democrático, agiu como muitos de seus pares. Músicos têm relação problemática com maestros. É só lembrar do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, ou até dos problemas enfrentados por Roberto Minczuk com membros da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.

A personalidade decidida de HG, de certo modo, se reproduz nos rubatos vigorosos de seu estilo de tocar. Impressiona a clareza de digitação, mesmo em andamentos rápidos. É uma coisa que fica muito evidente em sua interpretação do Prelúdio nº 2 do Cravo Bem Temperado, livro 1, que está no álbum Grimauld Plays Bach (DG, 2008).

Impressionado com o andamento rapidíssimo que imprime à peça. resolvi ouvir outras para comparar. Comecei pelo meu Cravo preferido (ela muda de tempos em tempos), que é o de Sviatoslav Richter. Para minha surpresa, a dele é tão rápida quanto. A próxima que ouvi foi a de Glenn Gould, meu intérprete preferido antes de conhecer a de Richter. É bem mais lenta e sincopada (devido à velocidade imprimida por Grimaud e Richter, os contrastes são menores). Conclusão: preciso voltar a ouvir o Cravo de Gould. Fala-se menos dele nos dias de hoje. Seus pontos de vista idiossincráticos resultaram em discussões apaixonadas. São conhecidas as polêmicas com o violinista Yehudi Menuhim e com o maestro e compositor Leonard Bernstein. Era um gênio e em relação à Bach é a referência. Suas gravações das Suítes Inglesas e Francesas são as melhores, na minha opinião.

Sempre em relação ao 2º Prelúdio e Fuga do Livro 1 de Bach, a de Edwin Fischer, de 1930 e tanto, é tão acelerada quanto a de Grimaud e de Richter. A diferença do tempo de gravação entre as três é de um segundo apenas, enquanto a de Gould a duração é de 4:08 minutos, e a de András Schiff, 3:36 minutos, e a do jazzista que se aventura no erudito Keith Jarrett, 3:18.

Para as comparações, ouça o Prelúdio tocado por Hélène Grimaud, e a seguir, a de Glenn Gould.


A de Grimaud.




A de Gould.




Veja HG interpretando o 4º Concerto para Piano e Orquestra, de Beethoven.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Por que gosto de András Schiff?

O húngaro András Schiff
O “por” e o “que” estão separados pela simples razão de que é uma indagação, e também porque não sei por que gosto tanto de András Schiff.

Contrariamente do que se imagina, entre os anos 1970 e 1990, na época dos LPs de vinil, muitos discos de música erudita dos principais selos – Deutsche Grammophon, London, Decca e Philips, que faziam parte de um mesmo grupo, e a CBS – foram prensados no Brasil. Mesmo assim, não lembro de algum de Schiff aqui lançado.

Nos tempos dos chamados “bolachões” – os LPs – era um martírio ouvir música erudita em equipamentos domésticos. A música “silenciosa” era invadida pelos sons de estática, poeira e riscos que as agulhas de diamante amplificavam de forma atroz. Era horrível um adágio ao piano “pipocado” de chiados. Apesar dos defensores da pureza do som dos aparelhos analógicos, a era do CD nos livrou desse martírio. Ainda no tempo do vinil, minhas primeiras aquisições de Johann Sebastian Bach para teclado foram as de Glenn Gould, lançadas no Brasil. Até aquele que, parcamente conhecia Bach, sabia que o canadense era “A” referência.

Do mesmo modo que Gould era idolatrado, possuía também seus detratores, em razão de seu modo idiossincrático de executar o grande compositor alemão. Gould era polêmico. Sentava-se ao piano em uma cadeirinha que fora feita por seu avô quando era ainda criança. Ficava com a cara no teclado. Tinha conceitos muito determinados quanto ao seu modo de tocar e chegou a polemizar com Yehudi Menuhin. Depois que deixou de se apresentar ao vivo, passou a defender ferrenhamente as gravações em estúdio. Morreu jovem, com apenas 50 anos. Isso reforçou a idolatria por ele. Discordando ou não de algumas coisas, era um gênio. Curiosamente, hoje, pouco se fala dele. Gould virou até personagem do belo O Náufrago, de Thomas Bernhard (Companhia das Letras).

Bach, no entanto, não era “propriedade exclusiva” do canadense. Por curiosidade e para verificar se Gould era tudo o que falavam, comprei discos com outras interpretações, isso já na era dos CDs. Na única vez em que fui ao Japão, passei mais tempo dentro das lojas de discos do que nas ruas. Isso foi em 1987, muito tempo atrás, portanto. Não havia lugar melhor para comprar discos que sequer tinham sido lançados na Europa ou nos EUA. Dentre as preciosidades encontradas, a melhor foi Chet Baker Sings, lançado originalmente em 1956, em LP (este causou furor; não lembro do tanto de cópias em fita cassete aue fiz para os amigos). A outra foi uma caixa de Billie Holiday, com todos os registros na Columbia (1933-1942), incluindo os alternate take. O box continha oito CDs, um encarte relacionando todas as gravações e músicos, e outro, com as letras de todas as músicas. No Brasil, essas gravações foram lançadas em CDs separados. Bem, no total, trouxe quase 100 CDs e acabei barrado na alfândega. Minha irmã, que tinha ido me pegar no aeroporto, preocupada com a demora, pediu que uma funcionária da Varig fosse averiguar o que acontecia. O fiscal me perguntou se eu era funcionário da Varig e, no susto, respondi, sim. Pediu-me que fechasse as malas, e assim me livrei dele… eu e os discos.

Dentre os cem CDs, comprei vários de música erudita que, dificilmente os encontraria no Brasil: as Seis Suites de Cello, de Bach, com Pablo Casals (depois, como o disco de Chet Baker, virou “carne-de-vaca”, encontrável em qualquer lojinha de esquina), a Paixão segundo São Mateus, com regência de Otto Klemperer, a obra completa para piano de Claude Debussy por Walter Gieseking, outras, de Mozart, com András Schiff. Pois, desse pianista, que nem ao menos conhecia, adquiri as Partitas, BWV 825-830 e o Cravo Bem Temperado completo, de Bach. Comprei-os tendo como referência a boa reputação da London Records em se tratando de música clássica.

Hoje, se tenho vontade de ouvir o Cravo Bem Temperado, pego a de Sviatoslav Richter ou a de Schiff. Gould é a minha terceira opção. Tenho também a de Edwin Fischer, o primeiro registro completo do Cravo em discos, em gravações feitas de 1933 a 36. Como Gould foi o meu preferido por um tempo, hoje, gosto mais das Seis Partitas do que do Cravo.
Tenho-as com András Schiff. Se me perguntam por que gosto tanto, não sei responder. Por que você gosta tanto mais de um do que do outro? É uma pergunta. Às vezes, é inexplicável, racionalmente. É como no amor.

Quando soube que ele ia se apresentar na Sala São Paulo, fiquei na expectativa. Infelizmente, nesses dias, fui viajar. Por enquanto, como consolo, posso ficar a ouvir um álbum duplo lançado pela ECM com algumas obras de Robert Schumann, comprado recentemente. Leio nos jornais – até os atrasados, que não li quando estava ausente – e as críticas me deixam arrependido por não tê-lo ouvido ao vivo. João Marcos Coelho, de O Estado de S. Paulo diz: “Desconfio que teremos de esperar vários anos até assistirmos a outra noite pianística tão excepcional (OESP, 30/8/2012). Compara- o ao pianista do momento: “A leitura de Schiff da sonata D. 960 [Franz Schubert] esteve a milhões de anos-luz do canhestro Lang Lang meses atrás no mesmo local.

Ouça a abertura da Partita nº 4, BWV 828. Se você der uma busca no YouTube, é possível encontrar vários trechos das Partitas com András Schiff.




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terça-feira, 15 de maio de 2012

Bach, dança e Dimos Goudaroulis – a segunda parte de LogosDiálogos

O que foi bom ficou melhor: essa é a melhor definição para a conclusão do espetáculo de dança com o violoncelista Dimos Goudaroulis. Como foi amplamente divulgado, por conta de um “acidente de trabalho”, o grego fraturou o pulso: durante os ensaios, caiu no fosso da orquestra. Felizmente, foi na mão direita e a previsão é de que logo poderá voltar a tocar. Na primeira parte da trilogia, no seu lugar, ficou só o violoncelo.

Para a minha surpresa, Dimos participou da segunda parte da trilogia final, que corresponde à 5ª Suíte de Cello, de Bach. Depois de visto é impossível imaginar como teria sido sem ele. Naturalmente, não toca, mas empunhando o cello, junto da gravação, percute as cordas com a mão esquerda, como se estivesse tocando. A 5ª é um solo de Ismael Ivo. A imagem inicial é impactante. Dimos se veste de preto, descalço, está sentado no meio do palco com o seu violoncelo. Ivo surge do alto, na vertical, de cabeça para baixo, e lentamente, vai descendo até o chão. Tudo se resume ao bailarino, Dimos e o violoncelo, e uma pequena banheira branca com rodinhas que contém líquido vermelho, cor de sangue.

A 4ª Suíte foi com o grupo Vórtice, com coreografia de Tíndaro Silvano. A última parte, apesar do estranhamento que causa – pelo menos para mim –, acostumado que estou executado por um violoncelo normal, quando ouço a 6ª executada por Dimos com um violoncelo piccolo de quatro cordas, acho um tanto estranho. Fora esse detalhe, perfeita a coreografia de Deborah Colker. É impactante a bailarina descendo em um tubo que parece feito em tule que, ao se revelar, está presa em duas tiras de tecido vermelho que se transformam em asas.

As fotos abaixo são de autoria de Sokratis Nikoglou.


Imagens da 4ª Suíte.











































Imagens da 5ª Suíte.











































A da 6ª Suíte.











































Veja um trecho da 6ª Suíte, com Mstislav Rostropovich, contida em DVD lançado pela EMI.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Bach e a dança, com Dimos Goudaroulis

Goudaroulis ensaia
Para a tão almejada paz de espírito há apenas uma solução. Acreditar em Deus ou em alguma outra divindade é um conforto. Se não “cura”, ouvir boa música, ler um bom livro, fazer ioga, ficar correndo cem vezes em volta do quarteirão, beber, cheirar ou fumar podem funcionar como espécies de paliativos.

Como na célebre música de Jards Macalé, Gal celebra: “Dessa janela sozinha/ Olhar a cidade me acalma/ Estrela vulgar a vagar/ Rio e também posso chorar/ E também posso chorar.” Rir ou chorar, os estados da alma se encaixam à força das circunstâncias. Percebi, faz tempo, que ouvir Johann Sebastian Bach, me acalma ou me transporta para algum lugar que me faz sentir em paz. Posso ter pegado um trânsito infernal, ter me aporrinhado com alguém no trabalho, se, chegando em casa, pulso a tecla 1 de um sofrível tocador de CD Philips (a única coisa boa dessa marca é o aparelho de barbear) que possuo logo no hall de entrada, sei que o dia horrível terá “desaparecido” às primeiras notas das Partitas, na versão que tenho, interpretada pelo húngaro András Schiff. Os CDs de mp3 do aparelho estão assim separados: música erudita (gaveta 1), jazz (2), rock (3), música erudita (4), e a quinta, vazia, no caso de me dar vontade de ouvir algum outro CD. Se pressiono a tecla 4, sei que ouvirei as Sonatas para Cello e Piano, de Brahms, tocadas por Mstislav Rostropovich e Rudolf Serkin. Decorei; não os troco faz tempo.

Por culpa do amigo da época de ginásio, o Domingos Darsie, fiquei viciado em Bach e não em drogas. Por mania, quando gosto de uma peça e é de música erudita, gosto de ter mais de uma interpretação. É o que acontece com algumas composições de Bach: Cravo Bem Temperado, Paixão Segundo São Mateus, Arte da Fuga, Variações Goldberg e as Seis Suítes de Cello. Do Cravo, tenho a de Glenn Gould, Edwin Fischer (a primeira integral gravada em disco), András Schiff, Sviatoslav Richter e Wanda Landowska, esta, no cravo mesmo. Por muito tempo, a de Gould foi a minha preferida. Hoje, gosto muito da de Richter.

As Suítes de Cello são emblemáticas. Antes de achar em CD a de Pablo Casals, no Japão (agora há em qualquer lugar e barato), possuía a de Yo-Yo Ma. Um amigo pedante gostava de dizer que era lixo; ele tinha o de Casals em LP. Não é o Domingos, não. Bom, era muita petulância dizer uma coisa dessas. Como sou um tanto compulsivo, hoje tenho as Suítes também com Mischa Maysky, Heinrich Schiff, Mstislav Rostropovich, Antonio Meneses e, desde a semana passada, com o grego radicado no Brasil, Dimos Goudaroulis. A de Casals é hors-councours, mas ouso dizer que, quando quero ouvi-las, pego a de Rostropovich.

Luiz Felipe d’Ávila teve a ideia de montar coreografias para as Suítes de Cello de Bach, sugestionado pelos nomes dos movimentos, invariavelmente seis, como courantes, allemandes e sarabandes. Encontrou como parceiro ideal Dimos, que se entusiamou pela ideia. Seis coreógrafos se envolveram no projeto: Jorge Garcia, Luis Arrieta, Henrique Rodovalho, Tíndaro Silvano, Ismael Ivo e Deborah Colker.

Decidiram dividir o programa em duas partes: as três primeiras suítes em 1º de maio e dia 2, e as três restantes nos dias 8 e 9 de maio, no Teatro Alfa. Dimos teria preferido que fossem as seis em uma apresentação única, mas por razões objetivas de duração, optaram por dividi-las assim. Aliás, o três é emblemático, segundo Goudaroulis, pelas palavras escritas por Irineu Franco Perpetuo no programa do espetáculo: “Goudaroulis enxerga símbolos e números ao longo das suítes, e essa simbologia ajudou a moldar sua visão unificada das peças. O seis e o três são números fundamentais dentro da concepção. Bach escreve seis suítes, com seis movimentos em cada uma. E o conjunto pode ser decomposto em duas partes, com três suítes cada”. No juízo de Goudaroulis, em pares, são irmãs: “A Suíte nº 1, em dó maior, e a Suíte nº 4, em mi bemol maior, seriam as suítes da luz, do brilho, da realeza. Se as trilogias pudessem ser reduzidas à Santíssima Trindade cristã, essas seriam as suítes do Pai. […] a Suíte nº 2, em ré menor, e a Suíte nº 5, em dó menor, são as suítes escuras, do sofrimento e da dor – as suítes do Filho, de Cristo e sua Paixão. Por fim, a Suíte nº 3, em dó maior, e a Suíte nº 6, em ré maior, são mais eloquentes, sonoras, de elevação – as Suítes do Espírito Santo.”

O amigo Matias José Ribeiro, responsável pela divulgação do espetáculo, com o seu Gabinete de Comunicação, havia me convidado para a estreia. Contou-me que havia acontecido um acidente: Dimas caiu no fosso da orquestra e fraturou o punho. Mesmo assim, foram mantidas as apresentações. Perdeu-se a interatividade pretendida pelo violoncelista com os bailarinos, mas essa é uma hipótese para quem não presenciou algum ensaio. É o meu caso. No lugar em que estaria, ficou apenas o instrumento. Como não sentimos falta do que não tivemos ou vimos, achei irrepreensível a apresentação. O destaque maior, na minha opinião, foi a da 2ª Suíte, com Luiz Arrieta e Ana Botafogo.

O ciclo das Suítes será concluído nas apresentações de hoje e amanhã. A 4ª Suíte será com o Grupo Vórtice, coreografia de Tíndaro Silvano, a 5ª é um solo de Ismael Ivo, e a 6ª é coreografada por Deborah Colker. O espetáculo promete.

As apresentações acontecem no Teatro Alfa (Rua Bento Branco de Andrade Filho 722, tel. 5693 4000), às 21h. Os preços: R$ 90 (plateia inferior), R& 60 (plateia superior)

Veja o promo de Logos-Diálogos.



Não cabe a primazia a Dimas Goudoroulis a ideia de aliar a dança às Suites de Cello, de Bach; na integral, sim. Além de trechos terem servido a um sem-número de coreografias, houve o projeto de Yo-Yo Ma – Inspired by Bach: Cello Suites – em adaptá-las para a dança e atuação. Veja o trecho da Sarabanda da 3ª Suíte. A coreografia é de Mark Morris.





Veja a 1ª Suíte de Cello, em sol maior, BWV 1007, com Mstislav Rostropovich. Esse trecho foi retirado de um DVD espetacular lançado pela EMI.