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| Catrin Finch e a harpa |
O que é lenda? Ao contrário do que se propaga, a frase não é de A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951). Impressionante como a internet pode servir para a desseminação de informações equivocadas. A confusão pode ocorrer, pois no filme de Billy Wilder, o protagonista é um jornalista inescrupuloso, vivido por KirkDouglas. Em O Homem Que Matou o Facínora, Ransom Stoddard (James Stewart) muda-se para uma pequena cidade do oeste americano. No caminho, sua carruagem é assaltada pelo gangue de Liberty Valance (Lee Marvin), o bandido mais temido da região e é severamente espancado. Depois que chega à cidade, é humilhado novamente por Liberty, mas este é rechaçado por Tom Doniphon (John Wayne).
Os dois ficam amigos e apaixonam-se pela mesma mulher: Hallie (Vera Miles). Quando descobre que Tom é analfabeto, dispõe-se a ensiná-lo a ler e escrever. Tom, por sua vez, ensina Ransom a usar uma arma de fogo, depois de receber um conselho dele. “Você tem duas saídas: ou vai embora da cidade ou aprende a atirar.” É mais ou menos o que Tom diz a Ransom. Para encurtar, Stoddard desafia Valance para um duelo. O lógico seria de que o jovem advogado vindo da “civilização” levasse a pior. Pois acontece o contrário.
Muito tempo depois, Ransom não mora mais em Shinbone, está casado com Hallie e é senador. Está de volta a Shinbone para o enterro de Tom. O político confessa a um jornalista que está presente que o homem que “matou o facínora” não fora ele, e sim Doniphon, que ficara escondido sabendo que o amigo não era páreo para Valance. Depois de contar a história, pergunta: “Você não vai usar essa história, sr. Scott?” Este responde: “Não senhor. Isso aqui é o Oeste. Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda.” Bom, seria interessante que esse equívoco fosse corrigido.
As variações. Verdade ou não, fantasiosa ou não, certo é que é uma das obras-primas da música e peça obrigatória de qualquer pianista ou cravista. Para o instrumento para o qual foi composto, as interpretações consagradas são a de Wanda Landowska e a de Gustav Leonhardt. Das mais recentes, uma bem interessante é a de Andreas Staier, de 2010, lançada pela Harmonia Mundi. Há outras ótimas, como a de Christophe Rousset e Kenneth Gilbert.
Ouça as Variações, com Gustav Leonhardt, ao cravo.
A potência sonora do pianoforte e depois a do piano moderno substituiu o cravo para a maioria das obras de teclado de Bach, com exceção das compostas para o órgão. Há centenas de registros ótimos. É até difícil dizer qual é a melhor. Tempos atrás, qualquer gravação de Glenn Gould de Bach era considerada definitiva pela maioria dos críticos. Os que não gostavam, odiavam os maneirismos do canadense excêntrico, que sempre levava para as suas apresentações e gravações a cadeirinha construída por seu pai quando era criança. Depois que morreu precocemente, com 50 anos, a aura de gênio empalideceu. As Variações Goldberg ocupam lugar especial no currículo de Gould. O registro de 1955 foi a sua estreia pelo selo Columbia. Em 1981, voltou a gravar a mesma obra, completamente diferente da primeira. Esta, gravada analogamente (Gould tinha paixão pelas tecnologias de gravação em estúdio), tinha a duração de 38m26s, enquanto a última, registrada digitalmente, 51m14s. Em 1982, morreu.
Assista ao vídeo com Glenn Gould interpretando as Variações, na versão de 1981.
Uma das minhas favoritas é a de András Schiff. Aliás, é um dos meus preferidos tocando qualquer coisa.
Outras Variações. Há tempos conheci duas versões diferentes. Uma delas é para trio de cordas, com Julian Rachlin (violino), Nobuko Imai (viola) e Mischa Maisky (violoncelo). A transcrição é de autoria de Dmitry Sitkovetsky, em 1984. Ouça.
Foi lançado em 2009 um disco interessante: uma transcrição para a harpa, de Catrin Finch, pela Deutsche Grammophon.
Veja Catrin Finch na harpa executando a Aria das Variações.
No mesmo ano foi lançado pela Lontano (Warner), com o harpista Sylvain Blessel. Assista a alguns trechos aqui. Andrew Clements, do The Guardian, considera-a a melhor dentre as duas. A de Sylvain não é uma transcri(a)ção, como a de Finch. As reservas de Clements são quanto às “liberalidades” e “efeitos de harpa pelos dedos de Finch”.

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