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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“All of Me”, do jeito que o capeta gosta

“All of Me” vira reggae, com Nnenna Freelon
Não sei precisar a data da canção considerada como primeiro standard do cancioneiro americano. Sei que “Alexander’s Ragtime Band”, primeiro hit de Irving Berlin, foi lançado em 1911. Nascido Israel Isidore Baline, na Rússia, quando emigrou para os Estados Unidos e foi morar em Nova York, nem tinha cinco anos, portanto, de sua terra natal não deve lembrar-se de nada. Teve apenas a herança da cultura da família de origem judaica.

Mais de um século depois, muitos dos standards que ouvimos e admiramos até hoje, são pouco mais novos que “Alexander’s Ragtime Band”. Aliás, Berlin é responsável por uma penca desses clássicos. Apenas para citar, são dele “Let’s Face the Music and Dance”, All By Myself”, “How Deep Is the Ocean”, “Puttin’ on the Ritz”, “Lazy”; “Isn’t This a Lovely Day”, Always”, “Remember”, “Change Partners” e “Cheek to Cheek”. E isso não representa nem 10% do que compôs. É um dos “great american composers”, no qual incluem-se Cole Porter, Richard Rodgers, George Gershwin e Duke Ellington. Outros, com menos clássicos no portfólio, como Burt Bacharach, Henry Mancini, Stephen Sondheim, não podem deixar de ser citados. Alguns são autores de um sucesso só e basta. Acho que é o caso de Gerald Marks e Seymour Simons, autores da belíssima “All of Me”, gravada pela primeira vez em 1939. Quem não conhece?

É tão popular que até mereceu uma versão em português, de autoria de Haroldo Barbosa, conhecida como “Disse Alguém”. Quem ouviu “Brasil” (WEA, 1981), álbum que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Gilberto, conhece.

Melodia simples e letra banal, foi cantada por todo mundo, incluindo Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, e até por Eric Clapton e Paul McCartney. Simplesmente, não há um grande intérprete que não a tenha cantado ou tocado.

Pressupondo que o mundo a conhece, vale a pena conhecer interpretações diferentes, como a com o balanço irresistível de João Donato.




E, por que não em ritmo de reggae, com Nenna Freelon? Não é, Xico Guedes




Ouça a versão em português com João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Trio genial.



Uma versão clássica é a de Dinah Washington. Esta é de uma apresentação no Festival de Newport, em 1958.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Clint Eastwood, o homem que veio do oeste

His name is Clint. Eastwood
Alguém se lembra de que Clint Eastwood foi prefeito de Carmel? Pelo partido republicano, o que nos faz pensar que, gostos musicais são apartidários. Ele ama o jazz, assim como adorava Eisenhower e, até o caso Watergate, apoiou Richard Nixon. Depois disso, suas posições se tornaram dúbias, defendendo causas que estariam mais associadas ao partido democrata.

Não assisti a nenhum dos Dirty Harry, da vida, dirigidos por seu parceiro de muitos filmes, Don Siegel. Não vi Por um Punhado de Dólares ou suas continuações por causa de Clint: vi porque o filme era de Sergio Leone, um dos meus diretores preferidos. Quem fez Era Uma Vez no Oeste não precisa fazer mais nada para ser considerado gênio. Digo tudo isso, porque, confesso, até um certo tempo, tinha preconceito em relação a Eastwood. E preconceito é uma m….! Porém comecei a “rever os meus conceitos” ao assistir Bird, dirigido por ele. Forrest Whitaker faz o papel do maior sax alto de todos os tempos, Charlie Parker. Só fui ver um outro de Clint muitos anos depois: Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) – grande filme –, e depois, Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), sensível leitura do amor da meia-idade.

No entanto, a razão desse texto não são seus filmes especificamente. São os soundtracks lançados por sua gravadora Malpaso. O álbum lançado em razão do filme Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997) contém verdadeiras preciosidades, a começar pela sempre competente k.d. lang cantando Skylark. A tia do ator George Clooney, Rosemary Clooney, cantora das “antigas”, contribui com Fools Rushes In. Temos belas interpretações de Cassandra Wilson (Days of Wine and Roses), Tonny Bennett (I Wanna Be Around), o basieano Joe Williams (Too Marvelous for Words), Diana Krall (Midnight Sun) e o “Barry White do jazz”, Kevin Mahogany (Laura). As faixas instrumentais também são de primeira: Dream, com o pianista Brad Mehldau e I’m an Old Cowhand, com o sax tenor Joshua Redman. Como curiosidades há um registro de Ac-cent-tchu-ate The Positive, cantado por Clint e That Old Black Magic, com o ator – e bom cantor – Kevin Spacey, protagonista do filme.

Melhor ainda são as músicas dos álbuns The Bridges of Madison County (1995) e seu apêndice, Remembering Madison County. São preciosidades como Dinah Washington cantando I’ll Close My Eyes, Easy Living e Blue Gardenia e Irene Kral, grande intérprete, morta prematuramente em razão de um câncer, cantando It’s a Wonderful World e This Is Always. O destaque dentre as instrumentais são as interpretações do pianista preferido de Miles Davis, Ahmad Jamal, com (Put Another Nickel in) Music! Music! Music! e o consagrado Poinciana. Porém o melhor são as canções interpretadas pela “voz de trovão’, Johnny Hartman. Aqui, Clint Eastwood cometeu um verdadeiro crime: detentor dos direitos de alguns registros da extinta gravadora BeeHive, picotou o genial LP – nunca saiu em CD – Once in Every Life. Nele tem uma versão maravilhosa de Wave, de Tom Jobim e um não menos brilhante Moonlight in Vermont.

Em 1996 aconteceu um concerto em homenagem a Clint Eastwood no Carnegie Hall, com vários músicos de primeira. Quem tiver interessse em assisti-lo, está disponível em DVD: Eastwood After Hours: Live at Carnegie Hall. Grande concerto e grandes músicos.

Ouça algumas preciosidades do gosto de Clint.
Kevin Spacey canta That Old Balck Magic.




Dinah Washington canta I’ll Close My Eyes.




Johnny Hartman
Ouça uma que não está no disco do John Coltrane e é o máximo: “Charade”.




Esse texto foi publicado, pela primeira vez, em 2011.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

John Cheever e Mad About the Boy quente e frio

John Cheever, autor de O Nadador
Agora há pouco tempo, a canadense Alice Munro recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Poucos apostavam no seu nome por ser contista, gênero, por muitos, considerado menor. A América do Norte possui um belo plantel de mestres da narrativa curta, como Sherwood Anderson, autor de “Winesburg, Ohio”, e John Cheever, autores que se destacaram retratando a vida americana.

Quando Munro foi agraciada com o Nobel, uma das definições mais comuns a surgir foi a de que era um “Tchekov de saias”. Parece que é uma forma fácil de definir contistas: John Cheever também foi comparado ao russo. Em comum entre a canadense e o americano é o objeto das suas narrativas. O mundo de Munro é o dos habitantes de pequenas cidades e as personagens retratadas são pessoas comuns. O incomum é uma certa pulsão sexual estranha e que chega a ser um tanto bizarra, como a do optometrista encontrado submerso dentro de seu carro em um lago, morto por ter assediado uma paciente.

O universo de Cheever é um tanto diferente do de Munro. O dele é o do morador dos subúrbios e, aparentemente, mais prósperos financeiramente: são em sua maioria, da classe média. Publicando por décadas na The New Yorker, encontrou seu público na revista por identificação socioeconômica. Na previsível e confortável vida desses americanos, em suas narrativas, com frequência, o leitor de depara com algo inusitado. Em “O Enorme Rádio”, o marido presenteia a mulher com um rádio que substitui o antigo que quebrara.

Irene ouvia um quinteto de Mozart. Percebeu um estalido e junto com a música, um som que parecia com o barulho das ondas. Outros ruídos se juntaram e ainda tentou acompanhar a melodia. Imaginou que poderia ser algum problema de estática, muito comuns antigamente. Percebeu um som que pareciam ser dos cabos do elevador, o das portas que se abriam e se fechavam, um barulho de uma aspirador de pó ligado, uma campainha de um telefone.

Um técnico foi verificar se o aparelho tinha algum problema. À noite, Jim Wescott chegou cansado do trabalho. Tomou um banho, trocou de roupa e se juntou a Irene. O rádio tocava um prelúdio de Chopin. Repentinamente é interrompido pela voz de um homem: “Meu Deus, Kathy, você sempre tem de tocar piano quando chego em casa?” A música parou e ouviu-se o bater de uma porta. Ambos ficaram intrigados achando que pudesse ser a transmissão de alguma novela. Girou o botão e ouviram outro diálogo, dessa vez de um casal se aprontando para sair. Irene reconhece uma voz. Era a da babá dos Sweeney, uma vizinha. Ouviu outras vozes e diálogos. O “enorme rádio” transmitia o que acontecia, em tempo real, no prédio. “Irene continuou a girar o botão e invadiu a privacidade de várias mesas durante o café da manhã. Ouviu demonstrações de indigestão, amor carnal, vaidade sem limite, fé e desespero. A vida de Irene era quase tão simples e protegida como parecia ser, e a linguagem direta e às vezes brutal que vinha do alto-falante naquela manhã a surpreendeu e perturbou.” (“28 Contos de John Cheever”. Trad. Jorio Dauster. Companhia das Letras, 2010)

Neddy Merrill é um sujeito, que não sendo tão jovem, mantém um físico esbelto. As pessoas ficam em volta da piscina e passam a tarde ensolarada de um domingo de verão bebendo e conversando. Ocorre-lhe de voltar a sua casa, a treze quilômetros de lá, nadando. Fazendo um percurso em L, pensou, “poderia chegar em casa por uma via aquática”. Passaria pelas residências dos “Graham, os Hammer, os Lear, os Howland e os Crosscup”, em primeiro lugar.

O enredo incomum virou filme. O nadador é Burt Lancaster. Dirigido por Frank Perry, foi lançado em 1968. O conto é de 1964. A história maluca de Neddy resolvendo voltar a nado para casa inspirou um dos melhores filmes de propaganda já feitos da Levis 501. Veja.




O tema musical escolhido foi “Mad About the Boy”, interpretada por Dinah Washington.
Lembraram-se que Dinah era o máximo e que a música composta por Noel Coward na década de 1930, século passado, portanto, também, era o máximo. Existem gravacões com Blossom Dearie, Julie London, Anita O’Day, cantoras nem um pouco obscuras, mas ficou a de Dinah. É a top of mind, o que não é pouco se às três citadas anteriormente, adicionarmos Carmen McRae, Helen Merrill, Jeri Southern e Dinah Shore. “Mad About the Boy”, com Washington é quente, vibrante, como quase tudo dela. Mas, noutro dia, ouvi essa canção na voz de uma inglesa, como Noel, mais “cool”, e achei o máximo. É o que compartilho aqui.

Mad About the Boy “fria”: Liane Carroll




Ouça outras interpretações clássicas.

Com Anita O’Day.




Uma antigona. Helen Forrest..




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dinah Washington, a Miss ‘D’

Retrato de Quincy Jones quando jovem
Depois que produziu Michael Jackson, Quincy Jones virou celebridade.

Jackson era um dos participantes do filme The Wiz (1978), fracasso comercial, produzido pela Motown Productions, braço da gravadora que alçou a música negra aos primeiros lugares das paradas musicais. Quincy participava do filme como arranjador e músico. Jackson pediu-lhe um nome para produzir seu disco. Nasceu assim a parceria. Jones disse mais ou menos assim: “Você está na frente dele”. Michael aceitou. Fizeram juntos Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Thriller vendeu 140 milhões de cópias.

Muitos desconheciam o passado glorioso de Jones como produtor de jazz. A partir de então, era “o cara”, parceiro de Jackson. Seu nome passou a estampar outras páginas, que não as das revistas especializadas de jazz. Casou-se com uma bela atriz: Nastassja Kinski. As “Caras” “da vida” estampavam o belo casal multi étnico. Quincy era um quase sessentão e Nastassja, uma bela moça balzaquiana (31, quando se casou com ele). Antes que falem alguma coisa, diga-se que Jones era ainda, como se dizia antigamente, um boa pinta. Mais novo, foi responsável pela surra que Miles Davis deu em sua então mulher, Frances. A razão, escreveu na autobiografia, foi a de que ela “deu bola” para Quincy. Davis, enciumado, justificou que a surra foi merecida.

Bem antes de Michael Jackson, Jones foi trompetista da banda de Lionel Hampton. Perceberam seus dons de arranjador e condutor. Trabalhou com Count Basie, Duke Ellington, Sarah Vaughan, Gene Kruppa e Dizzy Gillespie. Estudou composição com Nadia Boulanger (professora de Egberto Gismonti também) e Olivier Messiaen, um dos compositores mais importantes do século XX.. Tornou-se um dos músicos mais requisitados em Hollywood e dirigiu a Barclay, braço francês da Mercury Records. Desse jeito, tão ativo assim, nem é tão anormal que tenha sido produtor do disco mais vendido de todos os tempos e seja o responsável por We Are the World, projeto para angariar fundos para as vítimas da fome na Etiópia. Como uma coisa puxa outras, hoje, Jones é responsável por uma série de projetos de ajuda humanitária, tendo criado, inclusive, a Quincy Jones Listen Up Foundation.

Quincy Jones largou o trompete, e nos anos 1950 e 60 se transformara em requisitado arranjador e produtor. Dentre as mulheres, além de Sarah Vaughan, trabalhou com Ella Fitzgerald, Peggy Lee e Dinah Washington.

Bom, esse longo preâmbulo é para dizer que ando ouvindo The Swingin’ Miss ‘D’, de Dinah Washington, lançado em 1956. E adorando. Fora o trio imbatível Ella-Sarah-Billie, havia uma penca de boas cantoras. Dinah era uma delas. Vaidosa, com problemas para manter o peso e chegada a uma bebida alcoólica, a mistura com remédios de emagrecer não deu certo. Morreu com 39 anos, ao lado do sétimo marido. É isso mesmo: sétimo. Cantava muito e gostava de casar. Apesar dos milhões de fãs, seu prestígio não era tanto entre os críticos especializados, provavelmente, por gravar canções de estilos muito variados. Dinah nunca foi uma jazz singer qual Sarah e Ella. Se quisesse, no entanto, não iria fazer feio. Basta ouvir Dinah Jams, de 1954, ao lado de Clifford Brown, Clark Terry, Harold Land, Junior Mance, Richie Powell e Max Roach.

Em The Swingin’ Miss ‘D’, os arranjos e regência de Quincy Jones são vigorosos e combinam muito com o estilo “pra cima” de Washington, com uma orquestra na qual incluem-se Lucky Thompson, Jerome Richardson, Jimmy Cleveland, Urbie Green, Ernie Royal, Doc Severinsen, Charlie Shavers, Clark Terry, Ernie Wilkins e Benny Golson. Temos standards como Caravan, Makin’ Whoopee, Perdido, as “bluesy” I’ll Drown on My Tears (ficou mais conhecida com Ray Charles) e You Let Me Love Grow Cold, porém, Dinah se supera em baladas como You’re Crying e I’ll Close My Eyes. São essas as que você vai ouvir.

You’re Crying.




I’ll Close My Eyes.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

As montanhas moventes de Billie Holiday e de Gal Costa

Gal Costa, Billie Holiday e as flores
Mover montanhas, o inamovível. “Inamovível” porque não existe “imovível”. Esta palavra seria um neologismo, como a expressão “imexível”. Por que não serem agregadas à língua portuguesa? Apesar de “inamovível” possuir um sentido levemente diferente, significa sim, “o que não se pode mover”, ou melhor, “que não pode ser removido”, segundo o Aurélio.

Pois, se alguém diz que moverá montanhas, esse alguém dirá que a chamam de louca. Verdade. E montanhas não são “moventes” pois elas, por si, não se movem. Podem ser removidas, mas quando canta “eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei”, promete o impossível, assim como quando diz “eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei”. Sim, diz que é louca, “louca de amor eu serei”. Mas não se diz que o amor não conhece limites?

Crazy He Calls Me é de autoria de Carl Sigman (música) e Bob Russell (letras). Foi composta na metade final da década de 1940. O registro mais antigo que conheço é o de Billie Holiday. Gravada em 21 de novembro de 1949, o arranjo é de Gordon Jenkins. Logo que foi contratada pela Decca, os arranjos de orquestra ficaram a cargo de Toots Camarata, músico da casa. Mas isso foi em 1944. Nos registros de 1949 a coisa melhorou bem. Além de Jenkins, outro bambambã – Sy Oliver – foram os arranjadores.

Poeta e ensaísta, Augusto de Campos, tradutor de Stephane Mallarmé, Paul Valéry, W.B. Yeats, John Keats e e.e. cummings, tem seu nome ligado à música popular brasileira pelo poema de John Donne – Elegie: Going to Bed –, intitulada, simplesmente, Elegia, musicada por Péricles Cavalcanti e cantada por Caetano Veloso, e por duas “versões” (em vez de “tradução”, é o que se usa normalmente, se bem que não cabe bem a Augusto de Campos) que foram lançadas em Caras e Bocas (1977), álbum de Gal. Esse disco é posterior ao primoroso Cantar (1976).

Apenas para completar: Augusto de Campos é autor de Balanço da Bossa e Outras Bossas (Perspectiva), uma publicação capital para se entender o período da MPB dos anos 1960 e 70.

Solitude, clássico de Duke Ellington, não teve o título vertido para o português, dada a força da palavra no original. Na versão original, vários versos são rimados, como em “Dear Lord above/ Send back my love”, ou “I sit in my chair/ And filled with despair/ There’s no one could be so sad”. É quase impossível uma tradução repetindo certas rimas. O brasileiro chega perto nos versos: “Eu sento e espero/ E me desepero”.

Transcrevo a letra de Augusto de Campos: “Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei/ Louca me chamam/ 
Sim, sou louca/ Louca de amor eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como o ar que move a palha/ E abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso lhe ensinar/ Eu te darei pra sempre/ 
Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei.”

Ouça Louca Me Chamam na bela interpretação de Gal.




Interpretações no original

Grande Anita O’Day! Cantava muito.



Uma interpretação que não fica devendo à de ninguém é a de Dinah Washington. É de 1954 e tem um lineup de primeira: Herb Geller no sax alto, Richie Powell no piano; George Morrow no baixo e Max Roach na bateria. A gravação é de 1954.



Billie Holiday.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Louca me chamam Gal Costa e Dinah Washington

Simplesmente, Gal
Em Caras e Bocas, tremendo disco de Gal Costa, o poeta e (grande) tradutor Augusto de Campos foi parceiro de Carl Sigman, Bob Russell, Irving Mills, E. de Lange, Duke Ellington e Bob Dylan. Suas incursões são sempre benvindas. Foi sempre genial traduzindo poetas difíceis como Stephane Malarmé e o americano superlativo e.e. cummings, mas sempre teve olho para manifestações consideradas menos nobres como a poesia provençal ou a música popular brasileira (é autor do fundamental Balanço da Bossa e Outras Bossas, Editora Perspectiva, 1974). A tradução – ou versão – de composições do cancioneiro popular existe desde sempre. Basta lembrar de All of Me, que virou Disse Alguém, na versão do multitalentoso (aventurou-se pelas rádios, foi redator de programas de TV e de uma coluna de turfe em O Globo, e compositor, em preciosas parcerias, de clássicos como De Conversa em Conversa, Pra Que Discutir com Madame e Tintim por Tintim) Haroldo Barbosa. Essa prática se disseminou em versões, às vezes pavorosas, de sucessos populares da música internacional, cantadas por Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Ronnie Von e Os Fevers, em que, por exemplo, Girl, de Lennon & McCartney, virava Meu Bem. Não cabe ao Brasil, porém, a exclusividade de criar versões de sucessos em inglês na língua pátria.

Não foram meros acasos suas versões contidas em Caras e Bocas (Philips, 19xx). Foi partícipe ao ver incorporado um poema de John Donne traduzido por ele, em música de Péricles Cavalcanti, ser cantada por Caetano Veloso (Elegia). O namoro de Caetano com o concretismo foi bem sério e inúmeras interações aconteceram, como no poema Pulsar, de Augusto de Campos, ou em composições de Caetano Veloso como Batmacumba (parceria com Gilberto Gil), em que a letra faz o desenho da letra “K”, Relance (1973), De Palavra em Palavra e Júlia Moreno (ambos no álbum conceitual Araçá Azul, 1972), Asa (“Pássaro um/ Pássaro pairando um/ Pássaro momento um/ Pássaro ar/ Pássaro pousa/ Pássaro repousa/ Pássaro som/ […[/ Passa voou/ Passa avoou/ Pássaro par.), do disco Joia (tinha acento agudo no “O” naquele tempo), de 1975.

Soa sempre estranho ouvir uma canção com a qual estamos acostumados com as sonoridades da língua em que foi composta (tento imaginar My Way cantada em japonês). São os casos de Solitude, de Duke Ellington, Crazy He Calls Me, de Carl Sigman e Bob Russell, e It’s All Over Now, Baby Blue, que virou, na versão de Campos, Negro Amor (é ousado esse título para algo que, traduzido, seria “Agora está tudo acabado, baby blue”). A tradução de Crazy He Calls Me foi mais fácil: “Louca me chamam”. Já “solitude” é uma palavra tão específica, que não houve outro jeito: continuou “solitude”. Na versão, sim: “solitude” virou “solidão” (“Nessa solidão/ Eu choro/ As horas que não tocam mais/ Nessa solidão/ Devoro”).

Dinah canta um espetacular Crazy He Calls Me
Lembro que, na época do lançamento de Caras e Bocas – 1977 –, estava em Salvador. Quando somos jovens, os discos “encarnam” na gente; não parávamos de ouvir (nesse tempo se dizia “ouvi o disco até furar”; explicação: o som era produzido pela agulha de diamante sobre a superfície de vinil, e ocorria um desgaste por atrito mesmo) os lançamentos, se os tivéssemos à mão. Na casa em que ficamos tinha esse disco de Gal. Todo mundo lá cantava de cor (bem que podia ter um acento agudo aqui para soar foneticamente correto, mas o “cor” vem de “coração”, segundo um amigo) o disco todo. As que mais adorava eram, justamente, Louca Me Chamam, e a última Um Favor, de Lupicínio Rodrigues. “E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ […]/ Quem puder gritar que grite/ Quem tiver apito, apite/ Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar.” Maravilhoso. Ouvir Lupicínio, às vezes, faz mal, mas é sempre maravilhoso.


O melhor Crazy He Calls Me. A coisa do “melhor” será sempre uma discussão. Os fãs mais fanáticos de Billie Holiday poderão até dizer que não sei de nada, mas minha preferida é a de Dinah Washington. Não é possível se esquecer a de Anita O’Day. Até onde eu sei, Gal Costa é a única a ter cantado Louca Me Chamam.

Dinah Washington canta Crazy He Calls Me.




Gal Costa canta Louca Me Chamam.




A letra de Louca Me Chamam, por Augusto de Campos.

Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser, moverei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor, eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser, andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor sou eu

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Mad about the Boy (ou, loucas pela mesma coisa)

Coward, Noel Coward. Sir.

Ao contrário de “The Man I Love”, clássico composto por George Gershwin, com letra do irmão Ira, desconheço se há uma versão para o sexo oposto de “Mad about the Boy”, e menos ainda, interpretada por alguém do sexo masculino. [sobre “The Man I Love” versão para homens, leia: Homens amam “The Man I Love”. E, as mulheres também]

Nöel Coward foi um desses multitalentos a quem a história destinou um lugar especial no show business. Precoce, aos onze anos estreou na peça “The Goldfish”, em 1911. Em suas memórias relata sobre o debut no teatro: um anúncio no jornal Daily Mirror pedia por “um talentoso garoto de boa aparência” para uma peça infantil. Esse garoto por quem procuravam era ele.

A atuação em “The Goldfish” foi apenas o primeiro passo para uma carreira gloriosa no show business. De ator infantil, virou um dos maiores dramaturgos do Reino Unido. Nasceu no meio operário e virou “sir”, como John Lennon. A monarquia britânica sempre foi pródiga em reconhecer os talentos no campo das artes e da ciência.

Uma das composições mais conhecidas de Nöel é “Mad About the Boy”, de 1932. Virou standard e, como “The Man I Love”, interpretada por um time de primeira. A clássica é o registro de 1961 (no Wikipedia dão 1952 como data de gravação, mas devem estar enganados), por Dinah Washington, com belíssimo arranjo de Quincy Jones. Curiosamente, “explodiu” mesmo foi em 1969 por conta de um comercial da Levi’s. O anúncio feito para a televisão é um clássico. Inspirado no filme The Swimmer, estrelado por Burt Lancaster, que, por sua vez, foi baseado em um belo conto do americano John Cheever, tem como fundo musical a composição de Coward, na voz de Washington,. Essa bela peça publicitária alardeia as qualidades da clássica Levi’s 501.

Veja o comercial.




Mas composição tão clássica, evidentemente, não foi registrada apenas por essa cantora que morreu cedo em decorrência do abuso de remédios para emagrecer (os americanos morrem com remédios que parecem inofensivos, como analgésicos, caso de Michael Jackson e Heath Ledger). Ouça a de Helen Forrest (belíssima) e a de AnitaO’Day.

Grande Anita! Nem uma garrafa de vodca por dia acabou com ela.



Helen Forrest em clássica interpretação.