segunda-feira, 21 de março de 2011

Homens amam The Man I Love; e as mulheres, também

“The Man I Love” é uma daquelas músicas preferidas por dez entre dez músicos. Quaisquer interpretações, até as mais “desconstruídas”, não conseguirão abalar a beleza das linhas melódicas desse clássico gershwiniano.

Eleja a sua preferida. É difícil, não? É só começar a pensar e dezenas surgirão. A melancólica de Billie Holiday? Ou a “diferente” de Betty Carter? Ou de Chris Connor, Carmen McRae, Ella Fitzgerald, Doris Day, Helen Forrest, Peggy Lee… bom, vamos parar por aqui. Ou das instrumentais: Miles Davis (grande início com as primeiras notas do vibrafone de Milt Jackson para a entrada do trumpete de Miles), Charlie Parker, Nat King Cole, Art Tatum, Hank Jones… por ora, fico com o belíssimo solo de Thelonious Monk no piano.

Tony Bennett, para poder cantá-la sem se incomodar com o gênero feminino, cantou-a transmutada em “The Girl I Love”, que é como também canta Michael Feinstein. Alguém sabe de algum homem cantando-a com a letra original?

Phineas, o jovem
Somos de gerações anteriores aos dos politicamente corretos e, sendo assim, não ficamos preocupados se, usando tais ou quais expressões estamos sendo incorretos. O amigo Zeca Leal sempre se expressava de maneira bem-humorada e engraçada, punha apelidos em todos — sem que as “vítimas” soubessem quais eram os seus — tinha um conhecimento estúpido de jazz. Somos de gerações diferentes, eu e o Zeca. Morreu com uns 86/87 anos. Depois que passou a ter algumas complicações de saúde, parou de vir à minha casa. Vinha sempre com várias fitas cassetes — para quem não sabe o que é, digamos que eram os pen drive de antigamente — e gravava muitos CDs de discos que um dia os tivera formato LP, os tais vinis, que estão voltando à moda. É que os carros de antigamente, antes dos CDs, eram equipados de “toca fitas”, como era chamado.

Perguntou-me, uma vez, se eu tinha algum disco do Phineas Newborn Jr. Respondi-lhe que sim. E o Zeca: O negão é bom. Imagine um crioulo chamado Phineas; tem que ser bom; já nasceu diferente. Pois me lembrei do Zeca ao ouvir um belo “The Man I Love” com Phineas ao piano, de 1976, quando já o consideravam decadente.

Phineas tem grandes discos gravados na década de 1950. Infelizmente, em princípios dos anos 1960, sua frágil saúde mental fê-lo sucumbir a algumas críticas que lhe foram feitas rotulando-o como um pianista de estilo “fácil”. Ficou internado um tempo em uma clínica para doentes mentais. A partir daí, a intermitência dos problemas mentais tornou a carreira de músico inconstante. Phineas tocava tão fácil a ponto de alguns críticos acharem que tocava uma música “fácil”. Engano. O grande Leonard Feather discordava. Disse que Phineas foi um dos três melhores pianistas quando estava no auge. Mas, injustiças são injustiças, às vezes destruindo vidas. De nada vale a glória depois da morte.

O registro de “The Man I Love” é de 1976, portanto, quando Phineas não era mais “aquelas coisas”. Ouça. É um craque.




Anthony Benedetto, o homem que ama as mulheres. E os homens também o amam. É genial. Veja. Só que na sua versão, é “girl”.


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