Para nós brasileiros, a imagem que temos do ano de 1968 não é das melhores. Fui o autor do catálogo “68 - Utópicos e rebeldes”, por ocasião dos 40 anos dessa data, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. No texto de apresentação do então ministro da Cultura, Gilberto Gil – “1968: uma ferida ou uma flor” –, ele observa que “se nosso 68 teve a carga pesada de uma repressão brutal em que as liberdades individuais e institucionais que ainda restavam foram aviltadas e violentamente interrompidas com a decretação do AI-5, também vivemos a intensidade de um 68, além da política operada nas artimanhas da clandestinidade: o País encontrou formas de luta na cultura e na arte.”
Em outro texto, de Paulo Vanucchi, à época, Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, observa que 1968 foi um ano emblemático. “Foram muitos os acontecimentos marcantes. No mundo, houve a revolta dos estudantes em Paris, a Primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King. No Brasil, a passeata dos Cem Mil, a morte de Edson Luís de Lima Souto, as prisões dos estudantes da UNE em Ibiúna até culminar no amordaçamento imposto pelo Ato Institucional nº 5.”
Para mim, inculto mortal, foi também o ano em que Jimi Hendrix lançou “The Electric Ladyland” e The Beatles gravou o chamado“ Álbum Branco”, para os gringos, “The White Album”.
Pois, em 2018, são lançados os dois álbuns comemorando 50 anos desses dois grandes momentos de 1968. Apenas confirmam para as gerações mais novas, que 1968 foi um “grande ano”, como diria Frank Sinatra em “It Was a Very Good Year”, se gostasse de rock.
Apenas o fim
Parte da crítica considera 1968 o início do fim dos Beatles. Depois da sofisticação sonora de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e a farra de “Magical Mystery Tour” havia uma expectativa do que poderia vir em seguida.
No tempo anterior à gravação do álbum, os quatro foram à Índia fazer meditação transcendental com o guru Maharishi Maheshi Yogi, Ringo Starr foi o primeiro a cair fora. Detestou a comida apimentada e não sentiu-se muito transcendental. John Lennon ficou bronqueado com o guru, que assediou sexualmente Prudence Farrow, que estava no mesmo grupo, com a irmã Mia, esta em fase free depois de ter se separado de Frank Sinatra. O episódio serviu de mote para duas canções que comporiam o futuro disco: “Dear Prudence” e “Sexie Sadie”.
Além da viagem à Índia, outros acontecimentos foram capitais para o início da desagregação da banda: a morte prematura de Brian Epstein, empresário deles, causada, provavelmente, por ingestão de drogas que tomava para ansiedade e insônia, e o início do relacionamento de Lennon com a artista plástica Yoko Ono. Ringo, descontente de ser o patinho feio, decidiu sair da banda, Harrison procurava mais espaço para suas composições.
Um amigo gostava de dizer que bandas tinham prazo de validade. Crianças crescem e, à certa altura, cada um quer tomar o seu rumo. Bom, a história o desmente por meio de formações longevas como os Rolling Stones e o U2. Mas vamos combinar: não andam para cima e para baixo juntos; encontram-se para as gravações e shows, se tanto. Não existia mais entre os quatro aquele sentido de patota, se me entendem.
Nesse sentido, Yoko Ono foi importante. Fez o papel do visitante protagonizado por Terence Stamp, em “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini. “John apresentou as instalações de Abbey uma vez, e ela nunca mais foi embora… Aparecia todo santo dia.” Assim referiu-se à presença tóxica da japonesa, artista de vanguarda, George Harrison, na vida da banda, enquanto gravavam o novo disco.
Yoko apenas precipitou o que poderia demorar um pouco mais para acontecer. Na construção do novo álbum, apesar de continuarem a assinar juntos, ficam mais evidentes a autoria real de cada composição, mesmo assinando-as Lennon e McCartney. Essa individualidade se acentua na diversidade das canções presentes no disco. Eram tantas composições novas que um LP de 45 minutos seria insuficiente. O produtor George Martin queria um álbum simples. A banda discordou e bateu pé em lançar um duplo. São 30 canções no total. Várias viraram hits, como não poderia deixar de acontecer, entretanto, percebe-se que não fizeram a mínima questão de serem comerciais.
São vários os exemplos, a começar por “Revolution 9”, uma colagem de sons em loops, vozes, risadas desconexas, tendo como elemento de ligação George Martin a repetir “number nine” inúmeras vezes. Há também a country-western-folk “Rocky Racoon”, de Paul, brilhantemente descritiva, a provocativa “Piggies”, de George, “Why Don't We Do It in the Road? ”, sendo esse o único verso da canção, e “The Continuing Story of Bungalow Bill”, de John, dentre outras.
Outra que convém ser destacada é “Helter Skelter”, vigoroso pré hard rock, com vocais gritados de Paul. Foram muitos os takes até chegarem à versão presente no álbum. Na edição especial dos 50 anos, há um registro dela com 13 minutos e pouco. Alguns temas são demonstrativos do talento especial como hitmakers: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Blackbird”, “Mother Nature’s Son”, “Dear Prudence”. Não posso esquecer de “While My Guitar Gently Weeps”, com a brilhante participação do amigo de Harrison, Eric Clapton, nos solos.
A edição especial dos 50 anos não é a primeira remixagem de “The White Album”. Nos 30 anos do lançamento, saiu uma bem legal, replicando o do LP, mas no tamanho dos CDs, Mas o que saiu agora é um item essencial não só para os beatlemaníacos. São seis CDs apresentando as gravações originais remixadas por Gilles Martin, filho do produtor George Martin, e mais quatro, com as chamadas Esher demos, com versões preparatórias feitas em quatro canais, basicamente, voz e violão, e takes alternativos, além de várias que sairiam nos próximos discos deles e nos solos depois da separação, como “Junk”, de Paul, e “Jealous Guy”, de John. Outra coisa a ser destacada é de como cada canção foi trabalhada até chegar-se à versão definitiva, Um exemplo é a tomada 102 de “Not Guilty”, de Harrison, que nem constou na versão final do álbum. É a demonstração de que a perfeição se dá depois de muito trabalho.
Em relação às novas mixagens, ouve-se melhor o contrabaixo e as vozes ficam mais ao centro da audição. São detalhes que na nova configuração apresentam-se mais equilibradas.
Ouça o álbum com as novas remasterizações.
Ouça a versão de “Helter Skelter”, com 13 minutos.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Um Paul de cada lado
Com poucos dias de diferença, foram lançados “In the Blue Light”, de Paul Simon, e “Egypt Station”, de Paul McCartney. Do primeiro, pelo que vi, não se falou nada; do segundo, páginas e páginas. É justo? Depende, não?
Em breve comparação, pode-se dizer que o Paul americano nos apresenta, como é possível uma associação com o título, um álbum, basicamente, de tom melancólico. O Paul inglês, pelo contrário.
A imagem de McCartney, inclusive no seu período “melhor idade”, é a de um sujeito bem humorado, divertido, como se vê no vídeo com o comediante Jimmy Fallon (https://youtu.be/Z9q3e5wIrDw), ou no programa de James Corden (https://youtu.be/QjvzCTqkBDQ). Com 76 anos, transmite uma jovialidade surpreendente.
O Paul da América
Uma forte onda, nomeada “soft rock”, inundou o mundo musical em fins dos anos 1960 e início do próximo. Destacaram-se Carole King, America, Jim Croce, James Taylor e Simon & Garfunkel. Com exceção de Carole, era uma turma meio tímida. Mesmo assim, fizeram um tremendo barulho com seus violões de inspiração folk, caindo no gosto popular. Dentre eles, Paul Simon destacou-se não só pela riqueza melódica e harmônica de suas canções, mas pela rica poética descritiva. Com Art Garfunkel, cantou os mais belos temas da música americana da época. Eram dois rapazes que se conheceram na escola e formaram uma daquelas duplas perfeitas. Perto de Art, Paul poderia ser considerado um sujeito extrovertido. Não é tudo questão de referencial? Com exceção de “Cecilia” e alguma outra, talvez, o tom melancólico prevalece.
Em “In the Blue Light”, Simon traz novas leituras para antigas composições que, segundo ele, “estavam quase corretas ou eram estranhas o suficiente para serem ignoradas na primeira vez.” “One Man’s Ceiling Is Another Man’s Floor”, a primeira, original lançada em 1973, serve como parâmetro do que ouvimos a seguir. Com o novo arranjo, tem um andamento mais lento e mais jazzístico. “How the Heart Approaches What It Yearns”, de “One Trick Pony” – o título foi tirado do primeiro verso da canção – acontece algo semelhante, com arranjos de Bryce Dressner, da banda The National, participação de Wynton Marsalis e o sexteto novaiorquino yMusic, composto por violino, viola, cello, trompete, flauta e clarineta, que conferem ao álbum um clima de beleza e sofisticação.
Um bom exemplo é “René and Georgette Magritte with Their Dog After the War” (“Hearts and Bones”, 1983). Ouça.
O Paul do outro lado do Atlântico
Assim como o Simon de hoje não é mais aquele dos tempos em que formou dupla com Art Garfunkel, e dos primeiros álbuns sob seu nome, as novas composições de Paul McCartney, apesar de boas, não são geniais como tantos clássicos da era Beatle. Colocam-no porém em um nível acima da média do que se faz atualmente.
O álbum começa com sons de trens, o primeiro sinal do por que do nome “Egyptian Station”, anunciando uma viagem com paradas em estações – ou momentos – diferentes. A primeira é “I Don’t Know”, por sinal uma das melhores do álbum. Se as restantes tivessem a qualidade dessa, teríamos um grande disco. Entre momentos mais vigorosos, como “Come on to Me” ou “Caesar Rock”, confessionais, “Hand in Hand” e “Happy with You”, as duas com o violão acústico destacado, como na bela “Dominoes”, duas faixas mais longas em que mescla momentos diversos, meio no estilo “Golden Slumbers/Carry That Weight” (“Despite Repeated Warnings” e “Hunt You Down/Naked/C-Link”), Paul exercita sua versatilidade como compositor. Ah, e tem o momento Brasil, ou melhor, “Brazil”, bem pra turista ver, em “Back to Brazil”. Mas, em vez de nos deixar orgulhosos por lembrar de nós, só faz pensar que McCartney pode ser muito chato também. Veja o clipe de “Back in Brazil” em https://www.facebook.com/PaulMcCartney/videos/538319739930496/
Bom, mas o melhor é ouvir e aí cada um faz o seu juízo.
Ouça também o novo álbum de Paul Simon.
Em breve comparação, pode-se dizer que o Paul americano nos apresenta, como é possível uma associação com o título, um álbum, basicamente, de tom melancólico. O Paul inglês, pelo contrário.
A imagem de McCartney, inclusive no seu período “melhor idade”, é a de um sujeito bem humorado, divertido, como se vê no vídeo com o comediante Jimmy Fallon (https://youtu.be/Z9q3e5wIrDw), ou no programa de James Corden (https://youtu.be/QjvzCTqkBDQ). Com 76 anos, transmite uma jovialidade surpreendente.
O Paul da América
Uma forte onda, nomeada “soft rock”, inundou o mundo musical em fins dos anos 1960 e início do próximo. Destacaram-se Carole King, America, Jim Croce, James Taylor e Simon & Garfunkel. Com exceção de Carole, era uma turma meio tímida. Mesmo assim, fizeram um tremendo barulho com seus violões de inspiração folk, caindo no gosto popular. Dentre eles, Paul Simon destacou-se não só pela riqueza melódica e harmônica de suas canções, mas pela rica poética descritiva. Com Art Garfunkel, cantou os mais belos temas da música americana da época. Eram dois rapazes que se conheceram na escola e formaram uma daquelas duplas perfeitas. Perto de Art, Paul poderia ser considerado um sujeito extrovertido. Não é tudo questão de referencial? Com exceção de “Cecilia” e alguma outra, talvez, o tom melancólico prevalece.
Em “In the Blue Light”, Simon traz novas leituras para antigas composições que, segundo ele, “estavam quase corretas ou eram estranhas o suficiente para serem ignoradas na primeira vez.” “One Man’s Ceiling Is Another Man’s Floor”, a primeira, original lançada em 1973, serve como parâmetro do que ouvimos a seguir. Com o novo arranjo, tem um andamento mais lento e mais jazzístico. “How the Heart Approaches What It Yearns”, de “One Trick Pony” – o título foi tirado do primeiro verso da canção – acontece algo semelhante, com arranjos de Bryce Dressner, da banda The National, participação de Wynton Marsalis e o sexteto novaiorquino yMusic, composto por violino, viola, cello, trompete, flauta e clarineta, que conferem ao álbum um clima de beleza e sofisticação.
Um bom exemplo é “René and Georgette Magritte with Their Dog After the War” (“Hearts and Bones”, 1983). Ouça.
O Paul do outro lado do Atlântico
Assim como o Simon de hoje não é mais aquele dos tempos em que formou dupla com Art Garfunkel, e dos primeiros álbuns sob seu nome, as novas composições de Paul McCartney, apesar de boas, não são geniais como tantos clássicos da era Beatle. Colocam-no porém em um nível acima da média do que se faz atualmente.
O álbum começa com sons de trens, o primeiro sinal do por que do nome “Egyptian Station”, anunciando uma viagem com paradas em estações – ou momentos – diferentes. A primeira é “I Don’t Know”, por sinal uma das melhores do álbum. Se as restantes tivessem a qualidade dessa, teríamos um grande disco. Entre momentos mais vigorosos, como “Come on to Me” ou “Caesar Rock”, confessionais, “Hand in Hand” e “Happy with You”, as duas com o violão acústico destacado, como na bela “Dominoes”, duas faixas mais longas em que mescla momentos diversos, meio no estilo “Golden Slumbers/Carry That Weight” (“Despite Repeated Warnings” e “Hunt You Down/Naked/C-Link”), Paul exercita sua versatilidade como compositor. Ah, e tem o momento Brasil, ou melhor, “Brazil”, bem pra turista ver, em “Back to Brazil”. Mas, em vez de nos deixar orgulhosos por lembrar de nós, só faz pensar que McCartney pode ser muito chato também. Veja o clipe de “Back in Brazil” em https://www.facebook.com/PaulMcCartney/videos/538319739930496/
Bom, mas o melhor é ouvir e aí cada um faz o seu juízo.
Ouça também o novo álbum de Paul Simon.
quinta-feira, 21 de junho de 2018
O caso de Caetano Veloso com John e Paul
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| Caetano Veloso, sem lenço, sem documento |
Deles, dois álbuns de Caetano Veloso estão entre os selecionados por estarem entre os meus preferidos: “Joia” e “Qualquer Coisa”. De 1975, saíram juntos. A referência maior são os Beatles, a começar da capa do último, inspirada em “Let It Be”, com a diferença de que os quatro são ele apenas, em variações de uma foto, com registros de fotolito deslocados. Das doze faixas, três, cantadas em seguida, são de John Lennon e Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, For No One” e “Lady Madonna”; em “Joia”, uma única composição: “Help”. Mais de 40 anos depois, continuam entre as mais originais leituras existentes, dentre as milhões disponíveis.
Ouça “Eleanor Rigby”.
Ouça “For No One”.
Ouça “Lady Madonna”.
Nas três, os violões são de Caetano e Perinho Albuquerque. Em “Help”, que está em “Joia”, é Caetano sozinho.
Caso interessar, os manifestos lançados com os discos, acesse aqui.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Novo McCartney vaza na internet antes de ser lançado
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| A capa. Parece Dan Flavin, mas não é. |
Quando lançou Kisses on the Bottom, com canções antigas, parecia que tinha resolvido pendurar as chuteiras. O que mantém alguém jovem é o novo. Sintomaticamente, seu novo CD chama-se New. A música título é uma das que nos fazem lembrar do antigo Paul dos Beatles e dos Wings. Quase todo o resto representa o novo, com uma qualidade invejável.
A capa de New
Paul ficou conceitual? Em um primeiro olhar, percebemos que são três colunas de lâmpadas fluorescentes coloridas. A primeira são três lâmpadas verticais, da mesma cor da ultima coluna. A do meio é púrpura, ou violeta, se assim você as vê. Em outra reprodução que circulou na internet as lâmpadas são vermelhas e amarelas. Tanto faz. A versão arroxeada é mais interessante.
New é composta de três letras. Poderíamos associar a segunda e terceira colunas pelas letras “E” e “W”. Bom, isso importa? Quando vi pela primeira vez, cravei que era um trabalho do artista minimalista Dan Flavin. Não era. Seu autor se chama Ben Id. Seu nome, sem dúvida, é minimalista. Ele disse que se baseou em Dan Flavin, mesmo. Se não dissesse isso, acusariam-no de plagiador. Mas agora existe outra palavra para plágio: “apropriação”, sample, etc.
Veja Paul interpretando New, antes do lançamento do álbum, em Jimmy Kimmel Live.
Nada mais se esconde mesmo. Hoje (quando escrevo), 10 de outubro, o álbum já “vazou” na internet. Nesse mesmo dia, pela manhã, Paul tuítou “Venham para a Times Square, tudo vai acontecer lá!”. Feito. Fez um showzinho rápido de dentro de um caminhão. O CD mesmo tem lançamento marcado para o dia 14 de outubro.
Mark Ronson, um dos produtores do disco, disse à revista Rolling Stone que Paul estava em busca de uma batida forte, como a “feita nos trabalhos de rappers e até da banda curitibana Bonde do Rolê.” Não chega a tanto, mas Save Us e Everybody Out There (oitava) são demonstrativos da sua energia.
Ouça Save Us é a que abre o disco.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Ouça Everyboy Out There.
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Paul ainda é capaz de compor grandes canções. Ouça Road.
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Na edição de luxo foram acrescentadas Turned Out, Get Me out of Here e Struggle. Esta última é uma balada belíssima, como só Paul sabe fazer e sentir.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013
As minhas duas preferidas de Paul McCartney depois do fim dos Beatles
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| Paul por Linda McCartney |
Junk é quase uma vinheta: tem apenas 1 minuto e 55 segundos. Foi lançada no primeiro disco depois da separação dos Beatles, em 1970. Ram on é do segundo, o que me faz crer – na minha opinião, repito – que piorou depois disso.
Ouça Ram On.
Ouça o Junk original, com Paul.
Existem vários cover de Junk. A de John Denver, lançada em 1971 deve ter sido a primeira e é muito boa. Ouça.
As que tenho em meus arquivos também são boas. Uma delas é a da brasileira BluBell (Bel Garcia, assinava BlueBell e depois tirou o “e”), acompanhada por ukulele – presumo –, instrumento que Paul gosta de tocar de vez em quando.
Mais uma: cantada por Kim Liggett, está no disco Easy to Remember (2004), do clarinetista Ken Peplowski.
Mas a melhor é a da cantora lírica Anne Sofie von Otter em disco com Elvis Costello – For the Stars (2004) –, lançado pela Deutsche Grammophon. Juntaram com Broken Bycicles, de Tom Waits. Ficou genial.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Paul no seu tocador de mp3
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| O feliz Paul |
No texto de ontem, falo do mais novo CD de Paul McCartney – Kisses on the Bottom (http://bit.ly/zvm79F). Quem estiver curioso e com preguiça de ir até a loja pode acessá-lo por este link: http://uploaded.to/file/tny8jnv2
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Até tu, Paul?
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| Paul, um setentão com cara de moleque |
O caso é que ídolos, dos que hoje têm mais de 50 anos, envelheceram. Uns mais; outros souberam conservar-se melhor fisicamente. O rebelde Leonard Cohen continua tentando parecer como tal afirmando coisas que ainda podem dar manchete, como a morte, por exemplo. Para alguém com 77 anos, essa ideia pode ser persistente, apesar de a média de expectativa de vida da humanidade ser cada vez mais alta. As roupas surradas de outrora deram lugar a costumes de bom corte. Aparece sempre vestido com chapeu e óculos escuros. Faz cara de mal, e mesmo proferindo frases controversas, no fundo, nunca foi um “bad boy”.
Paul sempre teve cara de “rapaz de bem”; o cara que podia ser mal ou polêmico era John Lennon. Se Cohen parece adequar-se à idade que tem, Paul, usando terninhos cor de rosa, calças de cintura alta e suspensórios, de cabelos tingidos, parece um tanto “fora” do tempo. Tem um “quê” de moleque em seus traços facias, mas vieram-lhe as rugas, como costuma acontecer com todo mundo. Esta sempre com um sorriso estampado na cara, possui energia de sobra no palco. Mas tem alguma coisa que não se encaixa. No fundo, apesar das tintas, Barbara Gancia tem razão. E para quem o teve como ídolo na juventude, vê-lo assim, dói.
Pela qualidade excepcional, as canções da época em que era parte dos Beatles, são perenais e continuam a “ganhar” novos ouvintes. Passa uma geração depois da outra e Paul continua a ganhar novos fãs. É impressionante – e emocionante – ver gente de todas as idades cantando junto dele em shows (sobre isso, leia em http://bit.ly/x8aXYK). Faz muito tempo que não me interesso em ouvir suas novas composições: é um receio um tanto difuso de me decepcionar. O recém lançado Kisses on the Bottom, produzido por Tommy LiPuma, o mesmo de alguns discos de Diana Krall, despertou curiosidade pelo fato de que cantava alguns standards. Se até Miguel Bosé cantando boleros ouvi, por que não o velho Macca?
Intérpretes do reino pop, há tempos, andam gravando standards: Linda Ronstadt, Carly Simon, Rod Stewart… são muitos. Bem, Paul teria de fazer o seu um dia. A ironia é que Paul cantando composições próprias da época dos Beatles, já está cantando standards. Qual é o conceito de “standard”? São aquelas canções que, de tanto serem gravadas por outros intérpretes, se tornam clássicas. É o caso de Something, de George Harrison. Também é o de Blackbird e Yesterday. Foram cantadas por Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Carmen McRae, Ella Fitzgerald. Mas, no sentido mais tradicional, e até na cabeça de Paul, standards são aquelas compostas por Cole Porter, Gershwin e Cia.
A razão do disco, segundo Paul, é a de ter resolvido gravar algumas canções que seu pai ouvia quando ele era criança. São músicas consagradas como Bye bye Blackbird, It’s Only a Papermoon, I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter, More I Cannot Wish You, Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive, Always e The Inch Worm. Nas primeiras ouvidas senti certa decepção. Comparando-se com outras interpretações, Paul está em desvantagem. Até o fã mais cego do ex-Beatle será obrigado a admitir que Frank Sinatra e Tony Bennett dão de goleada. Não há nada de excepcional na voz de Paul. Aos poucos, no entanto, nos acostumamos ao seu canto, calmo, despretencioso, e dá para perceber uma sinceridade dele em seus propósitos. E, talvez seja esse o mérito maior de Kisses. Sem querer muito, torna-se mais e mais agradável. Seu Bye Bye Blackbird é muito bom. E, quando esperamos muito dos velhos e conhecidos standards, a surpresa é My Valentine, da lavra do velho Macca.
Tudo bem, concorde-se que é um tanto ridículo tentar parecer um eterno adolescente, mas, um desconto para esse que compôs tantos clássicos quanto Irving Berlin, Harold Arlen, Frank Loesser, Johnny Mercer e Johnny Burke, que são os autores de algumas canções que estão em Kisses on the Bottom.
Ouça My Valentine.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Estou mais velho que Paul McCartney
Depois do recorde de público no estádio do Maracanã, Paul McCartney dessa vez se apresentou em um lugar bem menor: o Engenhão, para 45 mil pessoas. Saem ganhando os espectadores. O efeito catártico não é menor devido ao público mais reduzido. Ele sabe como cativar seus eternos fãs. Bem, eterno é Paul. Com quase 70 anos, esbanja energia. No dia em que chegou foi andar de bicicleta no aterro do Flamengo, e no seguinte ao da primeira apresentação, saiu para velejar.
Com um bocado de anos a menos, confesso, não aguento mais ver um show por mais de seis horas em pé – incluindo a espera e a duração da apresentação. Nem o fato de ter ficado na ala chamada “prime”, onde podia ver as rugas de Paul sem o uso de binóculos, me animaria a repetir a experiência. Vi U2, Rolling Stones e The Police sentado, um pouco longe, no setor das numeradas. A melhor foi a do trio de Sting, que assisti no estádio do River Plate, em Buenos Aires. Tudo muito civilizado: acesso fácil, transporte barato, com direito até de uma pessoa levá-lo até ao lugar marcado e passar um pano antes de nos acomodarmos. Não dá para aguentar vendedores de bebidas passando com enormes caixas de isopor empurrando todo mundo, gritando nos seus ouvidos, além de conversas alheias, alegria desmedida e animação, sincera ou não, à espera de que seu ídolo surja no palco, gente desrespeitosa que te empurra por melhor visão. Não sou como o ex-ditador João Figueiredo que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao dos humanos, mas é dose sentir odores epidérmicos diversos, mal cheirosos sempre, tão ou mais que o dos hot-dogs misturados ao fedor de cerveja quente. É tudo alegria para alguns, mas certo martírio sentir partes do corpo a reclamar do desconforto de ficar em pé por tanto tempo com gente te empurrrando ou eclipsando sua visão. O desconforto é apenas minimizado pelo fato de você estar vendo ao vivo um dos seus ídolos da adolescência.
Depois de um interminável cineminha de quinta mostrando imagens diversas e alguns alarmes falsos – luzes e fumaça–, entra Paul com um paletó azul claro de dar inveja a Roberto Carlos cantando Hello Goodbye. É claro: delírio. A próxima é Jet, dos tempos de sua banda posterior aos Beatles – The Wings. E o setlist é o mesmo do show no Chile, absolutamente igual. O público embevecido nem deve saber disso; extasia-se com as frases de praxe em português e tudo parece tão espontâneo; as brincadeiras devem ser semelhantes, só fico a pensar se pegou uma camisa da seleção chilena como fez com a camisa canarinho nº 10 no Engenhão.
Helter Skelter.
Toda vez que Paul pegava o bandolim ou o cavaquinho – cavaquinho?, é isso mesmo?, não sei se existe isso na Inglaterra – lembrava de uma das minhas preferidas de Paul – Bycicles/Junk. Ouça numa versão inusitada cantada pela mezzo-soprano Anne Sofie von Otter com Elvis Costello. Para quem não conhece, aqui está.
Com um bocado de anos a menos, confesso, não aguento mais ver um show por mais de seis horas em pé – incluindo a espera e a duração da apresentação. Nem o fato de ter ficado na ala chamada “prime”, onde podia ver as rugas de Paul sem o uso de binóculos, me animaria a repetir a experiência. Vi U2, Rolling Stones e The Police sentado, um pouco longe, no setor das numeradas. A melhor foi a do trio de Sting, que assisti no estádio do River Plate, em Buenos Aires. Tudo muito civilizado: acesso fácil, transporte barato, com direito até de uma pessoa levá-lo até ao lugar marcado e passar um pano antes de nos acomodarmos. Não dá para aguentar vendedores de bebidas passando com enormes caixas de isopor empurrando todo mundo, gritando nos seus ouvidos, além de conversas alheias, alegria desmedida e animação, sincera ou não, à espera de que seu ídolo surja no palco, gente desrespeitosa que te empurra por melhor visão. Não sou como o ex-ditador João Figueiredo que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao dos humanos, mas é dose sentir odores epidérmicos diversos, mal cheirosos sempre, tão ou mais que o dos hot-dogs misturados ao fedor de cerveja quente. É tudo alegria para alguns, mas certo martírio sentir partes do corpo a reclamar do desconforto de ficar em pé por tanto tempo com gente te empurrrando ou eclipsando sua visão. O desconforto é apenas minimizado pelo fato de você estar vendo ao vivo um dos seus ídolos da adolescência.
Depois de um interminável cineminha de quinta mostrando imagens diversas e alguns alarmes falsos – luzes e fumaça–, entra Paul com um paletó azul claro de dar inveja a Roberto Carlos cantando Hello Goodbye. É claro: delírio. A próxima é Jet, dos tempos de sua banda posterior aos Beatles – The Wings. E o setlist é o mesmo do show no Chile, absolutamente igual. O público embevecido nem deve saber disso; extasia-se com as frases de praxe em português e tudo parece tão espontâneo; as brincadeiras devem ser semelhantes, só fico a pensar se pegou uma camisa da seleção chilena como fez com a camisa canarinho nº 10 no Engenhão.
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| A hora do na na na |
No primeiro bis começa com Day Tripper, para esquentar. Vem Lady Madonna e conclui com um emocionante Hey Jude, em que o público folhas com um “NA” impresso para acompanhar o refrão “na, na… na na na, Hey Jude”. Voltam para o segundo bis – até nisso foi exatamente igual à apresentação em Santiago do Chile – e ataca com o infalível Yesterday. Depois de um “you wanna rocksome more?” ou qualquer coisa parecida, ataca um enérgico Helter Skelter e emenda com um não menos maravilhoso Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e fecha com The End, do álbum Abbey Road. Só Beatles no fim. No silêncio do quarto de hotel, depois do show, sobra um zumbido intermitente nos ouvidos: são os ecos de Paul e sua banda.
Helter Skelter.
Toda vez que Paul pegava o bandolim ou o cavaquinho – cavaquinho?, é isso mesmo?, não sei se existe isso na Inglaterra – lembrava de uma das minhas preferidas de Paul – Bycicles/Junk. Ouça numa versão inusitada cantada pela mezzo-soprano Anne Sofie von Otter com Elvis Costello. Para quem não conhece, aqui está.
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