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quinta-feira, 31 de março de 2016

O Neruda de Luciana Souza

Duas obras de Beethoven são conhecidas até o fim do mundo. A Quinta Sinfonia, por sua abertura, e a Nona, pelo último movimento. A parte que ficou conhecida como Ode à Alegria, foi extraída de um poema de Friedrich Schiller. O mesmo Schiller teve versos utilizados por Franz Schubert em seus lieder (canções). Poetas maiores e menores como Goethe, Heinrich Heine, Johann Mayrhoffer, Wilhelm Müller e Shakespeare tiveram seus versos utilizados por Schumann, Richard Strauss e Hugo Wolf. É, portanto, um procedimento habitual.

Mesmo na música popular, é comum. Caetano Veloso compôs seu Elegia com poema de John Donne, Canção Amiga, cantada por Milton Nascimento, é de Carlos Drummond de Andrade, e Fagner musicou Motivo, de Cecilia Meireles, logo depois proibida por seus herdeiros. Em 2004, Luciana Souza, há mais de 20 anos residente dos EUA, gravou um disco com poemas de Pablo Neruda. Antes, tinha lançado um álbum a partir de poemas de Elizabeth Bishop.

Pablo Neruda é um dos poetas mais cultuados no Brasil, principalmente por uma geração que tem mais de 60 anos. Submersos na onda latina, literatos como Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Gabriel García Marquez, Roa Bastos e Pablo Neruda fizeram enorme sucesso, assim como os intérpretes/compositores Mercedes Sosa, Violeta Parra e Victor Jara, ídolos da juventude que vivia sob a pressão do regime ditatorial vigente. Fizeram bastante sucesso conjuntos como o Tarancón e Raíces de América, formações brasileiras que cantavam música latino americana. Pejorativamente, era a geração denominada pelo colunista Telmo Martino como ‘poncho e conga”.

Neruda e Jara viraram mártires da esquerda brasileira, por serem figuras de proa no período em que Salvador Allende instaurou um governo de feições marxistas. Victor Jara foi preso, torturado e fuzilado pelos militares que tomaram o poder. Pablo Neruda morreu uma semana antes de Jara, vítima de um câncer de próstata. Até hoje duvidam se não foi envenenado.

Em 1971, Neruda ganhou o prêmio Nobel de Literatura, mas antes dele, Gabriela Mistral tinha sido agraciada com a mesma honraria em 1945, mas sua fama foi eclipsada pela de Neruda, ativo em sua militância de esquerda. No governo Allende, recitou seus poemas para cerca de 70 mil pessoas no estádio de Santiago do Chile. Para o novo governo, a morte de Neruda caiu bem. Tornou-se um símbolo para os que resistiam à escalada da direita absolutista na América Latina.

Luciana não viveu esse período negro da história do Brasil e do Chile, mas seus pais, sim. Livros de Neruda faziam parte da biblioteca de Walter Santos e Tereza Souza. Luciana lembra de sua mãe recitando seus poemas quando era criança. Disse que sua identificação com as palavras do chileno é tão grande que “sentia como que estivesse escrito aquelas palavras para mim mesmo.” Costumava enviar seus poemas aos amigos em aniversários e outras ocasiões especiais.

As conexões com a poesia de Neruda eram, portanto, umbilicais. A ideia de fazer um disco com a poesia de Neruda teve como gancho a comemoração dos 100 anos de seu nascimento, em 2004. Uma outra incrível coincidência serviu como mais uma razão: ela e Neruda nasceram em 12 de julho.

O disco
A estrutura de Neruda é mais enxuta do que a do disco em que canta Elisabeth Bishop. Tocam apenas ela e o pianista venezuelano Edward Simon. As percussões eventuais de Luciana foram acrescentadas depois. As músicas foram baseadas no ciclo Canções e Danças do compositor erudito catalão Frederic Mompou. Luciana afirma que “há uma universalidade e atemporalidade na música de Mompou, assim como na poesia de Neruda – o modo como ele fala de amor, poderia ser sentido em qualquer outro lugar do mundo hoje ou a duzentos anos atrás. Há uma certa simplicidade e pureza em ambos – a poesia de Neruda é muito coloquial e Mompou soa como uma criança improvisando no piano. E Neruda é tão feminino, da mesma forma em que a música de Mompou é delicada.”

Desde que passou a gravar com frequência, Luciana amealhou um bom número de admiradores e a crítica especializada a tem em boa conta. Há anos está entre as dez mais votadas pela revista Downbeat. Nunca chegou a ser considerada a primeira, mas está ao lado de veteranas como Dee Dee Bridgewater, Dianne Reeves e Sheila Jordan.

Na minha lista, não está entre as minhas dez preferidas. Como se diz por aí, “gosto não se discute, lamenta-se apenas”. Acho-a contida demais, meio “roda presa”, mas não duvido de suas boas qualidades. Repito: cada um com seu gosto. Ouvi quase tudo o que Luciana gravou. Neruda era um dos que não conhecia até agora. Para mim, foi uma surpresa positiva. Depois de ouvir umas cinco vezes, gosto cada vez mais. Acho que é um de seus melhores trabalhos. Luciana é uma intérprete inteligente, tem clareza do que quer, e isso é uma grande qualidade. Juntar Hahm e Neruda foi uma bela sacada.

Veja Luciana cantando o Soneto 49 (é um dos 100 Sonetos de Amor), acompanhada pela kalimba, tocada por ela mesma.





Ouça Leaning into the Afternoon.




Ouça Memory.





Ouça o Soneto 99.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bons produtores, bons produtos

O produtor e baixista Klein
Não dá para ignorar a importância da figura do produtor musical. Não é à toa que o britânico George Martin era considerado o “quinto beatle”: é um reconhecimento de sua influência sobre o som do quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. No Brasil, nos anos 1980, o ex-baixista dos Mutantes, Liminha, sob alguns aspectos, pode ser considerado um dos artífices da explosão do pop/rock, produzindo Titãs, Chico Science & Nação Zumbi, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Lulu Santos, Ritchie e outros mais. Às vezes, a mão do produtor pode anular o produto. É o caso de Lincoln Olivetti, muitas vezes acusado de impor um estilo pasteurizado que igualando o trabalho e repertório de artistas díspares como Gal Costa, Wando, Gilberto Gil e Rita Lee.

Por alguma coincidência, um dos grandes produtores da atualidade, começou tocando baixo, como o brasileiro Liminha. Em 1982, Larry Klein entrou para a banda que acompanhava a canadense Joni Mitchell. Tornaram-se parceiros na música e na vida. Produziu com Mitchell uma boa leva de CDs muito bem recebidos pela crítica e representou uma mudança de rumo em sua carreira, reaproximando-a do pop. Mesmo com o fim do casamento, em 1994, ano do lançamento de Turbulent Indigo, continuou a colaborar com ela em Both Sides Now, gravado com orquestra. Aproveitando o formato de Both Sides, gravaram o duplo Travelogue, que contém vários sucessos antigos de Mitchell. O bom produtor é aquele que sabe realçar as qualidades dos seus intérpretes. (sobre Joni Mitchell, leia: http://bit.ly/itpMsv ,  http://bit.ly/k81URE , http://bit.ly/kmauYk , http://bit.ly/eX6YHX , http://bit.ly/md969w)
Além dela, Klein produziu os últimos álbuns de Madeleine Peyroux, Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006) e Bare Bones (2009). Peyroux tinha gravado seu primeiro disco Dreamland em 1996. Imediatamente, por causa do timbre muito parecido ao de Billie Holiday, ganhou projeção. E sumiu. Reapareceu em grande estilo realizando um álbum impecável. Seria a mão de Klein? (sobre Peyroux, leia: http://bit.ly/hEOMMe, http://bit.ly/lYZbSu)

Dentre outros, produziria também o trumpetista e cantor Till Brönner – uma espécie de carbono de Chet Baker piorado – em Oceana (2006) e Rio (2008) – este último, lançado no Brasil. Na minha opinião – conheço apenas Rio – a mão de Klein é primordial para que o disco seja razoável. Juntou uma penca de convidados ilustres: Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Luciana Souza, Annie Lennox, Aimee Mann, Melody Gardot e Kurt Elling. Bom, com um time desses, qualquer curioso se arrisca a conhecer Till Brönner. Foi o que aconteceu comigo.

Larry Klein tem mostrado competência como produtor, principalmente com cantores e cantoras. Em 2007, produziu o CD The New Bossa Nova, de Luciana Souza. Por coincidência, com a mesma “química” que ocorrera com Joni Mitchell: os dois, atualmente, são parceiros na música e na vida.

Para frisar de como o trabalho de um produtor pode ser um diferencial, basta comparar o primeiro CD de Melody Gardot com o segundo, My One and Only Thrill, produzido por ele (sobre Gardot, leia http://bit.ly/eXhQSQ). E fica a expectativa se não acontece no futuro um novo casamento.

Joni Mitchell canta Sex Kills.




Luciana Souza canta Morrer de Amor.



Melody Gardot canta Baby, I’m a Fool.




Publicado inicialmente em 27/10/2009

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O “Duos III”, de Luciana Souza

Foto de Bob Wofelson, bela capa de Kiko Farkas
Sempre lembro de histórias do Carlos Conde. Não sei se a que vou contar já foi contada por mim. Como tantas que divertiam seus amigos por conta de suas idiossincrasias e particularidades, essa também tem seu lado engraçado. Em um dos festivais de jazz, em São Paulo, Luciana Souza estava dando sopa no saguão do teatro, depois de terminadas as sessões, muito simpática, autografando discos, conversando com os fãs. O Alberico Cilento, muito amigo do Conde, sabendo da “mania” dele de colecionar autógrafos, perguntou se não ia pedir um para ela. O Conde respondeu: “Mas ela é muito nova.”

Ele tinha uma infinidade de discos autografados, desde a época dos LPs. A dezena de discos com autógrafos foram conseguidos quando eu estava com ele. Normalmente, nos shows levava os LPs e os CDs em um envelope e, findas as apresentações, ia ao camarim conversar com os músicos e pedir autógrafos. Bom papo, sempre tinha do que conversar com eles devido ao enorme conhecimento que tinha do jazz. Eu, bem mais tímido que ele, passei a levar os encartes dos CDs dos artistas no bolso e, aproveitando da situação, pedia também.

A parte engraçada do “mais ela é muito nova” se devia a um motivo bem particular. Cliente dos bons da Jazz Record Center, o melhor lugar para se adquirir discos, cartazes, revistas e souvenirs relacionados ao gênero, descobriu que aqueles autógrafos poderiam se transformar em dólares. Como ia com frequência – umas duas vezes por ano a Nova York –, ficara amigo do dono, o Fred Cohen. Em uma das ocasiões em que fui à loja, que fica em um lugar escondido no Chelsea, no oitavo andar, o Fred perguntou pela saúde do Conde, sabendo que ele estava doente. Era um dos bons clientes do Fred.

Lembro dessa história, agora quandoé lançado o álbum Duos III, de Luciana. Estabelecida há muito tempo em Nova York, é um nome bem conhecido e consagrado. No último “Melhores do Ano”, da revista Downbeat, foi considerada a décima melhor cantora. Não é pouco. Num universo concorrido em que o que não falta é cantora, é uma boa classificação, principalmente por interpretar mais em português do que em inglês. Para se ter uma ideia, dentre as vinte melhores, quase todas são americanas, canadenses ou inglesas. As exceções são Roberta Gambarini – italiana –, e Claudia Acuña – chilena.

Em seu Duos III, os “outros” são os brasileiros Toninho Horta, Marco Pereira e Romero Lubambo. As atuações dos violonistas são divididas democraticamente em quatro num total de doze faixas. Toninho toca em Pedra da Lua, Tim Tim por Tim Tim, Inútil Paisagem e Beijo Partido; Marco Pereira em Chora Coração, Dona Lu, Eu Vim da Bahia e Mágoas de Caboclo; e Romero Lubambo em Doralice, As Rosas Não Falam, Lamento Sertanejo/ Maçã do Rosto e Dindi. O repertório bem conhecido.

Toninho Horta sempre imprime sua marca ao violão. Possui uma levada só dele, muito especial. É o único que participa nos vocais, fazendo um belo vocalise em Pedra da Lua. Participa com duas composições próprias: além desta, Beijo Partido. Pereira também tem uma sua, sem letra, apenas com vocal de Luciana, e a música se chama Dona Lu; acho que não é para dona Lu Alckmin. Marco, dos três, é o mais clássico. É da tradição dos grandes virtuoses do violão no Brasil. Lubambo, desde 1985, mora nos EUA e, além do trabalho solo, tocou e gravou com Paquito D’Rivera, Dianne Reeves, Astrud Gilberto, Dizzy Gillespie, Herbie Mann, Michael Brecker, Al Jarreau e Dave Douglas.

Duos III é um disco muito agradável de se ouvir, intimista. Ela é afinada, mas parece muito contida. Sempre foi assim. Não empolga, bom, essa é a minha opinião e nem todos precisam concordar. Mesmo quando canta mais “balançado”, como Maçã do Rosto, de Djavan, não é daquelas que nos faça sair dançando pela sala. Sem ser uma crítica e, já que comecei, acho que os americanos deviam conhecer Monica Salmaso.

Como sou fã de carteirinha de Toninho Horta, acho que você deve ouvir Pedra da Lua. (Sobre ele, leia O céu mais lindo do Brasil, TH, um talento pouco reconhecido? , TH e espinha de peixe)


Outro belo destaque é Mágoas de Caboclo, com Marco Pereira.

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Ouça Luciana e Toninho Horta em Pedra da Lua.

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Agora, bom mesmo é Mágoas de Caboclo, com Orlando Silva. Essa é imperdível.

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