quinta-feira, 26 de abril de 2012

O disco triste de Norah Jones

Norah gostou do cartaz (direita) e se inspirou para a capa do CD
Um início melancólico, etéreo, notas repetidas num teclado à exaustão, o violão, instrumentação minimalista, um som parecido ao de um glockenspiel, a voz triste de Norah, tudo é tão belo, as cordas em contínuo, a música se chama Good Morning, mas é melhor que não seja aquela que tocará nos despertadores à primeira hora, a acordá-lo. É muito triste, e se você prestar atenção na letra, é bem capaz que seu mundo desabe logo de manhã: “Good morning/ Why did you do it?/ I couldn’t sleep/ I knew you were gone/ Our loving is all I was after/ But you couldn’t give it/ So I’m moving on”. “Bom-dia, por que você fez isso, não consegui dormir. Sabia que você tinha ido; nosso amor era tudo o que eu desejava, mas você não pôde me dar; então estou seguindo em frente.” Se isso aconteceu mesmo com Norah, que infelicidade deve ter sido.

Aquele tecladinho continua na segunda faixa. O astral sobe um pouco quando canta Say Goodbye.

Nunca imaginei que pudesse gostar de Norah. Quando surgiu, parecia mais um daqueles lances de mercado, Os marqueteiros não podiam deixar de citar o que parece, aparentemente, Jones nunca fez a mínima questão de falar: o fato de ser filha de Ravi Shankar. Não fica claro também se a americana Sue Jones foi casada com o indiano (a Wikipedia diz que viveram juntos – ou namoraram – até 1986). Norah, nascida Geethali Norah Jones Shankar, em 1979, “extirpou” as pistas paternas legais. Desconheço se, pelas leis indianas, é legal a poligamia, mas Ravi tem uma filha com Sukanya Shankar, nascida em 1981, dois anos mais nova, portanto, que Norah. Anoushka Shankar é inglesa e é brilhante citarista – gravou até pela Deutsche Grammophon. Além da diferença de dois anos, uma nasceu nos EUA e a outra, na Inglaterra. Já vi Anoushka tocando com o pai; Norah, nunca.

Come Away with Me, lançado em 2002 pelo selo Blue Note, vendeu 23 milhões de cópias. Thriller, de Michael Jackson vendeu 110 milhões. Para um disco de estreante cantando algo soul/folk com pitadinhas de jazz, é bastante. Apesar das reservas, comprei (e gostei) o DVD Live in New Orleans. Na época em que a vi em My Blueberry Nights (leia: http://bit.ly/J9PJF9), de Wong Kar-Wai, em 2008, meu juízo sobre Norah tinha mudado; e seu doce olhar tinha me hipnotizado.

Little Broken Hearts, a terceira, é a música-título. A batida da bateria Joey Waronker se assemelha à de alguma antiga música do Fleetwood Mac, uma das guitarras lembra algum som de Marc Ribot e Lindsay Buckingham, e a voz de Norah lembra vagamente uma mistura de Christine McVie e Steve Nicks.

She’s 22 é mais um destaque desse disco que prioriza o lado escuro das tristezas que as relações de amor nos impõem. “You’ll just throw away/ Every word I say/ You can throw away” (“Você só vai jogar fora/ Cada palavra que digo/ Você pode jogar fora.”). Norah lembra que pode sofrer tanto quanto Cat Power (sobre ela, leia http://bit.ly/JGkGF2 e http://bit.ly/I5untw).

Take It Back, After the Fall, 4 Broken Hearts e Travelin’ On (esta, simples e bela, com um violão e um arco de baixo) seguem na mesma toada de She’s 22. O astral sobe em Out on the Road, em clima de música folk, e com Happy Pills. Mas não se anime tanto. São “up” em relação às anteriores. Miriam e All a Dream fecham o disco e não decepcionam.

Ah, as duas coisas mais comentadas sobre o Little Broken Hearts são sobre a capa e sobre Danger Mouse (ou Brian Burton), que formou o Gnarls Barkley com Cee Lo Green, que o produziu, além do último Black Keys (http://bit.ly/I1FkNW), o Gorillaz e The Good, The Bad & The Ugly. Danger Mouse possui uma coleção de cartazes de filmes de Russ Meyer (era um daqueles cineastas meio trash) nas paredes de seu estúdio. Um deles foi a inspiração para a capa do disco.


Ouça o Bom Dia mais triste do mundo.




Ouça She’s 22. Muito bela.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O vibrafone de Gary Burton e Hot House, com ele e Chick Corea

Burton e Corea, em 1972: início do “casamento”
Outro dia, lendo o que Érico Cordeiro escreveu de Red Norvo, lembrei-me de Gary Burton. Entrado na USP, um amigo que viajava frequentemente ao Japão (na década de 1970, viajar de avião era caríssimo, bem ao contrário do que é agora), na verdade, em todas as férias de fim de ano (a mãe traballhava na Varig, lá), sempre vinha com novidades. O Robert gostava de jazz e o “must” (ih, ninguém usa mais essa palavra) eram os discos da ECM, gravadora alemã fundada por Manfred Eicher, em 1969 (sobre ele, leia em http://bit.ly/qToxnh, e o primeiro álbum lançado – Free at Last –, leia em http://bit.ly/JDjDr5).

O diferencial era o cuidado técnico, o esmero gráfico, meio minimalista, e, principalmente, as combinações dos universos de músicos de origens diversas. Formou um elenco estelar e multifacetado: Art Ensemble of Chicago, Jack DeJohnette, Gary Burton, Julian Priester, John Abercrombie, Kenny Wheeler, John Surman, Jan Garbarek e Terje Rypdal. Muitos deles continuam a gravar pela ECM.

Apesar das reservas e sabendo que era cuidadoso, Robert sempre emprestava os LPs para que eu os gravasse em fitas cassete. Foi assim meu primeiro contato com esse selo. Alguns anos depois, a WEA (ou foi a PolyGram?) lançou alguns títulos no Brasil. Foi a festa. Foi assim que tomei o primeiro contato com Gary Burton. O primeiro lançado chamava-se Ring. Na formação da banda incluiam-se dois guitarristas (Mick Goodrick e Pat Metheny), dois baixistas (Steve Swallow e Eberhard Weber), Burton no vibrafone (vibraharp) e Bob Moses na bateria.

O vibrafone tem uma história peculiar. É um instrumento percussivo, e o som das teclas “ressoa” em tubos metálicos posicionados verticalmente. Não há um repertório específico na música clássica. No jazz floresceu, não só com Red Norvo (leia no blogue Jazz + Bossa + Baratos Outros: http://bit.ly/J9OUAK), mas com um músico genial chamado Lionel Hampton. Ambos, mais Milt Jackson, do Modern Jazz Quartet, reinaram absolutos no vibrafone. Há um quarto: Cal Tjader. Esse americano de origem sueca “latinizou” o instrumento. Não fazia o gosto de todos os jazzmaníacos.

Gary Burton é de outra geração. Lançou em 1961 o primeiro solo – New Vibe in Town (RCA 1961) –, quando tinha apenas 18 anos. Realmente, esse americano com cara de certinho era o “new vibe in town”. Ao contrário de Hampton, Milt Jackson e Red Norvo, Burton usava quatro mallets em vez de dois. Desde então, gravou muito, principalmente como solista.

É de 1972 seu primeiro disco com o pianista Chick Corea: Crystal Silence. Hot House (Decca, 2012) é o mais recente dos dois. É o coroamento de 40 anos de parceria: dura mais que muitos casamentos. Combinam muito bem e, aparentemente, não pretendem se divorciar. Entre esses dois álbuns, gravaram Duet (ECM, 1979), In Concert, Zurich, October 28, 1979, Lyric Suite for Sextet (ECM, 1982), Native Sense (Concord, 1997), Like Minds (Concord Jazz, 1998, com Pat Metheny, Dave Holland e Roy Haynes) e The New Crystal Silence (Concord Jazz, 2008).

The New Crystal Silence é impecável: além de clássicos de Corea, como La Fiesta, Duende, Crystal Silence e Señor Mouse, interpretam Bill Evans (Waltz for Debby), Gus Arnheim (Sweet and Lovely) e Gershwin (I Loves You Porgy). Sente-se, porém, um gosto de certo déjà vu. A gravação é com orquestra. Acho, para falar a verdade, que ainda não ouvi direito esse disco.

Hot House parece mais interessante. Não faltam clássicos como Can’t We Be Friends e a música título, de Tadd Dameron. Há a interpretação de Eleanor Rigby, de Lennon & McCartney, muito boa, com solos brilhantes de ambos. É um dos pontos altos, sem dúvida. Light Blue é um tema de Thelonious Monk, sempre um espaço para boas construções musicais. A próxima canção é um clássico de outro monstro do piano – Dave Brubeck. O vibrafone e o piano se entendem, como disse, é um casamento perfeito, quando são esses dois.

Há dois temas de Tom Jobim: Once I Loved e Chega de Saudade. Esta última, acostumados que estamos a cantarolar o tema, Burton e Corea fazem leitura que foge um pouco das minhas expectativas, mas nem por isso, deixa de ser bela. O início de O Amor em Paz é um tanto etéreo com linhas “caminhantes” do piano e um vibrafone meio etéreo que logo nos introduz o tema de “eu amei/ E amei, ai de mim muito mais do que devia amar/ E chorei…”.

O CD fecha com duas belas faixas: My Ship, de Kurt Weill e Ira Gershwin, e Mozart Goes Dancing, a única com cordas a acompanhá-los (Harlem String Quartet), bem no estilo composicional de Corea.

Felicidade. Temos algumas coisas de Chick e Gary tocando juntos. Veja Eleanor Rigby.


E Chega de Saudade.