quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No que Rachel Z tem a ver com o King Crimson?

Dotes além dos musicais de Rachel Z
Quem diria, o rock progressivo virou jazz! Pensando bem, muito natural. Naquelas atmosferas viajantes, com letras idem, a parte instrumental tinha um papel importante. O tal do rock progressivo surgiu como uma reação àquele rock de três acordes. Dizia-se que bastava aprender a tocar três acordes para ser guitarrista de rock. Existe até uma certa verdade nessa afirmação. Muitos “instrumentistas” (as aspas são intencionais), ao formarem suas bandas mal sabiam tocar um baixo ou uma guitarra. Bastava ter energia, principalmente na época do punk rock. O melhor exemplo é Sid Vicious, do Sex Pistols.

O rock progressivo era mais elaborado e ganhou muitos fãs por essa razão. Seus admiradores se achavam mais inteligentes por gostarem de algo mais sofisticado, mais cabeça. Dessa seara despontaram bandas como o Yes, Van Der Graaf Generator, Premiata Forneria Marconi, Iron Butterfly e outros menos votados. Destes, cabe lugar especial à banda liderada por Robert Fripp, o King Crimson.

Rachel Z, antes de ser “Z”, era Rachel Carmel Nicolazzo, nome “difícil” para ser artístico. A moça passou por caminhos que milhares fizeram. Passou pelas melhores escolas de música e participou da banda Steps Ahead e tocou em High Life, disco de Wayne Shorter, e com Stanley Clarke e Lenny White, parceiros de uma das formações de maior sucesso do jazz-fusion – ou jazz-rock, como também era chamado – , o Return to Forever, de Chick Corea.

Como muitas da sua geração, não ficou imune ao poder avassalador do rock e do pop. Esse interesse sempre esteve presente no histórico de Rachel. O fato de ter gravado um disco chamado Moon at the Window: Jazz Impressions of Joni Mitchell (Tone Centre, 2002) é amostra do que Rachel buscava: bons temas da música popular e desenvolvê-los na linguagem do jazz. A “queda pop” deve tê-la levado a participar do tour Growing Up, de Peter Gabriel. Leio na Wikipedia, de que participa de uma banda de rock chamada Peacebox como cantora (nesse quesito, não convence).

A música dita popular sempre alimentou a música de improviso. Não é nada surpreendente Rachel procurar temas no repertório contemporâneo em vez de, como muitos, ficarem no terreno seguro dos standards. Mesmo um músico, que podemos considerar como sendo um velho – cronologicamente, devo ressaltar –, Herbie Hancock, lançou um álbum chamado The New Standard (1995), contendo composições de Kurt Cobain (Alll Apologies), Peter Gabriel (Mercy Street), Prince (Thieves in the Temple), e outros como Sade Adu, Simon & Garfunkel e Steely Dan. Esse disco é uma demonstração de que Hancock é um músico inquieto; sempre investiu em novas linguagens. (sobre este disco, leia http://bit.ly/NZVoq5)

Além de Hancock, Rachel Z não está só na exploração do repertório pop. Nesse quesito, os grandes mestres são Ethan Iverson (piano), Anderson (baixo) e David King (bateria), de The Bad Plus.

No CD The First Time I Ever Saw Your Face (Venus Records 2003), além do clássico conhecido na voz de Roberta Flack, interpreta Heart Shaped Box, de Kurt Cobain, e Fragile, de Sting. Em Everlasting (2205), a lista é mais extensa: Here Comes the Sun (Geroge Harrison), Kiss from a Rose (Seal. Sobre esta música, leia e ouça em http://bit.ly/QFdIGD), Wild Horses (Jagger & Richards), Ring of Fire (Johnny Cash, M. Kilgore), Black Hole Sun (Chris Cornell / Soundgarten), Fields of Gold (Sting), Kid Charlemagne (Steely Dan), One Time (King Crimson), Tonite Tonite (W.P. Corgan / The Smashing Pumpkins), Kiss of Life (Sade), e Red Rain (Peter Gabriel). O bom gosto de Rachel Z apenas valoriza canções bem conhecidas, quando executadas ao piano, em linguagem instrumental.

Fripp, um gênio da guitarra
Robert Fripp é o gênio atrás do King Crimson. No primeiro álbum – In the Court of the Crimson King(1969) –, a primeira faixa é um choque chamado 20th Century Schizoid Man. É uma música esquizofrênica, com a voz distorcida, de modo a torná-la mais “rough”, de Greg Lake e uma guitarra enlouquecida de Fripp, diferente de tudo o quanto tinha sido ouvido até então. Quando esperamos uma continuidade desse clima, a faixa seguinte – I Talk to the Wind – é uma canção evocativa e melancólica, perfeitamente combinada com a voz doce e segura de Lake, que depois sairia para formar outra banda emblemática do rock progresivo, o Emerson, Lake & Palmer. In the Court, até hoje, é impactante.

In the Wake of Poseidon, o disco seguinte, é quase uma continuação do primeiro. Essa sensação é reforçada pelos vocais de Greg Lake. Lizard, o álbum posterior tem um line up bem variado com uma seção de metais de primeira: Robin Miller (oboé e cor anglais), Marc Charig (cornet), e Nick Evans (trombone). Uma participação importante é a do pianista Keith Tipett, um dos ícones do jazz britânico.

O quarto álbum representa outra mudança de rumo. Island, apesar de não ter sido muito bem recebido é um disco excepcional e contém faixas muito diferentes entre si. Temos uma estranhíssima música chamada Ladies of the Road, seguida de uma faixa instrumental (Prelude: Song of the Gulls), mais assemelhada a uma peça erudita de câmara, lindíssima, por sinal, e é o perfeito prelúdio para a música-título, muito conhecida dos ouvintes da Rádio FM Eldorado. Apesar de ser uma gravação de 1971, vinte ou mais anos depois, ainda entrava na programação dessa rádio paulistana.

Não menos estranha que Ladies of the Road é a primeira faixa do álbum. Formentera Lady inicia com notas de contrabaixo no arco e depois entra a flauta de Mel Collins; aí é a vez da voz fantasmagórica de Bozz (Burrell), muito apropriada para a atmosfera, idem. Sailor’s Tale é uma composição tipicamente “frippiana”, com levadas de notas em repetição, em ritmo acelerado. É uma peça que lembra a banda inglesa Soft Machine. The Letters é uma música muito estranha e uma letra de Pete Sinfield tão escabrosa quanto a música. No início, se assemelha a um acalanto que é interrompido por sopros, baixos e acordes agudos da guitarra de Robert Fripp. Deu para perceber que Island é um dos meus preferidos da discografia do King Crimson?

Larks’ Tongues in Aspic (1973) e Starless and Bible Black (1974) representam outra guinada no som do King Crimson. A inclusão do baixista e vocalista John Wetton é a diferença; por onde passou, como no Asia, percebem-se suas digitais. Com David Cross no violino, viola e teclados, e Bill Bruford na bateria, além, é claro do grande cérebro Robert Fripp, essa formação produziu grande música. O box set Great Deceiver, com quatro CDs contendo apresentações ao vivo, lançado anos depois, mostra o quanto eram bons.

Demorei, mas estou quase chegando à formação que importa para o fecho da conexão Rachel Z – King Crimson. Após um hiato de mais de seis anos (o último tinha sido Red, em 1974), a banda “renasceu” com Adrian Belew nos vocais e na guitarra, Tony Levin no baixo e stick bass (aqui no Brasil, o único que andou tocando esse instrumento foi Akira da banda Akira S e As Garotas Erraram, que tinha no vocal Alex Antunes; grande banda de uma composição definitiva: Sobre as Pernas), e Bill Bruford na bateria. Gravaram Discipline (1981), Beat (1982), e Three of a Perfect Pair (1984). Um par de três perfeito. Pura energia, grandes músicas, vocal meio histérico de Belew, e guitarras (a dele e de Fripp) mais histéricas ainda. Robert Fripp, apesar de liderar a banda, mais parece um sideman com sua presença low profile, sempre sentado e produzindo os sons mais surpreendentes. É um dos gênios da música contemporânea.

A banda continuou por mais algum tempo com a inclusão de Trey Gunn tocando stick bass e Pat Mastelotto na percussão acústica e eletrônica. One Time, a música que Rachel Z gravou, está no álbum THRAK (1994). Uma das razões que podem ter contribuído para que Rachel se atentasse a One Time pode ter sido o fato de que Tony Levin, o baixista dessa época, tenha também sido membro da banda de Peter Gabriel. Chute.

Ouça a original, com King Crimson.




Ouça a de Rachel Z.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Os melhores discos segundo a revista Downbeat (parte 2)

Estou repetindo a lista dos dez melhores do ano, pela revista Downbeat, para poder falar alguma coisa acerca dos que eu conheço.

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33

O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.



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O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.

Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.

Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.

O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.

Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.




Do décimo primeiro ao trigésimo

A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.

Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.

Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.



Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.

Ouça Hope, uma das melhores do CD.



Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).

Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.  

Ouça Killer, do álbum Samdhi.




American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.

Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.

Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.