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| Dotes além dos musicais de Rachel Z |
O rock progressivo era mais elaborado e ganhou muitos fãs por essa razão. Seus admiradores se achavam mais inteligentes por gostarem de algo mais sofisticado, mais cabeça. Dessa seara despontaram bandas como o Yes, Van Der Graaf Generator, Premiata Forneria Marconi, Iron Butterfly e outros menos votados. Destes, cabe lugar especial à banda liderada por Robert Fripp, o King Crimson.
Rachel Z, antes de ser “Z”, era Rachel Carmel Nicolazzo, nome “difícil” para ser artístico. A moça passou por caminhos que milhares fizeram. Passou pelas melhores escolas de música e participou da banda Steps Ahead e tocou em High Life, disco de Wayne Shorter, e com Stanley Clarke e Lenny White, parceiros de uma das formações de maior sucesso do jazz-fusion – ou jazz-rock, como também era chamado – , o Return to Forever, de Chick Corea.
Como muitas da sua geração, não ficou imune ao poder avassalador do rock e do pop. Esse interesse sempre esteve presente no histórico de Rachel. O fato de ter gravado um disco chamado Moon at the Window: Jazz Impressions of Joni Mitchell (Tone Centre, 2002) é amostra do que Rachel buscava: bons temas da música popular e desenvolvê-los na linguagem do jazz. A “queda pop” deve tê-la levado a participar do tour Growing Up, de Peter Gabriel. Leio na Wikipedia, de que participa de uma banda de rock chamada Peacebox como cantora (nesse quesito, não convence).
A música dita popular sempre alimentou a música de improviso. Não é nada surpreendente Rachel procurar temas no repertório contemporâneo em vez de, como muitos, ficarem no terreno seguro dos standards. Mesmo um músico, que podemos considerar como sendo um velho – cronologicamente, devo ressaltar –, Herbie Hancock, lançou um álbum chamado The New Standard (1995), contendo composições de Kurt Cobain (Alll Apologies), Peter Gabriel (Mercy Street), Prince (Thieves in the Temple), e outros como Sade Adu, Simon & Garfunkel e Steely Dan. Esse disco é uma demonstração de que Hancock é um músico inquieto; sempre investiu em novas linguagens. (sobre este disco, leia http://bit.ly/NZVoq5)
Além de Hancock, Rachel Z não está só na exploração do repertório pop. Nesse quesito, os grandes mestres são Ethan Iverson (piano), Anderson (baixo) e David King (bateria), de The Bad Plus.
No CD The First Time I Ever Saw Your Face (Venus Records 2003), além do clássico conhecido na voz de Roberta Flack, interpreta Heart Shaped Box, de Kurt Cobain, e Fragile, de Sting. Em Everlasting (2205), a lista é mais extensa: Here Comes the Sun (Geroge Harrison), Kiss from a Rose (Seal. Sobre esta música, leia e ouça em http://bit.ly/QFdIGD), Wild Horses (Jagger & Richards), Ring of Fire (Johnny Cash, M. Kilgore), Black Hole Sun (Chris Cornell / Soundgarten), Fields of Gold (Sting), Kid Charlemagne (Steely Dan), One Time (King Crimson), Tonite Tonite (W.P. Corgan / The Smashing Pumpkins), Kiss of Life (Sade), e Red Rain (Peter Gabriel). O bom gosto de Rachel Z apenas valoriza canções bem conhecidas, quando executadas ao piano, em linguagem instrumental.
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| Fripp, um gênio da guitarra |
In the Wake of Poseidon, o disco seguinte, é quase uma continuação do primeiro. Essa sensação é reforçada pelos vocais de Greg Lake. Lizard, o álbum posterior tem um line up bem variado com uma seção de metais de primeira: Robin Miller (oboé e cor anglais), Marc Charig (cornet), e Nick Evans (trombone). Uma participação importante é a do pianista Keith Tipett, um dos ícones do jazz britânico.
O quarto álbum representa outra mudança de rumo. Island, apesar de não ter sido muito bem recebido é um disco excepcional e contém faixas muito diferentes entre si. Temos uma estranhíssima música chamada Ladies of the Road, seguida de uma faixa instrumental (Prelude: Song of the Gulls), mais assemelhada a uma peça erudita de câmara, lindíssima, por sinal, e é o perfeito prelúdio para a música-título, muito conhecida dos ouvintes da Rádio FM Eldorado. Apesar de ser uma gravação de 1971, vinte ou mais anos depois, ainda entrava na programação dessa rádio paulistana.
Não menos estranha que Ladies of the Road é a primeira faixa do álbum. Formentera Lady inicia com notas de contrabaixo no arco e depois entra a flauta de Mel Collins; aí é a vez da voz fantasmagórica de Bozz (Burrell), muito apropriada para a atmosfera, idem. Sailor’s Tale é uma composição tipicamente “frippiana”, com levadas de notas em repetição, em ritmo acelerado. É uma peça que lembra a banda inglesa Soft Machine. The Letters é uma música muito estranha e uma letra de Pete Sinfield tão escabrosa quanto a música. No início, se assemelha a um acalanto que é interrompido por sopros, baixos e acordes agudos da guitarra de Robert Fripp. Deu para perceber que Island é um dos meus preferidos da discografia do King Crimson?
Larks’ Tongues in Aspic (1973) e Starless and Bible Black (1974) representam outra guinada no som do King Crimson. A inclusão do baixista e vocalista John Wetton é a diferença; por onde passou, como no Asia, percebem-se suas digitais. Com David Cross no violino, viola e teclados, e Bill Bruford na bateria, além, é claro do grande cérebro Robert Fripp, essa formação produziu grande música. O box set Great Deceiver, com quatro CDs contendo apresentações ao vivo, lançado anos depois, mostra o quanto eram bons.
Demorei, mas estou quase chegando à formação que importa para o fecho da conexão Rachel Z – King Crimson. Após um hiato de mais de seis anos (o último tinha sido Red, em 1974), a banda “renasceu” com Adrian Belew nos vocais e na guitarra, Tony Levin no baixo e stick bass (aqui no Brasil, o único que andou tocando esse instrumento foi Akira da banda Akira S e As Garotas Erraram, que tinha no vocal Alex Antunes; grande banda de uma composição definitiva: Sobre as Pernas), e Bill Bruford na bateria. Gravaram Discipline (1981), Beat (1982), e Three of a Perfect Pair (1984). Um par de três perfeito. Pura energia, grandes músicas, vocal meio histérico de Belew, e guitarras (a dele e de Fripp) mais histéricas ainda. Robert Fripp, apesar de liderar a banda, mais parece um sideman com sua presença low profile, sempre sentado e produzindo os sons mais surpreendentes. É um dos gênios da música contemporânea.
A banda continuou por mais algum tempo com a inclusão de Trey Gunn tocando stick bass e Pat Mastelotto na percussão acústica e eletrônica. One Time, a música que Rachel Z gravou, está no álbum THRAK (1994). Uma das razões que podem ter contribuído para que Rachel se atentasse a One Time pode ter sido o fato de que Tony Levin, o baixista dessa época, tenha também sido membro da banda de Peter Gabriel. Chute.
Ouça a original, com King Crimson.
Ouça a de Rachel Z.

