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quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Madeleine Peyroux, Anthem e Brasil
Agora, no mês de setembro, Madeleine Peyroux estará mais uma vez no Brasil, dessa vez, apresentando seu último álbum “Anthem”, lançado no ano passado. Começa em Porto Alegre, passa por Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
No início, ficou conhecida por ter uma voz muito parecida com a de Billie Holiday. Por esse fato, foi automaticamente associada ao gênero jazz, apesar de nunca ter sido de fato. É mais country-folk americana que qualquer coisa. Além da boa voz, talento, ficou bem conhecida pelas belas interpretações de algumas canções de Leonard Cohen.
Aliás, “Anthem” é de Cohen e um dos melhores números desse álbum. Ao contrário de “Secular Hymns”, o anterior, em que não há nenhuma de sua autoria, este é de uma maioria composta por ela, com David Baerwald, Brian MacLeod, Patrick Warren e Larry Klein, seus músicos. Este último toca contrabaixo é mais uma vez seu produtor. Klein comprovou a sua competência nesse mister em álbuns de Joni Mitchell, Luciana Souza, Herbie Hancock, Julie Fordham, Curtis Stigers, Norah Jones, Walter Becker, Till Brönner, Holly Cole, Tracy Chapman, Lizz Wright, Melody Gardot, dentre outros e outras.
Em relação à “Secular Hymns”, “Anthem” é um pouco inferior, na minha opinião. Mesmo assim, destaco algumas, além da música título, muito boa mesmo: “All My Heroes”, “Lullaby”, meio hipnótica, mas não exatamente uma canção de ninar,e “Liberté”, a partir de versos de Paul Éluard. Ela manda bem em francês e em inglês.
Ouça o disco via Spotify.
Caso você tenha dificuldade por esse compartilhamento, vá direto ao Spotify: https://open.spotify.com/album/3a6ln2VwpNL5Nve4QDyzRo?si=FdS3tGXqQuun6FmNdMgtxw
quinta-feira, 8 de junho de 2017
Muitos lançamentos, além da ECM
Na postagem anterior, listei os principais lançamentos pela ECM. Não é a única a nos brindar com bons discos.
Muita coisa mudou na estrutura e grandes selos importantes do jazz como o Verve, criado por Norman Granz, e abrigou estrelas como Ella Fitzgerald e Oscar Peterson, não existem mais, pelo menos, nos modelos em que os conhecemos. Se não me engano, agora, pertence ao Universal Music Group, e controla também selos da música erudita, como a Deutsche Grammophon, Decca Classics, Mercury Classics; e é responsável pela distribuição mundial do catálogo da ECM.
Um dos chefões da Verve é David Foster, um produtor que mira mais as vendas do que a qualidade. E não vemos mais álbuns de jazz com o antigo logotipo Verve. Sua estrela é Diana Krall e parece ser a única do casting. Estranho, muito estranho.
Como “filhos” da Verve, destacam-se o Impulse, que abriga Madeleine Peyroux, Sarah McKenzie, John Scofield, Indra Rios-Moore, e o tradicional Blue Note, cada vez menos voltado ao jazz.
Fora da Universal, temos a alemã ACT Music, que comemora 25 anos, e possui um dos melhores catálogos da atualidade. O Concord Group, que cresceu muito, abarca uma série de selos, como a Telarc, Heads Up, Stax e o Concord Jazz.
Vamos aos destaques.
Blue Note
• Gregory Porter: “Take Me to the Alley”
• José James: “Love in a Time of Madness”
• Kandace Springs: “Soul Eyes”
• Nels Cline: “Lovers”
• Norah Jones: “Day Breaks”
• Robert Glasper Experiment: “Artscience”
• Terence Blanchard: “The Comedian Soundtrack”
• Trombone Shorty: “Park Lot Symphony”
O selo tem os dois cantores mais apreciados da atualidade. Gregory Porter desbancou o longo reinado de Kurt Elling como o melhor cantor de jazz. Como outro destaque do selo, José James, o rótulo “jazz” é pequeno para o que desenvolvem. É uma fusão do jazz, com fortes influências do soul, rhythm’n’blues, gospel, além da incorporação da eletrônica, mais no caso de James. São duas vozes poderosas e dois talentos criativos. Norah é Norah. “Day Breaks” é um álbum muito agradável. Robert Glasper começou “pianinho”. Impressionou a crítica. O mesmo foi com Trombone Shorty. Começaram com gravações “mais jazz”, para capturar a crítica, como Esperanza Spalding, e partiram para projetos mais pessoais e não possuem alguma relação com o que reconhecemos como jazz. Não é uma crítica; é uma constatação.
Kandace Springs é mais conservadora, comparando-se com os citados. Terence Blanchard, que surgiu na época de Wynton Marsalis, também. Nels Cline faz o percurso inverso: guitarrista da banda alternativa Wilco, o veterano tem feito bons discos instrumentais, seja como líder ou em parceria com guitarristas como o “newcomer” Julian Lage.
Ouça “Closer”, de José James.
Gregory Porter é a voz do momento, com James. Ouça “Take Me to the Alley”.
Ouça “The Bond”, de Nels Cline.
ACT Music
• Eric Schaefer: “Kyoto Mon Amour”
• Iiro Rantala, Lars Danielsson, Peter Erskine: “How Long Is Now?”
• Jan Lundgren: “Postdamer Platz”
• Julian & Roman Wasserfuhr: “Landed in Brooklyn”
Muita coisa mudou na estrutura e grandes selos importantes do jazz como o Verve, criado por Norman Granz, e abrigou estrelas como Ella Fitzgerald e Oscar Peterson, não existem mais, pelo menos, nos modelos em que os conhecemos. Se não me engano, agora, pertence ao Universal Music Group, e controla também selos da música erudita, como a Deutsche Grammophon, Decca Classics, Mercury Classics; e é responsável pela distribuição mundial do catálogo da ECM.
Um dos chefões da Verve é David Foster, um produtor que mira mais as vendas do que a qualidade. E não vemos mais álbuns de jazz com o antigo logotipo Verve. Sua estrela é Diana Krall e parece ser a única do casting. Estranho, muito estranho.
Como “filhos” da Verve, destacam-se o Impulse, que abriga Madeleine Peyroux, Sarah McKenzie, John Scofield, Indra Rios-Moore, e o tradicional Blue Note, cada vez menos voltado ao jazz.
Fora da Universal, temos a alemã ACT Music, que comemora 25 anos, e possui um dos melhores catálogos da atualidade. O Concord Group, que cresceu muito, abarca uma série de selos, como a Telarc, Heads Up, Stax e o Concord Jazz.
Vamos aos destaques.
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| A imagem de José James no novo álbum |
• Gregory Porter: “Take Me to the Alley”
• José James: “Love in a Time of Madness”
• Kandace Springs: “Soul Eyes”
• Nels Cline: “Lovers”
• Norah Jones: “Day Breaks”
• Robert Glasper Experiment: “Artscience”
• Terence Blanchard: “The Comedian Soundtrack”
• Trombone Shorty: “Park Lot Symphony”
O selo tem os dois cantores mais apreciados da atualidade. Gregory Porter desbancou o longo reinado de Kurt Elling como o melhor cantor de jazz. Como outro destaque do selo, José James, o rótulo “jazz” é pequeno para o que desenvolvem. É uma fusão do jazz, com fortes influências do soul, rhythm’n’blues, gospel, além da incorporação da eletrônica, mais no caso de James. São duas vozes poderosas e dois talentos criativos. Norah é Norah. “Day Breaks” é um álbum muito agradável. Robert Glasper começou “pianinho”. Impressionou a crítica. O mesmo foi com Trombone Shorty. Começaram com gravações “mais jazz”, para capturar a crítica, como Esperanza Spalding, e partiram para projetos mais pessoais e não possuem alguma relação com o que reconhecemos como jazz. Não é uma crítica; é uma constatação.
Kandace Springs é mais conservadora, comparando-se com os citados. Terence Blanchard, que surgiu na época de Wynton Marsalis, também. Nels Cline faz o percurso inverso: guitarrista da banda alternativa Wilco, o veterano tem feito bons discos instrumentais, seja como líder ou em parceria com guitarristas como o “newcomer” Julian Lage.
Ouça “Closer”, de José James.
Gregory Porter é a voz do momento, com James. Ouça “Take Me to the Alley”.
Ouça “The Bond”, de Nels Cline.
ACT Music
• Eric Schaefer: “Kyoto Mon Amour”
• Iiro Rantala, Lars Danielsson, Peter Erskine: “How Long Is Now?”
• Jan Lundgren: “Postdamer Platz”
• Julian & Roman Wasserfuhr: “Landed in Brooklyn”
• Lars Danielsson: “Liberetto III”
• Natalia Mateo: “De Profundis”
• Richie Beirach & Gregor Huebner: “Live at Birdland New York”
• Ulf & Eric Wakenius: “Father and Son”
• Victoria Tolstoy: “Meet Me at the Movies”
• Emile Parisien, Vincent Peirani, Andreas Schaerer, Michael Wollny: “Out of Land”
• Youn Sun Nah: “She Moves on”
A alemã ACT Music, fundada por Siegfried Loch, acaba de completar 25 anos de vida, e é uma das melhores gravadoras da atualidade. Foi nela que o genial pianista Vijay Iyer se consagrou como um dos novos nomes do jazz – grava atualmente na concorrente ECM – e foi responsável por tornar conhecido o trio e.s.t., de Esbjörn Svensson, tragicamente falecido fazendo mergulho. Com um elenco de bons músicos alemães, escandinavos e outros da Europa Oriental, a ACT vem sendo uma garantia de boa música.
Dentre as cantoras, a coreana Youn Sun Nah é a de maior prestígio internacional. Conta também com Victoria Tolstoy, que tem entre seus maiores atributos a beleza e o parentesco com o escritor russo Liev Tolstói. Natalia Mateo é uma das boas revelações. Diferente, é muito interessante.
Infelizmente, as canções do CD mais recente foram bloqueadas no YouTube. Mas como Mateo é uma intérprete que merece ser conhecida, ouça “Strange Fruit”, do penúltimo.
Não tive tempo de escutar todos os lançados pela ACT, mas dos que ouvi, “Father & Son”, de Ulf Wakenius, com seu filho Eric, é muito bom. Ouça o brilhante duo de violões, em “Birdland”, de Joe Zawinul.
Outras gravadoras
• Aki Takase & David Murray: “Cherry - Sakura” (Intakt)
• Akua Dixon: “Akua’s Dance” (self released)
• Andrea Motis: “Emotional Dance” (Impulse)
• Beata Pater: “Fire Dance” (B&B Records)
• Becca Stevens: “Regina” (GroundUP)
• Benny Green: “Happiness!” (Sunnyside)
• Betty Buckley: “Story Songs” (Palmetto)
• Billy Childs: “Reborn” (Mack Avenue)
• Bobby Watson: “Made in America” (Smoke Sessions)
• Cameron Graves: “Planetary Prince” (Mack Avenue)
• Chano Dominguez: “Over the Rainbow” (Sunnyside)
• Chick Corea: “The Musician” - 3 CDs + 1 DVD (Concord)
• Chris Thile & Brad Mehldau: “Chris Thile & Brad Mehldau” (Nonesuch)
• Christian Scott aTunde Adjuah: “Ruler Rebel” (Ropeadope)
• Christian Sands: “Reach” (Mack Avenue)
• Cuong Vu 4-tet: “Ballet | The Music of Michael Gibbs” (Rarenoise)
• Daniel Herskedal: “The Roc” (Edition Records)
• David Binney: “The Time Verses” (Criss Cross)
• David Gilmore: “Transitions” (Criss Cross)
• Dayna Stephens: “Gratitude” (Contagious)
• Diana Krall: “Turn Up the Quiet” (Verve)
• Dwiki Dharmawan: “Pasar Klewer” (Moonjune)
• Eliane Elias: “Dance of Time” (Concord)
• Enrico Pieranunzi: “New Spring | Live at The Village Vanguard” (Cam Jazz)
• Eric Alexander: Second Impression” (HighNote)
• Ethan Iverson: The Purity of the Turf” (CrissCross)
• Giacomo Gates: “What Time Is It?” (Savant)
• Jazzmeia Horn: “A Social Call” (Prestige)
• Jeremy Pelt: “Make Noise” (HighNote)
• Joey DeFrancesco: “Project Freedom” (Mack Avenue)
• Julian Lage & Chris Eldridge: “Mount Royal” (Free Dirt Records)
• Julian Lage: “Live in Los Angeles” (Mack Avenue)
• Kendra Shank & Geoffrey Keezer: “Half Moon | Live in New York”
• Kevin Eubanks: “East West Time Line” (Mack Avenue)
• Kurt Elling: “Sings Christmas | The Beautiful Day” (Okeh)
• Kurt Rosenwinkel: “Caipi” (Heartcore)
• Linda May Han Oh: “Walk Against Wind” (Biophilia)
• Madeleine Peyroux: “Secular Hymns” (Impulse)
• Matthew Stevens: “Preverbal” (Rodeadope 339)
• Miles Okazaki: “Trikster” (Salis Sea)
• Miroslav Vitous: “Ziljabu Nights” (Intuition)
• Noah Preminger: “Meditations on Freedom” (self released)
• Olivier Le Goas: “Reciprocity” (Neuklang)
• Omar Sosa & Seckou Keita: “Transparent Water” (Otá)
• Regina Carter: Ella: “Accentuate the Positive” (Okeh)
• Richard Galliano: “New Jazz Musette” (Ponderosa Music & Art)
• Roberto Fonseca: “ABUC” (Impulse!)
• Steve Nelson: Brothers Under the Sun” (HighNote)
• The Jazz at The Lincoln Center Orchestra: “The Music of John Lewis” (Blue Engine)
• Tigran Hamasyan: “An Ancient Observer” (Nonesuch)
• Tom Harrell: “Someting Gold, Something Blue” (HighNote)
• Troy Roberts: “Tales & Tones” (Inner Circle)
• Yelena Eckemoff: “Blooming Tall Phlox” (L&H)
• Yilian Cañizares: “Incocación” (Naïve)
• Yotam Silverstein: “The Village” (Jazz & People)
O tão esperado novo disco de Diana Krall é mais ou menos como o “tão esperado novo disco” de Marisa Monte. É mais ou menos o mais do mesmo. Não que isso signifique um trabalho ruim. “Turn Up the Quiet” é um bom disco, como qualquer outro dela. Diana chegou naquele ponto em que não faria coisa ruim, nem que quisesse. Esse álbum é resultado da competência adquirida pela experiência e talento natural. Ninguém vai dar cinco estrelas, porque não é superior aos seus melhores trabalhos. É mais jazz que os dois anteriores. O repertório de “Wallflower” era calcado em sucessos pops, como “Desperado”, dos Eagles, e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, de Elton John e Bennie Maupin. As canções de “Glad Rag Doll” são mais antigas; são temas que conheceu por meio das preferências de seu pai.
No setor de vozes, a boa novidade é a espanhola Andrea Motis. Com apenas 21 anos, Andrea transmite uma segurança não muito frequente para uma garota dessa idade. Lançou-se cedo na música, com 14 anos, participando da banda de Joan Chamorro, músico que tem revelado bons talentos em Barcelona. Motis tem futuro. É bela, é afinada e além de cantar, toca trompete, o que lhe dá um charme especial. “Emotional Dance” é seu primeiro álbum por uma gravadora maior.
O melhor dos álbuns vocais citados é o despojado “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux. Muito bom mesmo.
Veja Andrea Motis a cantar “He’s Funny that Way”.
Ouça “Tango till They’re Sore”, com Madeleine Peyroux.
Dessa avalanche de lançamentos, impossível ouvir todos para se fazer algum juízo. Dos aqui listados, gostei muito de “Sakura”, duo com Aki Takase e David Murray. Os dois são identificados como avant garde, mas perfeitamente palatáveis. Acompanho Murray desde “Low Class Conspiracy” (1976). Sou fã até hoje. “Sakura” é um dos meus preferidos do ano. Outros muito bons – vou pela ordem alfabética:
— “Akua’s Dance”, da excelente violoncelista Akua Dixon;
— “Happiness”, de Benny Green, excelente pianista;
— “Story Songs”, da cantora e atriz de musicais, como “Cats”, álbum duplo com temas de várias épocas, mas com temas mais contemporâneos, como os de Peter Gabriel, Sting, Leonard Cohen e Joni Mitchell;
— Tudo o que Billy Childs faz é bom. Inexplicável que não seja mais conhecido, tanto como compositor como tecladista e arranjador. “Reborn” é excepcional;
— O álbum de Chris Thile em duo com Brad Mehldau é bem interessante. Bandolinista e cantor, trafega à vontade no erudito, jazz e no folk. Lançou recentemente um CD com Yo-Yo Ma e Edgar Meyer, dedicado ao repertório de Johann Sebastian Bach;
— Christian Scott, que agora, assina Christian Scott aTunde Adjuah, tem novo CD na praça. “Ruler Rebel” não está entre seus melhores. Já seu xará, Christian Sands, manda bem com “Reach”, em sua estréia pelo Mack Avenue;
— Cuong Vu tinha impressionado em “Cuong Vu Meets Pat Metheny”. O vietnamita faz parte da banda de Pat e agora lança o belo “Ballet | The Music of Michael Gibbs”;
— “New Spring”, ao vivo no Village Vanguard, é mais um disco de Enrico Pieranunzi acompanhado de Scott Colley e Clarence Penn, nesses registros, com o saxofonista Donny McCaslin. O italiano é outro que nos álbuns recentes mantêm a qualidade em cima, como Eric Alexander, com “Second Impression”. É atualmente uma das vozes mais vigorosas do saxofone tenor. Ethan Iverson, pianista de The Bad Plus, em “The Purity of the Turf”, conta com outros companheiros: Ron Carter e Nasheet Waits. Ambos são garantia de boa música;
— Além de Diana Krall, na lista das vozes, temos Giacomo Gates, Jazzmeia Horn, Kurt Elling, Kendra Shank e Becca Stevens. De todos – Elling, Gates e Kendra Shank são veteranos –, a grande novidade é Jazzmeia Horn. Vencedora do Thelonious Monk International Jazz Vocal Competition de 2015, foi contratada pelo grupo Concord, por meio do selo Prestige (é um dos labels mais tradicionais do jazz e, vejam como essas mudanças são estranhas). Tem cancha e é craque nos scats e outros “truques” do jazz, o que pode levar a juízos equivocados, mas é boa, e se for bem assessorada, pode se transformar em uma das melhores cantoras.
Não é à toa que o álbum de estreia se chame “A Social Call”. Revela influências de Betty Carter. Ouça sua interpretação desse jazz standard.
Veja Kendra Shank, com Geoffrey Keezer.
Veja Aki Takase e David Murray, em “Bright Mississippi”, de Thelonious Monk.
• Richie Beirach & Gregor Huebner: “Live at Birdland New York”
• Ulf & Eric Wakenius: “Father and Son”
• Victoria Tolstoy: “Meet Me at the Movies”
• Emile Parisien, Vincent Peirani, Andreas Schaerer, Michael Wollny: “Out of Land”
• Youn Sun Nah: “She Moves on”
A alemã ACT Music, fundada por Siegfried Loch, acaba de completar 25 anos de vida, e é uma das melhores gravadoras da atualidade. Foi nela que o genial pianista Vijay Iyer se consagrou como um dos novos nomes do jazz – grava atualmente na concorrente ECM – e foi responsável por tornar conhecido o trio e.s.t., de Esbjörn Svensson, tragicamente falecido fazendo mergulho. Com um elenco de bons músicos alemães, escandinavos e outros da Europa Oriental, a ACT vem sendo uma garantia de boa música.
Dentre as cantoras, a coreana Youn Sun Nah é a de maior prestígio internacional. Conta também com Victoria Tolstoy, que tem entre seus maiores atributos a beleza e o parentesco com o escritor russo Liev Tolstói. Natalia Mateo é uma das boas revelações. Diferente, é muito interessante.
Infelizmente, as canções do CD mais recente foram bloqueadas no YouTube. Mas como Mateo é uma intérprete que merece ser conhecida, ouça “Strange Fruit”, do penúltimo.
Não tive tempo de escutar todos os lançados pela ACT, mas dos que ouvi, “Father & Son”, de Ulf Wakenius, com seu filho Eric, é muito bom. Ouça o brilhante duo de violões, em “Birdland”, de Joe Zawinul.
Outras gravadoras
• Aki Takase & David Murray: “Cherry - Sakura” (Intakt)
• Akua Dixon: “Akua’s Dance” (self released)
• Andrea Motis: “Emotional Dance” (Impulse)
• Beata Pater: “Fire Dance” (B&B Records)
• Becca Stevens: “Regina” (GroundUP)
• Benny Green: “Happiness!” (Sunnyside)
• Betty Buckley: “Story Songs” (Palmetto)
• Billy Childs: “Reborn” (Mack Avenue)
• Bobby Watson: “Made in America” (Smoke Sessions)
• Cameron Graves: “Planetary Prince” (Mack Avenue)
• Chano Dominguez: “Over the Rainbow” (Sunnyside)
• Chick Corea: “The Musician” - 3 CDs + 1 DVD (Concord)
• Chris Thile & Brad Mehldau: “Chris Thile & Brad Mehldau” (Nonesuch)
• Christian Scott aTunde Adjuah: “Ruler Rebel” (Ropeadope)
• Christian Sands: “Reach” (Mack Avenue)
• Cuong Vu 4-tet: “Ballet | The Music of Michael Gibbs” (Rarenoise)
• Daniel Herskedal: “The Roc” (Edition Records)
• David Binney: “The Time Verses” (Criss Cross)
• David Gilmore: “Transitions” (Criss Cross)
• Dayna Stephens: “Gratitude” (Contagious)
• Diana Krall: “Turn Up the Quiet” (Verve)
• Dwiki Dharmawan: “Pasar Klewer” (Moonjune)
• Eliane Elias: “Dance of Time” (Concord)
• Enrico Pieranunzi: “New Spring | Live at The Village Vanguard” (Cam Jazz)
• Eric Alexander: Second Impression” (HighNote)
• Ethan Iverson: The Purity of the Turf” (CrissCross)
• Giacomo Gates: “What Time Is It?” (Savant)
• Jazzmeia Horn: “A Social Call” (Prestige)
• Jeremy Pelt: “Make Noise” (HighNote)
• Joey DeFrancesco: “Project Freedom” (Mack Avenue)
• Julian Lage & Chris Eldridge: “Mount Royal” (Free Dirt Records)
• Julian Lage: “Live in Los Angeles” (Mack Avenue)
• Kendra Shank & Geoffrey Keezer: “Half Moon | Live in New York”
• Kevin Eubanks: “East West Time Line” (Mack Avenue)
• Kurt Elling: “Sings Christmas | The Beautiful Day” (Okeh)
• Kurt Rosenwinkel: “Caipi” (Heartcore)
• Linda May Han Oh: “Walk Against Wind” (Biophilia)
• Madeleine Peyroux: “Secular Hymns” (Impulse)
• Matthew Stevens: “Preverbal” (Rodeadope 339)
• Miles Okazaki: “Trikster” (Salis Sea)
• Miroslav Vitous: “Ziljabu Nights” (Intuition)
• Noah Preminger: “Meditations on Freedom” (self released)
• Olivier Le Goas: “Reciprocity” (Neuklang)
• Omar Sosa & Seckou Keita: “Transparent Water” (Otá)
• Regina Carter: Ella: “Accentuate the Positive” (Okeh)
• Richard Galliano: “New Jazz Musette” (Ponderosa Music & Art)
• Roberto Fonseca: “ABUC” (Impulse!)
• Steve Nelson: Brothers Under the Sun” (HighNote)
• The Jazz at The Lincoln Center Orchestra: “The Music of John Lewis” (Blue Engine)
• Tigran Hamasyan: “An Ancient Observer” (Nonesuch)
• Tom Harrell: “Someting Gold, Something Blue” (HighNote)
• Troy Roberts: “Tales & Tones” (Inner Circle)
• Yelena Eckemoff: “Blooming Tall Phlox” (L&H)
• Yilian Cañizares: “Incocación” (Naïve)
• Yotam Silverstein: “The Village” (Jazz & People)
O tão esperado novo disco de Diana Krall é mais ou menos como o “tão esperado novo disco” de Marisa Monte. É mais ou menos o mais do mesmo. Não que isso signifique um trabalho ruim. “Turn Up the Quiet” é um bom disco, como qualquer outro dela. Diana chegou naquele ponto em que não faria coisa ruim, nem que quisesse. Esse álbum é resultado da competência adquirida pela experiência e talento natural. Ninguém vai dar cinco estrelas, porque não é superior aos seus melhores trabalhos. É mais jazz que os dois anteriores. O repertório de “Wallflower” era calcado em sucessos pops, como “Desperado”, dos Eagles, e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, de Elton John e Bennie Maupin. As canções de “Glad Rag Doll” são mais antigas; são temas que conheceu por meio das preferências de seu pai.
No setor de vozes, a boa novidade é a espanhola Andrea Motis. Com apenas 21 anos, Andrea transmite uma segurança não muito frequente para uma garota dessa idade. Lançou-se cedo na música, com 14 anos, participando da banda de Joan Chamorro, músico que tem revelado bons talentos em Barcelona. Motis tem futuro. É bela, é afinada e além de cantar, toca trompete, o que lhe dá um charme especial. “Emotional Dance” é seu primeiro álbum por uma gravadora maior.
O melhor dos álbuns vocais citados é o despojado “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux. Muito bom mesmo.
Veja Andrea Motis a cantar “He’s Funny that Way”.
Ouça “Tango till They’re Sore”, com Madeleine Peyroux.
Dessa avalanche de lançamentos, impossível ouvir todos para se fazer algum juízo. Dos aqui listados, gostei muito de “Sakura”, duo com Aki Takase e David Murray. Os dois são identificados como avant garde, mas perfeitamente palatáveis. Acompanho Murray desde “Low Class Conspiracy” (1976). Sou fã até hoje. “Sakura” é um dos meus preferidos do ano. Outros muito bons – vou pela ordem alfabética:
— “Akua’s Dance”, da excelente violoncelista Akua Dixon;
— “Happiness”, de Benny Green, excelente pianista;
— “Story Songs”, da cantora e atriz de musicais, como “Cats”, álbum duplo com temas de várias épocas, mas com temas mais contemporâneos, como os de Peter Gabriel, Sting, Leonard Cohen e Joni Mitchell;
— Tudo o que Billy Childs faz é bom. Inexplicável que não seja mais conhecido, tanto como compositor como tecladista e arranjador. “Reborn” é excepcional;
— O álbum de Chris Thile em duo com Brad Mehldau é bem interessante. Bandolinista e cantor, trafega à vontade no erudito, jazz e no folk. Lançou recentemente um CD com Yo-Yo Ma e Edgar Meyer, dedicado ao repertório de Johann Sebastian Bach;
— Christian Scott, que agora, assina Christian Scott aTunde Adjuah, tem novo CD na praça. “Ruler Rebel” não está entre seus melhores. Já seu xará, Christian Sands, manda bem com “Reach”, em sua estréia pelo Mack Avenue;
— Cuong Vu tinha impressionado em “Cuong Vu Meets Pat Metheny”. O vietnamita faz parte da banda de Pat e agora lança o belo “Ballet | The Music of Michael Gibbs”;
— “New Spring”, ao vivo no Village Vanguard, é mais um disco de Enrico Pieranunzi acompanhado de Scott Colley e Clarence Penn, nesses registros, com o saxofonista Donny McCaslin. O italiano é outro que nos álbuns recentes mantêm a qualidade em cima, como Eric Alexander, com “Second Impression”. É atualmente uma das vozes mais vigorosas do saxofone tenor. Ethan Iverson, pianista de The Bad Plus, em “The Purity of the Turf”, conta com outros companheiros: Ron Carter e Nasheet Waits. Ambos são garantia de boa música;
— Além de Diana Krall, na lista das vozes, temos Giacomo Gates, Jazzmeia Horn, Kurt Elling, Kendra Shank e Becca Stevens. De todos – Elling, Gates e Kendra Shank são veteranos –, a grande novidade é Jazzmeia Horn. Vencedora do Thelonious Monk International Jazz Vocal Competition de 2015, foi contratada pelo grupo Concord, por meio do selo Prestige (é um dos labels mais tradicionais do jazz e, vejam como essas mudanças são estranhas). Tem cancha e é craque nos scats e outros “truques” do jazz, o que pode levar a juízos equivocados, mas é boa, e se for bem assessorada, pode se transformar em uma das melhores cantoras.
Não é à toa que o álbum de estreia se chame “A Social Call”. Revela influências de Betty Carter. Ouça sua interpretação desse jazz standard.
Veja Kendra Shank, com Geoffrey Keezer.
Veja Aki Takase e David Murray, em “Bright Mississippi”, de Thelonious Monk.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Uma Madeleine Peyroux despojada
![]() |
| Capa de “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux |
Moda é moda. Como os amores, são passageiros. No fim do ano passado saíram novos álbuns de Norah Jones e Madeleine Peyroux. A primeira ainda é assunto, mas muito menos do que antes. Pouco se escreveu da primeira e de Peyroux, não lembro de ter lido alguma coisa. E olhe que em “Day Breaks” é acompanhada por músicos estelares do selo Blue Note, como Wayne Shorter, Brian Blade e o organista Lonnie Smith.
Vinte anos depois de seu debut, com “Dreamland”, Madeleine optou pela simplicidade em seu primeiro para o selo Impulse. A banda que toca com Peyroux em “Secular Hymns” é composta apenas de John Herington nos vocais e guitarra elétrica e Barak Mori no contrabaixo, além dela nos vocais e violão. Uma formação tão pequena é ótima para, como escreve J. Poet, na sua crítica na Downbeat, expressar “emoções conflituosas que marcam a condição humana.”
Madeleine conheceu uma pequena igreja na zona rural de Oxfordshire, quando convidada para um evento gastronômico em que sua apresentação era parte. Encantou-se com a acústica da St. Mary the Virgin, construída no século XII. Meses depois voltou ao lugar para gravar o álbum que teria como título “Sacred Hymns”. Ela reservou três dias, o primeiro para a checagem do som, o segundo uma apresentação ao vivo para a população local na igreja de 200 lugares. O terceiro dia, sem a audiência, serviu para o registro de novos takes.
As músicas escolhidas abrangem desde Stephen Foster, que viveu no século XIX, e é considerado o “pai da música americana” até composições mais atuais, como “Tango Till Theyre Sore”, de Tom Waits, “The Highway Kind”, de Thomas van Zandt, e um incrível reggae do cantor-poeta Linton Kwesi Johnson, que tem livro publicado pela tradicional Penguin. As outras são mais antigas: “Got You on My Mind”, “Everything I Do Gonh Be Funky” (não tenho certeza se é tão antiga; imagino que é da década de 1960), de Allen Toussaint, “If The Sea Was Whiskey”, de Willie Dixon, “Hello Babe”, de Lil Green e Kansas Joe McCoy, “Shout Sister Shout”, de Sister Rosetta Sharp, e “Trampin”.
De todas, na minha opinião, a melhor é a melancólica “The Highway Kind”, apenas ao violão. A segunda melhor é “Tango till They’re Sore”. Belíssima. Ouça.
Ouça “More Time”, do mestre Linton Kwesi Johnson.
Veja também “Everything I Do Gohn Be Funky (From Now On)”, do mestre Allen Toussaint.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Madeleine Peyroux com traje a rigor
![]() |
| Peyroux na capa do mais recente álbum |
Depois de ouvir The Blue Room por umas três vezes, fica-se a impressão de que é um tanto morno; não empolga. Não é uma crítica. Às vezes, uma orquestra “engessa” os solistas, mesmo que os arranjos sejam de Vince Mendoza, um craque. É uma Madeleine vestida a rigor. Até a capa transmite essa sensação.
The Blue Room foi concebido tendo-se como referência Modern Sounds in Country and Western Music, disco clássico lançado por Ray Charles em 1962. Larry afirma que esse disco foi importante na vida dele, porque fundia vários gêneros musicais americanos como o rhythm’n’blues, country music e jazz. Na época foi considerado transgressivo e causou boa celeuma.
Quando apresentou o projeto de gravar um disco que tivesse como referência esse álbum de Ray Charles, pensou logo em Madeleine por achar que o repertório dela se caracteriza por essa “mistura”. Madeleine “vestiu a camisa” – ou foi o smoking? Sugeriu algumas outras que poderiam se encaixar no projeto: Guilty (Randy Newman), Desperadoes Under the Eaves (Warren Zevon), Gentle on My Mind (John Hartford), e como não poderia faltar, mais uma de Leonard Cohen. A escolhida foi Bird on a Wire e é um dos destaques, junto com o clássico I Can’t Stop Loving You, a mais conhecida do LP de Ray Charles. As outras que ela regravou desse disco são Bye Bye Love, You Don’t Know Me, Born to Lose e I Love You So Much It Hurts.
Ouça Bird on a Wire.
Veja o vídeo de Changing All Those Things, composição de Buddy Holly.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Madeleine Peyroux anda pra frente com novo disco
Em vez de, simplesmente, refestelar-se noss louros da consagração ou no “não se mexe em time que está ganhando”, Madeleine Peyroux acaba de lançar um disco que é bem diferente do que gravou até agora. Diferente, seria exagero; sua melhor qualidade é certa despretensão. É um disco “relaxado”: parece que foi feito com alegria e descontração.
Quando lançou o primeiro disco Dreamland, em 1996, foi classificada como uma nova Billie Holiday em razão da semelhança de registro de voz. É possível que essa “herança” possa ter pesado. Apenas em 2004 lançaria seu segundo disco, Careless Love. Desde então, tem gravado com apurada constância e amplia o espectro do público: se era inclinado ao jazz, inicialmente, hoje, faz música que trespassa rótulos.
Quando lançou o primeiro disco Dreamland, em 1996, foi classificada como uma nova Billie Holiday em razão da semelhança de registro de voz. É possível que essa “herança” possa ter pesado. Apenas em 2004 lançaria seu segundo disco, Careless Love. Desde então, tem gravado com apurada constância e amplia o espectro do público: se era inclinado ao jazz, inicialmente, hoje, faz música que trespassa rótulos.
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| Madeleine Peyroux descontraída |
Em Dreamland, apesar do repertório eclético, seu produtor e descobridor, o A&R Yves Beauvais, por conta dessa semelhança com a voz de Lady Day, escolheu acompanhantes jazzistas por excelência, como James Carter, Regina Carter, Marcus Printup e Cyrus Chesnut. É nesse disco que Peyroux interpreta La vie en rose.
A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.
Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.
Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.
Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.
É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.
A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.
Ouça também Standing on the Rooftop.
A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.
Nesse hiato de 1996 a 2006 gravou Got You in My Mind, em 2004. Curiosamente, esse disco gravado com William Galison, portanto não considerado um solo de Peyroux, pode ser visto como uma ponte e um “elo perdido” que se reata em seu mais recente CD.
Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.
Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.
Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.
É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.
A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.
Ouça também Standing on the Rooftop.
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