quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Uma Madeleine Peyroux despojada

Capa de “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux
Desde a primeira vez em que ouvi Madeleine Peyroux, achei que ela tinha algo de especial. E não era pelo fato que a estava fazendo tornar-se conhecida: a semelhança de sua voz com a de Billie Holiday. E muito menos de que cantava nas estações de metrô de Paris antes de ficar conhecida.

Moda é moda. Como os amores, são passageiros. No fim do ano passado saíram novos álbuns de Norah Jones e Madeleine Peyroux. A primeira ainda é assunto, mas muito menos do que antes. Pouco se escreveu da primeira e de Peyroux, não lembro de ter lido alguma coisa. E olhe que em “Day Breaks” é acompanhada por músicos estelares do selo Blue Note, como Wayne Shorter, Brian Blade e o organista Lonnie Smith.

Vinte anos depois de seu debut, com “Dreamland”, Madeleine optou pela simplicidade em seu primeiro para o selo Impulse. A banda que toca com Peyroux em “Secular Hymns” é composta apenas de John Herington nos vocais e guitarra elétrica e Barak Mori no contrabaixo, além dela nos vocais e violão. Uma formação tão pequena é ótima para, como escreve J. Poet, na sua crítica na Downbeat, expressar “emoções conflituosas que marcam a condição humana.”

Madeleine conheceu uma pequena igreja na zona rural de Oxfordshire, quando convidada para um evento gastronômico em que sua apresentação era parte. Encantou-se com a acústica da St. Mary the Virgin, construída no século XII. Meses depois voltou ao lugar para gravar o álbum que teria como título “Sacred Hymns”. Ela reservou três dias, o primeiro para a checagem do som, o segundo uma apresentação ao vivo para a população local na igreja de 200 lugares. O terceiro dia, sem a audiência, serviu para o registro de novos takes.

As músicas escolhidas abrangem desde Stephen Foster, que viveu no século XIX, e é considerado o “pai da música americana” até composições mais atuais, como “Tango Till Theyre Sore”, de Tom Waits, “The Highway Kind”, de Thomas van Zandt, e um incrível reggae do cantor-poeta Linton Kwesi Johnson, que tem livro publicado pela tradicional Penguin. As outras são mais antigas: “Got You on My Mind”, “Everything I Do Gonh Be Funky” (não tenho certeza se é tão antiga; imagino que é da década de 1960), de Allen Toussaint, “If The Sea Was Whiskey”, de Willie Dixon, “Hello Babe”, de Lil Green e Kansas Joe McCoy, “Shout Sister Shout”, de Sister Rosetta Sharp, e “Trampin”.

De todas, na minha opinião, a melhor é a melancólica “The Highway Kind”, apenas ao violão. A segunda melhor é “Tango till They’re Sore”. Belíssima. Ouça.





Ouça “More Time”, do mestre Linton Kwesi Johnson.





Veja também “Everything I Do Gohn Be Funky (From Now On)”, do mestre Allen Toussaint.

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