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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Algum Jaco Pastorius menos conhecido

A banda Weather Report já era bem conhecida e adorada antes da entrada de Jaco Pastorius. Em sua primeira formação, contava com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira e participações de Do Um Romão. Vitous saiu e em seu lugar entrou o Alphonso Johnson. Apenas no sexto disco (Black Market, 1976), ainda com Johnson na maioria das faixas, Pastorius participa de duas e é autor de Barbary Coast. É em Heavy Weather (1977) que, efetivamente, torna-se membro da banda. Permanece nela por mais três álbuns de estúdio e é o baixista da turnê mundial que resultou no duplo 8:30. O Brasil fez parte dessa excursão. Tive a felicidade de vê-los no Rio de Janeiro.

Com Heavy Weather, a banda ficou realmente popular, muito por conta de Jaco. Era um baixista diferenciado com seu Fender fretless. Fez escola. O história do baixo elétrico pode ser dividida em antes e depois dele. Surgiu uma legião de imitadores. Suas apresentações eram marcantes. Uma camada de talco era jogada no chão para que ele fizesse a sua coreografia. Sua figura magra, com uma bandana prendendo os longos cabelos ou toucas multicoloraidas, chamava a atenção mesmo.

Como onde tem muito cacique a coisa desanda, Jaco saiu. Victor Bailey o sucedeu. Era bom baixista, mas foi alertado por Zawinul para que não ousasse ser um novo Pastorius. Sua passagem deve ter traumatizado um pouco Zawinul e Shorter, apesar da popularidade adquirida com a sua entrada.

Pastorius é natural da Florida. Bem conhecido no estado, ele toca em algumas faixas do álbum Ira Sullivan. O veterano multinstrumentista – tocava flauta, saxofone e trompete –, natural de Washington D.C., fugiu do frio e mudou-se no início dos anos 1960 para Miami. Era presença constante da cena local, sempre tocando em clubes e bares de jazz. Foi assim que Ira conheceu os iniciantes Pat Metheny e Pastorius.


Ouça Portrait of Sal LaRosa, do álbum Ira Sullivan (Horizon, 1976).




Pat Metheny, quando gravou seu primeiro álbum solo, pela ECM, chamou o seu conterrâneo. Bright Size Life tornou-se um clássico. Pat já estava pronto desde o começo. Participara da banda de Gary Burton e logo chamou a atenção de Manfred Eicher. O disco é uma obra perfeita. .

Ouça a música-título.




Outra boa participação dele é com Paul Bley, Pat Metheny e Bruce Ditmas no álbum registrado em 1974. É a sua primeira gravação profissional, e foi lançado anos depois pela Improvising Artists com o título Jaco, aproveitando da fama ascendente do baixista.

Ouça Vashkar, a faixa de abertura.





Boa particpação de Jaco, no início da carreira, é no álbum Trilogue, do trombonista Albert Mangelsdorff. Veja-os em Trio Song.





Veja a íntegra do show, de onde o disco se origina. É um inusitado power trio, tendo Mangelsdorff como líder. O trombonista arrasa, como sempre. Foreign Fun é um dos destaques. É a terceira faixa.





Pastorius era um gênio, mas tinha um gênio do capeta, e tocava o diabo. Depois de sair do Weather Report, continuou a se apresentar em pequenos clubes e sua carreira entrou em declínio em razão do temperamento instável. Acabou entrando em uma briga e foi morto na porta de um clube. Tinha 35 anos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sweetnighter, o disco funky do Weather Report

A imagem da contracapa de Sweetnighter
Quando Wayne Shorter e Joe Zawinul resolveram montar o Weather Report, já eram músicos respeitados e conhecidos. Tinham uma coisa em comum: participaram das formações de Miles Davis em épocas diferentes.

Zawinul estudou no Conservatório de Viena antes de emigrar para os EUA, em 1959, e entrar na Berklee School of Music de Boston. Apesar do aprendizado clássico, pelo jeito, seu interesse era pelo jazz. No início da carreira tocou com o trompetista Maynard Ferguson, acompanhou Dinah Washington, foi da banda de Cannonball Adderley e gravou um belo álbum com Ben Webster (Soulmates, Riverside, 1963) antes de entrar na banda de Miles Davis.

Shorter nasceu em Newark, região pobre de maioria negra, e formou-se na New York University. Tocou com Maynard Ferguson, também. Depois, entrou na banda de Art Blakey e rapidamente passou a desempenhar o papel de diretor musical. Entrou para a nova banda que Miles formou, com ele no saxofone, Herbie Hancock no piano, Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria. Esse quinteto foi um dos mais perfeitos da história do jazz. Tudo o que gravaram são obras-primas. Paralelamente, Wayne Shorter lançou vários discos como líder pela Blue Note. Hancock fez o mesmo. Ambos, bons compositores, são autores de vários standards que estão registrados nesses discos.

Depois da dissolução do quinteto, com Miles partindo para as suas aventuras eletrônicas, é a vez de Joe Zawinul entrar na vida do trompetista. É de sua autoria uma das composições que representam essa passagem de Miles: In a Silent Way. É o compositor também de Pharaoh's Dance, faixa de abertura de Bitches Brew, álbum divisor de águas do jazz.

Miles é o responsável – ou o “irresponsável” por desvirtuar o gênero – da nova vertente do jazz, que ficou conhecida por vários nomes: jazz fusion, jazz-rock, jazz progressivo. É sempre difícil classificar novas linguagens; é como essa história de pós-moderno ser depois do contemporâneo. Zawinul, um apaixonado por eletrônica, não ficou muito tempo com Miles. Tinha luz própria e não podia ficar ficar eclipsado pela sombra do mestre.

Joe e Wayne haviam se encontrado em outras oportunidades e não foi quando estiveram com Miles. Foi lá no início, com outro trompetista: Maynard Ferguson. Joe gostava de explorar as sonoridades dos teclados eletrônicos. Wayne nunca abriu mão do som acústico do saxofone tenor e do soprano. Mas a combinação revelou-se perfeita. Formaram o Weather Report, que viria a se tornar a grande banda do jazz fusion.

Se Miles empreendia uma grande revolução com Bitches Brew, a dupla análogo-eletrônica representou um avanço na exploração do jazz eletrônico. Na primeira formação, contaram com o baixista Miroslav Vitous, Airto Moreira e o baterista Alphonso Mouzon.

I Sing the Body Electric, título tirado de poema de Walt Whitman e do conto de ficção científica de Ray Bradbury, é o segundo álbum. Airto e Mouzon saíram e entraram outro brasileiro – Do Um Romão – e Eric Gravatt. Das sete faixas, as três últimas são registros ao vivo de uma apresentação em Tóquio. Algumas participações especiais são… especiais. A melhor é a de Ralph Towner, um dos grandes virtuoses do violão clássico no jazz, em The Moors, composição de Wayne Shorter.

Os dois primeiros discos, bem experimentais. eram de uma riqueza sonora muito original. Tinha algo das experimentações de Miles em In a Silent Way, pelas ambiências criadas por Zawinul, agora, não submetidas ao crivo do trompetista. Já eram admirados, mas não conhecidos como quando agregaram Jaco Pastorius à banda.

À primeira vista, Sweetnighter (Columbia, 1973) parecia descaradamente comercial. Passado o susto, ficava despudoradamente bom. Os temas eram melódicos, menos abstratos e experimentais. Era um prenúncio do som que ficou como marca mais característica do Weather Report a partir de Black Market. O álbum entre Sweetnighter e este – Mysterious Traveller – ainda tema muito a ver com os dois primeiros.

O início de Sweetnighter é matador. Em Boogie Woogie Waltz, além do contrabaixo de Vitous, há o baixo elétrico de Andrew White. A percussão é de Do Um Romão e Muruga, e a bateria, de Hershell Dwellingham.

Ouça Boogie Woogie Waltz.





Manolete, a segunda, é uma composição de Shorter. Os solos do sax são acompanhados por belas linhas de baixo. Ouça.




Adiós, de Zawinul, tem um pouco da atmosfera de suas outras composições.




Em 125th Street Congress, de Zawinul também, retomam os elementos funkies de Boogie Woogie Waltz, novamente com dois baixos, um elétrico e outro, acústico, e percussão de Do Um Romão e Muruga.




Will, a única composição de Miroslav Vitous, é um belo tema com ele no baixo elétrico, com Andrew White no corne inglês. É outro bom momento; menos funky e mais melódico.




A última é Non-Stop Home. Ouça. Com dois bateristas (Eric Gravatt e Herschell Dwellingham), apenas o baixo elétrico de Andrew White, sintetizadores pilotados por Zawinul, é um típica composição de Shorter, com ele no soprano.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Essa é pra quem gostava do Weather Report

Joe Zawinul, um dos criadores do Weather Report
O Joe em questão de Posting Joe é Joe Zawinul. O austríaco de sangue cigano começou no acordeão e foi para o piano, ainda criança. Estudou no Conservatório de Viena. Ganhou bolsa para estudar na Berklee School of Music. Ficou pouco. Caiu na estrada rápido. Tocou com Cannonball Adderley, acompanhou Ella Fitzgerald e Dinah Washington. Gravou um disco com o saxofonista Ben Webster e como solista, estreou na gravadora Atlantic. Entre o jazz e o erudito, ou o que foi chamado naquele tempo de “third stream”, ou no que se designa agora como “crossover”, sua música não negava as raízes européias.

Tempos depois passou a tocar com Miles Davis e tornou-se cúmplice da mais nova transformação do trompetista. In a Silent Way, álbum que representa a transição e o fim do grande quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, tem a participação de Joe como compositor do tema título,

O radio.string.quartet.vienna, depois de produzir um álbum em homenagem à Mahavishnu Orchestra (leia http://bit.ly/1345Bon), agora faz um tributo a Joe Zawinul e também à banda Weather Report, que liderou com Wayne Shorter. É curioso que uma formação essencialmente acústica como um quarteto de cordas tenha escolhido, justamente, duas bandas bem eletrônicas. Em apresentação ao vivo, tocam alguns clássicos como Birdland, Freezing Fire, Cannonball, Black Market e Volcano for Fire. O destaque, no entanto, é mesmo In a Silent Way, tema que é a passagem de Miles Davis para o jazz eletrônico e que vai desembocar no clássico Bitches Brew.

Ouça In a Silent Way, com o radio.string.quartet.vienna.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Volcano for Hire.



Ouça Volcano for Hire, com o Weather Report.


Veja o teaser do álbum Posting Joe.



Sobre Joe Zawinul, leia http://bit.ly/1348fuj