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terça-feira, 15 de março de 2016

O mundo “world” de Naná Vasconcelos

Naná, Don Cherry e Collin Walcott
Quase sempre o mundo te leva mas é preciso que você queira ser levado e, principalmente, ter o impulso para ele te levar. Juvenal de Holanda de Vasconcelos, que odiava ser chamado de Juvenal, segundo Matias José Ribeiro, era conhecido como Naná, que era como a avó o chamava.

Certo dia, Naná saiu do Recife e foi direto para o Rio de Janeiro, com passagem de ônibus custeada por Capiba. Encontrou-se com Milton Nascimento, como conta o cantor:

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

— Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

— Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo.”


Li uma vez: “A vida é um sutiã. Tem que meter os peito”. Tosco, não? Mas é verdede. Naná foi com a cara e a coragem e na outra semana estava gravando com Milton Nascimento. Daí, Naná foi sendo levado pela vida e os acasos.

O argentino Gato Barbieri estava no Brasil e viu Naná tocando com Milton. Impressionado, convidou-o a participar da gravação de uma trilha sonora. Saiu em excursão com o saxofonista e, a partir daí, ganhou o mundo.

Dança das Cabeças foi o primeiro álbum de Egberto Gismonti na ECM. O disco recebeu críticas entusiasmadas e ganhou cinco estrelas pela revista especializada em jazz Downbeat. Foi a abertura para o mercado internacional de Gismonti e Naná. O Brasil já os conhecia muito bem. Não foi novidade para nós o reconhecimento de seus talentos. Naná, antes, tinha gravado Africadeus (1972) e Amazonas (1973).

Gismonti firmou-se rapidamente lançando um disco atrás do outro tocando com Charlie Haden, Jan Garbarek e Ralph Towner. Teve inteira liberdade de desenvolver projetos pessoais e, inclusive, disponibilizar discos de sua gravadora Carmo, ligada à EMI-Odeon no Brasil, no mercado internacional. Se você quisesse comprar Nó Caipira, por exemplo, era necessário comprá-lo fora do Brasil, o que é bem incongruente.

Naná teve também seu quinhão. Participou de vários álbuns da ECM, tocando com Pat Metheny, Jan Garbarek e Pierre Favre, e em inúmeros projetos de outros que não eram desse selo. Pela ECM, lançou Saudades (1980), bom disco, mas inferior a Amazonas.

O novo som
A introdução de instrumentos como maracas, bongôs e timbales foram introduzidos na música americana com latinos que foram para os EUA, como Xavier Cugat, Perez Prado e Desi Arnaz. As orquestras que tocavam ritmos como a rumba e a salsa eram populares nas décadas de 1940 e 50. No jazz, Dizzy Gillespie foi um dos entusiastas e promotor de ritmos latinos. Quando se pensava em percussão, era automática a associação com essa música.

Em meados dos 1960, Airto Moreira, que fazia parte do Quarteto Novo, mudou-se para a América com sua mulher, a cantora Flora Purim. Com instrumentos desconhecidos dos americanos, como a queixada, surpreendeu-os. Foi tão importante que a Downbeat criou uma categoria nova, a percussão. Foi considerado o melhor por vinte vezes.

O reinado que parecia definitivo, deixou de ser quando ouviram Naná. Ele ampliou o universo da percussão. Era um mestre no berimbau, usava o corpo como instrumento, além de usar da voz, produzindo sons originalíssimos. Usando efeitos de eco e overdubs, sua voz se multiplicava com efeitos de pura magia. Naná era o feiticeiro dos sons que evocavam sons da floresta amazônica, de arbustos movidos pelo vento, cantos e revoadas de pássaros e grasnares. Foi oito vezes o melhor pela Downbeat.

Outro percussionista frequentava as listas dos melhores na categoria “miscellaneous instruments” e na percussão. Era tão original quanto Naná. Collin Walcott, que iniciara tocando com Paul Winter, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, que depois formariam a genial banda Oregon, era um ser diferenciado. Interessado pela música oriental, era um craque na cítara e na tabla. Como líder é autor de Cloud Dance (1977) e Grazing Dreams (1979), ambos pela ECM, dois discos especiais.

Don Cherry, que iniciara sua carreira tocando com Ornette Coleman, trumpetista e percussionista, era um apaixonado pelos ritmos africanos. Com Collin Walcott e Naná formou uma das melhores bandas que podem se classificadas como “world music”, o Codona, nome criado a partir das duas letras iniciais de cada um dos três. Sob esse nome lançaram três álbuns absolutamente excepcionais pela ECM.

Nos três discos, a predominância é de temas compostos por Collin Walcott. Os mais jovens, possivelmente, nem sabem quem ele é. Um acidente um tanto inusitado o matou quando tinha 38 anos, em 1984. Quem tem 30 anos hoje, nem tinha nascido. É bastante tempo. Em uma excursão que sua banda Oregon fazia pela Alemanha, o veículo que os transportava colidiu de frente com um automóvel. Walcott dormia no banco da frente sem o cinto de segurança.

O foco de Walcott era a música indiana. Foi estudar tabla na índia e teve aulas de cítara com Ravi Shankar. Os orientalismos de Collin foram capitais para o desenho do som do Oregon, em sua fusão da música indiana, a genialidade compositiva de Ralph Towner e a formação erudita de todos. Depois de sua morte, Trilok Gurtu entrou em seu lugar. Era bom, mas algo da essência do Oregon se foi com a morte de Walcott.

Depois do início avant garde com Ornette Coleman, Cherry passou a interessar-se pela música indiana e pela africana. A reunião de Naná, Walcott e Cherry aconteceu naturalmente, pois todos faziam parte do plantel da ECM.

O termo “world” é um tanto redutor do som deles. É genérico demais. Uma afirmação de Don Cherry é perfeita para o tipo de música que fizeram: “Quando as pessoas acreditam em fronteiras, elas tornam-se parte delas.” É assim que devemos pensar no som do Codona.

Melhor dizer que é inclassificável. Like the Sky, de Walcott, a primeira do primeiro Codona é um bom exemplo. Começa com uma flauta de Cherry com os sons da cítara de Walcott. Cherry alterna a flauta com seu pocket trumpet, O clima é melancólico, algo típico de Collin. Ao fundo, bem discretamente, ouve-se a voz de Naná, em registro bem grave. O andamento vai se modificando lentamente e sob o som da flauta, ouvimos Naná no triângulo e Walcott na tabla.

Sons como os da kalimba, do dúlcimer, o doussn' gouni, um tipo de harpa de origem africana, com cinco cordas, tocada por Cherry, a cuíca, o berimbau, a tabla, a cítara, as vozes, resultam em um som que não é brasileiro, americano, indiano ou africano. É uma música totalmente original e cosmopolita.

Dos três álbuns, acho o segundo o melhor. Em 2, a primeira é Que Faser, com “s” mesmo. Inclassificável. Godumaduma é um solo de Walcott na cítara. Malinye é uma composição de Cherry, um dos destaques desse álbum. Poética, é evocativa, com os sons da melódica e depois, o do trumpete.

Ouça Que Faser.




Ouça Malinye.



Dois dos melhores números estão em Codona 3: Lullaby e Inner Organs.

Ouça Lullaby.



Ouça Inner Organs.




Veja um trecho do Codona tocando. O instrumento que Don Cherry toca chama-se doussn’gouni.





Ouça Amazonas, de Naná Vasconcelos, na íntegra.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

A viagem de Naná Vasconcelos

Da esquerda para a direita, Naná, Don Cherry e Colin Walcott
Na matéria publicada na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo (12/5/2013), assinada por Carlos Bozzo Junior, Naná Vasconcelos conta sobre suas experiências com o LSD: “Foi bom tomar. Nunca tomei sozinho, mas em companhia de meus instrumentos. […] Quando a reação vinha, a primeira coisa que eu queria era tocar. Minha sensibilidade aflorava e eu ficava concentrado só na música.”

Antes dessas viagens fizera outras. No Recife ainda, conhecera um bailarino brasileiro radicado em Portugal. Com outros músicos montou o Quarteto Yansã e partiram, meio na louca, para Lisboa. Não encontraram o tal bailarino que prometera ajudá-los. Casualmente, encontrou Agostinho dos Santos, que também andava “perdido” por lá. Eles se conheciam por canta de ter participado de programas de televisão. Cantava em um navio. Com o pretexto de que precisava comprar alguns dólares, pediu ao comandante que lhe desse o passaporte e deu no pé. Andaram fazendo alguns shows. Agostinho, nessa época, já tinha participado da trilha sonora de Orfeu Negro, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, cantando A Felicidade.

Voltou para o Recife, mas já tinha pegado o gosto pela estrada. Foi para o Rio de Janeiro. Fez um “arranjo” com mestre Capiba, convencendo-o a representar Pernambuco no Festival “O Brasil Canta no Rio”, que pagou-lhe uma passagem de ida e volta. Sem muito dinheiro, no Rio, marotamente misturou-se aos integrantes do grupo Titulares do Ritmo e conseguiu hospedagem. Detalhe: os Titulares era um conjunto vocal liderado por Chico Nepomuceno de Oliveira e eram todos cegos.

O maracatu de mestre Capiba não ganhou. Conheceu o também pernambucano Geraldo Azevedo e foi parar em uma festa na casa de Milton Nascimento. Depois disso, o resto é história. Participou de grupos como A Sagrada Família, de Luiz Eça, e do Som Imaginário. Conheceu o saxofonista Gato Barbieri, autor da trilha de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e lá foi Naná para outra viagem.

Ficou por cerca de um ano em Nova York. Em turnê com Gato na Europa, resoveu estabelecer-se em Paris. Gravou Africadeus, seu primeiro disco como líder. Dois anos depois, em 1973, lançou pela Philips, Amazonas. Esse é antológico. Naná nem pode ser classificado como percussionista. Naná inventa sons, não apenas com o berimbau, com seu modo único de executá-lo, mas com vozes e consegue até fazer uma música que é feita apenas de risadas, como é Um Minuto, a faixa que fecha o LP.

Ouça Cara com Cara, do álbum Amazonas.




Além dos álbuns como líder, participou de gravações antológicas com Milton Nascimento. Seu trabalho em Milagre dos Peixes é algo que foge de qualquer classificação. Um álbum que abriu-lhe efetivamente as portas para o mercado internacional foi Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, para a gravadora ECM. Caindo nas graças de Manfred Eicher, gravou Saudades (1979) e participou de inúmeros trabalhos com Jan Garbarek, Pierre Favre e Pat Metheny.

O melhor de Naná, na minha opinião, está contido em três álbuns lançados pela ECM, Da reunião de três grandes músicos, resultou um grupo chamado Codona. Correspondem às duas letras iniciais de cada um deles. “CO”, de Colin Walcott, excepcional percussionista e citarista, membro da melhor formação do Oregon (ele, Ralph Towner, Glenn Moore e Paul McCandless), morto precocemente em um acidente besta (estava dormindo no ônibus e na colisão bateu a cabeça); “DO”, de Don Cherry; e “NA”, de Naná.

Como o mundo é constituído por infinitos círculos e por isso, pequeno, Gato Barbieri havia participado de algumas formações com Cherry. Gato tinha levado Naná consigo para os EUA e Europa. É provável que tenham se conhecido assim; ou por outras vias. Dança das Cabeças, de Gismonti e ele, foi gravado em novembro de 1976; Don Cherry participou da formação do Old and New Dreams, com Charlie Haden, Dewey Redman e Ed Blackwell; os quatro se conheciam há muito tempo: todos tocaram com Ornette Coleman. O quarteto lançou o primeiro disco pela italiana Black Saint, o segundo, em 1979, na ECM. No mesmo ano, por esta gravadora saiu o primeiro Codona. Os outros dois sairam em 1981 e em 1983.

Dos milhões de rótulos que surgem, esteve em voga o termo “world music”. Mais genérico impossível: pode ser música japonesa, árabe, africana, paquistanesa, indiana? O cantor e compositor fundador da banda de rock progressivo Genesis criou um selo chamado Real World e gravou músicos africanos, latinos, árabes e até da Oceania. Muitas vezes, o tipo de música produzida pelo Codona ficou assim rotulado. Esqueça. Considere apenas que é música de primeira, tocada e composta por três artistas geniais. Quando se mescla o pocket trumpet, flautas, doussn’gouni (o som lembra o da kalimba) e melodica de Cherry, tablas e cítaras de Colin Walcott, berimbaus, cuícas e vozes de Nana, realmente, fica difícil de classificar o som resultante.


Veja os três em apresentação em Nova York.




Ouça Que Faser (foi grafado com “s” mesmo), de Naná Vasconcelos.