quinta-feira, 30 de maio de 2013

A viagem de Naná Vasconcelos

Da esquerda para a direita, Naná, Don Cherry e Colin Walcott
Na matéria publicada na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo (12/5/2013), assinada por Carlos Bozzo Junior, Naná Vasconcelos conta sobre suas experiências com o LSD: “Foi bom tomar. Nunca tomei sozinho, mas em companhia de meus instrumentos. […] Quando a reação vinha, a primeira coisa que eu queria era tocar. Minha sensibilidade aflorava e eu ficava concentrado só na música.”

Antes dessas viagens fizera outras. No Recife ainda, conhecera um bailarino brasileiro radicado em Portugal. Com outros músicos montou o Quarteto Yansã e partiram, meio na louca, para Lisboa. Não encontraram o tal bailarino que prometera ajudá-los. Casualmente, encontrou Agostinho dos Santos, que também andava “perdido” por lá. Eles se conheciam por canta de ter participado de programas de televisão. Cantava em um navio. Com o pretexto de que precisava comprar alguns dólares, pediu ao comandante que lhe desse o passaporte e deu no pé. Andaram fazendo alguns shows. Agostinho, nessa época, já tinha participado da trilha sonora de Orfeu Negro, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, cantando A Felicidade.

Voltou para o Recife, mas já tinha pegado o gosto pela estrada. Foi para o Rio de Janeiro. Fez um “arranjo” com mestre Capiba, convencendo-o a representar Pernambuco no Festival “O Brasil Canta no Rio”, que pagou-lhe uma passagem de ida e volta. Sem muito dinheiro, no Rio, marotamente misturou-se aos integrantes do grupo Titulares do Ritmo e conseguiu hospedagem. Detalhe: os Titulares era um conjunto vocal liderado por Chico Nepomuceno de Oliveira e eram todos cegos.

O maracatu de mestre Capiba não ganhou. Conheceu o também pernambucano Geraldo Azevedo e foi parar em uma festa na casa de Milton Nascimento. Depois disso, o resto é história. Participou de grupos como A Sagrada Família, de Luiz Eça, e do Som Imaginário. Conheceu o saxofonista Gato Barbieri, autor da trilha de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e lá foi Naná para outra viagem.

Ficou por cerca de um ano em Nova York. Em turnê com Gato na Europa, resoveu estabelecer-se em Paris. Gravou Africadeus, seu primeiro disco como líder. Dois anos depois, em 1973, lançou pela Philips, Amazonas. Esse é antológico. Naná nem pode ser classificado como percussionista. Naná inventa sons, não apenas com o berimbau, com seu modo único de executá-lo, mas com vozes e consegue até fazer uma música que é feita apenas de risadas, como é Um Minuto, a faixa que fecha o LP.

Ouça Cara com Cara, do álbum Amazonas.




Além dos álbuns como líder, participou de gravações antológicas com Milton Nascimento. Seu trabalho em Milagre dos Peixes é algo que foge de qualquer classificação. Um álbum que abriu-lhe efetivamente as portas para o mercado internacional foi Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, para a gravadora ECM. Caindo nas graças de Manfred Eicher, gravou Saudades (1979) e participou de inúmeros trabalhos com Jan Garbarek, Pierre Favre e Pat Metheny.

O melhor de Naná, na minha opinião, está contido em três álbuns lançados pela ECM, Da reunião de três grandes músicos, resultou um grupo chamado Codona. Correspondem às duas letras iniciais de cada um deles. “CO”, de Colin Walcott, excepcional percussionista e citarista, membro da melhor formação do Oregon (ele, Ralph Towner, Glenn Moore e Paul McCandless), morto precocemente em um acidente besta (estava dormindo no ônibus e na colisão bateu a cabeça); “DO”, de Don Cherry; e “NA”, de Naná.

Como o mundo é constituído por infinitos círculos e por isso, pequeno, Gato Barbieri havia participado de algumas formações com Cherry. Gato tinha levado Naná consigo para os EUA e Europa. É provável que tenham se conhecido assim; ou por outras vias. Dança das Cabeças, de Gismonti e ele, foi gravado em novembro de 1976; Don Cherry participou da formação do Old and New Dreams, com Charlie Haden, Dewey Redman e Ed Blackwell; os quatro se conheciam há muito tempo: todos tocaram com Ornette Coleman. O quarteto lançou o primeiro disco pela italiana Black Saint, o segundo, em 1979, na ECM. No mesmo ano, por esta gravadora saiu o primeiro Codona. Os outros dois sairam em 1981 e em 1983.

Dos milhões de rótulos que surgem, esteve em voga o termo “world music”. Mais genérico impossível: pode ser música japonesa, árabe, africana, paquistanesa, indiana? O cantor e compositor fundador da banda de rock progressivo Genesis criou um selo chamado Real World e gravou músicos africanos, latinos, árabes e até da Oceania. Muitas vezes, o tipo de música produzida pelo Codona ficou assim rotulado. Esqueça. Considere apenas que é música de primeira, tocada e composta por três artistas geniais. Quando se mescla o pocket trumpet, flautas, doussn’gouni (o som lembra o da kalimba) e melodica de Cherry, tablas e cítaras de Colin Walcott, berimbaus, cuícas e vozes de Nana, realmente, fica difícil de classificar o som resultante.


Veja os três em apresentação em Nova York.




Ouça Que Faser (foi grafado com “s” mesmo), de Naná Vasconcelos.

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