quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Tristeza não tem fim com Rodrigo Amarante, felicidade, sim

Rodrigo Amarante (Eliot Lee Hazel/divulgação)
Há um tanto de gente que amava Los Hermanos. Outro tanto, odiava. Pessoas ou agrupamentos que despertam sentimentos exacerbados tende a ser sempre interessantes. Sem fazer parte de nenhum dos dois times, gosto de todos os álbuns lançados de Los Hermanos. Na única vez em que assisti a uma apresentação da banda, no Via Funchal, SP, fiquei impressionado com a veneração de seus fãs. Devia ter meia dúzia de gente sem pular. Eu era um deles.

Achava interessante ver uma banda tão anti-star. Aquele bando de homens barbados não era nenhum modelo pop. E a música deles era uma coisa que tendia à melancolia, um certo descaso pelo desejo de agradar. Poderia muito bem ser até pose de artista, daqueles que aparentam descaso pelo sucesso e, na verdade, são sedentos por ele. Mas a impressão de que não são “stars”, de certo modo, foi confirmada quando vi um rapaz muito alto, vestindo uma camiseta branca molambenta, meio encardida e uma bermuda larga, sentado em um restaurante frequentado por pessoas que trabalham nas proximidades, com uma mochila do lado. A barba e o narigão chamaram a minha atenção. Seria o Marcelo Camelo? Não podia ser. Em um lugar tão simples. A suspeita se confirmou quando vi chegar uma moça que foi sentar-se do seu lado. Era Mallu Magalhães, sua mulher. Sabia quem era, pois tinha ido ao lançamento do livro Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola e outros escritos, de Eleite Negreiros. A Eliete me disse que era sua prima. Acho que era isso.

Ao ouvir Los Hermanos, nunca soube identificar quem era quem, ou seja, quem era o compositor e quem cantava as músicas. Sempre achei que os dois eram um só. Existe algo em comum ou uma entropia que faz pensar assim. Continuo confuso. Ao ouvir Cavalo, o recém lançado CD de Rodrigo Amarante, fico mais confuso ainda. Sempre imaginara que a melancolia no som dos Los Hermanos era originária das composições de Marcelo Camelo.

Com exceção de Hourglass, o álbum consiste de “torch songs”. São canções de abandono, solidão, tristeza, ou como diz Amarante, de vazios. Sintomaticamente, toca todos os instrumentos. É o “bloco do eu sozinho”. E bote excentricidades em Rodrigo. Na matéria publicada na Folha de S.Paulo, recusou a ser fotografado e pediu que fosse publicada a foto oficial feita por Eliot Lee Hazel. Com a barba cada vez maior, mais parece com um Tolstói jovem. Mais uma esquisitice: a capa é uma não capa. Sem imagens, é uma capa com quatro colunas de texto, que vem a ser a ficha técnica do disco. Mas acerta no despojamento. Algumas canções são tocantes, lúgubres como os versos "Saudade/ Eu te matei de fome/ É tarde/ Eu te enterrei com a mágoa/ Se hoje não sei teu nome/ Teu rosto não me deu trégua/ Milagre seria não ver/ No amor essa flor perene/ Que brota na lua negra/ Que seca mas nunca morre", em Irene, mesmo nome de uma composição de Caetano Veloso. É o verso da alegria.


Ouça Irene.




Ouça a música título, a bela Cavalo.




O álbum já está sendo vendido na iTunes Store. Ouça-o na íntegra aqui.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Dois encontros com Oscar Castro-Neves

Capa com o autógrafo de Oscar Castro-Neves
Uma vez, voltando de Nova York, vi um senhor calvo de barba branca, cara de boa praça. Reconheci logo. Era o Oscar Castro-Neves. Estava bem perto de mim na primeira classe da American Airlines. Sou apenas mais um membro da nova classe média do ex-presidente Lula e, pela sorte de ter uma irmã trabalhando em uma companhia ligada à empresa, tinha o privilégio de viajar na primeira classe pagando ida e volta 500 dólares. Por uma boiada daquelas, valia a pena economizar um pouco e usufruir dos confortos de enfrentar uma viagem a um país estrangeiro.

Ao vê-lo saindo do avião, do meu lado, nem assim tive coragem de abordá-lo. Não era a Madonna, mas era um dos artistas mais importantes da segunda fase da bossa nova. Já em São Paulo, dei uma olhada nos jornais pela curiosidade de saber onde se apresentaria. Não lembro agora onde foi. Mas, na segunda vez que o vi, não deixei passar a oportunidade. Era uma apresentação no Bourbon Street, de São Paulo. Depois de findo o show, foi fácil chegar nele, sendo o lugar pequeno, com o camarim do lado esquerdo do palco. Contei-lhe do encontro anterior. Não tinha só cara de boa praça; era um boa praça. Ganhei até um autógrafo na capa de seu CD Playful Heart.

Bom, na sexta-feira passada (27/9), Oscar Castro-Neves morreu em decorrência de um câncer, com 73 anos. Brilhante violonista e arranjador, trabalhou com um mundareu de gente do jazz. Quase todo disco em que alguém desejava dar um toque de brasilidade lembrava-se dele para ser o produtor, arranjador ou, simplesmente, tocando violão. A lista é infindável: Dizzy Gillespie, Bud Shank, Toots Thielmans, Lalo Schiffrin, Ray Brown, Carol Welsman, Joe Henderson e o baterista Shelly Manne são alguns.

Castro-Neves participou daquele famoso show no Carnegie Hall que apresentou a bossa nova ao mundo, em 1962. Depois de idas e vindas, fixou residência em Los Angeles e tornou-se um dos músicos mais requisitados, até em projetos incomuns como participações em gravações de Michael Jackson, Barbra Streisand, Stevie Wonder e Yo-Yo Ma. Entre os violonistas brasileiros que mais gravaram fora do Brasil estão ele e Roberto Menescal.

A maestria de Castro-Neves no violão no medley Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá) / Prelude #3 (Villa-Lobos)