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| Rodrigo Amarante (Eliot Lee Hazel/divulgação) |
Achava interessante ver uma banda tão anti-star. Aquele bando de homens barbados não era nenhum modelo pop. E a música deles era uma coisa que tendia à melancolia, um certo descaso pelo desejo de agradar. Poderia muito bem ser até pose de artista, daqueles que aparentam descaso pelo sucesso e, na verdade, são sedentos por ele. Mas a impressão de que não são “stars”, de certo modo, foi confirmada quando vi um rapaz muito alto, vestindo uma camiseta branca molambenta, meio encardida e uma bermuda larga, sentado em um restaurante frequentado por pessoas que trabalham nas proximidades, com uma mochila do lado. A barba e o narigão chamaram a minha atenção. Seria o Marcelo Camelo? Não podia ser. Em um lugar tão simples. A suspeita se confirmou quando vi chegar uma moça que foi sentar-se do seu lado. Era Mallu Magalhães, sua mulher. Sabia quem era, pois tinha ido ao lançamento do livro Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola e outros escritos, de Eleite Negreiros. A Eliete me disse que era sua prima. Acho que era isso.
Ao ouvir Los Hermanos, nunca soube identificar quem era quem, ou seja, quem era o compositor e quem cantava as músicas. Sempre achei que os dois eram um só. Existe algo em comum ou uma entropia que faz pensar assim. Continuo confuso. Ao ouvir Cavalo, o recém lançado CD de Rodrigo Amarante, fico mais confuso ainda. Sempre imaginara que a melancolia no som dos Los Hermanos era originária das composições de Marcelo Camelo.
Com exceção de Hourglass, o álbum consiste de “torch songs”. São canções de abandono, solidão, tristeza, ou como diz Amarante, de vazios. Sintomaticamente, toca todos os instrumentos. É o “bloco do eu sozinho”. E bote excentricidades em Rodrigo. Na matéria publicada na Folha de S.Paulo, recusou a ser fotografado e pediu que fosse publicada a foto oficial feita por Eliot Lee Hazel. Com a barba cada vez maior, mais parece com um Tolstói jovem. Mais uma esquisitice: a capa é uma não capa. Sem imagens, é uma capa com quatro colunas de texto, que vem a ser a ficha técnica do disco. Mas acerta no despojamento. Algumas canções são tocantes, lúgubres como os versos "Saudade/ Eu te matei de fome/ É tarde/ Eu te enterrei com a mágoa/ Se hoje não sei teu nome/ Teu rosto não me deu trégua/ Milagre seria não ver/ No amor essa flor perene/ Que brota na lua negra/ Que seca mas nunca morre", em Irene, mesmo nome de uma composição de Caetano Veloso. É o verso da alegria.
Ouça Irene.
Ouça a música título, a bela Cavalo.
O álbum já está sendo vendido na iTunes Store. Ouça-o na íntegra aqui.

