quinta-feira, 7 de julho de 2016

O melhor dos mundos de Stan Getz e João Gilberto

No início dos anos 1960, Stan Getz era um músico com uma boa discografia e prestígio. Em 1943, estava tocando na orquestra de Jack Teagarden, portanto já era um veterano. Passou logo depois pelas bandas de Benny Goodman e Woody Herman. Nesta, ficou conhecido como um dos ‘four brothers”, com Serge Chaloff, Zoot Sims e Herbie Steward.

Como experiência de vida, em 1954, passou pela cadeia ao tentar roubar morfina em uma farmácia. Casamento desfeito, logo estava casado com a sueca Monica Silfverskiöld. Na nova vida, talvez para distanciar-se do ambiente das drogas, mudou-se com a mulher para Copenhagem. Teve dois filhos com ela e outro com a amiga Inga Torgner. Monica era compreensiva. Ela o amava. A Europa era boa com os músicos americanos expatriados. Stan sempre tinha um lugar para tocar.

No meio de tantos negros bons que tocavam em velocidades supersônicas, Getz era um judeu branco, bom também, mas não do bebop. Gostava da suavidade de Lester Young. No início dos anos 1960, não estava nem aí com a emergente bossa nova. O produtor Creed Taylor, sempre do olho nos dólares, pretendia gravar um álbum de bossa nova com o guitarrsta Charlie Byrd e precisava de alguém de renome para maior apelo comercial. Getz aceitou o convite um pouco por favor a Taylor. Jazz Samba ficou em primeiro nas paradas da Billboard e o saxofonista ganhou um Grammy pela melhor interpretação em jazz com Desafinado no ano seguinte. Fez pouco caso: mandou a mulher Monica para receber o prêmio. Uma observação: era um favor a Taylor, mas era uma oportunidade de ganhar alguns dólares. Alguns vícios são dispendiosos e ele devia impostos para o governo da Dinamarca.

Dinheiro não aceita desfeita e Getz como bom judeu, sabia disso. Percebeu que podia ganhar um bom dinheirinho, como diria Tom Jobim, e abraçou a bossa nova. No reboque do sucesso do primeiro, gravou Getz/Gilberto, com participação de Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, na época mulher do cantor violonista. Disse a Astrud que faria o disco se ela fizesse uma mescla de canções cantadas em português e inglês. O sucesso foi mais estrondoso ainda e ganhou mais um Grammy, e mais dólares. Resultado: quando precisa de algum, lembrava-se logo de João Gilberto e sua turma. No total foram quatro álbuns bossa nova pelo selo Verve.

João
Histórias sobre as esquisitices de João Gilberto são abundantes e até folclóricas. Desde sua mudança para o Rio de Janeiro, nunca pagou aluguel. Baixava na casa de alguém pedindo morada por algumas semanas até arrumar um lugar em definitivo. As semanas viravam meses, até ser expulso. Daí, arrumava outro amigo que pudesse acolhê-lo. Outra conhecida é a de que, em certa ocasião, quando fazia um show, um espectador, no fim da apresentação, disse ter ficado impressionado com a sonoridade do violão. João deu-lhe de presente. Detalhe: não era seu.

Ao passar a morar em Nova York, como lá não tinha amigos, provavelmente, teve que pagar aluguel, pela primeira vez na vida. Também, dinheiro não lhe faltaria daí em diante. A fama de esquisitão e de cantor genial atravessou o oceano. Excursionou pela Europa, morou no México, apresentou-se por duas vezes em O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina.

Depois dos álbuns iniciais lançados apenas no Brasil e os do mercado americano, não gravou mais nada nos anos 1960. Apenas em 1973, iria lançar o que ficou conhecido como o “album branco de João”, pela Polydor. Getz deve ter pensado: “João significa… dólares”. Em 1976, estavam novamente no estúdio, com uma diferença: Astrud Gilberto tinha virado “persona non grata”. Em seu lugar, entrou Miúcha, a nova mulher de João.

O título do álbum – The Best of Two Worlds – era perfeito para o reencontro. É um dos grandes discos da discografia de Getz, e de João, também. Um dos solos mais belos do saxofonista é o do início de Ligia. Miúcha está perfeita em Just One of Those Things, e João é genial na divertida Izaura, de Herivelto Martins, e em É Preciso Perdoar, de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo Costa. Quarenta anos depois, o álbum soa tão bom quanto em sua primeira audição.

Ouça Ligia.




João ’76
Não deve ter sido fácil convencer João a sair do apartamento. Getz queria promover o álbum lançado pela Columbia. Se por necessidade ou prazer, isso pouco importa, mas fizeram algumas apresentações, que aconteceram entre 11 e 16 de maio de 1976 no Keystone Korner, em San Francisco.

George Klabin, fundador da organização sem fins lucrativos Rising Jazz Stars Foundation, resolveu criar uma gravadora com a intenção de lançar registros inéditos de nomes importantes da história do jazz. Já estão disponíveis CDs de Larry Young (In Paris: The ORTF Recordings), Thad Jones and Mel Lewis Orchestra (All My Yesterdays), Bill Evans (The Lost Tapes from the Black Forest), e Stan Getz e João Gilberto (Getz/Gilberto ’76), dentre outros.

Na introdução, Getz diz o quanto aquele encontro é especial pelo fato de João, com sua voz cálida, sem vibratos ser um cara único e também por ele ser resiliente em apresentar-se. Fim de papo. O resto é música. Acompanhados por seu quarteto da época, com Joanne Brackeen ao piano, Clint Houston no contrabaixo, e Billy Hart na bateria, o protagonismo é do brasileiro e do saxofone tenor. Quase não se ouve o piano de Jonne, por exemplo.

Das onze músicas do álbum, descontado o bis, que é repetido, cinco são de The Best of Two Worlds. Extraídas de registros em fitas cassete, até que a qualidade sonora é razoável. Em termos de performance, o álbum em estúdio é superior, mas como Getz frisa no início, uma apresentação ao vivo de João é um acontecimento especial.

Ouça É Preciso Perdoar, de The Best of Two Worlds.




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