quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O presente de Natal de Tony Bennett

Todo mundo já fez seu “Christmas album”. Bem, nem todo o mundo. Você fez o seu? Eu não fiz o meu, portanto, esse “todo o mundo” é bem relativo. Mas, desde que existem discos, desde os velhos 78 (eram discos pesadíssimos prensados em celuloides que giravam numa velocidade alucinante sobre o prato de um pickup: era um festival de chiados e algum som), eram lançados na época de natal. O negócio do tal de Santa Claus é coisa séria no Hemisfério Norte. Até nós, colonizados do lado sul nos cansamos de assistir aos filmes americanos exibidos nos dias 24 e 25 de dezembro. E, mesmo aqueles mais distraídos, devem ter ouvido uma canção de natal cantada pela voz macia de Bing Crosby.

Na época do Natal, desde o cantor mais brega ao mais sofisticado, pode nos brindar com seu disco relacionado à efeméride, com resultados muito desiguais. Até no Brasil, alguns se aventuram em soltar seu disquinho comemorativo: puro colonialismo; não combina muito com os verões quentes.

Em uma rápida pesquisa no site da Amazon, descobrimos que Michael Bublé está lançando o seu, agora em 2011, chamado simplesmente Christmas; capa discreta: ele nem está vestido de Papai Noel ou coisa que o valha. Vemos também que a dupla moderninha She & Him lança o seu A Very She & Him Christmas. Para quem não sabe, a “she” é a dublê de atriz e cantora Zooey Deschanel e o “him” é M. Ward. Na primeira página, temos ainda James Taylor (JT at Christmas, 2006), e Andrea Bocelli (My Christmas, 2009), Se continuarmos a explorar, veremos que muita gente fez seu disco de natal; por essa razão é “todo o mundo”. (Leia “Diana Krall embrulhada para o Natal em http://bit.ly/u0HQZC).

O disco de Natal de Tony Bennett
Nesse “todo o mundo” não poderia faltar o de Tony Bennett, quase nonagenário e ativíssimo, que, depois da morte de Frank Sinatra, herdou o título de melhor cantor do mundo (mesmo que tenhamos de admitir que essas classificações de “melhor do mundo” são capciosas). Seu The Classic Christmas Album, recentemente lançado, não é uma coleção de canções inéditas; é uma compilação. Cinco delas são de Snowfall: The Tony Bennett Christmas Album, de 1968, com arranjos do competente arranjador Robert Farnon. Mais cinco são de A Swinging Christmas, de 2008, com arranjos do não menos talentoso arranjador Bill Holman. Outras são com seu mais tradicional acompanhante, o pianista Ralph Sharon, em quatro delas é acompanhado pela London Symphony Orchestra, e há uma em que faz dueto com Placido Domingo.

Mesmo considerando que esses “Christmas Albuns” não combinam bem com o espírito natalino brasileiro, é impossível não reconhecer a classe e elegância de Tony Bennett.

Em homenagem ao amigo Carlos Conde, que era apaixonado por Mel Tormé, ouça a clássica The Christmas Song, arranjada por Robert Farnon (Clique em “skip this add” para fugir da publicidade inicial).




Ouça na interpretação de seu compositor. A música foi composta em 1944.



Aos amigos, um Natal com muitos presentes.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Minha primeira vez com Jaco Pastorius

Pastorius empunha seu Fender Jazz Bass
Antes de entrar na banda de Joe Zawinul e Wayne Shorter – o Weather Report –, em 1976, Jaco Pastorius já era conhecido dos colegas músicos. Dizem que Pastorius, em uma apresentação do Weather Report, em Miami – o baixista nasceu em Fort Lauderdale, Flórida –, abordou Zawinul e lhe falou de que havia gostado, mas esperava mais, que estava faltando “alguma coisa”; e se apresentou como o melhor baixista do mundo. Na insistência, fez com que chegasse até Zawinul uma fita demo. O resto é história. Mais tarde, com os acontecimentos posteriores, ficou público que Pastorius era bipolar, e como acontece com usuários de drogas, cocaína principalmente, era megalomaníaco e um tanto “sem noção”. Teve fim inglório: levou uma surra de um leão de chácara em uma boate da Flórida e morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral. Tinha 36 anos. Louco como andava, a carreira também tinha desandado (sobre isso, leia em http://bit.ly/vczRcR). O responsável por sua morte, Luc Havan, ficou quatro meses preso; foi solto por bom comportamento. Pelo menos, ao contrário de muitos usuários de cocaína que cheiram para se sentirem poderosos, “criativos” e “inteligentes”, Jaco era gênio e não precisava disso para ser “melhor”.

Pastorius entrou no meio das gravações do disco Black Market. Bastou. Suas composições e intervenções no baixo o consagraram. Fazia o diabo com seu Fender Jazz Bass sem trastes. A primeira vez que o ouvi em disco foi no disco Ira Sullivan (Horizon, 1976). Ira Sullivan – toca trumpete, flugelhorn, saxofone e flauta –, apesar de pouco conhecido, é um tremendo músico. A aversão por viagens foi empecilho: baseou-se na Flórida e pouco saiu de lá desde então (creio que, atualmente, está aposentado, pois faz muito tempo que não ouço falar dele). O fato de tocar com frequência nos clubes locais deve tê-lo feito “trombar” com o, ainda jovem, Pastorius. Em 1974, estava fazendo parte do quinteto de Ira. No disco lançado pela subsidiária da A&M Records, o baixista participa de apenas uma faixa: Portrait of Sal La Rosa. Foi o suficiente para perceber que se estava diante de um músico diferenciado.

Em 1974, foi lançado um disco pela Improvising Arists em que, sem título, apenas trazia os nomes de seus participantes: Paul Bley, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Bruce Ditmas. Era, essencialmente, um disco do pianista Paul Bley; todas as composições eram, ou dele, ou de Carla Bley que, por um tempo foi sua mulher.

O grande disco anterior a 1976 é Bright Size Life (ECM, 1975), primeiro disco solo de Pat Metheny. Esse é um clássico, em vários sentidos. Pat começou muito cedo. Antes de completar 20 anos estava na banda do vibrafonista Gary Burton como segundo guitarrista (o primeiro era Mick Goodrick). Era tão bom que chamou atenção do chefão da ECM, Manfred Eicher. Em Bright Size Life teve como sidemen Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses. Nem parecia disco de estreante de tão bom que era. Metheny nasceu pronto, assim como Pastorius. Por meio desse disco ocorreu meu segundo contato com o som do baixista.

A primeira e única vez que vi Pastorius tocando aconteceu num longínquo ano em um festival de jazz no Ginásio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1980. O som era péssimo e o público carioca queria só diversão, ouvir era o de menos. Para se ter uma ideia, McCoy Tyner se apresentou, e o som era tão ruim que ninguém deu a mínima para o grande mestre do piano; foi deprimente. Outra atração foi Pat Metheny e sua banda. Lembro que os “avant-garde” Art Ensemble of Chicago eram outro destaque; na última hora, cancelaram: decepção. A apresentação mais impactante mesmo foi a do Weather Report. Ao lado dos mestres Wayne Shorter e Joe Zawinul, Jaco Pastorius foi uma atração à parte. Com uma fita prendendo-lhe os longos cabelos, parecia um índio. Passaram algo como um talco no chão para facilitar-lhe os movimentos. Estava ligado em uma tomada de 220 volts; não parava quieto e mexia com os dedos da mão direita a toda hora, dando a impressão de que estavam doloridos pela força com que dedilhava as cordas. O ponto alto foi um longo solo em que tocava um trecho de Portrait of Jenny. Inesquecível. Quem viveu isso não esquecerá nunca.

Leia também “Joni Mitchell e o jazz”: http://bit.ly/j141Y4

Ouça Pastorius em Portrait of Sal LaRosa.



Ouça e preste atenção no solo de Pastorius em Midwestern Nights Dream, a quinta faixa de Bright Size Life.