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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O acumulador que deu certo


Uma linha tênue separa o colecionador do acumulador. Meu receio é o de não saber de que lado estou. Sempre comprei em quantidade, vinhos, charutos, sabonete, azeite de oliva, em suma, qualquer coisa.

Mais por distração, presumo, lembro de o acúcar está acabando. Vou ao mercado e, ao guardá-lo, vejo que tinha um pacote fechado na despensa. Nesses dias, além do açúcar, vi tenho em dobro, feijão carioca. 

Não acho que meu caso seja patológico, apesar de ter mais que três mil DVDs e Blu-Ray e mais de sete mil CDs, além de milhares de livros espalhados pela casa em prateleiras, inclusive no banheiro, esta, destinada à música e ao cinema, o que pode me classificar no gênero “colecionador”, mas não no de “acumulador”.

Nessa classificação, não conheci alguém que ganhasse, se houvesse um concurso, do seo José. Tendo convivido durante anos com ele, passando muitos fins de semana no sítio perto de Campinas, fiquei sabendo de muitas histórias, contadas pelos seus filhos, e algumas, que presenciei. Lembro de uma vez em que comprou um quilo de orégano. Dona Palmira, sua mulher, distribuiu saquinhos de orégano para quem aparecia na sua casa.

No tempo em que a linha telefônica era cara e difícil de se adquirir, tinha mais de dez. Bom, aí existia uma coisa objetiva: alugava e levantava um bom dinheiro. Com isso, alguns imóveis e uma boa aposentadoria como funcionário público, pode-se dizer que conseguia viver confortavelmente.

Ele tinha uma maneira sui generis de complementar a aposentadoria. Um exemplo: quando o metrô foi inaugurado, em 1974, comprou 1.000 bilhetes. Li em algum jornal, talvez há cerca de dez anos, em que se dizia que o preço do bilhete valorizou mais que qualquer aplicação financeira, mais que poupança ou ações. Não sei se ele tinha essa visão de grande investidor ou estrategista financeiro. Como bom descendente de português, acumulava e gastava pouco.

O famoso “tijorola”

Logo que o telefone celular foi lançado, quando você tinha ficar na fila para conseguir comprar um, ser José comprou duas linhas. Lembro que sua filha foi uma das primeiras pessoas que conheci que possuía o que era conhecido como “tijorola”. Explico: a primeira marca a surgir foi a Motorola, que dominou por anos o mercado, junto com a Nokia, que veio logo a seguir. O aparelho era enorme. Lembro também que os exibidos de plantão adoravam se mostrar com eles presos na cintura. Sempre tem um metido por mór. O ex-deputado federal Carlos Benevides, filho de Carlos Mauro Cabral Benevides, que foi senador entre nas anos 1970 e 80, ficou famoso porque gostava de se exibir com dois celulares, um em cada lado da cintura. Deram-lhe o apelido de “o mais rápido do Oeste”, remetendo aos pistoleiros dos westerns americanos.

Muitos leitores provavelmente nem vão saber dos famosos orelhões da Telesp. Foi uma criação genial de uma designer brasileira, uma derivação das cabines telefônicas de antigamente. Para utilizá-los eram necessárias as fichas telefônicas, de formato redondo, como as moedas, com uma ranhura no meio. Você inseria as fichas para poder fazer a ligação. Todo mundo andava com essas fichas no bolso para o caso de terem que ligar para alguém. Digo todo mundo porque todo mundo andava mesmo com as tais fichas porque era o único modo de se telefonar quando se estava na rua. Pois então, sei José tinha 1.500 delas em casa. Quando ficaram obsoletas, com o surgimento dos telefones móveis, algo tinha que ser feito. Um dos filhos levou-as até uma central da Telefônica e recebeu o valor correspondente em dinheiro.

domingo, 27 de junho de 2021

De jegue

Tenho uma admiração muito grande pelo meu lavador de carros, aliás, do meu e de muitos outros da redondeza. Trabalhava como empregado em um Lava-Carros que fica a três quarteirões da minha casa. Um dia, resolveu deixar de ser empregado. Comprou um fusquinha velho e, com um primo, passou a lavar carros a domicílio. Bom de papo, nordestino de boa conversa, “roubou” vários clientes. Em pouco tempo, eram tantos os que usavam de seus serviços que ambos, deixaram de pagar aluguel e compraram suas casas.

Raimundo, esse é o seu nome, é magro de voz forte. Da minha casa sei quando está por aqui. Enquanto lava, aspira e seca os automóveis, não para de falar, cumprimenta quem passa, conta piadas e é amigo de todo mundo. Aí, quando vejo que meu carro está necessitado de uma lavagem, vou lá falar com ele. Responde: “Agora não dá, pois tenho quatro carros programados para agora. Tem que agendar. Dá uma ligada marcando.”

Quando lava meu carro, fico conversando com ele. Gosto do sotaque e do modo como falam. Têm sempre uma resposta na ponta da língua. Adoro papear com eles. Em certa feita, dobrou a esquina uma Mercedes, cantando pneus. Freou perto de onde estávamos, com um sorriso que mostrava todos os dentes. Raimundo diz a ele: “Tá querendo se mostrar? Garanto que lá em Pernambuco você só pilotava jegue.” Quem dirigia era o manobrista de uma churrascaria perto de casa.

Lembrei da história ao ler que o presidente, em reação aos protestos de “Fora Bolsonaro”, “Genocida”, ao entrar em um avião, disse que os insatisfeitos deviam estar viajando de jegue e não de avião.

Tenho enorme respeito pelo Raimundo, um nordestino que veio para São Paulo e venceu, e nunca por um idiota capaz de dizer isso aos que o acham, isso mesmo, um idiota, imbecil, com falta total de empatia. Quer mesmo é que todos morram. Respeito mais os jegues e, por ele, não tenho nenhum.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Réguas diferentes

Em toda a minha infância nunca soube da existência de uma parte do boi: o filé mignon. Em Passos, MG, cidade em que morei até os 11 anos, quando se comia um bife, o normal era a alcatra ou o contra filé.

Um tempo depois de mudarmos para São Paulo, pela primeira vez na vida, soube que existia o filé mignon.

Minha mãe sempre foi partidária da participação de todos nas tarefas domésticas. Tornei-me o comprador oficial de carne. Até hoje, olhando para as peças em um açougue, reconheço cada corte. Se era carne moída, a escolha era o patinho, para os bifes a rolê, o coxão mole ou o duro. Os bifes do dia a dia eram sempre de alcatra. Minha mãe dizia: “Só compra alcatra se tiver passado do meio da peça.” A carne é mais dura no começo dela. Nesse caso, a instrução era para comprar contrafilé. É uma coisa que não esqueci.

Morando em São Paulo, ao descobrir da existência do filé mignon, fiquei com vontade de experimentar. Minha mãe, no entanto, mantinha-se irredutível. Continuava na alcatra. Seu argumento: “Filé mignon é uma carne sem graça, seca e é para banguelas.”Bom, pra que discutir com a mãe?

Deve ter demorado uns cinco anos para que eu pudesse comer filé mignon pela primeira vez. Ela, inexplicavelmente, mudou de opinião e os bifes quase diários mudaram para esse corte.

Comida de rico. Apesar da infância de sacrifícios, meu pai era de hábitos requintados. Por exemplo, jogava golfe. Quando minha irmã foi para a Escandinávia, deu-lhe dólares para que trouxesse caviar, salmão defumado e enguia defumada, que ocuparam dois terços de sua mala na volta. Na década de 1970, eram itens da mesa de ricos, o que não era o nosso caso. 

Sempre participei dos afazeres domésticos. Meu pai adorava fazer festas em nossa casa no bairro do Morumbi. Sobrava para minha mãe e sua auxiliar, a empregada doméstica da vez. No apuro, virei o terceiro auxiliar: batia maionese na mão, cortava cebola, picava alho e ficava a acompanhar o cozimento dos alimentos. Desse modo, adquiri uma certa habilidade com os utensílios domésticos e com a cozinha. 

Meu pai chegava sempre por volta das 19h. A mesa já estava sempre posta. A peça de salmão defumado era de respeito, uns 40 cm., assim como a enguia defumada. Eu era o cortador oficial. Todas as noites, fatiava o salmão em finíssimas lâminas e a enguia em rodelas de menos de um centímetro de espessura. Durante semanas, diariamente, foi o menu de jantar do meu pai. O resto da família, exceto eu, nunca foi chegado em coisas do mar.

Em um das vezes em que o menu incluía filé mignon, enquanto se esbaldava com o caviar — comia de colherada —, salmão e enguia defumada, veio com essa: “Vocês ficam comendo filé mignon… e nem imaginam o tanto de gente que não tem nem tem o que comer!” E nós, mudos, olhando para a cara dele, impávida, a deliciar-se com iguarias pouco comuns em mesas de comensais da classe média.

sábado, 24 de outubro de 2020

Flerte

Um termo que caiu em desuso é “flerte”, ou melhor, ninguém mais flerta. Um dos significados, segundo o dicionário Houaiss é “fazer a corte”. Nem “corte” é mais usado em nossos dias, pronunciado com o circunflexo e não com acentuação aguda, que significa outra coisa ainda.

Reencontrei com uma colega de faculdade que, por coincidência, morava no mesmo prédio de uma amiga íntima.

Dias depois, liguei para M, sua vizinha, e contei que tínhamos combinado de sair. Com a liberdade — ou liberalidade — das verdadeiras amigas, daquelas que dizem tudo sem receios, que te aconselham, e até te recriminam, disse: “Vai com calma! Ela é minha amiga e você não vai cair matando.” Bom, nunca fui de cair matando. Sou tímido. Sempre fui cuidadoso, até demais. 

Fiz o que ela disse. Saímos para jantar e conversamos muito. Eu a conhecia pouco. Estudamos na mesma turma por um semestre e sequer era da turma com quem andava. Lembrava bem dela porque era muito bonita.

Curiosa, M ligou-me no dia seguinte e perguntou como tinha sido o jantar. Disse que tínhamos combinado de sair novamente. Não satisfeita de ter me orientado do que fazer uma vez, deu-me os próximos passos. “Leve-a para jantar em um local mais perto da sua casa e depois você pode convidá-la para assistir a alguma ópera no seu telão. Sei que ela gosta muito. Mas você não vai cair matando em cima dela!”

Pois fiz tudo nos conformes. Coloquei a “Flauta Mágica”, do Mozart. Conversamos sobre a cenografia, sobre os cantores. Entendia de ópera mesmo. Bom, a história termina aqui. A partir desse dia, nunca mais permiti que minha amiga palpitasse sobre como devo agir nessas situações.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A morte e as 72 virgens

O uso de artefatos explosivos sempre foi a modalidade mais comum nos atentados perpetrados por movimentos considerados terroristas, como o dos bascos, do IRA e dos árabes Causaram muitos estragos e mortes no continente europeu. Eram deixados em logradouros públicos de grande circulação ou em automóveis estacionados e, em vários casos os alvos almejados eram figuras públicas adversárias consideradas inimigas ou adversárias desses movimentos separatistas.

Uma modalidade, porém, pode ser considerada exclusiva dos árabes: a dos homens-bomba. Haveria a promessa de que no Paraíso os mortos seriam recebidos por 72 virgens. Talvez seja por isso a prevalência de homens nessa modalidade, mas até como forma de despistar um ou outro atentado foi praticado por mulheres. Objetivamente, seria mais fácil disfarçar ou esconder as bombas sob as vestes femininas.

Minha quase chegada ao paraíso. Embarcamos bem cedo, do aeroporto de Cumbica, para Montevidéu. Foi minha última viagem em um Boeing-747, minha aeronave preferida. 

O hotel, meio antigo, ficava na avenida da praia, mas próxima da região central da cidade. Depois de andar bastante, de almoçarmos no Mercado, acabamos entrando em um shopping porque ela queria comprar um creme. Preferi dar uma explorada por outras lojas. Uns quinze minutos depois, voltei e ela continuava na loja. Preferi esperar no lado de fora, já um pouco impaciente e irritado com a demora, de cócoras, com as costas encostadas na parede. 

Quando a vi saindo, devo ter levantado rapidamente e ter tido uma queda abrupta de pressão. Desmaiei. Na queda, bati a cabeça com certa violência e foi essa a razão de ter recobrado os sentidos no instante seguinte. Ao abrir os olhos vi três jovens moças agachadas perguntando se eu estava bem. Ela, não sei se pelo susto, nem se abaixou. Vi seu rosto e de mais umas cinco pessoas em pé observando. Fui levado para a enfermaria do shopping. Disse que estava bem e saímos em pouco tempo. 

Mesmo em momentos graves, mantenho um certo senso de humor. “Achei que tinha morrido. Quando vi aquelas três belas garotas, achei que eram as primeiras virgens das 72 que me esperavam no paraíso”, disse. Ela ficou fula com a minha observação. Mas, passou. O resto da viagem foi deliciosa. Um dia volto a Montevidéu. Sem virgens.


Como música é vida, assista a um show da marroquina Amina Aloui, genial. Interpreta canções de raízes muçulmanas, em árabe, em espanhol e em português.

 
 
Quer saber mais sobre ela? Tem um texto no meu blog sobre ela: A viagem de Amina Alaoui


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A Ítaca de Leonardo Padura


“The Big Chill” (1984), de Lawrence Kasdan, é um filme que trata de amigos que fizeram a Universidade e se reencontram  — por isso, no Brasil, o título “Reencontro” — quinze anos depois, por um motivo amargo: o suicídio de um deles. Passam o fim de semana juntos. Algo da pureza e da alegria dos tempos de estudante se desfez.

 Há uma certa semelhança com “Retorno a Ítaca”, de Laurent Cantet, diretor do premiado “Entre os Muros da Escola” (2008), com roteiro do escritor Leonardo Padura. A Ítaca dele é Cuba. 

Em vez de o reencontro ser em uma casa de campo, acontece em um terraço de um prédio bem no meio da cidade de Havana. O pretexto de se reunirem é a volta de Amadeo, que morou por muito tempo em Barcelona e resolve voltar para a sua terra natal. A semelhança entre ficção e realidade é clara para os que conhecem o escritor. Apesar da decadência econômica e política, sem ser um dissidente, é um crítico do regime e, mesmo assim, optou por se fixar em Cuba.

São amigos há 40 anos. Tania é uma médica que ganha uma miséria, Rafa, um pintor desiludido, que submergiu no alcoolismo, Aldo, o único negro do grupo, que é quem mais acreditou no regime socialista de Fidel Castro, e, por último, Eddy, o único que se deu bem economicamente, comendo pelas bordas, como diria Leonel Brizola. 

A riqueza do filme está na qualidade dos diálogos. O terraço, ou melhor, a laje, é o cenário para a síntese das ilusões e desilusões, de sonhos desfeitos, da luta diária pela sobrevivência, das misérias de cada um, daquele que resolveu, em vez de perseguir a carreira de escritor, preferiu se dar bem e, de certo modo, ter virado um “merda”. Frente às censuras dos amigos, afirma: “Me deixei transformar num merda. É verdade. Mas não me roubaram a vida. Me roubaram o sonho de ser escritor. Mas a vida, não.”

A desilusão está em cada diálogo ou confissão. Aldo é personagem do sonho do socialismo que se desfez. Sabe disso. “Sempre acreditamos e nos encheram de medo. E sabem por que? Porque queríamos acreditar e não contestávamos. Tínhamos que ser puros, sinceros e honestos. Os filhos da mãe sabiam, e nos encheram de medo!” Tania, a médica, diz a Amadeo: “Muitas vezes penso e digo — Meu Deus! —, dá vontade de morrer. E sabe o que é pior? A gente não morre. Continua aqui. […] Não dá para saber, se todo o sofrimento impede de você viver. Dá para viver assim? Droga!”

Há passagens emocionantes. Não é para quem gosta de filmes de ação. É para quem prefere mergulhar nos dramas humanos. “Retorno a Ítaca” está disponível no Globoplay.

Um Bola de Nieve para fechar.



domingo, 13 de setembro de 2020

Buzina

A buzina, nos carros, existe para alertar o outro, seja um pedestre ou um outro veículo. Como qualquer invenção, mesmo sendo para o bem, pode achar o seu espaço para o mal. Se é lenda ou não, dizem que Santos Dumont morreu desgostoso ao perceber que sua invenção poderia ser uma poderosa arma para a guerra.

Estava chegando ao estacionamento em que deixava meu carro diariamente. Bem na entrada, um senhor estava parado a admirar um outdoor de uma pin-up da revista Playboy. Buzinei para que ele permitisse que eu entrasse no estacionamento. Nada. Buzinei novamente. Saí do carro para falar que ele precisava sair da frente. Descobri então que ele era surdo e mudo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre elegância e o meu casaco Samira

Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.

A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.

Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.

Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.

Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.

Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono. 

Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.

Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente. 

Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Chifrada


Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
 
(publicada em 3 de maio de 2020 no Facebook)

Olho de vidro

Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.

Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.

Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.

Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”

sábado, 5 de setembro de 2020

Vinho envelhecido

Passado o período de experiência – três meses –, chegou o dia de ser apresentado ao futuro possível sogro, em grande estilo. Não sei se em grande estilo, mas com certo estilo. O lugar do encontro seria em um sítio distante uns cem quilômetros de São Paulo..

Saímos, programados de chegar perto da hora do almoço. Há sempre uma expectativa nesses encontros. O lugar era simples, despojado e agradável. Sentamos na varanda e perguntou-me se bebia algo. Educadamente, respondi que podia ser qualquer coisa. Fiquei sentado na varanda, observando a vegetação um pouco ressecada, ouvindo o som resultante do vento que atravessava uma plantação de eucaliptos à minha esquerda.

Logo veio “seo” José com uma taça de vinho e o depositou sobre a mesa ao lado da minha cadeira. Não era de muitas palavras. E eu, “abandonado”, com alguém que conhecera há poucos minutos, senti um certo constrangimento no ar. Mas, aprendi, com o tempo, a lidar melhor com essas situações. Hoje, se alguém puxar uma conversa, consigo falar sobre qualquer assunto, desde o mais banal, como futebol (que mal acompanho), sobre o tempo (é o quebra gelo mais habitual), e tenho um conhecimento além da média quando o assunto é música, literatura e artes plásticas.

Porém, não foi fácil achar assunto com ele. Era um sujeito calado e, se imperasse o silêncio por alguns minutos, principiava a cochilar. Era o primeiro encontro, afinal. Com um pouco de dificuldade, conversei sobre amenidades, tentando causar boa impressão.

Depois de mais ou menos meia hora, percebeu que eu mal tocara no vinho. O que me servira estava vinagre puro. Levantou-se e trouxe uma outra garrafa e outra taça. Experimentei. Mesma coisa. A marca era Gatão, bem popular no fim do século passado. Os vinhos da Península Ibérica não tinham a fama nem a reputação de hoje. Eram considerados de segunda, e eram mesmo, pelo menos os que vinham para o Brasil. A exceção eram os vinhos do Porto.

Chateado, disse: “Puxa, vou ter que jogar uma caixa inteira, que tinha comprado há quinze anos!” Com o convívio mais amiúde, descobri que tinha o hábito de comprar tudo em grandes quantidades. Chegou, em certa ocasião, a comprar um saco de um quilo de orégano, suficiente para abastecer um rede de pizzarias por mais de uma ano. Bom, mas essa é para uma outra história.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma reprodução do terno e belo texto de Humberto Werneck sobre Elisabeth Bishop



Reproduzo aqui, sei que que é um ato licencioso, mas é porque é a melhor coisa que li sobre Elisabeth Bishop, depois dessa celeuma de que apoiou a ditadura militar, tinha uma visão negativa sobre o Brasil, etc.

O texto:

Um porto na montanha
Elizabeth Bishop e a linda casa mineira onde viveu alguns de seus melhores anos de Brasil
Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo
03 de dezembro de 2019 | 03h00

De dezembro de 1951 a abril de 1974, a aventura brasileira de Elizabeth Bishop, a homenageada da próxima Flip, estendeu-se por 22 anos – alguns deles, os anos finais, vividos em Ouro Preto, sobretudo depois da morte de sua companheira, Lota de Macedo Soares, em 1967. A cidade não tomou conhecimento da grande poeta americana. Nós, os então jovens escritores de Minas, também não. Hoje, leitor apaixonado de tudo o que ela escreveu, carrego a frustração retroativa de ter cruzado com Elizabeth em Ouro Preto, talvez nas madrugadas de Belo Horizonte, sem me dar conta de quem estava ali. Consolam-me as histórias que saltam de seus livros e, em especial, da memória de seus (e meus) amigos Linda e José Alberto Nemer, vinhetas que um dia reuni com a pretensão de iluminar ainda mais a personagem que Marta Góes tão lindamente recriou na peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’. 

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Ela adorava aquela casa, construída entre 1698, dois anos após a descoberta do ouro na região, e 1711, quando Ouro Preto foi elevada à condição de vila. Comprou-a em 1965 e não teve outra na vida, a não ser o apartamentinho de Boston onde morreria em 1979. Tinha, dizia Elizabeth, “o telhado mais lindo da cidade”, cuja forma lhe sugeria “uma lagosta deitada de bruços”. Batizou-a Casa Mariana, não por estar plantada à beira do caminho que leva a essa cidade, mas em homenagem à poeta americana Marianne Moore, mestra e amiga. Perfeitamente conservada, pertence hoje aos irmãos Nemer.

*
“Gosto de Ouro Preto”, explicou Elizabeth ao poeta Robert Lowell, “porque tudo lá foi feito ali mesmo, à mão, com pedra, ferro, cobre e madeira. Tiveram que inventar muita coisa – e tudo está em perfeito estado há quase 300 anos.” Não havia mudado de opinião cinco anos mais tarde, numa entrevista ao Jornal do Brasil: “De Ouro Preto, gosto sobretudo das coisas que são feitas aqui. Os móveis, os utensílios do século 18 são sólidos. O clássico não me atrai, o que importa é a durabilidade – aqui as coisas permanecem”.
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Elizabeth tinha dois gatos, Suzuki e Tobias, dados a se aconchegar. “Eles gostam de experimentar o colo das visitas”, explicava.
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Adorava café na cama. Levantava-se, fazia um tanto de coisas – e, de volta às cobertas, pedia o breakfast. Gostava de variar de bandeja e caneca, que tinha em profusão. Quando Anny Baumann, sua médica e amiga, foi passar uns dias na Casa Mariana, tratou de incorporá-la a esse desjejum na alcova. Tratavam-se de “Dra. Baumann” e “Miss Bishop”, mas a intimidade daquele desalinho matinal acabou estimulando a médica a propor uma quebra em tamanha cerimônia: “Já que nós tomamos café de camisola”, anunciou, “vou te chamar de Elizabeth”. Mas a amiga continuou a chamá-la de “Dra. Baumann”.
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Acordava e punha logo um disco. Janis Joplin, Bob Dylan – ou Joan Baez, cujas letras copiava, esperançosa de ensinar inglês a Linda Nemer. Queria traduzir Não Identificado, de Caetano Veloso, mas esbarrou na impossibilidade de passar para o inglês a conotação fonográfica embutida em “disco voador”.
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Teve uma jovem empregada, Vitória, e cuidou de vesti-la com uniforme, meias três-quartos e o mais. Para ensinar-lhe inglês, escrevia nas coisas os nomes que as designavam – window, table, chair... A cozinha da Casa Mariana era inteirinha escrita em inglês.
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Seu talento era também culinário. Preparava pratos indianos (trazia curry dos Estados Unidos), lombo de porco com purê de maçã, abobrinha ao forno, geleias, conserva agridoce de legumes, tortas de maçã e de limão... Bem americana, tinha termômetro para controlar o cozimento da carne, colherinhas para medidas exatas, panelas dinamarquesas com design dos anos de 1940. Inda há quem se lembre da batida de limão de Elizabeth Bishop.
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Bebia muito, muito, e quase sempre na cama – onde também costumava escrever, o caderno apoiado numa prancheta. Começava com uísque, descia para a cachaça. Depois de esvaziá-la, rolava a garrafa para baixo da cama. Não se levantava mais, e não via noite nem dia. Cantava, ria, chorava, conversava com imaginários interlocutores. Jamais agressiva. Virava um trapinho, obedecia às ordens que lhe dessem. Tinha dia de chamar Vitória, chamar o chofer e tocar para a casa de Linda, em Belo Horizonte: “Não aguento mais, me salva!”. A amiga lhe dava o confortável quartinho dos fundos e encarregava Dilza, a empregada, de preparar um suco de laranja, uma comidinha leve. Elizabeth, que era cheia de pudores, ficava constrangida quando a chamavam para a mesa – não queria que reparassem nas mãos trêmulas da bebida.
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Ao sentir que já não dava conta do alcoolismo, pedia para ser internada. Levavam-na então para a clínica Pinel, em Belo Horizonte. Depois passava uns dias na casa dos Nemer, antes de retornar a Ouro Preto. Atravessava romances policiais, estoques que o caçula José Alberto, jovem artista plástico, seu xodó, ia renovar na livraria. Pintava aquarelas em papel ingres que Linda comprava na Livraria Oscar Nicolai. E adorava engraxar sapatos – seus e de todo o pessoal da casa. Divertia-se também polindo a prataria. (Falava de duas “besteiras” que, entre muitas, nunca fez: vender a prataria e mexer no capital.)
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Belo Horizonte, disse em carta ao poeta James Merrill, era “a cidade mais feia do mundo”. Mas acabou descobrindo ali “alguns lugares bastante apresentáveis, até divertidos”, entre eles “um restaurante maravilhoso” (provavelmente o finado Tavares, especializado em caça) e um boteco onde, além de batidas “de todos os sabores possíveis”, topou certa vez com “cerca de sete poetas às duas da manhã”.
*
Foi com Linda à serra da Piedade, nas cercanias de Belo Horizonte, e decidiram almoçar. O cozinheiro veio lá de dentro com o bife espetado no garfo. De tão batido, ficara quase translúcido. Elizabeth não parava de rir: “Eu vou comer um pedaço de renda...”. 
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De passagem por Ouro Preto, umas grã-finas do Rio, amigas de Lota, foram visitar Elizabeth. A filha de uma delas, mocinha, lhe perguntou o que fazia na vida. “Sou escritora”, respondeu. “Ah”, disse a outra, “pensei que a senhora trabalhasse...”
*
Uma noite Elizabeth improvisou um serão lítero-musical, com uma gente simples que provavelmente conhecera em botequins ouro-pretanos. Um dos convidados ia em meio à exaltada declamação de um poema quando irrompeu na sala, esbaforida, uma jovem americana, amiga de Elizabeth, trazendo um guardanapo que abriu teatralmente no centro da roda: “Escorpião! Escorpião!”. Parou tudo. A dona da casa voltou-se para o desacorçoado declamador: “Você, que é poeta, entende as tristezas que a gente passa...”.
Ela entendia.


E Bishop gostava de Janis Joplin e Bob Dylan.

De 1962/63, ou será 1964. “Girl from the North Country”.




Nada mais anímico do que “Ball and Chain”. A sua apresentação no Festival de Monterrey é inesquecível.



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Pra cima com a viga, moçada

Chuvas, tempestades, terremotos e tsunamis têm castigado o mundo. No meio de tanta desgraça, quase despercebidamente, J.D. Salinger, autor de “Apanhador no Campo de Centeio” morreu. É um livro que marcou algumas gerações posteriores à Segunda Grande Guerra e é bem possível que as atuais ainda sejam capazes de se impressionar com as desventuras de Holden Caulfield. Uso “morte” em vez de “desaparecimento” pois Salinger há muito tinha “desaparecido”. Do mesmo modo que é estranho a alta exposição a que estão sujeitos até profissionais não exatamente ligados ao show business — como os escritores — é também o “deixem-me só” de JDS. Não é o único. Já houve Rimbaud — era mais fácil “sumir” antigamente —, e depois do autor de “Apanhador”, temos o exemplo de Thomas Pynchon e, no Brasil, o de Dalton Trevisan.


Jack White, Jimmy Page e The Edge.
Em uma matéria numa publicação americana, acho que no New York Times, ficamos sabendo que Salinger circulava tranquilamente na pequena Cornish, New Hampshire, e gostava de ir à igreja pelos almoços com rosbife que lá eram oferecidos a US$ 12 e era visto sempre a fazer as compras no supermercado Price Chopper. Nada mais prosaico para quem ficou conhecido como “o” misterioso escritor.

É muito reducionista — e até maldade — relacionar a sua importância à influência “maldita” que possa ter tido sobre alguém como Mark David Chapman, que assassinou John Lennon. Parece que “Apanhador…” era seu livro preferido e o carregava quando descarregou sua arma acertando quatro tiros no cantor após pedir um autógrafo. É fazer pouco de alguém que, com sua obra, influenciou mais de uma geração. Depois de “Apanhador…”, li quase tudo o que escreveu — o que não é muito – e em muitas ocasiões, tratei de presentear amigos e amigas que não conheciam JD. Mas meu livro preferido é “Nove Estórias”. Sempre gostei de títulos. Atraiu-me pela estranheza, o conto “Um Dia Ideal para os Peixes-Banana”. Tornou-se um dos meus preferidos.

“Raise High the Roof Beam, Carpenters”, em sua primeira tradução no Brasil, chamou-se “Para Cima com a Viga, Moçada!” e saiu pela Editora Brasiliense. Na outra tradução, de Jorio Dauster, pela Companhia das Letras, chamou-se ‘Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira”. Prefiro a primeira porque o “Para cima” me parece mais enérgico e tem mais a ver com os “clamores” da juventude.

Salinger é pretexto apenas para o título deste texto e também por representar uma época em que houve a explosão de uma das manifestações musicais mais poderosas: o rock. Independente de considerar-se uma manifestação da baixa cultura, como muitos pensam, foi uma ferramenta poderosa para uma radical transformação nos costumes. Foi ferramenta e também foi fruto. E qual é o instrumento ícone do rock: a guitarra. É o instrumento em que o acústico torna-se elétrico, amplificando-se em poderosos decibéis.

Davis Guggenheim (diretor do filme catástrofe “Uma Verdade Incoveniente”) conseguiu juntar três grandes guitarristas de diferentes gerações e montar um documentário. É um prato cheio para os amantes do rock e até para os nem tanto. “A Todo Volume” (‘It Might Get Loud”), título desse filme feito em 2008, passou quase despercebido pelo público ao ser exibido comercialmente. Vi na Mostra Internacional de Cinema em 2009 e digo que gostei. Sem muita autocrítica. Paixões não são lá muito autocríticas. Que prazer! Lembrou-me que na minha adolescência apaixonara por Led Zeppelin e pela guitarra de Jimmy Page e também que, ao descobrir o outro — este com “i” e um “m” — passava meus dias a ouvir seus discos. Faço parte de um em milhões de pessoas.

As três gerações são Jimmy Page, dos anos 1960/70, The Edge, da banda U2, uma das mais longevas do universo do rock — estão na estrada desde início dos anos 1980 e continuam bons —, e Jack White, do White Stripes. É incrível o respeito que um tem pelo outro: cada um aprendeu com o outro e admiram-se. É incrível que o Led Zeppelin ainda impressione o adolescente dos anos 10 deste século. São 40 anos de lá para cá. A guitarra poderosa de Jack White, nos primeiros discos do White Stripes, são puro Page. E isso não é demérito. E a White cabe tocar com um de seus ídolos.

É um verdadeiro presente àqueles que gostam de rock, difícil de descrever. É melhor vivê-lo assistindo a esse filme. É uma sinergia incrível quando tocam juntos os hoje clássicos da dupla Page & Plant, como “In My Time of Dying” ou “I Will Follow”, um dos primeiros sucessos do U2. E é demais ver como a pulsão primordial do rock continua viva nas mãos de jovens como Jack White, brilhante guitarrista e cantor. Sua energia não se esgota em vários discos lançados pela banda White Stripes e seus outros projetos como a banda Raconteurs e, mais recentemente, o Dead Weather.

O final do documentário guarda uma pérola: os três interpretam “The Weight”, uma das grandes composições de Robbie Robertson, do The Band. O DVD foi lançado em duas versões, a normal e em BluRay.

quinta-feira, 22 de março de 2018

A rosa e e.e. cummings

A rosa. Técnica mista sobre papel.
Na época em que cursava a FAU-USP, conheci a poesia de e.e. cummings, provavelmente, por intermédio de Augusto de Campos, em algum jornal, a Folha de S.Paulo, imagino, em seus cadernos matinais de cultura. Cursava uma matéria optativa em que o tema eram livros. Fiquei amigo do Haron Cohen, um dos professores, em razão do interesse por livros, não apenas pelos seus conteúdos, mas pelos projetos gráficos.

Em algum momento, e.e. cummings entrou na roda. Contou-me sobre uma edição que saíra pelo Ministério da Educação, em 1960, com dez poemas do americano traduzidos por Augusto de Campos. Lembro-me de que a primeira troca que fizemos foi com “Seis Contos da Era do Jazz”, de Scott Fitzgerald, que guardo até hoje. Fiz uma cópia do livro de e.e. cummings e troquei uma “Bio. Autobiografia de Jorge Luis Borges”, de Juan Fresán, um livro de imagens e texto sobre o escritor.

O livro editado pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação, continha os dez poemas e várias correspondências trocadas entre Cummings e Augusto de Campos. explicativas do método de compô-las nas páginas. A máquina de escrever era um instrumento importante da poesia dele. Não havia nela o que existe na tipografia dos computadores e na fotocomposição, que é a compensação de espaços entre as letras. Essa não variação da entreletra, é conhecida como “monospaced”, ou em português, “mono-espaçado”. Quase toda poesia do americano está baseada na construção gráfica que resulta do mono-espacejamento. Raramente usava letras em caixa alta (maiúsculas) – até no nome, grafado sempre em letras minúsculas –, ao quebrar as palavras dava a elas outros sentidos, e, depois da pontuação, com frequência não abria um espaço. Era a sua grande originalidade e que atraiu os nossos poetas concretistas, que se valeram muito do aspecto gráfico para construir as suas poesias.

Veja na ilustração que os espaços são determinados pelos pontos assinalados.



Em uma poesia tão construtiva, o aspecto formalista predomina e é normal que se pense em uma literatura fria, mas, ao mesmo tempo em que é engenhoso em descrever o salto de um gafanhoto, como no poema acima, cummings tinha uma enorme veia lírica, que se extravasava em amor e sensualidade. Um exemplo é o poema abaixo.


somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A belíssima crônica de Luís Henrique Pellanda que faz lembrar um conto do Agualusa

Nem sempre é aquele livro considerado pela crítica como uma obra prima que estará entre as preferidas de cada leitor. Incluem-se questões como a do gosto, cultura, momento, identidade e outras variáveis. E não somos obrigados a ter o gosto dos outros. Penso nisso para tentar descobrir por que até hoje tenho lembranças vívidas do conto “A noite em que prenderam Papai Noel”, de José Eduardo Agualusa, lido em 2005 (tenho o costume de anotar as datas de quando leio).

Durante quarenta anos, Pascoal foi o zelador da piscina. Os frequentadores gostavam dele, tratavam-no bem, davam-lhe palmadas nas costas e diziam: “Pascoal, o único preto em Angola que tem casa com piscina”, ou “Pascoal, o preto mais branco de África.” Pois, Pascoal nascera albino. Andava sempre com enormes óculos escuros para proteger os olhos em seu trabalho de cuidar da piscina.

Com o fim do status de colônia portuguesa, “seus dias felizes haviam chegado ao fim.” Os portugueses foram embora e viu guerrilheiros invadirem e saquearem casas e a água límpida ficar amarelada e ser invadida por sapos. Os negros não gostavam de Pascoal. Eles não gostam de albinos. Um exemplo disso é Salif Keita, um dos intérpretes africanos mais conhecidos e chamado de “a voz de ouro da África”, descendente direto de Sundiata Keita, fundador da república do Mali, que foi expulso da família ainda adolescente por ser albino. Na maioria das regiões do continente consideram uma maldição. Sobre essa questão, que é muito séria, leia matéria que saiu na Folha. Acesse o link por aqui.

Pascoal passou o diabo na mão dos guerrilheiros e soldados. Resolveu criar galinhas e vender ovos para comprar água nova e cloro, para ver a piscina limpa novamente. Os soldados apareceram atrás das galinhas. Não as encontrando, deram-lhe uma surra. E ainda ouviu: “Esse albino está armado em arrogante. Deve pensar que é branco, vejam só, um branquinho de imitação.” 

Com o acirramento da guerra, com aviões sobrevoando o lugar, uma das bombas destruiu a piscina. Pascoal ficou a vagar pelos escombros até que uma tropa de soldados brancos e chapeuzinhos azuis o levaram para um hospital em Luanda. Refeito, passou a viver nas ruas. Em um dia de calor infernal de dezembro, um indiano, dono de um supermercado viu aquele velhinho de barba branca e o contratou para ficar fantasiado de Papai Noel — “Papai Natal”, na expressão local —, distribuindo prendas às crianças e convidando as pessoas a entrar no estabelecimento.

Bem, em vez de um resumo, é melhor a leitura do original. Transcrevo aqui as páginas finais:

Ao fim da segunda semana, quando a loja fechou, Pascoal decidiu não tirar o disfarce e foi naquele escândalo para a cervejaria. O General viu-o e não disse nada. Serviu-lhe a sopa em silêncio.

— Faz muita miséria neste país —, queixou-se o velho enquanto sorvia a sopa —, o crime recompensa.

Nesta noite não sonhou com a piscina. Viu uma senhor muito bonita descer do céu e pousar na beira da mesa de bilhar. A senhora usava um vestido comprido com pedrinhas brilhantes e uma coroa dourada na cabeça. A luz saltava-lhe da pele como se ela fosse um candeeiro.

— Tu és o Pai Natal —, disse-lhe a senhora. — Mandei-te aqui para ajudar os meninos despardalados. Vai à loja, guarda os brinquedos no saco e distribui-os pelas crianças.

O velho acordou estremunhado. Na noite densa, em redor da mesa de bilhar, flutuava uma poeira incandescente. Voltou a enrolar-se no cobertor mas não conseguiu adormecer. Levantou-se, vestiu-se de Papai Natal, pegou no saco e saiu para a rua. Em pouco tempo chegou à Mutamba. A loja brilhava, enorme na praça deserta, como um disco voador. As Barbies ocupavam a montra principal, cada uma no seu vestido, mas todas com o mesmo sorriso entediado. Na outra montra estavam os monstros mecânicos, as pistolas de plástico, os carrinhos eléctricos. Pascoal sabia que se partisse o vidro dessa montra, conseguiria passar a mão através das grades e abrir a porta. Pegou uma pedra e partiu o vidro. Já estava a sair com o saco completamente cheio, quando apareceu um polícia. No mesmo instante, atrás dele, acendeu-se uma acácia, na esquina, e Pascoal viu a senhora a sorrir para ele, flutuando sobre o lume das flores. O polícia não pareceu dar por nada.

— Velho sem vergonha — gritou — Vais dizer-me o que levas nesse saco?

Pascoal sentiu que sua boca se abria, sem que fosse essa a sua vontade, e ouviu-se a dizer:

— São rosas, senhor.

O polícia olhou-o confuso:

— Rosas? O velho está cacimbado…

Deu-lhe um forte tapa com as costas da mão. Tirou a pistola do coldre, apontou-a à cabeça dele e gritou:

— São rosas? Então mostra-me lá essas rosas!…

O velho hesitou um momento. Depois voltou a olhar para a acácia em flor e viu outra vez a Senhora
sorrindo para ele, belíssima, toda ela uma festa de luz. Pegou no saco e despejou-o aos pés do guarda. Eram rosas, realmente – de plástico.

Mas eram rosas.

O cronista de Curitiba
Tenho o costume de ler jornais velhos. Vou pegando os “Cadernos 2” do Estadão, que vão se juntando sobre a mesa. De vez em quando, fico a lê-los e recortando matérias que considero interessantes. Quando são mais longas, deixo de lado, para serem lidas mais tarde. Assim, vou perdendo a referência de datas. Em um deles, o Estadão dedica a primeira e a última página a um cronista de Curitiba, de que nunca tinha ouvido falar: Luís Henrique Pellanda. Além da matéria e da entrevista, há um box assinado por Ivan Ângelo que é só elogios. Com uma recomendação dessas, impossível. Fui atrás e achei no site da Amazon. “Nós Passaremos em Branco” (Arquipélago Editorial, 2011) estava à venda por R$ 9,90.

Dois dias depois, o livro chega. Antes de deitar, resolvo dar uma olhada para matar a curiosidade. A primeira crônica, “O homem com a menina no colo” já me impressionou e, por alguma razão, lembrei-me imediatamente do conto citado acima.

Leia a crônica de Pellanda. Não entendo muito a proibição da publicação de textos pela internet. Entendo que seus autores devem receber pelo que escrevem, mas em muitas ocasiões, como essa, estão servindo como divulgação. Para não ter o trabalho de redigitá-lo, recorri e achei no site da Revista Outros Ares (https://outrosares.wordpress.com/), que imagino ser do PAraná.

O homem com a menina no colo

Na Pracinha do Amor, sou eu o homem com a menina no colo. Paramos ali todos os dias, a caminho da creche, para observar o vaivém dos pombos. A menina gosta deles, fazer o quê? Cumprimenta o busto de Romário Martins, manda beijos ao historiador de bronze, ri ao localizar uma garça no telhado da sinagoga, mas um joão-de-barro logo rouba sua atenção, ganha facilmente a preferência do nenê. O bicho corre por baixo de um banco úmido de madeira, se esconde entre tufos de flores que não sei classificar. Funcionárias? Nome triste para uma flor. Os canteiros têm o formato de estrelas, e é fácil enxergá-las do nosso apartamento no nono andar, principalmente no meio do ano, quando as árvores estão secas, as copas, invisíveis, e olhamos mais pela janela.

Além da que está no meu colo, há outra menina na praça. Não se move e, por isso, não chama a atenção da criança que carrego. Deitada na grama, dorme entre duas estrelas floridas. Tem uns dez anos, o cabelo louro-escuro, e veste uma calça de pijama bege, encardida como os pombos, uma blusa de moletom azul-marinho e um boné masculino sobre o rosto apagado. Nos pés, duas sandálias fugitivas, de tiras de borracha, e o clichê das solas sujas, a pele grossa de piche.

A praça está quieta, são oito e meia, posso permanecer ali mais dois minutos. Na esquina da Ébano Pereira com a Saldanha Marinho, descubro a mulher de vestido preto. Confiante, bolsinha de couro no ombro, desfila meio século de batalhas perdidas. Está acima do peso, uns sete, oito quilos, mas adivinho que já teve a cintura fina e a cabeleira viva, e sem querer reconstruo a juventude daquele corpo forte que diagonalmente penetra a Pracinha do Amor. Pressinto peitos ainda sólidos, as panturrilhas atléticas, a bunda confortável onde mais de mil amantes descansaram. Seus passos são firmes e elegantes, a mulher toda é elegante, admito, apesar do excesso de rebolado e maquiagem, apesar da lordose e dos saltos abusivos. De sua figura só destoa, talvez, a sacola de supermercado que traz embolada na garra esquerda.

Curioso, decido me deter aqui mais um instante, mais dois minutinhos, só mais dois, a menina no meu colo tranquila, a aplaudir o voo de um pardal de penacho. Já a mulher que observo observa a menina adormecida. Invade a porção de grama vetada ao passeio dos cidadãos de bem, estaciona ao lado da pequena, abre a sacola plástica e despeja, sobre a outra, todo o seu conteúdo. Demoro cinco segundos para decifrar a natureza daquela chuva colorida, e me surpreendo ao ver que são pétalas, pétalas de rosas vermelhas, pétalas amarelas, pétalas rajadas, punhados e punhados de pétalas brancas, e sussurro, perplexo, ao ouvido da menina no meu colo: pétalas! Estavam na sacola da mulher de preto, e agora cobrem e cercam o corpo da menina que dorme na praça.

A mulher guarda a sacola vazia na bolsa de couro e rapidamente se afasta da cena, sem afobação. Escala o barranco de grama até o petit-pavé da Saldanha e parte sem olhar para trás. Os pombos, acostumados à ceva e ao saque, voam até a menina e buscam, entre seus braços e pernas, entre pétalas e cabelos, algo que lhes seja proveitoso, só isso, algo comestível e minimamente significante. Não encontram nada e se entreolham interrogativos, dúzia emplumada de demônios.

Encantado, acompanho a fuga da mulher de preto, ainda a persigo por meia quadra, sua bunda negra na ladeira, Ébano Pereira acima. Para em frente a um casarão antigo e acende um cigarro. Ela o traga e, antes mesmo de exalar a fumaça, entra no mais novo bordel da rua.

A criança no meu colo acena para os pombos, se despede dos pássaros que prontamente decolam e desaparecem atrás do hotel Vitória Régia. Nós também seguimos adiante. A manhã avança. O vento congela a Pracinha do Amor e nos despenteia, mas não varre as pétalas de rosa, não as move um centímetro, não parece afetar a menina que dorme entre duas estrelas floridas.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ute Lemper e diferenças entre Pablo Neruda e Paulo Coelho

Já que não tem mais Lotte Lenya nem Gisela May, esta, viva ainda – nasceu em 1925 –, a boa opção para se ouvir as parcerias de Bertold Brecht com Hans Eisler e Kurt Weill é Ute Lemper. Encontrou um bom nicho a preencher. São poucos os intérpretes de “cabaré”. No Brasil, continuam firmes e fortes a explorarem o gênero, Cida Moreira e Suzana Salles.

Quem assistiu a alguma apresentação ao vivo ou em vídeo, conhece bem o seu talento como performer. Começa pela presença física, mulher alta, esbelta, bonita, de rosto anguloso e olhos penetrantes, Ute é uma mulher que une poder interpretativo e voz. Ficou conhecida como intérprete de obras de Brecht e seus parceiros. Ampliando o espectro de cantora especializada em um repertório de canções conhecidas como de cabaré, incorporou ao seu repertório músicas com esse tom meio dramático e expressionista de autores díspares como Tom Waits, Astor Piazzolla, Jacques Brel, Scott Walker e Nick Cave.

Com muitos discos lançados, aventurou-se por muitos gêneros como o jazz, com ’Round Midnight, de Thelonious Monk, o erudito contemporâneo de Michael Nyman e Philip Glass, e dos musicais, como Stephen Sondheim. Mais recentemente, lançou Forever: The Love Poems for Pablo Neruda.

Ute poncho e conga
Em princípio, devido a expectativa criada em torno de se musicar o poeta chileno, que a brasileira radicada nos EUA já tinha feito em 2004, o que se esperava algo de qualidade, resulta em enorme decepção. Em parceria com o argentino bandoneonista Marcelo Nisinman, Ute canta em espanhol, inglês e em francês. O que não era tão evidente, seus maneirismos vocais que tendem aos exageros típicos do “modo cabaré de cantar”, que podem ser adequados numa dramática Ne me quitte pas ou em Die Ballade von der sexuellen Hörigkeit, da Ópera dos Três Vinténs, soam inadequados em poemas delicados como os de Neruda. Devido à cooperação de Nisinman, tudo vira tango. E aqui, cabe a pergunta: que ritmo combina com Neruda. Nesse quesito, Luciana foi mais esperta ao escolher como “parceiro” o finado catalão Frederico Mompou. E Lemper, em seus exageros vocais extravagantes, massacra as versões em inglês e em espanhol. Nessa língua, razoavelmente familiar a nós brasileiros, seu Neruda espanhol é pavoroso.

Veja Ute em Ausencia. Tem uma bela presença de palco, sem dúvida.




Ute e o Brasil, isto é, Ute e Paulo
Sabe aquela história do pelotão com um único soldado marchando errado, achando-se o único certo? É mais ou menos nisso que penso quando o assunto é Paulo Coelho. Enquanto é execrado e ignorado pela crítica brasileira, faz um sucesso tremendo fora daqui. Às vezes me pergunto se eu não estou sendo preconceituoso ao acompanhar a opinião da crítica e do leitor médio. Ou será que o que acho filosofia barata e rasteira é tida como profunda e exemplar pelos não brasileiros?

Lemper leu Manuscrito Encontrado em Accra, do grande “mago” brasileiro no verão de 2013 enquanto excursionava pela Austrália. Um mês depois, estava em São Paulo. Por meio de um amigo brasileiro, conseguiu entrar em contato com Coelho. Ele, por sua vez, disse ser fã de sua música e então iniciou-se a “jornada conjunta”.

Um ano e meio depois, as composições estavam prontas. Ute gravou o álbum contando com a colaboração de Gil Goldstein e Jamshied Sharifi. Músicos de várias partes do mundo como a África, Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático, e nenhum brasileiro, fora o “mago”, dão o tempero world. O resultado? Por melhor que fosse, meu preconceito em relação ao nosso escritor vivo mais famoso, seria preponderante no meu juízo. Mas, nem é por isso. Consigo ter distanciamento suficiente para julgá-lo independente do autor que a inspira. O que posso dizer? Se, com Neruda tivesse já ficado com um pé atrás – pela dramaticidade em vocais equivocados –, agora, fiquei com os dois. É nuito ruim; e acho que estou prestes a abandonar Lemper. Em um efeito de contágio incontrolável, já não estou gostando tanto de suas incursões até no repertório brechtiano. Para coroar, se Ute cantando em português é pavoroso, pior é ouvir a voz de Paulo Coelho com uma dicção de doer em The 9 Secrets, lançado no fim do ano passado. Quer conferir?

Ouça o álbum na íntegra. A faixa com Paulo recitando em inglês é em The Story of Accra (a partir do 17º minuto).

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Miles Davis, Julio Cortázar e boxe

Miles Davis amava o boxe
No Brasil, ditadores, políticos corruptos com ficha suja na Justiça dão nomes a ruas e viadutos. Na falta de legislar pelas suas cidades ficam a colocar em votação bobagens desse tipo de gente como forma de homenageá-los.

Tal costume não é só brasileiro. Amigos, familiares e admiradores reuniram-se na “Miles Davis Way”. Um trecho da 77, entre as avenidas West End e Riverside, passou a ter esse nome no dia em que o trumpetista completaria 88 anos. Não sou contra esse tipo de homenagem, mas não deixa de ser uma bobagem. Mas, ele merece.

Miles, à mercê do talento indiscutível, não era um sujeito dos mais fáceis. Em sua autobiografia, relata que bateu na mulher Francis e não se desculpou. Disse que ela mereceu. Andou dando bola para Quincy Jones, segundo ele. É conhecido também por ter usurpado a autoria de várias composições. Assinou como suas temas de Joe Zawinul, Bill Evans e até de Hermeto Paschoal na maior cara de pau.

O boxe. Miles, apesar de franzino, praticava o boxe. De hoje em dia, assim como as touradas, é um esporte em desprestígio. É considerado desumano e se você confessar-se admirador, será defenestrado de seu rol de amigos. Antigamente, não era assim.

O título de um dos livros de Julio Cortázar é Último Round. Lançado em 1969 pela editora Siglo XXI mexicana, é composto de duas partes, sendo que a de cima ocupa dois terços, e a parte inferior, o terço restante, formando uma “tripa”. Nem sempre a parte de cima (ambas são numeradas) tem a ver com a de baixo. Como em Rayuela (Jogo da Amarelinha), Cortázar propõe um jogo: ambos podem ser lidos fora de sequência. Do mesmo modo, as duas partes de Último Round nos propõem fazermos as “nossas histórias”. À “desordem” física corresponde o conceito do livro: são imagens, colagens, desenhos, fotos, relatos e pequenos ensaios reunidos. Dois anos antes de Último Round havia lançado La vuelta ao día en ochenta mundos, em duas partes também. Tirando partido de sua criatividade incontrolável, “desconstruía”, à maneira dos dadaístas e surrealistas, a começar pela brincadeira sobre o título A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne.

Hoje, na Argentina, há um movimento forte de desconstrução (a repetição aqui é voluntária) da importância de Cortázar na literatura. Resumindo: acham que é superestimado. Se é ou não, a verdade é que esse argentino nascido na Bélgica marcou algumas gerações com suas narrativas inusitadas. É bem estranho isso, ou pode ser a velha história de as novas gerações desejarem “matar” as anteriores.

Logo na página 13, Cortázar descreve o retorno do boxeador Juan Yepes aos ringues, em “Descripción de un combate ou a buen entendedor”. A parte inferior correspondente às páginas 13 e 14 são com imagens do pugilista nocauteado.

No tomo I de La vuelta al día en ochenta mundos, na página 109 (Siglo Veinteuno Editores, 13ª edição, 5ª de bolso, México, 1977), o autor apresenta o texto Clifford, sobre o trompetista Clifford Brown. Era o instrumento que Cortázar tocava. Na página 13 do tomo II, “Louis enormíssimo cronopio” trata de Louis Armstrong, outro trompetista. Logo a seguir (pág. 23) temos “La vuelta al piano de Thelonious Monk”. É sobre a apresentação do instrumentista ocorrida em 1966 em Genebra. Ele adorava jazz e boxe.

Em “Take it or leave it”, trocadilho sobre o famoso standard Love Me or Leave Me, de Walter Donaldson e letras de Gus Khan, em um dia chuvoso se põe a ouvir discos de jazz e reflete sobre os chamados “alternate takes”, mas sente-se um tanto intimidado de escrever sobre esse gênero depois de ter lido uma matéria do semanário uruguaio Marcha, em que um crítico se põe a enumerar as imprecisões de dados discográficos em Rayuela. São gravados vários “takes” e um deles é escolhido para constar nos discos. “¿Cuántos takes habrá del mundo? El editado, éste, no tiene por qué ser el mejor: en su escala, la bomba atómica podria equivaler un día al ’Hold on!’ del Bird [apelido de Charlie Parker], al gran silencio. ¿Pero quedarán otros ‘takes’ aprovechables, después?”

Em “El noble arte” (pág. 124) lembra da luta de Jack Dempsey e o desafiante, o argentino Luis Angel Firpo. Em 1923, Cortázar tinha nove anos, e sua família era a única que possuía rádio nas redondezas do povoado de Banfield. Foi uma noite triste. O menino chorou a derrota de Firpo abraçado ao tio. Logo no início, conta que uma pessoa perguntou-lhe quais foram os grandes momentos do século XX. Sem pensar muito, respondeu: “‘Señora, a mí me tocó asistir al nacimiento de la radio y la muerte del boxe.’ La señora, que usaba sombrero, pasó inmediatamente a hablar de Hölderlin.”

Como Cortázar, quando criança e quase adolescente assisti às lutas de Muhammad Ali contra Joe Frazier, George Foreman. Ali era um fenômeno como lutador e foi figura importante na questão pelos direitos civis dos negros. Campeão dos pesos pesados em 1964, convocado para servir na guerra do Vietnam, recusou-se a ir. Perdeu o cinturão. Era um sujeito polêmico e fez com que milhões de pessoas se interessassem pelo boxe. A luta de Ali e Foreman no Zaire, em 1974, foi um acontecimento midiático. O mundo viu essa luta. Fui apenas um a mais e naquele tempo nibguém era censurado por gostar de boxe.

Não existia tanto esse estigma de ser um esporte violento. Apesar de Argentina e Brasil terem o futebol como esporte preferido, entre os “hermanos” é muito popular, muito em razão de terem tido grandes lutadores como Luis Angel Firpo, derrotado por Dempsey, Oscar Bonavena, peso pesado que lutou contra Joe Frazier e Ali. Era valente. Perdeu dos dois. O maior estilista, porém, foi o ex-campeão dos médios Carlos Monzón. A luta contra Emile Griffith é antológica. Foi considerado o 11º melhor boxeador de todos os tempos, em 2002, pela revista Ring. Mede-se a popularidade de um esporte pelo número de campeões. O Brasil teve como maior expressão pugilística Éder Jofre. E só. Maguila foi apenas um fenômeno midiático.

Os anos foram passando e Mike Tyson era um peso pesado com carreira ascendente. Há muito o boxe não me interessava mais. Despertou-me aquela curiosidade, como tinha ficado por Ali. Os jornais decreviam-no como um novo fenômeno.

A Vania N. tinha convidado alguns amigos para um jantar em sua casa. Naquela noite uma luta de Tyson seria transmitida pela rede Globo. Era madrugada, talvez 1 ou 2 horas da manhã. A TV não ficava na sala. Enquanto todos se divertiam e conversavam, resolvi dar uma escapadinha até o seu quarto, que era onde se encontrava o aparelho de TV. Um amigo botou a cara na porta e perguntou-me o que fazia. “Vou ver a luta do Mike Tyson.” Não lembro bem o que ele disse, mas foi algo como uma censura dizendo-me que “não conseguia entender como alguém poderia gostar de um esporte em que um quer acabar com o outro, batendo-lhe, querendo vê-lo morto.” Senti a maior culpa por estar vendo um “animal”, como Tyson, destruindo o adversário.

Jack Johnson. Em 1970, Bill Cayton estava começando a fazer um documentário sobre a vida de Jack Johnson. Consultou Miles Davis sobre a possibilidade dele compor a trilha sonora. Não apenas aceitou, como escreveu as liner notes do disco.

Jack Johnson foi o primeiro campeão afro-americano dos pesos pesados, em 1908. Miles entusiasmou-se pelo projeto, pois como ele, era negro, gostava de carros velozes, mulheres e era apaixonado pelo boxe. A diferença era a de que Johnson gostava de mulheres brancas, ao contrário de Miles, que, fora aventuras amorosas como a com Juliette Gréco, na hora de casar, preferiu negras. Como Miles, gostava de de se vestir de forma extravagante. Jack também e apreciava a vida como celebridade. Essa vida de Johnson não era unanimidade entre seus pares negros, mormente pela preferência por mulheres brancas.

Quando Miles gravou Jack Johnson, passava por mais uma transformação musical. Depois de memoráveis discos com o quinteto que incluía Herbie Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams, buscava por uma nova sonoridade, influenciado pela música de Jimi Hendrix e pela “invasão britânica” dos Beatles, Rolling Stones e outras bandas. Os primeiros instrumentos a entrar em suas formações foram o piano elétrico e a guitarra. Herbie Hancock, que mais tarde se tornaria uma das pontas de lança do jazz eletrônico, quando Miles pediu que tocasse piano elétrico, recusou-se. Acabou por sucumbir aos desejos do chefe.

Miles in the Sky (CBS, 1968) é o primeiro álbum em que usa o piano elétrico. Timidamente, a guitarra elétrica entra em uma faixa com George Benson. Filles de Kilimanjaro é outro que faz parte da transição, contando com as colaborações de Chick Corea e Hancock nos teclados eletrônicos e Ron Carter tocando baixo elétrico. O duplo Bitches Brew representa a ruptura. Jack Johnson, conceitualmente, não é tão revolucionário quanto Bitches Brew, mas é o mais rock’n’roll do trumpetista. Apresentado por Tony Williams, agora contava com um excepcional guitarrista: John McLaughlin. É dele a contribuição mais rock em Jack. Em certo ponto há um solo belíssimo em tributo a Jimi Hendrix. Jack Johnson, até hoje, é um dos meus preferidos. Já o boxe, não me interesso mais, e não é pelo que outros possam achar de se gostar de um esporte violento como esse. É porque, desinteressei-me, assim como desinteressei-me por um monte de coisas ao longo da vida.

Ouça o álbum na íntegra.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A morte anterior de Juan Gelman

Juan Gelman e o companheiro inseparável
Essa dor – esse desespero – Juan Gelman carrega sempre: em 1976 uma patrulha militar invadiu a sua casa procurando por ele, que já estava no exílio. Levaram seu filho com a mulher, que estava grávida, e também sua filha. A filha apareceu dias depois. Do filho e da nora grávida, nenhum sinal. Tudo que Juan Gelman conseguiu saber foi que, levada de Buenos Aires para um cárcere uruguaio, sua nora deu à luz uma criança no Hospital Militar de Montevidéu, em dezembro de 1976. Os restos mortais de Marcelo foram entregues a ele treze anos depois. Só em março de 2000, depois de uma peregrinação sem um só instante de sossego, ele conseguiu localizar a neta, no Uruguai. Foi um encontro denso e intenso. A menina, ao nascer, havia sido adotada por uma família de Montevidéu. Passou 23 anos acreditando ser filha de um chefe de polícia. Encontrou o avô, ou foi encontrada por ele. Soube de sua verdadeira história. Continuou ao lado da mãe adotiva. Juan, na época, disse a um amigo: “Era o que eu queria: que ela soubesse sua verdadeira história. Nós dois, ela e eu, somos órfãos de Marcelo.” Anos antes, em plena busca, ele havia dito uma frase definitiva, ao mencionar o filho desaparecido, a nora desaparecida, a neta que ele não conhecia: “Eu gostaria de ser Deus, para saber o que é o perdão. Não posso perdoar, porque não sou Deus.”

Filho de judeus ucranianos, Juan Gelman nasceu em Buenos Aires. Quando estudante, filiou-se à Federação Juvenil Comunista da Argentina. Poeta e jornalista, participou da principal revista cultural de resistência à ditadura militar. Foi na Crisis, que Eric Nepomuceno conheceu Gelman, quando tinha 25 anos. O parágrafo acima é um trecho do prefácio de Amor que serena, termina? (Editora Record, 2001), coletânea organizada pelo brasileiro.

Gelman sentiu na carne os rigores do regime argentino. Nos últimos 20 anos morou no México, onde morreu aos 83 anos no dia 14 de janeiro. Ironicamente, foi condenado à morte pelo grupo esquerdista Montoneros. Ele era contra a luta armada.

É autor do poema a seguir, um dos meus preferidos.


Gotán

Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.

Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.

Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ela moverá minha boca pela última vez.

Mais um.

Foto

Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca, teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.

Nota: as traduções são de Eric Nepomuceno.


Leia mais sobre Juan Gelman em:
O poeta de olhos tristes (Juan Cruz, El País): http://bit.ly/1aH5mXn
Morre aos 83 anos o poeta argentino Juan Gelman (Bernardo Marín, El País): http://bit.ly/1hrOq8X
Juan Gelman: “Se ha instalado todo un sistema para recortarnos el espíritu” (entrevista para El País, em 28/4/2013): http://bit.ly/1dukyK0

Sobre Eric Nepomuceno, seu tradutor para a edição brasileira lançada pela editora Record::
Eric Nepomuceno e a morte dos navios: http://bit.ly/1apguEY

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

John Cheever e Mad About the Boy quente e frio

John Cheever, autor de O Nadador
Agora há pouco tempo, a canadense Alice Munro recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Poucos apostavam no seu nome por ser contista, gênero, por muitos, considerado menor. A América do Norte possui um belo plantel de mestres da narrativa curta, como Sherwood Anderson, autor de “Winesburg, Ohio”, e John Cheever, autores que se destacaram retratando a vida americana.

Quando Munro foi agraciada com o Nobel, uma das definições mais comuns a surgir foi a de que era um “Tchekov de saias”. Parece que é uma forma fácil de definir contistas: John Cheever também foi comparado ao russo. Em comum entre a canadense e o americano é o objeto das suas narrativas. O mundo de Munro é o dos habitantes de pequenas cidades e as personagens retratadas são pessoas comuns. O incomum é uma certa pulsão sexual estranha e que chega a ser um tanto bizarra, como a do optometrista encontrado submerso dentro de seu carro em um lago, morto por ter assediado uma paciente.

O universo de Cheever é um tanto diferente do de Munro. O dele é o do morador dos subúrbios e, aparentemente, mais prósperos financeiramente: são em sua maioria, da classe média. Publicando por décadas na The New Yorker, encontrou seu público na revista por identificação socioeconômica. Na previsível e confortável vida desses americanos, em suas narrativas, com frequência, o leitor de depara com algo inusitado. Em “O Enorme Rádio”, o marido presenteia a mulher com um rádio que substitui o antigo que quebrara.

Irene ouvia um quinteto de Mozart. Percebeu um estalido e junto com a música, um som que parecia com o barulho das ondas. Outros ruídos se juntaram e ainda tentou acompanhar a melodia. Imaginou que poderia ser algum problema de estática, muito comuns antigamente. Percebeu um som que pareciam ser dos cabos do elevador, o das portas que se abriam e se fechavam, um barulho de uma aspirador de pó ligado, uma campainha de um telefone.

Um técnico foi verificar se o aparelho tinha algum problema. À noite, Jim Wescott chegou cansado do trabalho. Tomou um banho, trocou de roupa e se juntou a Irene. O rádio tocava um prelúdio de Chopin. Repentinamente é interrompido pela voz de um homem: “Meu Deus, Kathy, você sempre tem de tocar piano quando chego em casa?” A música parou e ouviu-se o bater de uma porta. Ambos ficaram intrigados achando que pudesse ser a transmissão de alguma novela. Girou o botão e ouviram outro diálogo, dessa vez de um casal se aprontando para sair. Irene reconhece uma voz. Era a da babá dos Sweeney, uma vizinha. Ouviu outras vozes e diálogos. O “enorme rádio” transmitia o que acontecia, em tempo real, no prédio. “Irene continuou a girar o botão e invadiu a privacidade de várias mesas durante o café da manhã. Ouviu demonstrações de indigestão, amor carnal, vaidade sem limite, fé e desespero. A vida de Irene era quase tão simples e protegida como parecia ser, e a linguagem direta e às vezes brutal que vinha do alto-falante naquela manhã a surpreendeu e perturbou.” (“28 Contos de John Cheever”. Trad. Jorio Dauster. Companhia das Letras, 2010)

Neddy Merrill é um sujeito, que não sendo tão jovem, mantém um físico esbelto. As pessoas ficam em volta da piscina e passam a tarde ensolarada de um domingo de verão bebendo e conversando. Ocorre-lhe de voltar a sua casa, a treze quilômetros de lá, nadando. Fazendo um percurso em L, pensou, “poderia chegar em casa por uma via aquática”. Passaria pelas residências dos “Graham, os Hammer, os Lear, os Howland e os Crosscup”, em primeiro lugar.

O enredo incomum virou filme. O nadador é Burt Lancaster. Dirigido por Frank Perry, foi lançado em 1968. O conto é de 1964. A história maluca de Neddy resolvendo voltar a nado para casa inspirou um dos melhores filmes de propaganda já feitos da Levis 501. Veja.




O tema musical escolhido foi “Mad About the Boy”, interpretada por Dinah Washington.
Lembraram-se que Dinah era o máximo e que a música composta por Noel Coward na década de 1930, século passado, portanto, também, era o máximo. Existem gravacões com Blossom Dearie, Julie London, Anita O’Day, cantoras nem um pouco obscuras, mas ficou a de Dinah. É a top of mind, o que não é pouco se às três citadas anteriormente, adicionarmos Carmen McRae, Helen Merrill, Jeri Southern e Dinah Shore. “Mad About the Boy”, com Washington é quente, vibrante, como quase tudo dela. Mas, noutro dia, ouvi essa canção na voz de uma inglesa, como Noel, mais “cool”, e achei o máximo. É o que compartilho aqui.

Mad About the Boy “fria”: Liane Carroll




Ouça outras interpretações clássicas.

Com Anita O’Day.




Uma antigona. Helen Forrest..