segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A Ítaca de Leonardo Padura


“The Big Chill” (1984), de Lawrence Kasdan, é um filme que trata de amigos que fizeram a Universidade e se reencontram  — por isso, no Brasil, o título “Reencontro” — quinze anos depois, por um motivo amargo: o suicídio de um deles. Passam o fim de semana juntos. Algo da pureza e da alegria dos tempos de estudante se desfez.

 Há uma certa semelhança com “Retorno a Ítaca”, de Laurent Cantet, diretor do premiado “Entre os Muros da Escola” (2008), com roteiro do escritor Leonardo Padura. A Ítaca dele é Cuba. 

Em vez de o reencontro ser em uma casa de campo, acontece em um terraço de um prédio bem no meio da cidade de Havana. O pretexto de se reunirem é a volta de Amadeo, que morou por muito tempo em Barcelona e resolve voltar para a sua terra natal. A semelhança entre ficção e realidade é clara para os que conhecem o escritor. Apesar da decadência econômica e política, sem ser um dissidente, é um crítico do regime e, mesmo assim, optou por se fixar em Cuba.

São amigos há 40 anos. Tania é uma médica que ganha uma miséria, Rafa, um pintor desiludido, que submergiu no alcoolismo, Aldo, o único negro do grupo, que é quem mais acreditou no regime socialista de Fidel Castro, e, por último, Eddy, o único que se deu bem economicamente, comendo pelas bordas, como diria Leonel Brizola. 

A riqueza do filme está na qualidade dos diálogos. O terraço, ou melhor, a laje, é o cenário para a síntese das ilusões e desilusões, de sonhos desfeitos, da luta diária pela sobrevivência, das misérias de cada um, daquele que resolveu, em vez de perseguir a carreira de escritor, preferiu se dar bem e, de certo modo, ter virado um “merda”. Frente às censuras dos amigos, afirma: “Me deixei transformar num merda. É verdade. Mas não me roubaram a vida. Me roubaram o sonho de ser escritor. Mas a vida, não.”

A desilusão está em cada diálogo ou confissão. Aldo é personagem do sonho do socialismo que se desfez. Sabe disso. “Sempre acreditamos e nos encheram de medo. E sabem por que? Porque queríamos acreditar e não contestávamos. Tínhamos que ser puros, sinceros e honestos. Os filhos da mãe sabiam, e nos encheram de medo!” Tania, a médica, diz a Amadeo: “Muitas vezes penso e digo — Meu Deus! —, dá vontade de morrer. E sabe o que é pior? A gente não morre. Continua aqui. […] Não dá para saber, se todo o sofrimento impede de você viver. Dá para viver assim? Droga!”

Há passagens emocionantes. Não é para quem gosta de filmes de ação. É para quem prefere mergulhar nos dramas humanos. “Retorno a Ítaca” está disponível no Globoplay.

Um Bola de Nieve para fechar.



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