quinta-feira, 16 de maio de 2019
A subestimada e genial Doris Day
Quando Doris Day estrelou “Confidências à Meia Noite”, “Volta Meu Amor” e “Carícias de Luxo”, tinha cerca de 40 anos. Assi mesmo, ficou com o estigma de “virgem oficial do cinema”, ou a “namorada da América”. Esses e outros filmes, na maioria, estrelados por ela e o o galã Rock Hudson, que acabou morrendo de AIDS, na década de 1980, comédias leves em que sempre resistia aos ataques masculinos, marcaram a sua biografia. Lembram-se menos de que estrelou “Ama-me ou Esquece-me”, em que faz o papel de uma cantora, com um amante violento (James Cagney), que a surrava e a violentava, ou, “O Homem Que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock, com James Stewart, em que têm o filho sequestrado em uma trama de espionagem, ou “A Teia de Renda Negra”, em que tem uma vida de terror com o marido (Rex Harrison).
Antes de tornar-se a “virgem oficial do cinema”, perdeu a virgindade antes de completar 17, com um músico chamado Al Jordan, da banda de Les Brown. A vida de Day não foi um mar de rosas, ao contrário do que sugeriria seus filmes “cor de rosa”.
De cantora à atriz
Antes de tornar-se atriz, seu início foi como cantora. De múltiplos talentos – dançava muito bem, apesar do acidente que resultou em múltiplas fraturas na perna –, Deus lhe deu uma beleza radiante e doce. Aprendeu a dançar porque adorava Fred Astaire e Ginger Rogers. Resolveu ter aulas de canto com uma professora porque adorava ouvir “A Tisket-a-tasket” e “Mr. Paganini”, com Ella Fitzgerald.
Passou a cantar em uma rádio local. Bob Crosby, irmão de Bing Crosby, depois de ouví-la, levou-a para Chicago. nem tinha 17 quando entrou na orquestra de Les Brown. Foi bom para os dois. Revelava-se o talento como cantora, e a big band de Brown ficou mais conhecida ainda.
Doris acreditava no amor. Conheceu o trombonista Al Jordan, na orquestra de Brown. Logo ficou grávida. Era um psicopata. Foi um suplício. Vítima de surras homéricas, conseguiu divorciar-se. Al não viveu muito. Não se sabe se, intencionalmente ou não, morreu, despencando de uma ribanceira com o carro.
Depois de mais esse percalço, voltou à orquestra de Les Brown e explodiu cantando “Sentimental Journey”. Vendeu mais de um milhão de cópias.Mas Doris se apaixonava facilmente. Casou com outro músico, George Weidler, e deixou a big band de Brown novamente.
Em 1948, os compositores Jule Styne e Sammy Cahn a levaram para um teste na Warner.Foi contratada para atuar em um filme de Michael Curtiz. Doris brilhou cantando “It’s Magic”. Virou clássico; não o filme — “Romance em Alto Mar” —, a música. A partir daí, seu nome passou a brilhar nos letreiros dos cinemas.
A Warner não tinha a bala da MGM e da Fox. Não tinha dinheiro para produzir aqueles musicais luxuosos de suas concorrentes. Assim mesmo, Day brilhou. Livre, em 1955, do contrato, estrelou, com James Cagney, “Ama-me ou Esquece-me”, pela MGM. Sua interpretação de “Ten Cents a Dance” é considerada um clássico. E nunca esteve tão sensual como nesse filme.
Seu talento como cantora não pode ser muito aproveitado, pois a era dos musicais estava em declínio. Pena. Mesmo assim, era uma estrela de Hollywood. Ganhou muito dinheiro. O problema é que Doris tinha, como se diz por aí, a “mão podre” para escolher seus homens. Casou-se com Mary Melcher, um agente de atores que fazia “qualquer milhão virar um tostão”. Quando percebeu, estava falida.
Agora, 13 de maio, Doris morreu. Tinha 97 anos. Teve vida longa. Afastada das telas, criou a The Doris Day Animal Foundation e era dona de um hotel butique famoso em Carmel, California. Foi nessa cidade que veio a falecer.
Uma das melhores cantoras de jazz de todos os tempos
Em “Saudades do Século 20” (Companhia das Letras, 1994), livro no qual me baseio para escrever esse texto, Ruy Castro faz um perfil de doze nomes. Das três do sexo feminino, uma delas é Doris Day. Escreve que ela é “a mais subestimada das cantoras americanas”. “Ela era absoluta nos tempos médios e rápidos. […] para ser uma cantora de jazz, não é obrigatório fazer gargarejos com tabasco (como Dinah Washington), emitir sons parecidos com um corrupaco (como Nina Simone) ou escangalhar com as letras e melodias fazendo scats à menor provocação (Billie Holiday nunca fez um scat na vida e foi a maior de todas). A única prova dos nove é o swing. E Doris Day nasceu com esse, e de sobra.”
Ruy Castro ainda cita o grande crítico de jazz Will Friedwald, que a elege como um dos cinco maiores cantores americanos. Os outros: Louis Armstrong, Bing Crosby, Billie Holiday e Frank Sinatra.
Veja a cena em que canta “Love Me or Leave Me”.
Canta “Ten Cents a Dance”, de Richars Rodgers e Lorenz Hart.
Canta “It’s Magic”
Obs: sou fã de carteirinha. Tenho dois box set dela, lançados por uma gravadora alemã Bear Family Recors, comprados em Nova York. A primeira, “It’s Magic”, compreende o período de 1947-1950, a segunda “Que Será”, 1956-1959. Não tenho as outras porque não as achei.
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