quinta-feira, 20 de abril de 2017

A “volta” de Norah Jones ao jazz

O álbum “Come Away with Me” (2002) foi um sucesso instantâneo e alçou Norah Jones ao estrelato logo em sua estreia no mercado fonográfico. Além do sucesso comercial, ganhou a admiração da crítica. Vendeu, até hoje, 26 milhões de cópias. No ano, ganhou nove prêmios Grammy. A razão nem foi porque era filha de Ravi Shankar. Esse dado biográfico, frente à notoriedade conseguida, era apenas um detalhe, primeiro, quase nunca citou ou falou sobre isso e, muito menos, sofreu alguma influência do citarista indiano, célebre, depois que George Harrison o apresentou ao mundo.

Sempre desconfio de artistas que ficam famosos de uma hora para outra. É um pouco de preconceito. Sinto sempre um cheiro de manipulação mercadológica. Mas não me nego a conhecer para, quem sabe, um dia reconsiderar o meu juízo inicial. Para exemplificar que estou sempre pronto a verificar se estou errado, dou um exemplo: li algumas páginas de Paulo Coelho. Bom, nunca vou gostar do tal mago de araque. O mesmo fiz em relacão a ela: comprei “Come Away with Me”. Senti-me enganado. Disseram que era a nova voz do jazz e não tinha nada de jazz além do fato de ter sido lançado pelo Blue Note, selo tradicional do gênero. Aquilo, na minha opinião, era algo assemelhado ao folk-rock americano, tipo James Taylor, Carole King. Gosto de Simon & Garfunkel, Carly Simon e outros assemelhados. Sou eclético e até criticado por alguns amigos, que acham que eu tenho o gosto meio estragado. Deixando de vê-la como “jazzy”, até que não era ruim. Mas, vendendo tanto? O que viam nela?

Algo, porém, foi capital para a minha mudança de juízo quanto a Norah Jones. Seu estilo meio lenga-lenga que antes me irritava passou até a me agradar. E foi por uma razão bem particular: foi vê-la trabalhando como atriz em “My Blueberry Nights” (“Um Beijo Roubado”, 2009, em edição brasileira), de Wong Kar Wai. Acho que, por meio da ficção, cheguei à Norah real. O seu olhar fixava um ponto além do objeto mirado. Era melancólico e, subitamente, percebi que suas canções pediam por uma cumplicidade. Aquele doce olhar me hipnotizou.

Minhas reservas estavam em “Come Away with Me” ser vendido por sua gravadora como sendo jazz. Descontando isso e por passar a vê-la com outros olhos, tive a percepção de outras qualidades.

Após o sucesso estrondoso, com “Feels Like Home” (2004), “Not Too Late” (2007) e “The Fall” (2009), somadas as vendas, nem chegou perto dos 26 milhões – vendeu 10 milhões de 2002 a 2005 – do primeiro. E não se pode dizer que fossem inferiores. Talvez a expectativa criada após o primeiro tenha feito tudo virar anti-clímax. Ficando clara que essa história de que era uma intérprete do jazz, ficou mais livre para levar a sua música em direção ao que realmente queria fazer, ou seja, uma música meio folk, meio soft-rock. O valor de Norah estava em suas letras confessionais, meio tristes, melancólicas, que bem combinam com seu jeito, no olhar e jeito de quem precisa de cumplicidade para ouvir cantar com suas dores e inseguranças.

“Little Broken Hearts” (2012) era um bom exemplo. Colocava-se por inteiro em letras que revelavam desencantos, o fim de um relacionamento, em versos como os de “Bom dia”: Por que você fez isso, não consegui dormir. Sabia que você tinha dito; nosso amor era tudo o que eu desejava , mas você não pôde dar. Belo disco, e tinha Danger Mouse como produtor.

Em outubro do ano passado, a Blue Note lançou “Day Breaks”. Mais uma vez a gravadora, ou seus divulgadores, resolvem usar o mote “jazz”. “Norah Jones volta às raízes”; mais ou menos nestes termos, e a crítica corrobora. Paul de Barros escreve que é “um retorno às raízes e uma triunfante amostra de diversidade estilística.” Chega a fazer uma comparação com Billie Holiday: “Às vezes, sua voz agradável traz o fantasma de Billie Holiday (embora nunca de forma afetada ou artificial).” Há um pouco de exagero nessa crítica que dá 4 estrelas, na revista Downbeat. Mas o que é jazz no álbum? As participações de alguns instrumentistas do plantel da gravadora: Wayne Shorter (quatro faixas), John Patitucci (três), Dr. Lonnie Smith (duas, uma fazendo backing), Jon Cowherd (uma), e Brian Blade e Karem Riggins na bateria.

Bom, não é jazz, na minha opinião, mas merece as quatro estrelas.

Vamos começar pela música título. É uma das melhores do álbum. Tudo combina, até as discretas cordas.




Outro destaque é “Don’t Be Denied”, de Neil Young.




Norah canta a mesma canção em um show. Veja.




Muito boa também a música que abre o disco. “Burn” é bem Norah. Ouça.