quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O mais do mesmíssimo Leonard Cohen no novo CD

Quanto mais fica grossa a sua voz, mais light vai ficando sua música. Leonard Cohen é um típico representante daquela figura quase marginal e torna-se mainstream através do tempo. Não é o único. O escritor William Burroughs era uma figura da pesada, misógino (chegou a escrever um texto em que defendia a extinção do sexo feminino da humanidade), drogado, homossexual e assassino incidental – acidental ou não? – de sua mulher Joan Wollmer, morta com um tiro na cabeça. Tremendo escritor da beat generation, autor de Naked Lunch, “amansou” no decorrer do tempo e virou “carne de vaca”. A imagem do excêntrico ficou maior que a obra e o convidaram para outras atividades como filmes (Drugstore Cowboys, de Gus van Saint) e a participar em discos de Bill Laswell, Ministry e Laurie Anderson. Em Sharkey’s Night, no disco Mr. Heartbreak (WB 1983), sua fala casa bem com a “esquisitice” de Laurie.

Ouça.


 

Não que a vida de Leonard Cohen tenha sido tão punk quanto a de Burroughs, mas as canções antigas são sombrias, carregadas e levam a imaginá-lo uma pessoa depressiva e de personalidade complexa. Não abdicou da condição de judeu, quando converteu-se ao budismo. O abraço à nova religião talvez tenha-o deixado mais light, o que não significa que tenham deixado meio “dark”. O que foi ficando cada vez mais “sombria” foi a voz, culpa do cigarro e da idade.

Cohen nunca foi o que se pode-se chamar de popular, nos anos 1960, quando compôs suas melhores canções, que são as que fazem parte dos três primeiros álbuns, como Suzanne, So Long, Marianne, Bird on a Wire e Famous Blue Raincoat. Dance Me to the End of the World e Hallelujah, duas canções adoradas pelos seus fãs tardios, são de 1984, registrados em Various Positions, lançado depois de um hiato de quase cinco anos. O álbum passou praticamente despercebido pela crítica e pelo público. Hallelujah tornou-se o standard que é hoje por conta de outras interpretações. A mais conhecida é a de Jeff Buckley. E a outra é de John Cale. Hallelujah lançou Buckley às paradas e serviu para “ressuscitar” Cohen. Um disco tributo, intitulado I’m Your Fan, um trocadilho sobre a conhecida I’m Your Man, de 1991, ajudou o canadense a “cair na boca do povo” também. Ele andava um pouco esquecido, apesar do passado brilhante. Com gravações de R.E.M. (First We Take Manhattan), House of Love (Who by Fire), Geoffrey Ozema (Suzanne) e Nick Cave (Tower of Song), dentre outros, é um grande disco, diferentemente de centenas desses “tributos”, que são mais caça-níqueis que qualquer outra coisa.

Ouça Hallelujah, com Jeff Buckley.




Ouça First We Take Manhattan, com R.E.M.


 

Problemas populares. Em 21 de setembro, Leonard Cohen completa 80 anos. Muitos nessa idade, se vivos, teriam colocado seus pijamas e os tiraria apenas para ir à feira ou ao supermercado. Mas Cohen continua pimpão. Acaba de lançar mais um álbum. Na capa de Popular Problems apoia-se numa bengala e não tira o chapéu que virou sua marca registrada da fase, como dizem aqui no Brasil, “melhor idade”. Nem é o caso de esperar mais uma revolução de Mr. Cohen. Mas, lá está. Continua mandando bem. O som é mais light, com aqueles backing vocals femininos que dão o ar de sua graça de quando em quando. É a graça que serve de apoio à voz sombria, quase discursiva. Sintomaticamente, a primeira música chama-se Slow. É Cohen em marcha lenta, mas sempre em frente.

Ouça Slow.


 

Quando ouço Did I Ever Love You, antes da batidinha country-folk e backing das meninas, às suas primeiras intervenções vocais, me vem à cabeça aquela voz característica de outro cantor. Estou falando de Tom Waits. Por que até agora não tinha pensado nisso? Cohen foi ficando meio Waits, com o passar do tempo. E outra coisa curiosa: quando sua voz era menos grave, a impressão era a de que sua música era mais sombria, como disse antes.

À primeira ouvida Popular Problems está no mesmo nível do anterior Old Ideas (2012), talvez um pouco melhor. Pelo menos é essa a impressão enquanto ouço o álbum recém lançado. Em nenhum dos dois há uma canção marcante como Take This Waltz ou Bird on a Wire. Mas, é o seguinte: tendemos a ser mais complacentes com nossos ídolos com o passar do tempo.

Ouça My Oh My, uma das que gostei nessa primeira audição.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

O meu Miles Davis preferido

Em certo momento da minha vida, tinha 64 LPs (discos de vinil) de Miles Davis. Ele tinha certa importância na minha vida e os 64 LPs eram uma prova. Quando passei a comprar CDs, meu primeiro Miles foi Tutu. Depois de resistir um pouco, acabei por comprar meu primeiro tocador de CD em Nova York, em 1988. Trouxe cerca de 30 CDs. Um deles era esse. Era seu primeiro na nova gravadora, a Warner. Depois de anos de afastamento por causa das drogas, vivendo recluso, voltou em 1981 com The Man with the Horn, mas seu tempo tinha passado. Mesmo assim, alguns discos eram razoáveis. Tutu é um deles, parte pela participação do baixista e produtor Marcus Miller. Outro bom, pela energia, é o ao vivo We Want Miles. Tem um brilhante My Man’s Gone Now, de George Gershwin. Aos poucos substituí todos os LPs pelos CDs e o resultado é que hoje tenho mais que os anteriores 64.

Hoje, ouvindo E.S.P., enquanto dirigia, lembrei-me do quanto gostei e já ouvi esse álbum. É de 1965, da fase do quinteto que incluía Herbie Hancock ao piano, Wayne Shorter no sax, Ron Carter no baixo e Tony Williams na bateria. Fico a pensar se este é o melhor disco de Davis. Nesse momento, sim. Há controvérsias, porém; e muitas. Mesmo dessa fase, a crítica considera Smiles (1966) o melhor. Toda vez que ouço, e isso tem sido cada vez mais raro, acho-o perfeito. A química entre os músicos é perfeita e as autorias são bem distribuídas: E.S.P. e Iris (Wayne Shorter), R.J. (Ron Carter), Agitation (Miles Davis), Eighty-One e Mood (MIles Davis e Ron Carter) e Little One (Herbie Hancock).

Esta última é um dos destaques. Confira.




Shorter é um dos músicos com mais composições gravadas por Miles. Ouça Iris.




Mood é o fecho de ouro de E.S.P.




O primeiro quinteto. Das várias fases de Davis, uma formação foi clássica: Miles no trumpete, John Coltrane no saxofone tenor, Red Garland ao piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Mais tarde, Jones foi substituído por Jimmy Cobb, e no lugar de Garland, tocaram na banda Wynton Kelly e Bill Evans.

É de quando Evans esteve na sua banda que foi gravado aquele que é considerado um dos melhores álbuns da história do jazz: Kind of Blue. Evans ficou pouco tempo e partiu para a carreira solo s formou um dos melhores trios de que se tem conhecimento, aquele que contou com a generalidade breve de Scott LaFaro e a bateria de Paul Motian.

De tanto gostar de Kind of Blue, devo ter comprado cada versão que surgiu; o primeiro foi o LP comprado pelo meu pai no Japão. Quando reeditaram em CD, comprei. Mas o mercado é sacana. Sempre lançam uma outra versão para consumidores vorazes e otários, seja anunciando que é uma remasterização, ou que vem com novo encarte, ou que vem com um CD bônus, etc. Caí em todas. A última foi um box com faixas “inéditas” e um DVD. No primeiro constam todas as obras originais, falsos começos, sequências de estúdio, totalizando 15 faixas. No segundo, constam uma versão ao vivo de So What, a primeira do álbum original e cinco que não foram incluídas, mas gravadas entre 1958 e 1959, com o sexteto. Por tempo limitado, vinha uma camiseta azul com imagens do trumpetista na parte da frente e nas costas. Eventualmente, visto Miles.

Se por um momento acho que o melhor disco de Miles – ou o meu preferido – é E.S.P., é porque Kind of Blue é hors concours. Está em um patamar em que não existem mais discussões bobas como essa de ser ou não ser melhor. Nessa gravação, além de Bill Evans, autor de Blue in Green, que Miles “surrupiou” e considerou-o sua, a química perfeita que ocorre com o sax tenor de John Coltrane e o alto de Cannonball Adderley é algo de sublime. Esse álbum representa a mudança do som de Davis do hard bop para o modal, muito responsabilidade de Bill Evans na banda.

Flamenco Sketches fecha o álbum. Davis abre com um solo em surdina; entra Coltrane com um solo “espanholado” sublime, que é sucedido pelo alto limpo de Coltrane e o solo minimalista de Evans.




Ouça Kind of Blue na íntegra.




Uma lista (minha) dos melhores Miles Davis

1.
Da primeira fase, o primeiro citado é considerado um clássico do cool jazz. Os outros três do Original Jazz Classics são do primeiro quinteto consagrado de Miles: John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.

The Complete Birth of the Cool (Blue Note, 1950)
Relaxin’ (OJC, 1956)
Cookin’ (OJC, 1956)
Steamin’ (OJC, 1956)

2. Miles é contratado pela Columbia. Nesse período, além dos álbuns com a formação clássica, são importantes os lançados com arranjos de Gil Evans.

Miles Ahead (1957), com Gil Evans.
Milestones (1958), com John Coltrane, Cannonball Adderley, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
Kind of Blue (1959)

3. O quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams.

E.S.P. (1965)
Miles Smiles (1966)

4. Na fase de transição para o elétrico, introduz a guitarra de George Benson e “obriga” Herbie Hancock a tocar piano elétrico. Ele não queria, mas o chefe mandou. Gostou tanto que é um dos nomes mais importantes do jazz elétrico. Seu Headhunters (1973) é um clássico.

Filles de Kilimanjaro (1968). Neste disco quem toca o piano elétrico é Chick Corea e é a primeira participação do baixista inglês Dave Holland.
In a Silent Way (1969) conta com John McLaughlin na guitarra, Corea e Joe Zawinul nos teclados. A música título, no disco, creditada a Miles é, na verdade, de Zawinul.

5. A fase seguinte representa outra revolução na linguagem do jazz. Miles radicaliza. Toca com tecladistas diferentes (Chick Corea, Larry Young e Joe Zawinul) e muita percussão. Além do trumpete, ataca no órgão executando acordes que atravessam vários compassos.

Bitches Brew (1969)
Jack Johnson (1970) é o disco mais “roqueiro” de Miles. John McLaughlin presta tributo a Jimmi Hendrix. É um dos meus preferidos até hoje. Ouça o álbum na íntegra em http://bit.ly/X0qRya
Big Fun (1972) é outro. Gosto mais deste do que Bitches Brew. É radical. Conta com percussão de Airto Moreira, teclados de Corea, Hancock, Zawinul e Lonnie Smith, as cítaras e tamburas de Kalil Balakrishna e Bihari Sharma. A música Great Expectations é um dos destaques.

Ouça um trecho.




Agharta (1975). Vários álbuns ao vivo foram lançados depois que Miles se retirou da cena musical por problemas de saúde. Em sua apresentação em São Paulo, uma ambulância ficou estacionada na frente do Theatro Municipal, em caso de algum problema que pudesse ocorrer com ele. A gravação de Agharta são de apresentações da banda composta por Sonny Fortune, Pete Cosey, Reggie Lucas, Michael Henderson, Al Foster e Mtume. São shows de alta voltagem e não devem fazer o gosto de alguns fãs do trumpetista. Ouço esse álbum até hoje com muito prazer. Ouça você um trecho.




6. A fase final. Depois de longo retiro, voltou com The Man with the Horn, em 1981. O álbum é razoável, mas esquecível. Andou gravando temas de Cindy Lauper e Michael Jackson, fazendo releituras interessantes. Os melhores são os citados no começo: Tutu (1986) e o ao vivo We Want Miles (1981)

Ouça My Man’s Gone Now. O baixo é de Marcus Miller, a guitarra, de Mike Stern, e o sax é de Bill Evans. Não confunda com seu homônimo, o genial pianista. Evans “desapareceu”. A única coisa que fez que prestava foi dessa época em que ficou com Davis.