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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nunca é tarde para alguém como Denise Donatelli

Denise Donatelli
No universo coalhado de cantoras um recurso que pode diferenciá-las do resto é fugir um pouco do repertório repetido à exaustão dos standards. É um território conhecido que tem muitos apreciadores, mas devido a quantidade de intérpretes que resolvem trilhar por esse caminho, ser diferente em alguma coisa, ajuda. É o caso, por exemplo de Tessa Souter (sobre quem escrevi: http://bit.ly/gFpJBu), Cassandra Wilson (leia: http://bit.ly/eBVKcb, http://bit.ly/f1fEZg, http://bit.ly/fpHP6i) ou Lizz Wright. Esta última, contratada pela Verve Records, tem um repertório bem crossover, mas é presença constante em festivais de jazz.

Outro recurso interessante é diferenciar-se nos arranjos, fugindo um pouco do formato piano, baixo e bateria. É o caso de Denise Donatelli. Em seu terceiro disco, When Lights Are Low, para cada faixa gravada há um diferencial. O responsável, em parte, por isso, é a associação com Geoff Keezer (http://bit.ly/gY6cyA), pianista, arranjador e produtor desse disco. É o segundo álbum gravado pela Savant Records, e o segundo com Keezer.

Donatelli nasceu num lugar ermo, zona rural, fora da cidade, no estado da Pensilvânia. Graças à “família musical”, aprendeu piano desde criança. Os quinze anos de aprendizado são um bom background para uma das melhores qualidades dela: o senso rítmico, boa colocação de voz, entonação impecável. Tem um domínio do canto que encanta os músicos de jazz. E isso não é razão para ficar em scats desnecessários como o de algumas intérpretes que, para parecerem “jazzísticas”, usam desses recursos de forma equivocada. Ninguém é Ella Fitzgerald ou Betty Carter apenas porque faz scats.

Denise, antes de abraçar a carreira de cantora, foi dona de casa. Sem deméritos. Preferiu criar os filhos primeiro. Quando tinha resolvido se tornar uma cantora profissional, uma vez, quando já morava em Atlanta, arriscou cantar em uma apresentação do guitarrista Russell Malone (para quem não o conhece, antecedeu Anthony Wilson na banda de Diana Krall). Apresentava-se, três vezes por mês no Ritz Carlton. Freddy Cole era frequentador assíduo e tornouse amigo dela. Mais tarde, foi apresentada, pormeio de um amigo em comum, a Neal Hefti. Foi o empurrão que faltava. Gravou o primeiro disco: In the Company of Friends.

O “pulo” foi conhecer Geoff Keezer. Em When Lights Are Low (2010), alterna standards como It’s You or No One (J. Styne / S. Cahn), Don’t Explain (Billie Holiday / A. Herzog), I Wish I Were in Love Again (Lorenz Hart / Richard Rodgers), canções mais contemporâneas como Big Lie, Small World (Sting), e inclui os brasileiros Ivan Lins [Kisses (Cantor da Noite)], e Roberto Menescal (The Telephone Song), aliás muito boa e  uma amostra de que sabe cantar com balanço. Em Telefone, é acompanhada apenas pelo violão de Peter Sprague e Jon Wikan, no pandeiro.

Para cada canção, Keezer tem uma concepção diferente. A primeira – It’s You or No One – é básica, acompanhada por um trio mais a guitarrra, mas é uma boa introdução para mostrar as habilidades vocais de Donatelli e o piano de Geoff. A segunda faixa é um Don’t Explain excepcional. Entra a originalidade do arranjo. A música é tão conhecida e tão gravada que, fazer algo sobre o tão explorado, é o que faz Geoff, acrescentando o flugelhorn (Ingrid Jansen), três violas, um contrabaixo e um violoncelo.

Keezer tem outras cartas na manga: em Big Lie, Small World, Julia Dollison e Kerry Marsh fazem um belo vocal que lembra em muito as harmonias do Singers Unlimited. Forward, Like So tem a intervenção, novamente de Julia (compositora dessa canção) e Kenny Marsh, com o acréscimo de Keezer tocando o Fender Rhodes.

Vale conhecer Denise Donatelli. Veja o video disponibilizado por sua gravadora Savant.




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As aventuras de Geoff Keezer

Geoff Keezer é do time de Bill Evans. Melódico e autor de harmonias sofisticadas, inexplicavelmente, não é tão conhecido. Uma razão possível é seu gosto de explorar linguagens distantes do jazz como a música japonesa – mais especificamente o “minyo”, que vem a ser a música tradicional da ilha de Okinawa –, a africana e a latina.

Geoff Keezer ao piano
Com 18 anos tornou-se pianista do Art Blakey’s Jazz Messengers. Grande responsabilidade. Estava herdando o banco no qual se sentaram Horace Siver, Cedar Walton, Bobby Timmons, James Williams e Benny Green. O velho baterista, um dos mentores do hardbop, com Silver, sabia muito bem o que estava fazendo.

Profissionalizou-se jovem e gravou muitos discos como líder. Em formações diferentes, dividiu o piano com Harald Malbern, tocou com Steve Nelson (vibrafone e marimba), Bill Pierce (sax), Donald Harrison (sax), Peter Bernstein (guitarra), Rufus Reid (baixo), Victor Lewis (bateria), dentre outros, e como sideman participou das bandas de Roy Hargrove e do grande baixista Ray Brown. Sem um contrato fixo, gravou em selos menores, mas bem prestigiados no universo jazzístico: Dreyfus Jazz, Sunnyside, Telarc, Sackville e MaxJazz. Dentre as majors, gravou pela Columbia (e sua subsidiária japonesa DIW) e a Blue Note.

Os álbuns em que é acompanhado pelo vibrafonista Steve Nelson são muito bons, especialmente, Trio (Sackville, gravado ao vivo em 1993) tendo como terceiro instrumentista o baixista Neil Swanson, sem bateria. Tanto nesses como em World Music (DIW, 1992), entre as várias compostas pelo próprio Keezer, mesclam-se com standards conhecidos como It’s Only a Papermoon, Black Tan and Fantasy, These Foolish Things, Darn That Dream, Epistrophy e Sophisticated Lady. São, portanto, álbuns essencialmente jazzísticos.

Turn Up The Quiet (Columbia, 1997)
Em Turn Up the Quiet (Columbia, 1997), seu disco mais conhecido, tem a companhia de figuras carimbadas como Diana Krall, Christian McBride e Joshua Redman. A primeira faixa, Stompin’ at The Savoy, é um dos destaques. As músicas cantadas por Diana Krall – The Nearness of You, Island Palace e Love Dance, de Ivan Lins – são especiais, pois a canadense é sempre uma presença marcante. Keezer toca sozinho Lush Life, Loose My Breath e My Shining Hour. Os “desvios” são Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, de Ryuichi Sakamoto, e Bibo No Aozora. Essa, que fecha o disco é sublime, e foge um pouco da linguagem do jazz.

Em suas próximas incursões, Keezer continua em seu propósito de não ficar circunscrito nos códigos consagrados do jazz. No piano solo, Zero One (Dreyfus, 1999) constam composições próprias, standards [Footprints (Wayne Shorter), Black Tan and Fantasy (D. Ellington) e Blood Count (Billy Strayhorn)], e canções do repertório popular [Venus as a Boy (Björk), Life on Mars (David Bowie), These Three Words (S. Wonder) e Across the Univers (Lennon & McCartney)]. As peças formam um belo conjunto, rico nas explorações harmônicas e rítmicas, bem diferentes dos piano-solo costumeiros, desconstruindo-as e tornando-as quase irreconhecíveis. Uma dos temas próprios chama-se Asadoya Yunta, inspirado no folclore okinawano, assinalando seu interesse crescente pela música japonesa (a primeira gravação tinha sido a de Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, citada acima).

No álbum gravado pela MaxJazz, Fallin’ Up (2003), além do piano, toca vibrafone, marimba e piano elétrico (Fender Rhodes). Variando bastante de formação, apresenta algumas composições havaianas (Püpü hinuhinu, Wahine hololio, e Kaulana na pua), evidenciando seu interesse em não ficar apenas no tradicional. Mantendo seu “desassossego musical”, gravou um disco com o cantor okinawano Yasukatsu Oshima, disponível em CD japonês e pode ser encontrado no site da Amazon por módicos 42 dólares mais frete.

Seus projetos mais recentes são Aurea e Montre Echo. No primeiro, aventura-se pela música peruana (ouça algums samples em http://bit.ly/fLmgyB). Montre Echo é a exploração de sua mais antiga paixão – a música eletrônica de trilhas de filmes de ficção científica). Há um depoimento de Keezer (www.geoffkeezer.com) falando alguma coisa sobre esses projetos que vale a pena ser visto , pelo menos, para os fãs do tecladista.

Veja um dos vídeos disponibilizados pelo site de Geoffrey de Montre Echo.



Veja-o tocando Summertime com o vibrafonista Joe Locke.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Diana Krall que poucos conhecem

O título capcioso não serve para revelar algum segredo ou fato obscuro da vida de Diana Krall, e muito menos, do marido Elvis Costello. É claro que, não sendo Elvis um modelo de beleza, e Krall, bela e talentosa como é – muitos acham que poderia ter arrumado um homem mais “aprumado” –, o casal é alvo de fofocas e maledicências. Já se disse até que o casamento é de fachada (a exemplo da união de Tom Cruise e Nicole Kidman) e que os filhos gêmeos são de proveta.

Costello e Diana: um casal feliz
Existe gente que não o acha talentoso; mas, de fato, é. Costello participou de algumas pequenas “revoluções” da música. Passou pelo punk, country, folk, new wave, rockabilly, sempre adicionando alguma novidade. É autor de Shipbuilding e Almost Blue. Não precisava fazer mais nada. Elvis tem o “desassossego” dos grandes artistas, é um subversivo, enfim. Foi a Nashville e lá gravou um disco country (fãs e desafetos devem ter torcido o nariz), colaborou em disco do trumpetista cult Chet Baker, associou-se a intérpretes geniais como Robert Wyatt, gravou com Burt Bacharach (um escândalo; Elvis fazendo música easy listening?), gravou discos com uma das melhores mezzo-sopranos da atualidade –Anne Sofie von Otter –, compôs música para balé (Il Sogno), ambos pela mais prestigiada gravadora de música erudita, a Deutsche Grammophon. Não é pouco, não.

Faz parte dos meus roteiros turísticos entrar em lojas que vendem CDs e DVDs. Meio pobre, não? Quando se viaja, deve-se incluir visitas a museus, sítios arqueológicos, espetáculos de música, restaurantes etc. Minha pobreza de espírito e falta de refinamento cultural me empurram para o consumo, principalmente de discos. Quando vou a Nova York, passo por, pelo menos, duas lojas por dia. É uma pena que estejam desaparecendo. Terei de arrumar outras coisas para fazer. Ouvi muito dizerem que, se você vai a Nova York e não vê um musical da Broadway, efetivamente, você não foi a Nova York. Passei dessa fase e depois, acho os ingressos caríssimos. Quase dormi em Cats. Duas filas atrás um japonês roncava, virado de boca aberta para cima. Tive até inveja dele, mas como é que iria dizer aos amigos que tinha achado Cats chata? Aqueles efeitos de um helicóptero descendo em pleno palco ou um lustre descer a toda a velocidade não se sabe de onde, tudo isso não me impressiona. Prefiro passar horas no MoMA e no Metropolitan e depois passar numa Borders, Barnes & Noble, Rizzolli, J&R ou na minha preferida, a Jazz Record Center (sobre a loja, leia http://bit.ly/hYoeP5), que fica escondido num prédio no lado oeste da metrópole.

Pois, em Paris, em 1995, como não conhecia o La Défense, e não era a primeira vez que visitava a cidade, em razão dos clamores de meus companheiros arquitetos, fui até lá. É a parte “muderna” de Paris. Há um grande arco que, visualmente, “abriga” o velho Arco do Triunfo: dá uma linha reta que corre pela Champs Elisées. É a sede do mercado financeiro. Na frieza de sua arquitetura, encontrei uma loja Fnac. Enquanto remexia nas bancadas dos CDs, no setor de jazz, o som que tocavam naquela hora chamou-me a atenção. Fiquei curioso de saber quem era o pianista. Logo mais, ouço uma voz familiar. Era a de Diana Krall. Não tinha essa fama que tem agora. Diana era uma espécie de “segredo bem guardado” de alguns aficionados de jazz. Desde o primeiro que comprara – Only Trust Your Heart – a canadense chamou-me a atenção, pelo piano que lembrava Nat King Cole, pela beleza e pela voz.

Turn Up the Quiet foi lançado em 1996
Falo, no máximo umas vinte palavras em francês, todas relacionadas a comida. Na França, a amiga Vania deu algumas dicas. Uma delas era a de que sempre se usa artigo antes do substantivo. Por exemplo, se fosse pedir água, em vez de dizer “eau”, deveria dizer “l’eau”. Quem viu Pulp Fiction deve lembrar da cena em que John Travolta explica a Samuel L. Jackson que, para se pedir um Big Mac na França, deve-se dizer “Le” Big Mac. Hilariante. Graças a essa lição básica, em vez de pedir a Perrier, um pouco gasosa demais para o meu gosto, podia pedir a “l’eau Badoit, s'il vous plaît”, a minha preferida. Quando tinha de falar com ela, fui instruído a dizer ao telefone: “Vaniá, si vu plé”

Por conta da dificuldade em comunicar-me na língua de Flaubert e Proust, demorei-me uns dez minutos para tomar coragem e abordar um atendente. Solícito, mostrou-me o CD. Era de um pianista que não conhecia: Geoff Keezer (depois, descobri que possuía um disco de Art Blakey, em que tocava). Em inglês, disse-lhe que queria comprá-lo. Ele disse que não podia vender pois era uma amostra para os lojistas e iria estar disponibilizado apenas no começo de outubro. Era setembro e, em poucos dias voltaria ao Brasil. Saí frustrado da loja.

De volta ao Brasil, tempos depois, fui ter com o Odair – grande Odair!, a quem conhecia desde os tempos em que era gerente da melhor loja de discos importados entre os anos 1970 e 80, o Museu do Disco e nessa época, trabalhava numa loja próxima ao Colégio Dante Alighieri. Os catálogos ainda eram impressos (verdadeiros catataus em papel jornal) e não disponibilizados pela internet como hoje. Bom, resumindo, o disco foi lançado uns seis ou sete meses depois. Acho que foi o disco mais esperado daquele 1996.

É desse belo disco que você vai ouvir Love Dance, de Ivan Lins.