terça-feira, 6 de maio de 2014

Sobre contratenores. Ou, homens de vozes femininas

Farinelli  (esq). Alessandro Moreschi, último castrati da história (dir)

 

Há algumas semanas escrevi sobre Jimmy Scott. Por ter nascido com síndrome de Kallmann, não completou o ciclo da adolescência e ficou com voz de menino; ou menina, se considerarmos que homens, normalmente, possuem vozes grossas. Pessoas do gênero masculino podem muito bem ter vozes de “menininha”, ou, como diz uma amiga, voz de franga. Caso notório é do lutador dessa categoria exdrúxula de vale-tudo, adorada por muitos, Anderson Silva. Uma coisa não combina com a outra. Mas não adianta: voz é como impressão digital e não muda.

Vozes privilegiadas como as de Jon Anderson (Yes), e de Robert Plant (Led Zeppelin) são naturalmente agudas. Partiram para o canto em falsete, extremamente afinados e de belo registro (Jon) ou poderosas (Robert). No Brasil, intérpretes assemelhados são Ney Matogrosso e Edson Cordeiro. Se na música popular são menos frequentes, na erudita é muito mais comum. Aliás, Cordeiro já andou se aventurando no repertório clássico interpretando Henry Purcell e Georges Bizet. É óbvio que, na música erudita, aqueles que optaram por ser contratenores, antes de mais nada, tinham belas vozes. A maior parte deles foi revelada em coros infantis, como o célebre Meninos Cantores de Viena (Wiener Sängerknaben).

Tratando desse gênero tão peculiar fica impossível não se cair em armadilhas do “politicamente incorreto”. Cairei certamente em algumas, começando por citar as gozações na adolescência com meninos de vozes finas. Eram chamados de maricas e outros adjetivos menos lisonjeiros. Tudo o que foge da normalidade é peculiar. E, quando o assunto são os cantores classificados como contratenores, estamos falando de um gênero bem específico. É bem possível que, se Jimmy Scott tivesse uma voz normal de homem, não teria sido o sucesso que foi. Suas qualidades como cantor situam-se nessa dramaticidade híbrida, a de um homem com voz feminina.

Vozes encantadoras

O encanto pelas vozes de menino – e não especificamente de homens com registro feminino – vem de tempos imemoriais com os eunucos no Império Bizantino e, posteriormente, com os “castrati” (leia: http://bit.ly/1m3DWyK). Nos séculos XVI e XVII, muita coisa foi composta para esse tipo de voz. Pergolesi, Handel, Purcell, Vivaldi e Gluck são alguns exemplos. Em coros da igreja católica, a participação dos “castrati” acontecia muito em razão de ser vedada a participação de mulheres em cerimônias como missas. O que parecia normal era uma aberração e até a Igreja percebeu. Proibiu a participação deles em cerimônias religiosas, em 1870.

Deve-se a Alfred Deller o redescobrimento da música dos castrati. A Inglaterra tinha forte tradição por causa das composições de Purcell e Handel. O inglês criou a Deller Consort e com isso resgatou o repertório da música barroca e renascentista. Foi tão importante sua contribuição em resgatá-lo, que Benjamin Britten chegou a compor músicas especialmente para ele.

À procura das sonoridades originais

Na constante realimentação da música erudita como chamariz de venda, estabeleceu-se uma nova onda: a da execução de peças antigas como teriam sido tocadas na época em que foram compostas e com instrumentos originais.

A música antiga era executada em salões imperiais, em igrejas ou em pequenas reuniões. À medida em que ela deixava de ser um divertimento da corte e transferia-se para salas de concerto, instrumentos de sons delicados como o do cravo, ficavam inaudíveis, e até o do pianoforte. O piano moderno surge dessa necessidade.

Outro recurso que passou a ser usado por causa de plateias maiores foi o de “dobrar” o número de instrumentos. Em vez de uma seção de cordas de 16, passava-se a 32 e, assim por diante. Assim, o impacto era maior, além do mero aumento do volume sonoro. Mahler, como compositor e como maestro, serve de exemplo. Compôs uma sinfonia que ficou conhecida como “Sinfonia dos Mil” em razão de ser executada, incluindo orquestra e coros, por mais de oitocentos componentes.

Os pioneiros responsáveis por esse resgate do som original são Nikolaus Harnoncourt, Christopher Hogwood e John Eliot Gardiner. Não foi uma moda passageira. Instrumentistas e regentes como Jordi Sawall, Andrew Parrott, Kenneth Gilbert, René Jacobs e muitos outros seguiram por essa trilha e é quase padrão, mesmo em gravações contemporâneas. Em se tratando de música de época, dos séculos XVI e XVII, é quase sempre assim. Nesse ponto entram os contratenores.

A volta dos contratenores

Harnoncourt montou o Concentus Musicus Wien, Hogwood, o Early Music Consort e mais tarde, com David Munrow, o Academy of Ancient Music, e Gardiner, o English Baroque Soloists e, posteriormente, a Orchestre Révolutionnaire et Romantique.
Interpretações com instrumentos de época resgataram os contratenores. Papéis cantados por mulheres na era moderna, no século XX, voltaram a ser cantados como tinham sido concebidos originalmente por Handel e Purcell, por homens.

Como foi dito antes, muitos contratenores começaram cantando em coros infantis. O problema deles era quando chegavam na puberdade e desejassem persistir como cantores. David Daniels, Bejun Mehta e Andreas Scholl são exemplos e ilustram bem a questão dessa passagem. É algo que pode ter a ver com opções sexuais. Há algo de atípico em optar-se ou tentar-se manter a voz de um menino. É como recusar-se a virar adulto, como o “menino do tambor”, do filme de Volker Schlöndorff. Ou, em atitude radical, vender a alma ao diabo e submeter-se à cirurgia, como os “castrati”. Pelo que se sabe, é um procedimento extinto, que teve seu último “exemplar” morto no início do século XX. Seria natural a aceitação da nova voz, mas natural também seria a vontade de manter a voz que possuía, se era bela. Foi esse o dilema de vários, como o de Bejun Mehta, que virou barítono antes de tornar-se contratenor. É uma escolha difícil. Ter corpo de homem, ter barba e querer cantar com voz de mulher? É uma questão delicada. É perfeitamente explicável que muitos deles sejam homossexuais. Ser heterossexual não é uma prerrogativa para ser lutador de boxe ou jogador de basquete masculino, assim como o oposto não é para ser contratenor, mas é fato.


Alguns contratenores

Os dois mais conhecidos na atualidade são Andreas Scholl e Philippe Jaroussky. São, possivelmente os melhores da atualidade. Por não ser uma voz feminina e sim masculina cantada em falsete, o perigo de parecer caricata é grande. Esse é o grande desafio do contratenor. Na minha opinião Philippe Jarrousky é melhor que Scholl. Questão de gosto. Entretanto, os dois são muito bons.


Veja Andreas Scholl interpretando Cold Song, de Henry Purcell.



Ouça uma das mais belas árias da Paixão Segundo São Matheus, de Bach, com Scholl: Erbarme Dich.




A entonação de Jaroussky soa mais natural. Sua voz não fica nos lembrando, em certos momentos, de que é um homem cantando em falsete. Veja a performance dele em Ombra mai fu, de Handel.




Veja a íntegra de Teatro D’amore, baseado na música de Claudio Monteverdi. Jarroussky tem participado das empreitadas musicais do L’Arpeggiata, de Christina Pluhar. Ela tem efetuado um brilhante trabalho em releituras muito originais não só da música da época do Renascimento. Em uma de suas aventuras musicais, em Los Pájaros Perdidos, explora o universo musical da América Latina. Confira o bom trabalho e, de quebra, a brilhante performance do francês.




Um grande contratenor, menos conhecido, é Aris Christofellis. É outro intérprete que, em nenhum momento, nos faz lembrar que é um homem cantando em falsete. A razão de Christofellis não estar entre os mais falados é por não gravar há algum tempo. Preferiu ser professor de música na sua terra natal, a Grécia. Confira.




Outro bom intérprete é o conterrâneo de Jarrousky, Gérard Lesne. O francês é mais velho que o primeiro. Nasceu em 1956. Além de cantor, é diretor musical do Il Seminario Musicale. Ouça sua interpretação de Flow My Tears, canção da época elisabetana.




Nem todos os contratenores são europeus, apesar da tradição. Um dos americanos mais conhecidos é David Daniels. Aqui, canta Rossini.




Outro nome importante é o argentino Franco Fagioli. Veja-o cantando Handel.




Veja Bejun Mehta cantando a ária Famme combattere, de Orlando, de Handel. Bejun nasceu na Carolina do Norte, EUA, e é filho de um primo do maestro judeu indiano Zubin Mehta.

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