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| Stan Getz e o pianista Kenny Barron |
Quando Stan Getz apresentou-se em um festival de jazz, em meados dos anos 1970, era um entre atrações como John McLaughlin na fase pós-Mahavishnu, Chick Corea e Hermeto Pascoal. Eu e alguns amigos juntamos um dinheirinho e optamos por comprar ingressos para todos os dias, uma vez que, se comprássemos separadamente, poderíamos perder os mais importantes, que são sempre os que têm seus ingressos esgotados. Tinha uma programação à tarde e outra à noite. A da tarde, bem mais barata, foi nossa opção natural.
Naquela empolgação típica de adolescentes, assistíamos a do dia e ficávamos a driblar a fiscalização para podermos ver as sessões da noite também. Nessa brincadeira, teve dias em que ficamos doze horas dentro do teatro do Palácio do Anhembi, aquele que tem formato de pudim, na zona norte de São Paulo.
Stan Getz era o cocô do cavalo do bandido, era aquele que estaríamos vendo porque estava no pacote. E, realmente, sua apresentação foi um tanto fria. Entrou mudo e saiu calado. Não deu um sorriso, não disse nenhuma palavra em português, enfim, só tocou. E, sabe como é: brasileiro se derrete quando algum gringo se esforça em falar algumas palavras na nossa língua, até um simples “obrigado”.
Estávamos empolgados, muito felizes de ter uma possibilidade única de ver McLaughlin e Corea no auge de suas carreiras. Propagandearam que poderiam acontecer jam-sessions no fim das programações. E, de fato, ocorreu. A antológica, aquela que ficou gravada foi a de quando Hermeto era o último da noite. Enquanto o mago de Arapiraca fazia das suas, percebemos a entrada de John McLaughlin. Ficou lá parado, fazendo uns riffs, para entrar no clima. Em poucos momentos, já dentro do clima, fez um solo de frevo, ritmo que nem devia saber que existia. Músico bom é músico bom. Mais um pouco, Lá estava Chick Corea fazendo percussão. Timidamente, entra Stan Getz. Fora do clima, tocava algumas notas de saxofone, inaudíveis no meio da zona musical instaurada.
Jovens são cheios de opiniões, como disse. Na minha roda dos fãs do jazz, tínhamos nossos ídolos. No saxofone tenor eram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young. Éramos um pouco puristas também e quando o assunto era ídolos, os nossos eram os da antiga. Dexter Gordon não entra na lista porque o conheceríamos com o lançamento de Sophisticated Giant, em 1977. Nós que éramos jovens, repito, éramos sectários e preconceituosos ao inverso: para ser bom tinha de ser negro. Stan Getz era um forasteiro, um judeu branco americano que se aproveitou da onda da bossa nova para ficar famoso. E sua apresentação não tinha-me feito mudar de opinião.
À época do “desprezo por Getz”, 1976, foi lançado The Best of Two Worlds, álbum com ele, João Gilberto e Miúcha. Um ano antes tinham lançado The Peacocks. Em relação a este, ao gostar dele, tinha Jimmy Rowles como “argumento”. Como é que eu não conhecia? O jeito de Jimmy tocar e cantar era uma coisa! As primeiras notas de Rowles ao piano na música título – The Peacocks, de Bill Evans – deixaram uma marca em meu cérebro, como uma cicatriz. E, afinal, a parte de Getz era uma maravilha. Tinha de rever os meus conceitos sobre o saxofonista.
Perdi a conta de quantas vezes ouvi a Lígia de The Best of Two Worlds. A voz de João Gilberto era de uma melancolia maior do que a de seus autores Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim e o longo solo de Getz, com o violão de Gilberto era pura poesia.
Ouça Lígia.
A rendição final ao saxofone de Stan Getz aconteceu depois de ter comprado People Time, um CD duplo com apresentações ao vivo dele com Kenny Barron, no Café Montmartre, em Copenhagen, em 1991. A Dinamarca não era um lugar estranho para ele.
O saxofonista começou cedo. Com 16 anos, passou a tocar na banda de Jack Teagarden. Getz foi precoce na iniciação com as drogas em razão do meio em que convivia. Em 1954 foi preso por tentar roubar uma farmácia. Para se livrar das drogas e da cadeia, mudou-se para Copenhagen, cidade que acolheu muitos bons nomes do jazz da década de 1950, que emigraram para a Europa por causa de problemas com drogas, como também por terem melhor acolhida, o que não acontecia com a maioria dos músicos negros nos EUA. E já que estava por lá, casou novamente; dessa vez, com uma ricaça dinamarquesa.
Em 1991, Getz estava com câncer no fígado em estado avançado. As apresentações em duo com Barron servem como testamento pois foram gravadas nos dias 3, 4, 5 e 6 de março, pouco antes de sua morte, em 6 de junho. Tocando em um dos clubes de jazz mais famosos do mundo, estava em seu segundo lar.
Uma das melhores faixas é a de First Song (for Ruth), composição de Charlie Haden.
Ouça East of the Sun (and West of the Moon).
Softly, As in a Morning Sunrise.
Quando morreu, Getz tinha 64 anos. Pelas estatísticas modernas, foi cedo. Mas continuou a fazer shows pelo mundo afora, em clubes e em festivais. Em 2003 foi lançado um CD chamado Bossa and Ballads: The Lost Sessions. O “lost sessions” é bem explicitativo. Mas não eram tão “lost”. Ficaram apenas à espera de uma oportunidade de serem lançadas. Foram feitas em 1989 com o mesmo Kenny Barron, George Mraz e Victor Lewis. Evidente que a expressão “bossa” nos remete aos grandes discos da fase em que conheceu a música brasileira através de Charlie Byrd. O momento mais bossa nova é a faixa Joanne Julia, e a mais brasileira mesmo seria uma canção cujo título é Feijoada, com direito a bumbo, algo incomum na música americana. E isso não é “culpa” de Getz. Barron, os que o conhecem, sabem bem: é um apaixonado pela música brasileira e, ao contrário da maioria dos pianistas, é compositor também. As duas são de sua lavra, assim como a maior parte do CD. As exceções são Yours and Mine (Mel Lewis), Soul Eyes (Mal Waldron), Beatrice (Sam Rivers) e The Wind (Russ Freeman, Jerry Gladstone).

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