quarta-feira, 16 de março de 2011

Miles Davis por Boris Vian

Miles e Juliette Gréco
Quando o trumpetista Miles Davis excursionava pela Europa, em 1957, fora convidado a fazer a trilha sonora do filme Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur pourl’echaufaud). A ideia tinha sido de um admirador do jazz, Jean-Claude Rappeneau, que estava produzindo o filme do então jovem Louis Malle, a Marcel Romano, que, por sua vez, fez o convite a Miles Davis.

Miles foi compondo a música enquanto via trechos do filme em copião ao lado de Malle e da atriz Jeanne Moreau. Contam a história de que teve um namoro com a musa existencialista Juliette Gréco. Bom, mas essa é outra história.

O dublê de escritor e músico – trumpetista – Boris Vian escreveu sobre um “acidente” ocorrido na gravação: “Uma estranha sonoridade no trumpete de Miles pode ser notado na música Diner au motel. Isso aconteceu quando um pedaço de pele se desprendeu do lábio e ficou colado no bocal do instrumento. E, assim como certos pintores devem uma qualidade plástica em seus trabalhos por algum acidente, da mesma forma, Miles, prontamente, saudou esse ‘inédito’ elemento da música.”

Como curiosidade, ouça Diner au motel.


terça-feira, 15 de março de 2011

Laurence Hobgood e a sina dos pianistas acompanhantes

Quem sabe o nome do pianista que toca com Tony Bennett? Se você disse Ralph Sharon, acertou. O inglês, naturalizado, americano toca com o cantor desde 1958. Recebe um salário régio de milhares de dólares anuais. Sharon é exímio pianista e tem um série de discos gravados em trio, chamados The Magic of… Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin, Rodgers & Hart e Jerome Kern. Para variar um pouco a nomenclatura, gravou Plays the Frank Loesser Songbook, Plays the Harry Warren Songbook e The Ralph Sharon Quartet Plays the Ralph Blane Songbook. Gravou também Portrait of Harold. O Harold é o Arlen. Em suma, com nomes-títulos em variação, gravou, praticamente tudo de melhor do cancioneiro americano. Na cadeira que lhe foi destinada, para ser acompanhante do longevo cantor ítalo-americano Anthony Dominick Benedetto, pintor mais que diletante, Ralph toca muito, mas pouco aparece.

Acompanhar cantores é uma arte. Os mestres de todos os tempos são Hank Jones e Tommy Flanagan, que acompanharam Ella Fitzgerald. Não só mestres como acompanhantes, possuem belíssimos discos como líderes. Na música erudita acontece uma coisa bem parecida. Gerald Moore e Geoffrey Parsons passaram a vida acompanhando Dietrich Fischer-Dieskau, Elisabeth Scharzkopf, e outros cantores líricos. Pouco se sabe de gravações deles como solistas; confesso desconhecer. Alguns como Radu Lupu, Edwin Fischer e Walter Gieseking transitaram nos dois modos, mas foram ou são, basicamente, virtuoses. É um pouco o caso do húngaro Georg Solti, grande maestro e ótimo pianista “acidental”. Daniel Barenboim fez o caminho inverso: de pianista, constrói uma carreira belíssima como regente. Tem Vladimir Ashkenazy. É bom parar por aqui: a lista seria interminável.

Hobgood, e Kurt Elling em segundo plano
Laurence Hobgood é o pianista de Kurt Elling, desde Close Your Eyes, lançado em 1995, pela Blue Note. É seu diretor musical também. Os dois, baseados em Chicago, iniciaram a parceria em 1993. Para quem não conhece Elling, corra até as lojas. Ele é o melhor cantor de jazz atualmente. O “atualmente” tem mais de dez anos. Após o reinado de Joe Williams, o cetro passou para Kurt, passando por breves oscilações entre Andy Bey, Kevin Mahogany (que anda meio sumido), e os veteranos Mark Murphy e Tony Bennett.

Não é fácil a vida de “segundo” do melhor cantor de jazz. Por melhor que seja, fica em plano… secundário. Mas, aproveitando o ditado de que “ao lado de um grande homem sempre há uma grande mulher” – à mercê de certo chauvinismo e um tanto de misoginia –, um bom pianista só valoriza o bom cantor; Tony Bennett que o diga. E é o caso de Hobgood.

When The Heart Dances (2009) é o terceiro disco que grava como líder. Conta com a participação de Charlie Haden e de Kurt Elling, que canta First Song, Stairway to the Stars (estupendo, cantado em “marcha lenta”), e a ellingtoniana Daydream. Haden é perfeito nos duos piano/baixo. Gravou nesse formato com Denny Zeitlin, Keith Jarrett, Egberto Gismonti, Chris Anderson e Hampton Hawes.

Que Sera Sera ficou um pouco estigmatizada pela forma como foi inserida em O Homem Que Sabia Demais (1956), filme de Alfred Hitchcock. Para quem não lembra, Doris Day e James Stewart formam um casal que tem o filho raptado no Marrocos. Com direito a muito suspense, Whatever Will Be, Will Be (Que Sera Sera) serve de gancho para encontrar o menino. Ele reconhece a voz da mãe, e assim é localizado. A canção vendeu milhões de cópias e amealhou o Oscar de Melhor Canção do Ano. A bela composição de Jay Livingstone e Ray Evans – tem um “quê” de kitsch – marcou bastante Doris que, além de boa atriz – apesar do estigma de “casal perfeito” de tantos filmes “água com açúcar” em dupla com Rock Hudson –, era ótima cantora. Não é casualidade o escritor e jornalista Ruy Castro tê-la incluído no livro Saudades do Século XX (Companhia das Letras, 1994) como uma de suas protagonistas.

Pois é com Que Sera Sera que Hobgood abre o disco. É um belíssimo solo de piano. Como líder, ele tem espaço para mostrar o quanto é bom em construir arquiteturas ricas em melodia e harmonias sofisticadas. E não é uma replicação do estilo de pianistas mais assemelhados ao seu estilo, como Keith Jarrett e Bill Evans. Suas interpretações são líricas e intensas. É o que você irá constatar em The Cost of Loving, composição de Don Grolnick.



É correta a constatação de R. J. DeLuke, colunista do All About Jazz: “O por quê de, ele não ser mais conhecido é, provavelmente, uma combinação de fatores no instável e esquizofrênico mundo do show business.”

Outra amostra: Kurt Elling canta First Song, de Charlie Haden.



Ouça o piano de Hobgood acompanhando Elling em My Fooloish Heart.