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terça-feira, 26 de julho de 2016

Depois de Esperanza Spalding, Katie Thiroux

É mais fácil imaginar Ray Brown ou Ron Carter a tocar o contrabaixo acústico a uma mulher. Com seus 1,96 metros, o baixo não fica tão desproporcional pra Carter, e, do mesmo modo,o tamanho não era impeditivo para Ray sair dançando com ele. Sem pretender ser misógino, o contrabaixo é para machos. Para contrariar esse juízo, tem surgido instrumentistas que resolveram encarar as suas dimensões avantajadas, e elas atendem pelos nomes de Esperanza Spalding, Nicky Parrott e Katie Thiroux, que, além de tudo, são belas e talentosas. E o mais incrível: cantam também.

Das três, a mais conhecida é Esperanza Spalding. Carismática e inquieta, transitando pelo jazz como contrabaixista, tendo participado da banda do consagrado saxofonista Joe Lovano, é bem conhecida dos brasileiros, por ter em seu repertório clássicos da bossa nova, como Samba em Prelúdio e Inútil Paisagem, e Ponta de Areia, de Milton Nascimento, é a artista mais arrojada, não apenas pelo seu visual, com cabelos à la Angela Davis, mas por suas aventuras como a de seu último álbum Emily’s D+Evolution, considerado um dos vinte melhores lançamentos do ano pela Downbeat.

Menos famosa, mas bem conhecida pelos que apreciam os álbuns lançados pela japonesa Venus Records, está mais para o mainstream do jazz, o que não invalida suas qualidades como contrabaixista e cantora de bons recursos e voz bem agradável, é Nicki Parrott.

A terceira
Katie Thiroux começou tocando violino, quando tinha quatro anos. Quando podia decidir por si, resolveu dizer à mãe que queria desistir do violino. Sugeriu que continuasse a tomar suas lições de música e passar a trocar contrabaixo. Descobriu o jazz e também que queria cantar. Enviou uma fita demo para Tierney Sutton e esta deu-lhe aulas de canto. Era uma menina ainda. Com 17 anos, ficou em primeiro no Los Angeles Jazz Society’s Shelly Manne New Talent Award. Por voos maiores, foi estudar na Berklee College of Music, em Boston. Recebeu o “master’s degree” pela California State University e voltou a morar em Los Angeles.

Em 2013, formou a banda com o bom guitarrista Graham Dechter, o saxofonista Roger Neumann e o baterista Natt Witeck. Quando foi gravar Introducing Katie Thiroux, chamou Jeff Hamilton para produzi-lo. Composto de alguns standards como There’s a Small Hoel, A Beautiful Friendship, The One I Love (Belongs to Somebody Else), Wives and Lovers, What a Beautiful Morning, Shiny Stockings e I’m Old Fashioned, três das composições são de autoria de Katie.

Introducing Katie Thiroux foi considerado o melhor disco de estreia de 2015, pelo Huffington Post, e ficou entre os cinco melhores, também como disco de estreia no NPR Jazz Critics Poll. Dan Bilawsky, no site allabout jazz, ressalta a qualidade das linhas do baixo acústico e a perfeita compreensão das letras das canções escolhidas. Na minha opinião, surpreende a qualidade do álbum, tanto que nem parece um disco de estreia.

Veja Katie em Wives and Lovers, de Burt Bacharach e Hal David.




Veja Katie em What a Beautiful Morning (Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II) e Ray’s Kicks (de sua autoria).




Katie canta There’s a Small Hotel.





Ouça Can’t We Just Pretend. O sax é de Roger Neumann.

terça-feira, 11 de junho de 2013

James Farm, Esperanza Spalding, Egberto Gismonti, as atrações do BMW Jazz Festival

O saxofonista Joshua Redman
Os tais “festivais de jazz” no Brasil trocam de patrocinadores, mas o nível tem se mantido alto. O público teve oportunidade de ouvir desde músicos de vanguarda como Cecil Taylor, consagrados, como Ahmad Jamal, e novos, como Ambrose Akinmusire. Toy Lima, o programador anterior, trouxe vários músicos que, dificilmente viriam ao Brasil. Neste BMW Jazz Festival, a produção foi da Duetto, de Monique Gardenberg. A edição de 2013 não fugiu à regra de trazer nomes novos, ou menos conhecidos do público brasileiro em geral e também os consagrados. As atrações de sexta-feira, único dia que fui, são um bom exemplo dessa diversidade.


James Farm
A curiosidade que não foi citada em nenhum momento – não sei se é importante, porém – é a de que o nome James Farm não se refere a uma pessoa, e sim a um grupo de instrumentistas que têm as suas iniciais no nome James: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. Citei isso no post sobre o álbum Walking Shadows, de Redman (leia http://bit.ly/1jphgFQ). Teoricamente, o líder seria Joshua, pelos vários álbuns lançados com seu nome. Mas James Farm, como o próprio saxofonista tem feito questão de frisar, é um projeto coletivo. E, realmente, foram executados na noite de sexta composições de todos os membros, inclusive uma do baterista Eric Harland. Aliás, este foi uma atração à parte. É um grande baterista. Pela segunda vez, vem ao Brasil. Toca usualmente na banda de Charles Lloyd, que se apresentou no ano passado (leia http://bit.ly/MxItaq). De Joshua, nem é preciso falar. É um dos melhores saxofonistas da atualidade. Com solos vigorosos, estraçalhou.

Veja a apresentação do James Farmer no Jazz Standard tocando Chronos. Este tema foi um dos destaques da sexta-feira.




Esperanza Spalding
Das três atrações, a principal era a de Esperanza Spalding, pelo menos quanto às expectativas. Nem tem 30 anos, já lançou três álbuns e é bem conhecida no Brasil, até por ter gravado Ponta de Areia, de Milton Nascimento. Ela faz parte de uma geração que tem fundamentos baseados no jazz e pés em outros gêneros musicais. Exemplos: Cassandra Wilson (leia http://bit.ly/1152miO e http://bit.ly/12gBEoV), Lizz Wright (leia http://bit.ly/WkImI5), Norah Jones (leia http://bit.ly/KDx20a) e Jamie Cullum. Celebrada, não apenas pelo público geral, mas pela crítica especializada, é um fenômeno em vários sentidos. Vá, é um charme especial ver uma mulher com menos de 1,70 m tocando um contrabaixo. E mais: bem. Se não fosse não teria feito parte da banda do consagrado Joe Lovano. Não tocou muito o acústico, privilegiando o elétrico, mas manda muito bem nos dois. O Radio Music Society conta com dois trombonistas, dois trompetistas, três saxofonistas, um guitarrista, um tecladista, um baterista e um vocalista. Posso estar esquecendo de algum músico. Eram muitos. Alguns se destacam: o guitarrista Ricardo Vogt, não por ser brilhante, mas por ser (foi o que ficou subentendido), namorado de Esperanza, o tecladista, o argentino Leo Genovese, a trompetista Leala Cyr, pelo belo vocal que fez com a baixista, lembrando vocalises de Bobby McFerrin, e, principalmente, Tia Fuller, arranjadora e saxofonista alto. Fez solos eletrizantes.

O cabelo de Esperanza, na apresentação, estava menos Angela Davis (para quem não conhece essa ativista, veja em http://bit.ly/H2pvtr). É uma moça miúda, bela, carismática e, antes disso, talentosa. Evidente que fez o maior sucesso. Simpaticíssima, declarando várias vezes amor pelo Brasil e por sua música, falando um pouco de português, não tinha como deixar de cair nas graças do povo. Não cantou nenhuma de seu compositor favorito – Milton Nascimento –, mas Inútil Paisagem, de Jobim, fez parte do set.

Na última votação da Downbeat (60th Annual Critics Poll), como contrabaixista ficou em terceiro, deixando Dave Holland, Stanley Clarke e Ron Carter para trás. No baixo elétrico ficou em segundo, atrás apenas do genial Christian McBride, deixando para trás Stanley Clarke, Marcus Miller e Steve Swallow. Como cantora, ficou em terceiro, à frente de Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewater, Diana Krall e outras de mesmo calibre. A moça está com prestígio, sem dúvida. Estou achando que sou o único neste planeta que não acha tudo isso dela. É, sem dúvida, muito boa, mas considero-a superestimada (overrated).

Para discordar de mim, assista a uma apresentação dela com o Radio Music Society no prestigiado Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, de 2012.




Egberto Gismonti
Qualquer apresentação de Egberto Gismonti é um acontecimento. Vi dezenas do multinstrumentista e compositor. A primeira foi em um parque nas proximidades do Jóquei Clube de São Paulo. Em meados dos anos 1970, todos os domingos, aconteciam apresentações, em sua maioria, de música instrumental. Foram manhãs maravilhosas em que ouvi Hector Costita, Johnny Alf e João Bosco cercado de árvores e trilhas.

O carioca de Carmo é um músico que não parou no tempo. Sempre surpreendente. Dentre os brasileiros é quem, na música instrumental, arrematou maior prestígio internacional, juntamente com Hermeto Pascoal.

A genialidade de Gismonti não está apenas em suas composições ou na maestria com que toca piano, violão e flautas. Gravou em todos os formatos possíveis usando seu talento como arranjador. O último álbum lançado pela ECM, em 2009, o duplo Saudações, Sertões Veredas - tributo à miscigenação, é com a Camerata Romeu, orquestra cubana. Antes, gravou com orquestra Academia de Danças (EMI-Odeon, 1974), Corações Futuristas (EMI-Odeon, 1976), Nó Caipira (Carmo/ECM, 1978), New Tango, Brazilian Touch (Milan, 1991) e, mais recentemente, Meeting Point (ECM, 1997), com a Lithuanian State Symphony Orchestra.

Na apresentação no BMW Jazz Festival, Gismonti veio com mais uma surpresa. A educadora e diretora Tina Pereira formou uma orquestra de jovens. Em 2008 EG passou a colaborar com a orquestra. Com a morte súbita de sua diretora, deu continuidade ao projeto. Essa formação, constituída por 22 jovens passou a se chamar Orquestra Corações Futuristas. E foi com ela que Gismonti se apresentou como regente. Em apenas um pequeno trecho do show sentou-se ao piano. Grande apresentação. É emocionante ver a energia que emana de jovens encantados com a oportunidade de estarem com o mestre.

Impressionante a rapidez com que se registram apresentações no youtube. O show foi agora e um trecho já está lá. Veja.




Veja uma outra apresentação, desta vez no Rio de Janeiro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012

Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano
Com certo atraso, comento sobre a lista dos melhores, segundo os leitores da revista Downbeat.

Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.

Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.


A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True

Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.

A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.

Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.

Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.




Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)

Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.

Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.

Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.

Gypsy. Nesta e na próxima, Ahmad é acompanhado por Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria, e Manolo Badrena na percussão.



Laura.



Com Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, ouça No Mistery.




quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ventos selvagens de Esperanza Spalding

Spalding, visual mais “blackpower” que os da Angela Davis
Está desvendada a razão de Esperanza ser tão fluente em português. A razão se chama Ricardo Vogt. Gaúcho, residente desde os 17 anos nos EUA, estudou na Berklee School of Music. Bem, isso é um chute pois. pelo que parece, Esperanza se interessa pela música brasileira desde criancinha. Está evidenciado em seu segundo CD – Esperanza –, que é de 2008 (o primeiro, Juno, é de 2006). Nesse disco lançado pelo selo HighNote, duas das músicas são de onde “o céu tem mais estrelas” e “os bosques têm mais vida”: Ponta de Areia, de Fernando Brant e Milton Nascimento, e Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Nem tanto por Ponta de Areia e mais pala segunda, evidencia conhecimento de nossa música. O curioso de Samba em Prelúdio é que, apesar de tão bela, não é muito gravada pelos brasileiros.

Esperanza é o “talk of the town” atual. Essa moça, nascida em 1984, novinha desse jeito, já ganhou a crítica e o público. Razões existem. Vamos começar pelas frivolidades: que bela figura é esssa moça de cabelos black power, que lembra os da ativista dos direitos dos negros na década de 1970, Angela Davis! Os de Angela são modestos diante dos de Esperanza. E que charme é uma mulher tocando um instrumento tão masculino como um contrabaixo, e bem.

No segundo disco lançado, com vinte e tralalá, se consagra e a crítica a coloca nos céus. Quem sou eu para contrariar tal endeusamento, mas vou confessar uma coisa: incomodo-me com algumas músicas cantadas por ela; e me ajoelho quando a ouço apenas tocando o contrabaixo, como em If That’s True. Não é sem razão que Joe Lovano a tenha arregimentado para o seu grupo US Five. Se considerarmos que as pessoas evoluem com o tempo, a moça tem uma seara aberta, e ouviremos muito se falar dela.

Enquanto escrevo, nesse exato momento, canta Samba em Prelúdio. Que bela música, e tão bela é sua interpretação, só com o baixo e o violão de Nino Josele. Mas, voltando ao geral, quando ouvi falar dela, corri até as lojas. Por um problema atávico de sempre desconfiar das unanimidades, não caí na onda de achá-la genial e, até hoje, confesso, acho que deveria cantar menos. O estalo – ou a revelação – de que ela é excepcional me vieram depois de assistir a uma apresentação que fez em 2009 no Festival Jazzaldia, em San Sebastian, Espanha.

Ativista Angela Davis 
A apresentação se inicia com seu trio Logo depois, entra fazendo improvisos com a voz. Como cabelo cresce, o de Esperanza é um show; brinca com a plateia dizendo que é natural e não uma peruca. Ultrapassou, em comprimento, muito o da ex-militante Angela Davis. Impressiona ver uma pequena mulher tocando um contrabaixo. É surpreendente até, que mãos tão pequenas possam pressionar as cordas e fazê-las soar tão claras. Mais surpreendente ainda é como toca bem o baixo elétrico: tem pegada. Perfeita a banda. O neohippie argentino Leo Genoveze é a melhor surpresa; às vezes lembrando McCoy Tyner, que bom pianista é! A sonoridade do brasileiro Vogt é discreta e precisa… e canta: dá uma palhinha em Coisa Feita, de João Bosco, e descobrimos que é brasileiro. Por trás de tudo, a experiência do bateria Otis Brown. Nessa apresentação há um Wild Is the Wind, consagrado na voz de Nina Simone, de ajoelhar.

O CD mais recente de Spalding – Chamber Music Society (2010) – tem uma proposta mais ambiciosa do que a do anterior. Em várias faixas, é acompanhada por um trio de cordas (cello, viola e violino). Alguns vocais são mais elaborados e se contrapõem às cordas, ao contrabaixo, e a algumas sobreposições de voz (tem a participação em uma ou duas faixas da revelação Gretchen Parlato). A interpretação de Inútill Paisagem é um destaque pela sofisticação nos vocais. Wild Is the Wind é outra amostra da elegância dos arranjos de Spalding com Gil Goldstein. Na recente votação dos críticos da revista Downbeat, foi considerado o terceiro melhor disco de jazz do ano. Não o considero merecedor dessa láurea, apesar de avaliá-lo bom. Gosto meu. Depois de descobrir que o Carlos Conde – que foi uma das pessoas mais respeitadas no Brasil, quando o assunto era jazz – não gostava do Herbie Hancock, cheguei à conclusão de que opiniões pessoais devem ser respeitadas.


Esperanza canta e toca Wild Is the Wind.



A do CD.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A lista dos melhores da Downbeat, segundo a crítica, e considerações mais que pessoais sobre ela

A mania de listas dos melhores ou dos preferidos há muito existe – desde que a Humanidade é Humanidade, talvez; quando Nick Hornby lançou Alta Fidelidade, muito se falou – isso dentre os que leram, decerto – da personagem que fazia lista de tudo: músicas preferidas, poll de ex-namoradas, por exemplo. Listas de melhores do ano são a coisa mais comum, e vende. Quem não gosta?

A conhecida revista Downbeat faz duas por ano: a dos leitores é divulgada na revista de dezembro, e a dos críticos, em agosto. Pois, é dela que comento a seguir.

O tricoroado Jason Moran
O “campeão” do ano é o pianista Jason Moran. É a “bola da vez”. Além de ter o álbum Ten (Blue Note, 2010) como melhor do ano, foi considerado o “artista do ano” e o “melhor pianista”, à frente de Keith Jarrett, Brad Mehldau, Fred Hersch, Hank Jones e Kenny Barron, respectivamente. Dos cinco, quatro dos meus preferidos, estão citados. Como diz o ditado popular – “gosto não se discute, apenas se lamenta” – prefiro-os a Moran. Isso não significa absolutamente nada, se considerarmos que os críticos devem conhecer mais música do que eu, pois esta é a profissão deles.

Mesmo assim, entre os discos que conheço de Moran, acho Ten o melhor. Imagino que deve ter pesado, pelo menos diante da crítica, o ecletismo desse pianista de apenas 36 anos: seus interesses não se restringem apenas ao jazz; não faz o gênero “jazz bom é jazz acústico”; toca instrumentos elétricos – às vezes inserindo sons bem estranhos e que não combinam, na minha opinião –, grava compositores relacionados à música erudita, como Conlon Nancarrow (Study nº 6, em Ten), absorve influências do hiphop, compõe para espetáculos de dança e, recentemente, desenvolveu com a cantora-compositora Ndegcocello (nascido Michelle Lynn Johnson) uma performance musical baseada em temas de Fats Waller (Moran toca piano e Fender Rhodes usando uma máscara feita em papier mâché). 

Ten foi considerado o melhor do ano
Com seus parceiros Bandwagon (Tarus Mateen no baixo e Nasheet Waits na bateria), o som produzido é vigoroso. Apesar de, naturalmente, o piano se destacar, o baixo e a bateria não são meros coadjuvantes. É um som coeso de uma formação que tem alguns anos e diferencia-se por fugir dos moldes mais tradicionais de “cada um tem seu momento solo”. As interpretações de Moran são angulosas, com o piano caminhando por linhas sinuosas e acordes poderosos. Uma característica que sobressai, principalmente como membro da banda do saxofonista e flautista Charles Lloyd, é seu lado lírico. Em Ten, essa faceta é evidenciada na composição Pas de deux - Line Ballet, lindíssima, e uma demonstração de seu talento. É natural que nos discos em que é o líder procure imprimir uma marca. É onde “meu gosto” não bate bem com o tipo de som que produz, mesmo considerando-o grande pianista. O que me incomoda é um certo “excesso de piano”; acho um tanto sufocante. Silêncios e pausas dão contraste e respiro, e é isso que sinto falta quando ele toca como líder.

Ouça Jason Moran interpretando Thelonious Monk (Crepuscule with Nellie). O estilo sincopado de Monk é replicado em mudanças de andamento abruptas e poucos silêncios.


Não quero, de modo nenhum, fazer uma crítica em relação aos álbuns escolhidos, mas somente fazer algumas observações. Boa parte dos discos nomeados, não os conheço. Procuro ouvir o que me atrai e posso apenas dizer alguma coisa sobre estes. Consequentemente, é um juízo bem pessoal. 
O que ficou em segundo é Bird Songs, de Joe Lovano e sua banda Us Five. Conheço o primeiro CD gravado com essa formação e posso dizer que, como de costume, esse prolífico saxofonista mantém um alto nível. 

O terceiro é Chamber Music Society, por coincidência, da baixista do Us Five, Esperanza Spalding. Na minha opinião – mais uma vez, aquela questão do “gosto” –, não consigo entender a supervalorização da crítica em relação a essa excelente baixista e cantora “mais ou menos” – opinião pessoal, ressalto. Nunca colocaria esse álbum e muito menos o anterior – Esperanza (2008) – entre os “dez mais”. Como disse, é uma bela baixista, e nem porque grava nosso glorioso Milton Nascimento (os brasileiros têm motivos de sobra para achá-la genial: além de Milton, canta Samba em Prelúdio, imortalizada pela atriz-cantora Odette Lara e composta por Vinícius de Moraes e Baden Powell, num português perfeito), considero-a uma boa cantora mas, boa baixista, é. Sua figura, com aquele cabelão “à la Angela Davis”, a faz uma figura carismática, sem dúvida. Apesar desses poréns, acho que Esperanza está fadada a ter um futuro brilhante.

Ouça Esperanza Spalding cantando Samba em Prelúdio.


Outros entre os “dez mais” da revista Downbeat que conheço são Jasmine, belo duo de Keith Jarrett e Charlie Haden (sobre esse CD, leia em http://bit.ly/nuooCB), e Highway Rider (Nonesuch, 2010), de Brad Mehldau. Sou fã desse pianista desde o primeiro CD que ouvi (Introducing Brad Mehldau, WB 1995), mas não acho que o classificado como sétimo melhor do ano esteja entre seus melhores.

Além dos dez melhores, estão listados em tipos menores e sem descrição, mais onze CDs. Para constar, Solo, de Vijay Iyer (Act 2010), ficou em 18º. Falei dele em http://bit.ly/qTI1Ia. Na minha opinião, esse CD é tão bom quanto Ten, de Jason Moran; merecia estar entre os dez.

A lista
1. Jason Moran, Ten
2. Joe Lovano Us Five, Bird Songs
3. Esperanza Saplding, Chamber Music Society
4. Rudresh Mahanthappa & Bunky Green, Apex
5. Keith Jarrett, Charlie Haden, Jasmine
6. James Moody, Moody 4B
7. Brad Mehldau, Highway Rider
8. Mary Halvorson Quintet, Saturn Sings
9. William Parker, I Plan to Stay a Believer: The Inside Songs of Curtis Mayfield
10. Danilo Perez, Providence