quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ventos selvagens de Esperanza Spalding

Spalding, visual mais “blackpower” que os da Angela Davis
Está desvendada a razão de Esperanza ser tão fluente em português. A razão se chama Ricardo Vogt. Gaúcho, residente desde os 17 anos nos EUA, estudou na Berklee School of Music. Bem, isso é um chute pois. pelo que parece, Esperanza se interessa pela música brasileira desde criancinha. Está evidenciado em seu segundo CD – Esperanza –, que é de 2008 (o primeiro, Juno, é de 2006). Nesse disco lançado pelo selo HighNote, duas das músicas são de onde “o céu tem mais estrelas” e “os bosques têm mais vida”: Ponta de Areia, de Fernando Brant e Milton Nascimento, e Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Nem tanto por Ponta de Areia e mais pala segunda, evidencia conhecimento de nossa música. O curioso de Samba em Prelúdio é que, apesar de tão bela, não é muito gravada pelos brasileiros.

Esperanza é o “talk of the town” atual. Essa moça, nascida em 1984, novinha desse jeito, já ganhou a crítica e o público. Razões existem. Vamos começar pelas frivolidades: que bela figura é esssa moça de cabelos black power, que lembra os da ativista dos direitos dos negros na década de 1970, Angela Davis! Os de Angela são modestos diante dos de Esperanza. E que charme é uma mulher tocando um instrumento tão masculino como um contrabaixo, e bem.

No segundo disco lançado, com vinte e tralalá, se consagra e a crítica a coloca nos céus. Quem sou eu para contrariar tal endeusamento, mas vou confessar uma coisa: incomodo-me com algumas músicas cantadas por ela; e me ajoelho quando a ouço apenas tocando o contrabaixo, como em If That’s True. Não é sem razão que Joe Lovano a tenha arregimentado para o seu grupo US Five. Se considerarmos que as pessoas evoluem com o tempo, a moça tem uma seara aberta, e ouviremos muito se falar dela.

Enquanto escrevo, nesse exato momento, canta Samba em Prelúdio. Que bela música, e tão bela é sua interpretação, só com o baixo e o violão de Nino Josele. Mas, voltando ao geral, quando ouvi falar dela, corri até as lojas. Por um problema atávico de sempre desconfiar das unanimidades, não caí na onda de achá-la genial e, até hoje, confesso, acho que deveria cantar menos. O estalo – ou a revelação – de que ela é excepcional me vieram depois de assistir a uma apresentação que fez em 2009 no Festival Jazzaldia, em San Sebastian, Espanha.

Ativista Angela Davis 
A apresentação se inicia com seu trio Logo depois, entra fazendo improvisos com a voz. Como cabelo cresce, o de Esperanza é um show; brinca com a plateia dizendo que é natural e não uma peruca. Ultrapassou, em comprimento, muito o da ex-militante Angela Davis. Impressiona ver uma pequena mulher tocando um contrabaixo. É surpreendente até, que mãos tão pequenas possam pressionar as cordas e fazê-las soar tão claras. Mais surpreendente ainda é como toca bem o baixo elétrico: tem pegada. Perfeita a banda. O neohippie argentino Leo Genoveze é a melhor surpresa; às vezes lembrando McCoy Tyner, que bom pianista é! A sonoridade do brasileiro Vogt é discreta e precisa… e canta: dá uma palhinha em Coisa Feita, de João Bosco, e descobrimos que é brasileiro. Por trás de tudo, a experiência do bateria Otis Brown. Nessa apresentação há um Wild Is the Wind, consagrado na voz de Nina Simone, de ajoelhar.

O CD mais recente de Spalding – Chamber Music Society (2010) – tem uma proposta mais ambiciosa do que a do anterior. Em várias faixas, é acompanhada por um trio de cordas (cello, viola e violino). Alguns vocais são mais elaborados e se contrapõem às cordas, ao contrabaixo, e a algumas sobreposições de voz (tem a participação em uma ou duas faixas da revelação Gretchen Parlato). A interpretação de Inútill Paisagem é um destaque pela sofisticação nos vocais. Wild Is the Wind é outra amostra da elegância dos arranjos de Spalding com Gil Goldstein. Na recente votação dos críticos da revista Downbeat, foi considerado o terceiro melhor disco de jazz do ano. Não o considero merecedor dessa láurea, apesar de avaliá-lo bom. Gosto meu. Depois de descobrir que o Carlos Conde – que foi uma das pessoas mais respeitadas no Brasil, quando o assunto era jazz – não gostava do Herbie Hancock, cheguei à conclusão de que opiniões pessoais devem ser respeitadas.


Esperanza canta e toca Wild Is the Wind.



A do CD.

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