Mostrando postagens com marcador Kurt Elling. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kurt Elling. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de maio de 2019

Caixa alta, só Deus. Ou a história de Nature Boy

O nome de kd lang – atualmente usam pontos, k.d. – é grafado sempre em caixa baixa (é a forma de que designers gráficos e editores se referem às minúsculas). Ela não é a primeira do universo musical a optar por essa forma. Seu predecessor mais famoso é eden ahbez, pseudônimo de George Alexander Aberle, autor de “Nature Boy”.

eden ahbez proibiu em contrato de
que seu nome fosse grafado em maíúscula
eden foi o que se poderia chamar de proto-hippie, ou seja, era hippie antes que esse movimento surgisse. Gostava de vestir-se com batas e usava barba e cabelos longos que o fazia parecer com Jesus Cristo. Em 1947 conseguiu se aproximar do empresário de Nat “King” Cole querendo mostrar uma música para o cantor/pianista.O título era “Nature Boy”. Bom, o resto é história: “King” Cole gravou e o single ficou por oito semanas em primeiro lugar nas paradas. Na esteira, Sarah Vaughan e Frank Sinatra a gravariam também. Ele não teve nenhum outro sucesso apesar de outras composições terem sido gravadas por Doris Day, pelo grupo vocal Ink Spots, Eartha Kitt e até pela roqueira Grace Slick. Hoje é conhecido por ser autor de uma música só. Dentre todas as excentricidades a mais conhecida foi a da imposição de que seu nome teria de ser grafado apenas em letras minúsculas; maiúsculas, só Deus. Durante muito tempo isso foi respeitado. Com o passar dos anos esqueceram dessa “obrigatoriedade” e seu nome hoje é grafado com maiúsculas e minúsculas.

Além de “King” Cole
A gravação de “King” Cole é Unforgettable. Revolucionário pianista e inventor do formato trio piano, guitarra e bateria, sem o contrabaixo, é mais conhecido pelo público como cantor. Com uma voz aveludada emplacou sucessos como Mona Lisa, Unforgettable, Blue Gardenia e When I Fall in Love sempre acompanhado de orquestras, com arranjos de Frank DeVol, Pete Rugolo, Billy May e Nelson Riddle.

Outras gravações merecem ser conhecidas. Das vozes masculinas, dentre as que conheço, a minha preferida atualmente – a gente vai mudando de gosto, não? – é a de Kurt Elling, considerado o melhor cantor da atualidade. Outro cantor de voz grave e pouco conhecido, pelo menos no Brasil, tem uma versão impecável; é a de Jefferey Smith, acompanhado pelo piano estupendo de Shirley Horn. Dono de uma voz de contornos dramáticos, quase operístico, dá um tom melancólico e ao mesmo tempo grandioso. Belíssimo. Outro cantor de voz abaritonada, Johnny Hartman (lembram-se do filme As pontes de Madison, de Clint Eastwood; ele está lá), cujo álbum John Coltrane and Johnny Hartman, de 1963, é um dos clássicos do repertório jazzístico, tem duas gravações muito parecidas meio suingadas… chatinhas. Melhor ouvi-lo cantar Wave, do nosso querido Tom, acompanhado pela flauta de Frank Wess ou, preciosidade das preciosidades, Charade, tema de Henri Mancini para o filme de mesmo nome, protagonizado por Audrey Hepburn e Cary Grant. Das mais recentes, o jovem cantor da gravadora Concord, Peter Cincotti manda bem numa versão maravilhosa em que toca no piano o tema de The Fool on the Hill, de Lennon e McCartney e sobre ele, canta Nature Boy. Depois de dois bons CDs, talvez por motivos comerciais, Cincotti parece ter perdido o rumo e bandeado para um repertório mais “popular”. Uma pena. Está ameaçado de fazer o mesmo caminho de Harry Connick, Jr.

Dentre as mulheres, uma muito boa é a de Karrin Allyson. Excelente cantora, com repertório eclético em que destacam-se gravações de músicas brasileiras e francesas cantadas em suas línguas de origem – com muita classe –, é intérprete de primeira. É bem melhor que a de Ella Fitzgerald e Joe Pass: gênios também dão suas escorregadas de vez em quando.






Sem patriotada, o Nature Boy de Caetano Veloso está entre as melhores de todos os tempos. Ele é estupendo cantando músicas em inglês. Vide seu Lady Madonna, Help e For No One, todas de Lennon e McCartney. A curiosidade é a versão de Vinícius de Moraes, acompanhado do violão preciso de Toquinho. Reproduzo a fala de Vinícius antes de cantá-la:

V: Eu quero fazer uma canção que sou vidrado nela. Eu estava em Los Angeles nessa ocasião, quando eu vi ela nascer, sabe?
T: Qual é?
V: É uma canção que se chama Nature Boy. Ah, você já…
T: Ah, claro. A gente cantou em Mar del Plata.

Veja Caetano cantando a música de ahbez.




Ouça a de Vinícius.






Relação dos álbuns
Nat “King” Cole – Nat “King” Cole (Capitol 1992 – 4 CDs)
Sarah Vaughan – Nature Boy (Golden Stars 2002 – 2 CDs)
Fran Sinatra – The Best of The Columbia Years 1943-1952 (Sony 1995 – 4 cds)
Karrin Allyson – I Didn’t Know About You (Concord 1993)
Kurt Elling – The Messenger (Blue Note, 1997)
Jeffery Smith – Ramona (Gitanes/Verve 1995)
Johnny Hartman – The Tokyo Albums ( Gambit 1972) / For Trane (Blue Note 1973)
Ella Fitzgerald & Joe Pass – Fitzgerald & Pass… Again (Pablo 1976)
Peter Cincotti – Peter Cincotti (Concord 2003)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

Até hoje não entendo direito sobre a correspondência das datas que estão impressas nas revistas e a de quando é disponibilizada. Quando assinava a Downbeat, várias décadas atrás, elas vinham pelo correio e, como demoravam, essas datas coincidiam mais ou menos. Hoje, com a assinatura digital, recebo o link delas com mais de um mês de antecedência. Exemplo: no dia 25, recebi a notificação de que tinha disponível a edição de agosto. Estranho, não.

Pois, agosto, além de ser o mês do cachorro louco, é o de quando a Downbeat publica o seu “Annual Critics Poll”, sendo a de 2017, a sua 65ª. Como de costume, listo os dez mais bem votados, pela ordem, e algumas observações sobre outros que ficaram um pouco atrás.

1. Wadada Leo Smith, “America’s National Parks” (Cunneiform)
2. Henry Threadgill, “Old Locks and Irregular Verbs” (PI)
3. Fred Hersch, “Sunday Night at the Vanguard” (Palmetto)
4. Jack DeJohnette, Ravi Coltrane, Matthew Garrison, “In Movement” (ECM)
5. Nels Cline, “Lovers” (Blue Note)
6. Sonny Rollins, “Holding the Stage: Road Shows vol. 4” (Doxy/Okeh)
7. Gregory Porter, “Take Me to the Alley” (Blue Note)
8. Matt Wilson’s Big Happy Family, “Beginning of a Memory” (Palmetto)
9. Andrew Cyrille Quartet, “Declaration of Musical Independence” (ECM)
10. Branford Marsalis Quartet feat. Kurt Elling, “Upward Spiral” (Marsalis Music/Okeh)

Mesmo sendo resultado de seres que, teoricamente, são os bambans, quase nunca bate com o gosto da patuleia. Mais que natural. Neste ano, porém, a concordância com a quase totalidade, bate com a de um membro desse grupo: eu.

O rastafarian Wadada
Mais vanguarda, melhores
Natural que aqueles álbuns mais “cabeça”, ou seja, menos povão, tendam a liderar as listas. Afinal, é o crème de la crème que está escolhendo os melhores, e os melhores dos melhores estão elencando os melhores. Tanto que os dois primeiros são os mais “vanguarda” dentre os dez. Um terceiro, de outro nome ligado à vanguarda, ficou em nono: “Declaration of Musical Independence”, do baterista Andrew Cyrille. Aliás, poderia estar entre os cinco, facilmente. O ex-membro do fabuloso Air, do também Henry Threadgill, é um dos veteranos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians).

Leo Smith começou e passou a ser conhecido fazendo parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), grupo de vanguarda de Chicago. O nome é bem pretensioso. Tenho um pouco de reservas por isso até hoje. Apesar de tudo, impressionante o número de bons músicos que revelou: Anthony Braxton, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins, Roscoe Mitchell, Steve McCall, George Lewis, Jack DeJohnette, Amina Claudine Meyers, Lester Bowie, Chico Freeman, Famoudou Don Moye e outros. É uma verdadeira seleção alemã, com direito a bons reservas.

Leo Smith nem era o mais prestigiado no tempo em que Braxton era uma das estrelas da cena avant garde. Agora veterano e depois de convertido à seita rastafari, incorporando o “Wadada” ao antigo nome, atualmente, é um dos mais incensados pela crítica. Gravou uma avalanche de discos, todos, sem exceção, elogiados: “Ten Freedom Summers” (2012), segundo melhor do 61st Annual Critics Poll, da Downbeat, “The Great Lake Suites” (2014), quarto melhor de 2015, no mesmo poll, “Celestial Weather” (2015), 17º no de 2016, e agora, primeiro, com “America’s National Park”. Merece? Se não em primeiro, entre os dez. Gosto é gosto, como diria um amigo. Nunca seria o meu primeiro.

Ouça trecho de “America’s National Park”



Outro que a cada lançamento está presente entre os melhores é Henry Threadgill. Era genial com o trio Air, e continuou com suas várias formações posteriores. É um dos músicos mais originais do jazz. É aquele que melhor tira partido de contrastes sonoros. O registro agudo ou médio do saxofone alto e da flauta é combinado com os mais graves, como do trombone e a tuba; em vez do contrabaixo, gosta de usar o violoncelo e a presença de guitarristas “diferentes”, como Brandon Ross e Liberty Ellman, resultam em algo bem original.

Depois do Air, montou as bandas Make a Move, Very Very Circus e a Zoid. A de “Old Locks and Irregular Verbs” é a Ensemble Double Up. Não toca no álbum; é apenas autor e arranjador. Em seu lugar, são dois saxofones alto (Roman Filiu e Curtis MacDonald), dois pianistas (Jason Moran e David Virelles), Christopher Hoffman no cello, José Davila na tuba e Craig Weinrib na bateria. Alto nível. A minha fase preferida é a da época do Make a Move.

Ouça a “Part IV”, faixa final.



Mainstream ou, quase
O álbum mais “fácil” da lista é o de Fred Hersch; foi gravado ao vivo no clube Village Vanguard, Nova York. Fred é acompanhado por John Hébert e Eric McPherson. Particularmente, acho que tem vários pianistas mais interessantes que ele, e “Sunday Night at the Village” é apenas outro bom disco no formato trio.

“In Movement”, de Jack DeJohnette, com Ravi Coltrane, Matthew Garrison, seria o meu preferido do ano. É brilhante. Funciona como uma espécie de tributo a John Coltrane. DeJohnette chegou a tocar com o saxofonista, Matthew é filho de Jimmy Garrison, e Ravi é filho do grande mestre.

Ouça “Serpentine Fire”.




Nels Cline é o exemplo do músico eclético. Irmão gêmeo do baterista Alex Cline, muitos o conhecem como membro da banda Wilco, mas Nels começou no jazz. Nos últimos anos, tem aparecido bastante nas publicações especializadas no gênero graças aos bons álbuns que tem lançado. Antes do duplo “Lovers”, saiu um duo com Julian Lage (“Room”, 2014), e “Initiate” e “Macroscope”, como The Nels Cline Singers.

Ouça o standard “Glad to Be Unhappy”, em versão bem interessante, diferente daquela que você deve ter ouvido com Billie Holiday e Frank Sinatra.




Sonny Rollins, com “Holding the Stage”, quarto da série “Road Shows”, e Gregory Porter, com “Take Me to the Alley” vêm em seguida. O primeiro é uma seleção de registros das turnês daquele que é considerado um dos melhores de todos os tempos no sax tenor. É raspa de tacho do veterano músico. Está entre os dez pela reverência dos críticos aos velhinhos. 

A tendência dos cantores que têm surgido nos últimos anos é a de distanciarem-se bastante do mainstream. José James, Theo Bleckman e Gregory Porter são os melhores exemplos. É uma tendência. James e Porter vão pelo caminho da tradição negra da música americana, abarcando o gospel, o rhythm’n’blues, soul, hip hop, tudo com o sabor ou sabedoria de mesclá-los. Bleckman segue por outra seara: é branco e alemão.

Veja Porter em “Take Me to the Alley”.



Na onda dos bateristas que gravam como líderes, Matt Wilson é um dos destaques da atualidade. Tem mais de uma dezena de títulos gravados, quase todos pelo selo Palmetto. Não é apenas baterista. É compositor de talento como demonstra em seus discos. “An Attitude for Gratitude”, de 2012, foi o último antes de “Beginning of a Memory”. Formou a Matt Wilson’s Big Happy Family para a gravação deste. Acaba de sair “Music Inspired by the Poetry of Carl Sandburg” com a nova formação, agora, Matt Wilson’s Honey and Salt.

Em décimo – para mim estaria entre os cinco melhores – os críticos elegeram “Upward Spiral”, de Branford Marsalis, “featuring” Kurt Elling. Como emergiu para a fama depois do irmão Wynton, sofreu um pouco pela comparação, mas, depois de todo esse tempo, nem é mais preciso se afirmar; é de fato um dos melhores saxofonistas da atualidade, tanto no soprano como no tenor. Elling, para mim, continua a ser o melhor cantor de jazz, apesar de ter perdido o posto, depois de quinze anos, justamente, para Gregory Porter. Ninguém consegue ser unanimidade nesse mundo tão pulverizado.

Elling estraçalha em “A Practical Arrangements”, de Sting. Nem é preciso dizer sobre o sax de Marsalis. Confira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O encontro especial de Kurt Elling e Branford Marsalis

Kurt Elling. Outro fã do “soul patch”
Quando Kurt Elling esteve em São Paulo para apresentar-se no Bourbon Street Music Club, não lembro mais há quanto tempo, o Carlos Conde (desconfio que ele não gostava muito dele) ofereceu-me dois convites para o show. Normalmente me chamava para ir em apresentações internacionais de jazz quando Dora, sua mulher não estava a fim. Nessa altura, Kurt já era, disparado, considerado o melhor cantor de jazz; pela crítica, que seja dito.

Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.

Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.

Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.

O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.

Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.

Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco
Branford Marsalis e Kurt
Se “Passion World” e o anterior “1619 Broadway” (Concord 2013) – referência ao endereço da Brill Building, local que abrigou estúdios e escritórios de gente ligada à música –, não são superiores aos seus CDs anteriores, o recente “Upward Spiral” (OKeh, 2016), de Branford Marsalis, “featuring Kurt Elling”, atende bem ao gosto daquele que queria vê-lo mais “jazz”, o que não significa dizer que deixe de explorar outros gêneros. Kurt e Branford subverteram ordens estabelecidas desde o início de suas carreiras.

O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).

O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.

Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.

Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.

Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).

Em “Upward Spiral” (OKeh, 2016), apesar de a primeira (There’s a Boat Dat’s Leaving’ Soon for New York”) e última (“The Return – Upward Spiral”) serem mais upbeat, Paul de Barros, em sua crítica na Downbeat, em que confere 4 estrelas e meia para um máximo de cinco, descreve o álbum como “um trabalho outonal que reflete sobre perda, dor e expectativas frustradas.”

Em um repertório “outonal”, não poderiam faltar “Blue Gardenia”, “I’m a Fool to Want You”, “Só Tinha de Ser com Você” e a soturna “Blue Velvet”, de Bernie Wayne e Lee Morris. Dois bons destaques são do repertório pop-rock: “From One Island to Another”, de Chris Whitley, e “Practical Arrangement”, de Sting, que, aliás, estão entre as melhores, a primeira, pela brilhante e enérgica interpretação da banda, com destaque para Joey Calderazzo, e a segunda, pelo canto emocionante de Kurt. Dentre as composições próprias, o ponto alto é “Cassandra’s Song”, de Marsalis e Elling.

Ouça “Cassandra’s Song”.



Dentre os standards, bela é “Blue Gardenia”. Traz na lembrança o brilhante álbum de John Coltrane com Johnny Hartman, ao se ouvir o sax de Marsalis.



Brilhante mesmo é “Practical Arrangement”. Elling arregaça.



Veja também os dois em “I’m a Fool to Want You”. 



Um preview do álbum.

terça-feira, 15 de março de 2011

Laurence Hobgood e a sina dos pianistas acompanhantes

Quem sabe o nome do pianista que toca com Tony Bennett? Se você disse Ralph Sharon, acertou. O inglês, naturalizado, americano toca com o cantor desde 1958. Recebe um salário régio de milhares de dólares anuais. Sharon é exímio pianista e tem um série de discos gravados em trio, chamados The Magic of… Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin, Rodgers & Hart e Jerome Kern. Para variar um pouco a nomenclatura, gravou Plays the Frank Loesser Songbook, Plays the Harry Warren Songbook e The Ralph Sharon Quartet Plays the Ralph Blane Songbook. Gravou também Portrait of Harold. O Harold é o Arlen. Em suma, com nomes-títulos em variação, gravou, praticamente tudo de melhor do cancioneiro americano. Na cadeira que lhe foi destinada, para ser acompanhante do longevo cantor ítalo-americano Anthony Dominick Benedetto, pintor mais que diletante, Ralph toca muito, mas pouco aparece.

Acompanhar cantores é uma arte. Os mestres de todos os tempos são Hank Jones e Tommy Flanagan, que acompanharam Ella Fitzgerald. Não só mestres como acompanhantes, possuem belíssimos discos como líderes. Na música erudita acontece uma coisa bem parecida. Gerald Moore e Geoffrey Parsons passaram a vida acompanhando Dietrich Fischer-Dieskau, Elisabeth Scharzkopf, e outros cantores líricos. Pouco se sabe de gravações deles como solistas; confesso desconhecer. Alguns como Radu Lupu, Edwin Fischer e Walter Gieseking transitaram nos dois modos, mas foram ou são, basicamente, virtuoses. É um pouco o caso do húngaro Georg Solti, grande maestro e ótimo pianista “acidental”. Daniel Barenboim fez o caminho inverso: de pianista, constrói uma carreira belíssima como regente. Tem Vladimir Ashkenazy. É bom parar por aqui: a lista seria interminável.

Hobgood, e Kurt Elling em segundo plano
Laurence Hobgood é o pianista de Kurt Elling, desde Close Your Eyes, lançado em 1995, pela Blue Note. É seu diretor musical também. Os dois, baseados em Chicago, iniciaram a parceria em 1993. Para quem não conhece Elling, corra até as lojas. Ele é o melhor cantor de jazz atualmente. O “atualmente” tem mais de dez anos. Após o reinado de Joe Williams, o cetro passou para Kurt, passando por breves oscilações entre Andy Bey, Kevin Mahogany (que anda meio sumido), e os veteranos Mark Murphy e Tony Bennett.

Não é fácil a vida de “segundo” do melhor cantor de jazz. Por melhor que seja, fica em plano… secundário. Mas, aproveitando o ditado de que “ao lado de um grande homem sempre há uma grande mulher” – à mercê de certo chauvinismo e um tanto de misoginia –, um bom pianista só valoriza o bom cantor; Tony Bennett que o diga. E é o caso de Hobgood.

When The Heart Dances (2009) é o terceiro disco que grava como líder. Conta com a participação de Charlie Haden e de Kurt Elling, que canta First Song, Stairway to the Stars (estupendo, cantado em “marcha lenta”), e a ellingtoniana Daydream. Haden é perfeito nos duos piano/baixo. Gravou nesse formato com Denny Zeitlin, Keith Jarrett, Egberto Gismonti, Chris Anderson e Hampton Hawes.

Que Sera Sera ficou um pouco estigmatizada pela forma como foi inserida em O Homem Que Sabia Demais (1956), filme de Alfred Hitchcock. Para quem não lembra, Doris Day e James Stewart formam um casal que tem o filho raptado no Marrocos. Com direito a muito suspense, Whatever Will Be, Will Be (Que Sera Sera) serve de gancho para encontrar o menino. Ele reconhece a voz da mãe, e assim é localizado. A canção vendeu milhões de cópias e amealhou o Oscar de Melhor Canção do Ano. A bela composição de Jay Livingstone e Ray Evans – tem um “quê” de kitsch – marcou bastante Doris que, além de boa atriz – apesar do estigma de “casal perfeito” de tantos filmes “água com açúcar” em dupla com Rock Hudson –, era ótima cantora. Não é casualidade o escritor e jornalista Ruy Castro tê-la incluído no livro Saudades do Século XX (Companhia das Letras, 1994) como uma de suas protagonistas.

Pois é com Que Sera Sera que Hobgood abre o disco. É um belíssimo solo de piano. Como líder, ele tem espaço para mostrar o quanto é bom em construir arquiteturas ricas em melodia e harmonias sofisticadas. E não é uma replicação do estilo de pianistas mais assemelhados ao seu estilo, como Keith Jarrett e Bill Evans. Suas interpretações são líricas e intensas. É o que você irá constatar em The Cost of Loving, composição de Don Grolnick.



É correta a constatação de R. J. DeLuke, colunista do All About Jazz: “O por quê de, ele não ser mais conhecido é, provavelmente, uma combinação de fatores no instável e esquizofrênico mundo do show business.”
 
Ouça o piano de Hobgood acompanhando Elling em My Foolish Heart.