sexta-feira, 6 de maio de 2011

Stacey Kent é um show

Capa do CD relançado
Diferentes manhãs de carnaval. A clássica Manhã de Carnaval é grafada das maneiras mais variadas nos registros feitos fora do Brasil. Uma das mais “diferentes” é a que consta no CD de Jim Tomlinson. Alguns distraídos podem não conhecê-lo: é saxofonista e produtor dos discos de sua mulher Stacey Kent. Consta que a primeira faixa de The Lyric, lançado em 2006, se chama Manha de Carnival. Atenção; em bom português, “manha” de carnaval até seria possível; na hipótese de alguém estar fazendo “manha” (segundo o Aurélio, significa destreza, habilidade, desenvoltura, ou ardil, artimanha, malícia) de (ou) carnaval, ok, tudo bem; mas “manha de carnival” exigiria certa dose de imaginação. Ao brasileiro, “carnival” é meio estranho; tem algo de “carnal” misturado com “canibal”. Serviria até como bom neologismo para a tradicional festa pagã; e em inglês, “evil” (diabo) seria um bom mélange com o vocábulo “carne”, do português.

Em razão da popularidade de Stacey e da constatação inconteste de que é uma das melhores cantoras da atualidade, The Lyric está sendo relançado com capa diferente. originalmente aparecia a imagem desfocada de Jim segurando um sax-tenor, Em letras pequenas tem um “featuring Stacey Kent”, portanto, deve-se considerá-lo um disco do marido. Na versão 2006/modelo 2011, o nome dela tem maior destaque e a imagem é a do casal em um instantâneo de felicidade. Faça-se justiça à senhora Tomlinson: participa de 70% das faixas com sua bela voz. No relançamento, agora pela major Blue Note Records, “consertaram” a ortografia de Manhã de Carnaval.

A ideia do comentário sobre o clássico de Bonfá surgiu por conta das várias grafias e títulos constantes nos discos: Carnaval, Orpheus, Orpheus’ Song, Canción de Orfeo, Carnival e Black Orpheus.

Stacey deveria ter usado um vestido como esse
Uma quase cidadã brasileira. Casualmente, Jim está no Brasil com Stacey. Apresentaram-se na quarta, 4 de maio, na Sala São Paulo, parte da programação da Série TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) de Concertos Internacionais. Quase perco. Boa, a lembrança do amigo Armênio Guedes.

Kent e Jim tiveram como banda suporte o Trio Corrente, dos brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Foram eles que abriram a apresentação com Mistura e Manda (Paulo Moura) e Amor Até o Fim (Gilberto Gil). Apresentado pelo pianista, Jim Tomlinson tocou Manhã de Carnaval. Simpático, disse algumas palavras em português – e não pareceu nenhum rock star proferindo palavras decoradas e mal pronunciadas –, e chamou Stacey ao palco.

Cabelos curtíssimos – desde sempre – um vestido preto básico que não compromete e realça a pele branca, começou com um suingado It Might As Well Be Spring. Comunica-se em português com a plateia e emenda um lindísimo Les eaux de mars, a versão de Georges Moustaki para o clássico jobiniano. Do mesmo CD (e de The Lyric), canta Jardin d’hiver, de Keren Ann e Benjamin Boulay – segundo a amiga Vania, que mora há 20 anos na França, o marido da atriz Chiara Mastroianni é uma versão repaginada de Serge Gainsbourg –, e Mi amor, de Claire Denamur.

As demais canções “francesas” são Samba Saravah (Samba da Bênção) e What Are You Doing the Rest of Your Life?, de Michel Legrand. Cabem esclarecimentos: O clássico “afrossambístico” de Baden Powell e Vinícius de Moraes ficou conhecidíssimo cantado por Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme de Claude Lelouch; Michel Legrand é um dos maiores compositores vivos nascidos na França. A letra em inglês é dos Bergman – Alan e Marilyn – versionistas/letristas de alguns clássicos estrangeiros, inclusive brasileiros, como o standard So Many Stars, de Sergio Mendes.

Dirigindo-se ao público em português, a empatia é total. Conta que ela e Jim se inscreveram em uma faculdade americana há três anos para aprenderem a língua. De lá para cá, aperfeiçoaram-se, e muito. Isso, porém, é apenas um detalhe que só abrilhantou uma apresentação impecável composta de um set list maravilhoso.

Alguns momentos foram emocionantes. A interpretação de I’ve Grown Accustomed to His Face, do musical My Fair Lady, e a música de Legrand foram ponto altos, junto de Corcovado, em que Kent empunhou o violão e teve uma bela introdução ao piano com Fabio Torres tocando Retrato em Branco e Preto.

É claro que haveria um bis. Praxe, não? Kent comenta sobre a admiração que tem de ver a plateia brasileira cantar junto dos artistas. Engrena um You’ve Got a Friend, de James Taylor. O público acompanha com palmas ritmadas e cantam o refrão. O último bis é dedicado a outro compositor que ama: Caetano Veloso. Nada como Desde Que o Samba é Samba para coroar um show maravilhoso.

Da próxima vez em que forem se apresentar no Brasil, Stacey e Jim estarão merecendo receber o título de cidadãos brasileiros. Que tal?

A instrumental Manhã de Carnaval e I’ve Grown Accustomed to His Face, cantada por Kent, estão no recém relançado (no Brasil, “lançado”) The Lyric.




quarta-feira, 4 de maio de 2011

A voz na medida de Mary Stallings

Certas coisas são inexplicáveis. Uma é a de Mary Stallings não ser tão conhecida. Algumas cantoras, numa certa época, “saíram” do circuito; por alegações pessoais, como filhos, por exemplo, ou por outras. Caso conhecido é o de Alberta Hunter. “Desapareceu”, virou enfermeira, e, do “nada”, reapareceu, octogenária. Foi “descoberta” pelo mundo. Gravou alguns discos inesquecíveis pela Columbia e cantou até morrer, pouco tempo antes de fazer 90 anos. Apresentou-se no Brasil no saudoso Clube 150, do Hotel Maksoud.

Stallings tem a voz um tanto anasalada; lembra Carmen McRae, com menos potência vocal (a caixa torácica faz diferença nesse caso). É cantora talhada para baladas. Enquanto um Mad About the Boy de Dinah Washington é esfuziante, o dela é reflexivo, ou seja, não é tão “mad”, é toda, “mais cuidadosa” com seu garoto. Abstraindo um pouco da gravação de Washington – tarefa quase impossível –, percebemos que existem outros modos de cantá-la.

O clássico de Noel Coward é a sexta faixa do CD lançado em 2010. Tinha me esquecido um pouco de Mary – são tantas as ofertas, que somos levados a cometer esses pequenos pecados –, mas Dream, lançado pela HighNote Records, levou-me a um feliz (re)encontro com sua voz privilegiada. Desde então, tenho ouvido o último e os anteriores disponíveis na minha CDteca.

Stallings mantém o vigor depois dos 70
Mary Stallings não é mais uma garota – nasceu em agosto de 1939 –, tem pouco mais de 70. A experiência de ter iniciado a carreira no fim dos anos 1960 – gravou em 1961 Cal Tjader Plays, Mary Stallings Sings – está desenhada em cada verso que canta agora. Excursionou com Dizzy Gillespie, cantou com a orquestra de Count Basie, foi acompanhada por Gene Harris, Gerald Wiggins e Monty Alexander, e teve entre os admiradores, Ben Webster, Earl Hines, Billy Eckstine e os irmãos Wes e Buddy Montgomery.

Desde meados e anos finais do século passado e, deste também, gravou discos pela Concord, MaxJazz e HighNote. São discos constituídos, basicamente, por baladas – temas uptempo, pelo jeito, não fazem parte de suas preferências. Não é cantora de scats, recurso que deve ser muito bem usado e deve ser usado apenas por aquelas que, realmente, se sentem à vontade fazendo-o. E, cantando músicas lentas, é ótima, e nos faz ter um pouco menos de saudades da excepcional Shirley Horn, que nos deixou em 2005.

Em razão das dificuldades de encontrar discos de jazz no Brasil, eventualmente, adquiri alguns de Stallings em viagens para fora do país. Nunca fui como os amigos Carlos Conde e Alberico Cilento que traziam mais de 100 discos, cada vez que iam a Nova York, mesmo assim, comprava uns 70, 80 CDs. Ambos chegaram ao ponto de jogar fora as embalagens – os chamados “jewel case” –, acondicionando os CDs e encartes nos “Caselogic da vida”, para não darem na vista.

Desde o primeiro CD comprado, Mary tornou-se uma das preferidas em atividade. Meu gosto por baladas e por certas músicas, certamente, ajudou nessa preferência. Esse último – Dream – é tão bom quanto os outros que conheço. É uma intérprete que atingiu um nível de qualidade que, dificilmente, faria alguma coisa ruim. Os destaques, além da citada Mad About the Boy, são Close Enough for Love (quase tão boa quanto a de Shirley Horn e a da inesquecível Irene Kral), That Old Black Magic e The Peacocks, clássico do pianista Jimmie Rowles. Especial mesmo é Moonray, na qual faz inflexões vocais belíssimas, acompanhada pelo pianista Eric Reed.


Nota final: Stallings não é uma estranha ao público brasileiro: foi uma das atrações do Chivas Jazz Festival, em 2003. Na ocasião, o amigo Carlos Conde estava vivo. Após o final das apresentações, foi até os camarins e voltou com autógrafos nos vários CDs que possuía. Estavam os amigos Alberico, o Takashi Fukushima e alguns dos que não lembro agora. Ficamos um pouco tímidos, e o Conde, que nunca foi, aumentou sua coleção de autógrafos.
Para os que tiverem interesse em ver alguns números dessa apresentação, vários estão disponíveis no YouTube; é só digitar “Mary Stallings Chivas”.

Ouça Moonray e você verá que não estou mentindo.



Stallings canta I Just Dropped By to Say Hello.



Só para contrariar o que disse (sobre sua especialidade em interpretar baladas), Stallings canta I Got Rhythm. Veja.



Ouça Alberta Hunter cantando When You’re Down and Out.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A força da voz de Xiomara Laugart

Duas músicas em sequência justificam a compra do CD La Voz, de Xiomara: Fue e Escandalo, a oitava e a nona, são exemplos de excelência dessa cantora. Isso não quer dizer que o resto seja ruim, Pelo contrário, todas as faixas gravadas pelo produtor David Chesky são, no mínimo, interessantes, até para aqueles que torcem os narizes para a música latina.

Pois Xiomara é latina por nascimento e natureza. A cubana é a perfeita ponte entre o contemporâneo e o antigo dos conhecidos Ibraim Ferrer, Omara Portuondo e Compay Segundo. Nada mais perfeito que o título La Voz. Econômico no uso dos instrumentos, por vezes, acompanhada apenas por um baixo acústico ou por percussões, o que fica ressaltada é simplesmente, a voz.

Xiomara Laugart não é muito conhecida, mas é uma veterana. Jovem ainda, nos anos 1980, ganhou prêmios em concursos musicais, apresentou-se em palcos russos, poloneses e na antiga República Democrática Alemã (Dresden). Devido aos horizontes restritos que vislumbrava em sua terra natal, foi para Roma e, mais tarde, se mudou para Nova York. Apresentou-se em bares e gravou com o pianista Jacky Terrasson, excursionou por vários países, e assim, cada vez mais, se torna conhecida.

Não conheço os outros discos que gravou, mas pelo que está disponível na internet, seu mais recente CD representa um salto na carreira, principalmente pela idealização e produção de David Chesky (também dono da gravadora), dela e do pianista Axel Tosca Laugart. É um álbum fincado nos ritmos latinos, mas sem ter a ver com a “profusão instrumental” costumeira dos músicos originários da América Central. Ou seja, não são aquela parafernália sonora de percussões, pianos “rumbáticos” e vozes em registro alto.

Além do filho Axel ao piano, acompanham-na Chris Smith e John Benitez (baixo), Pedro Martinez (percussão), Yosvany Terry (saxofones), e Tamer Pinarbasi, tocando canu (harpa turca). Dentro dessa concepção minimalista, interpreta um belo Besame Mucho, apenas acompanhada pelo contrabaixo; em Manisero, é acompanhada pelo baixo e pela percussão e, imagino, pela harpa turca; Añorado Encuentro, com o piano de Axel, é uma bela canção contidamente romântica; Son de la Loma e Longina são interessantes músicas em que a voz de Xiomara  tem a companhia de econômicas notas do sax tenor de Yosvany Terry.

Infelizmente, poucas das músicas desse CD estão disponíveis na internet. Ouça as duas citadas no primeiro parágrafo, e se interessar, o disco pode ser comprado no site da Amazon.

Fue; em seguida, Escandalo. Ouça em sequência.