Stallings tem a voz um tanto anasalada; lembra Carmen McRae, com menos potência vocal (a caixa torácica faz diferença nesse caso). É cantora talhada para baladas. Enquanto um Mad About the Boy de Dinah Washington é esfuziante, o dela é reflexivo, ou seja, não é tão “mad”, é toda, “mais cuidadosa” com seu garoto. Abstraindo um pouco da gravação de Washington – tarefa quase impossível –, percebemos que existem outros modos de cantá-la.
O clássico de Noel Coward é a sexta faixa do CD lançado em 2010. Tinha me esquecido um pouco de Mary – são tantas as ofertas, que somos levados a cometer esses pequenos pecados –, mas Dream, lançado pela HighNote Records, levou-me a um feliz (re)encontro com sua voz privilegiada. Desde então, tenho ouvido o último e os anteriores disponíveis na minha CDteca.
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| Stallings mantém o vigor depois dos 70 |
Desde meados e anos finais do século passado e, deste também, gravou discos pela Concord, MaxJazz e HighNote. São discos constituídos, basicamente, por baladas – temas uptempo, pelo jeito, não fazem parte de suas preferências. Não é cantora de scats, recurso que deve ser muito bem usado e deve ser usado apenas por aquelas que, realmente, se sentem à vontade fazendo-o. E, cantando músicas lentas, é ótima, e nos faz ter um pouco menos de saudades da excepcional Shirley Horn, que nos deixou em 2005.
Em razão das dificuldades de encontrar discos de jazz no Brasil, eventualmente, adquiri alguns de Stallings em viagens para fora do país. Nunca fui como os amigos Carlos Conde e Alberico Cilento que traziam mais de 100 discos, cada vez que iam a Nova York, mesmo assim, comprava uns 70, 80 CDs. Ambos chegaram ao ponto de jogar fora as embalagens – os chamados “jewel case” –, acondicionando os CDs e encartes nos “Caselogic da vida”, para não darem na vista.
Desde o primeiro CD comprado, Mary tornou-se uma das preferidas em atividade. Meu gosto por baladas e por certas músicas, certamente, ajudou nessa preferência. Esse último – Dream – é tão bom quanto os outros que conheço. É uma intérprete que atingiu um nível de qualidade que, dificilmente, faria alguma coisa ruim. Os destaques, além da citada Mad About the Boy, são Close Enough for Love (quase tão boa quanto a de Shirley Horn e a da inesquecível Irene Kral), That Old Black Magic e The Peacocks, clássico do pianista Jimmie Rowles. Especial mesmo é Moonray, na qual faz inflexões vocais belíssimas, acompanhada pelo pianista Eric Reed.
Nota final: Stallings não é uma estranha ao público brasileiro: foi uma das atrações do Chivas Jazz Festival, em 2003. Na ocasião, o amigo Carlos Conde estava vivo. Após o final das apresentações, foi até os camarins e voltou com autógrafos nos vários CDs que possuía. Estavam os amigos Alberico, o Takashi Fukushima e alguns dos que não lembro agora. Ficamos um pouco tímidos, e o Conde, que nunca foi, aumentou sua coleção de autógrafos.
Para os que tiverem interesse em ver alguns números dessa apresentação, vários estão disponíveis no YouTube; é só digitar “Mary Stallings Chivas”.
Ouça Moonray e você verá que não estou mentindo.
Stallings canta I Just Dropped By to Say Hello.
Só para contrariar o que disse (sobre sua especialidade em interpretar baladas), Stallings canta I Got Rhythm. Veja.
Ouça Alberta Hunter cantando When You’re Down and Out.

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