quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Collin Walcott, o meu percussionista preferido

Collin Walcott e seu arsenal percussionístico
O Carlos Conde, comandante de um dos melhores programas voltados ao jazz na rádio Cultura, por mais de duas décadas, adorava uma bateria e odiava outros instrumentos de percussão, especialmente timbales, congas ou outro associado à música caribenha. Dizia que a bateria era essencial e a percussão, dispensável.

Tinha paixão por trios piano-baixo-bateria, mas não gostava de piano solo. Disse-me outro amigo, o Alberico Cilento, que em uma ocasião em que estavam em Washington, foram assistir a uma apresentação de Keith Jarrett, e como os ingressos estavam esgotados, disponibilizaram lugares a quem se dispusesse a ficar nas laterais do palco. Jarrett fazia um daqueles solos e, em um momento de silêncio, Alberico percebeu que o Conde estava dormindo. Acho que foi um dos poucos a puxar um cochilo ao som do pianista. Em outra ocasião, dessa vez comigo, no auditório Ibirapuera, uma das atrações era Brad Mehldau, também em solo piano. Não sei se dormiu, mas passou parte com os olhos fechados. Terminada a apresentação, o comentário foi mais ou menos assim: “Esse rapaz deve ter muitos problemas. Ele é muito triste.” Faltaram o contrabaixo e a bateria.

Menos idiossincrático e rigoroso que o Conde, também nunca fui muito amigo de congas e timbales.
Sem a rigidez dele, quando ouço aquelas percussões frenéticas, uma luz amarela se acende em meu cérebro. Gosto, no entanto de outros tipos de percussão, especialmente, o da música indiana, igualmente frenética, mas que em mim tem um efeito hipnótico, assim como gosto dos brasileiros Naná Vasconcelos e Cyro Baptista, que fogem do estereótipo do samba e do ritmista “pra turista ver”.

Outra percussão
Classificado como percussionista e também na categoria “miscellanious instruments”, Collin Walcott esteve sempre entre os melhores segundo a crítica. Quem gosta ou gostava do Oregon, banda formada originariamente por Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e ele, o conhece muito bem. Todos, mestres em seus instrumentos, foram protagonistas de um estilo que confundiram os que tentaram classificá-los em alguma categoria. Era algo que poderia ser classificado como jazz, pois era música de improviso, world em razão da instrumentação e do conteúdo melódico, ou erudita. Todos tinham formação em conservatórios: Towner no violão clássico, Moore no contrabaixo e McCandless na clarineta e no oboé. O primeiro toca também piano e trompete, o segundo, violino e piano, e o terceiro, saxofone e corne inglês. Os três tocam. O quarto componente é o único que tocava. Morreu em um acidente banal quando a banda excursionava pela antiga Alemanha Oriental. O ônibus deles colidiu e Walcott dormia no primeiro assento. Bateu com a cabeça, falecendo com apenas 38 anos.

A formação de Collin Walcott foi a da percussão. Estudou violino também. O interesse pela música indiana o levou a aprender a tocar tabla e cítara com Alla Rakkha e Ravi Shankar, respectivamente. Como seus outros companheiros, tocou no Paul Winter Consort, que é a origem da mescla da música ocidental com a oriental que irá consagrar o grupo Oregon.

Mesmo com a participação de todos na construção do som do Oregon, com certa predominância de Towner como compositor, a percussão e a cítara de Walcott foi um grande responsável pela singularidade que os diferenciou no meio musical. Isso fica evidente depois de sua morte. Com o indiano Trilok Gurtu em seu lugar, o Oregon mudou, perdendo muito o vigor criativo que saía das mãos de Walcott.

Os solos
Devido ao enorme talento da banda, todos os seus membros gravaram álbuns sob o próprio nome. Os de Walcoot foram lançados pela ECM. Foram dois: “Cloud Dance” (1976) e “Grazing Dreams” (1977), nenhum dos dois lançados no Brasil.  Este último, lembro até hoje, numa época em que não existia internet e comércio eletrônico e a importação era demorada e cara, tive a sorte de encontrá-lo na Modern Sound, em uma viagem ao Rio de Janeiro. Está na lista dos meus “desert island discs”.

Com Don Cherry no trumpete, flauta de madeira e doussn’ gouni (uma espécie de berimbau, só que africano), John Abercrombie na guitarra, Palle Danielsson no baixo e Do Um Romão na percussão, “Grazing Dreams” é uma obra prima.

Ouça “Song of the Morrow”, a primeira do álbum.



Só depois de conhecer o segundo, fui conhecer o de estreia. “Cloud Dance” é também excepcional. Os músicos são todos de primeira: John Abercrombie na guitarra, Dave Holland no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. Várias faixas são em duos. “Prancing” é genial, com Walcott na tabla e Holland no contrabaixo; “Scimitar” e ele na tabla novamente, e Abercrombie na guitarra; “Eastern Song” é com Holland no baixo e Collin na cítara; a guitarra atmosférica e climática tão característica combina à perfeição em “Padma”.


Ouça “Margueritte”.




Além dos dois álbuns, Collin foi um dos membros de um trio absolutamente genial, o Codona, nome que corresponde às duas letras iniciais de cada componente: Don Cherry e Naná Vasconcelos. Os três se desdobram em instrumentos percussivos, a cítara, trompete e vozes. Lançaram três álbuns. Se você quiser saber mais, leia em O mundo “world” de Naná Vasconcelos.

PS. Lembrei de Collin Walcott quando escrevi sobre o grande guitarrista Steve Eliovson. Se você não leu, leia em O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson

Imagem rara de Steve Eliovson
Os raios de sol entravam timidamente pela janela do apartamento que dividia com amigos no campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Estava a mexer em suas coisas distraidamente, pensando nas tarefas que tinha para o dia quando a música que tocava no rádio chamou-lhe a atenção. Parou tudo, sentou-se no sofá, hipnotizado pela beleza do violão que ouvia. Anotou o nome e logo depois saiu para comprar “Dawn Dance”, de Steve Eliovson. O tempo passou e perguntava-se: “O que teria acontecido com Steve Eliovson?” Nunca mais soube de algum disco que tivesse participado. Muito tempo depois, por acaso, descobriu que “Dawn Dance” saíra em CD.

Pouco se sabe também de como Steve foi gravar um disco por uma gravadora tão prestigiada como a ECM. “Dawn Dance”, lançado em 1981, tornou-se uma “espécie de lenda nos anais da ECM”, segundo Tyran Grillo (www.ecmreviews.com). Ser um disco apenas ao violão e a a percussão do genial Collin Walcott, deve ter sido ideia de Manfred Eicher, produtor e dono da gravadora. A parceria funcionou muito bem. O violão de notas claras, melodicamente sofisticado, de belas atmosferas, merecia continuidade. E assim ficou combinado. Steve gravaria um segundo disco para a ECM. Encaixava-se perfeitamente no que ficou conhecido como “ECM sound”, “o som mais perfeito depois do silêncio”. Eicher tinha em seu plantel violonistas guitarristas que se encaixavam ao seu gosto: além de Steve, Ralph Towner, John Abercrombie e Bill Connors.

Tom Marcello foi passar uma semana e meia na África do Sul. Convidado para uma reunião na casa do pianista Robert Payne, foi apresentado a um tal “Steve”. Ao ouvir Steve dizer que gravara na Alemanha, perguntou-lhe o sobrenome: “Eliovson”. Foi uma grande surpresa para Tom. Mal sabia que aquele guitarrista que, um dia, o havia impressionado, estava vivo e era sul africano. É uma das poucas coisas que se sabe de Steve.

Eliovson tinha ido à Europa para gravar o segundo álbum para a ECM. Aproveitando o fim de semana anterior ao seu início, foi esquiar nos Alpes. Quebrou a perna. As gravações foram adiadas e voltou a Nova York. Sem poder tocar, ficou sem dinheiro. Deixou suas guitarras e equipamentos em um depósito e resolveu voltar à África do Sul e lá ficar enquanto se recuperava.  Não voltou. Vendeu os pertences que deixara em Nova York e nada se sabe do que fez depois. É um mistério. Em Nova York, estava ensaiando com o pianista Richie Beirach e o saxofonista e flautista Dave Liebman. Tinha uma carreira pela frente e um novo disco programado por uma gravadora de prestígio.

Ouça o álbum. “Song of the Master” é uma das minhas preferidas. 


 

PS: Nos comentários, Alexandre Fernandes escreveu que ele morreu em 15 de março de 2020, em Johannesburgo, África do Sul.