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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma reprodução do terno e belo texto de Humberto Werneck sobre Elisabeth Bishop



Reproduzo aqui, sei que que é um ato licencioso, mas é porque é a melhor coisa que li sobre Elisabeth Bishop, depois dessa celeuma de que apoiou a ditadura militar, tinha uma visão negativa sobre o Brasil, etc.

O texto:

Um porto na montanha
Elizabeth Bishop e a linda casa mineira onde viveu alguns de seus melhores anos de Brasil
Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo
03 de dezembro de 2019 | 03h00

De dezembro de 1951 a abril de 1974, a aventura brasileira de Elizabeth Bishop, a homenageada da próxima Flip, estendeu-se por 22 anos – alguns deles, os anos finais, vividos em Ouro Preto, sobretudo depois da morte de sua companheira, Lota de Macedo Soares, em 1967. A cidade não tomou conhecimento da grande poeta americana. Nós, os então jovens escritores de Minas, também não. Hoje, leitor apaixonado de tudo o que ela escreveu, carrego a frustração retroativa de ter cruzado com Elizabeth em Ouro Preto, talvez nas madrugadas de Belo Horizonte, sem me dar conta de quem estava ali. Consolam-me as histórias que saltam de seus livros e, em especial, da memória de seus (e meus) amigos Linda e José Alberto Nemer, vinhetas que um dia reuni com a pretensão de iluminar ainda mais a personagem que Marta Góes tão lindamente recriou na peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’. 

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Ela adorava aquela casa, construída entre 1698, dois anos após a descoberta do ouro na região, e 1711, quando Ouro Preto foi elevada à condição de vila. Comprou-a em 1965 e não teve outra na vida, a não ser o apartamentinho de Boston onde morreria em 1979. Tinha, dizia Elizabeth, “o telhado mais lindo da cidade”, cuja forma lhe sugeria “uma lagosta deitada de bruços”. Batizou-a Casa Mariana, não por estar plantada à beira do caminho que leva a essa cidade, mas em homenagem à poeta americana Marianne Moore, mestra e amiga. Perfeitamente conservada, pertence hoje aos irmãos Nemer.

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“Gosto de Ouro Preto”, explicou Elizabeth ao poeta Robert Lowell, “porque tudo lá foi feito ali mesmo, à mão, com pedra, ferro, cobre e madeira. Tiveram que inventar muita coisa – e tudo está em perfeito estado há quase 300 anos.” Não havia mudado de opinião cinco anos mais tarde, numa entrevista ao Jornal do Brasil: “De Ouro Preto, gosto sobretudo das coisas que são feitas aqui. Os móveis, os utensílios do século 18 são sólidos. O clássico não me atrai, o que importa é a durabilidade – aqui as coisas permanecem”.
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Elizabeth tinha dois gatos, Suzuki e Tobias, dados a se aconchegar. “Eles gostam de experimentar o colo das visitas”, explicava.
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Adorava café na cama. Levantava-se, fazia um tanto de coisas – e, de volta às cobertas, pedia o breakfast. Gostava de variar de bandeja e caneca, que tinha em profusão. Quando Anny Baumann, sua médica e amiga, foi passar uns dias na Casa Mariana, tratou de incorporá-la a esse desjejum na alcova. Tratavam-se de “Dra. Baumann” e “Miss Bishop”, mas a intimidade daquele desalinho matinal acabou estimulando a médica a propor uma quebra em tamanha cerimônia: “Já que nós tomamos café de camisola”, anunciou, “vou te chamar de Elizabeth”. Mas a amiga continuou a chamá-la de “Dra. Baumann”.
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Acordava e punha logo um disco. Janis Joplin, Bob Dylan – ou Joan Baez, cujas letras copiava, esperançosa de ensinar inglês a Linda Nemer. Queria traduzir Não Identificado, de Caetano Veloso, mas esbarrou na impossibilidade de passar para o inglês a conotação fonográfica embutida em “disco voador”.
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Teve uma jovem empregada, Vitória, e cuidou de vesti-la com uniforme, meias três-quartos e o mais. Para ensinar-lhe inglês, escrevia nas coisas os nomes que as designavam – window, table, chair... A cozinha da Casa Mariana era inteirinha escrita em inglês.
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Seu talento era também culinário. Preparava pratos indianos (trazia curry dos Estados Unidos), lombo de porco com purê de maçã, abobrinha ao forno, geleias, conserva agridoce de legumes, tortas de maçã e de limão... Bem americana, tinha termômetro para controlar o cozimento da carne, colherinhas para medidas exatas, panelas dinamarquesas com design dos anos de 1940. Inda há quem se lembre da batida de limão de Elizabeth Bishop.
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Bebia muito, muito, e quase sempre na cama – onde também costumava escrever, o caderno apoiado numa prancheta. Começava com uísque, descia para a cachaça. Depois de esvaziá-la, rolava a garrafa para baixo da cama. Não se levantava mais, e não via noite nem dia. Cantava, ria, chorava, conversava com imaginários interlocutores. Jamais agressiva. Virava um trapinho, obedecia às ordens que lhe dessem. Tinha dia de chamar Vitória, chamar o chofer e tocar para a casa de Linda, em Belo Horizonte: “Não aguento mais, me salva!”. A amiga lhe dava o confortável quartinho dos fundos e encarregava Dilza, a empregada, de preparar um suco de laranja, uma comidinha leve. Elizabeth, que era cheia de pudores, ficava constrangida quando a chamavam para a mesa – não queria que reparassem nas mãos trêmulas da bebida.
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Ao sentir que já não dava conta do alcoolismo, pedia para ser internada. Levavam-na então para a clínica Pinel, em Belo Horizonte. Depois passava uns dias na casa dos Nemer, antes de retornar a Ouro Preto. Atravessava romances policiais, estoques que o caçula José Alberto, jovem artista plástico, seu xodó, ia renovar na livraria. Pintava aquarelas em papel ingres que Linda comprava na Livraria Oscar Nicolai. E adorava engraxar sapatos – seus e de todo o pessoal da casa. Divertia-se também polindo a prataria. (Falava de duas “besteiras” que, entre muitas, nunca fez: vender a prataria e mexer no capital.)
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Belo Horizonte, disse em carta ao poeta James Merrill, era “a cidade mais feia do mundo”. Mas acabou descobrindo ali “alguns lugares bastante apresentáveis, até divertidos”, entre eles “um restaurante maravilhoso” (provavelmente o finado Tavares, especializado em caça) e um boteco onde, além de batidas “de todos os sabores possíveis”, topou certa vez com “cerca de sete poetas às duas da manhã”.
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Foi com Linda à serra da Piedade, nas cercanias de Belo Horizonte, e decidiram almoçar. O cozinheiro veio lá de dentro com o bife espetado no garfo. De tão batido, ficara quase translúcido. Elizabeth não parava de rir: “Eu vou comer um pedaço de renda...”. 
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De passagem por Ouro Preto, umas grã-finas do Rio, amigas de Lota, foram visitar Elizabeth. A filha de uma delas, mocinha, lhe perguntou o que fazia na vida. “Sou escritora”, respondeu. “Ah”, disse a outra, “pensei que a senhora trabalhasse...”
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Uma noite Elizabeth improvisou um serão lítero-musical, com uma gente simples que provavelmente conhecera em botequins ouro-pretanos. Um dos convidados ia em meio à exaltada declamação de um poema quando irrompeu na sala, esbaforida, uma jovem americana, amiga de Elizabeth, trazendo um guardanapo que abriu teatralmente no centro da roda: “Escorpião! Escorpião!”. Parou tudo. A dona da casa voltou-se para o desacorçoado declamador: “Você, que é poeta, entende as tristezas que a gente passa...”.
Ela entendia.


E Bishop gostava de Janis Joplin e Bob Dylan.

De 1962/63, ou será 1964. “Girl from the North Country”.




Nada mais anímico do que “Ball and Chain”. A sua apresentação no Festival de Monterrey é inesquecível.



quinta-feira, 22 de março de 2018

A rosa e e.e. cummings

A rosa. Técnica mista sobre papel.
Na época em que cursava a FAU-USP, conheci a poesia de e.e. cummings, provavelmente, por intermédio de Augusto de Campos, em algum jornal, a Folha de S.Paulo, imagino, em seus cadernos matinais de cultura. Cursava uma matéria optativa em que o tema eram livros. Fiquei amigo do Haron Cohen, um dos professores, em razão do interesse por livros, não apenas pelos seus conteúdos, mas pelos projetos gráficos.

Em algum momento, e.e. cummings entrou na roda. Contou-me sobre uma edição que saíra pelo Ministério da Educação, em 1960, com dez poemas do americano traduzidos por Augusto de Campos. Lembro-me de que a primeira troca que fizemos foi com “Seis Contos da Era do Jazz”, de Scott Fitzgerald, que guardo até hoje. Fiz uma cópia do livro de e.e. cummings e troquei uma “Bio. Autobiografia de Jorge Luis Borges”, de Juan Fresán, um livro de imagens e texto sobre o escritor.

O livro editado pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação, continha os dez poemas e várias correspondências trocadas entre Cummings e Augusto de Campos. explicativas do método de compô-las nas páginas. A máquina de escrever era um instrumento importante da poesia dele. Não havia nela o que existe na tipografia dos computadores e na fotocomposição, que é a compensação de espaços entre as letras. Essa não variação da entreletra, é conhecida como “monospaced”, ou em português, “mono-espaçado”. Quase toda poesia do americano está baseada na construção gráfica que resulta do mono-espacejamento. Raramente usava letras em caixa alta (maiúsculas) – até no nome, grafado sempre em letras minúsculas –, ao quebrar as palavras dava a elas outros sentidos, e, depois da pontuação, com frequência não abria um espaço. Era a sua grande originalidade e que atraiu os nossos poetas concretistas, que se valeram muito do aspecto gráfico para construir as suas poesias.

Veja na ilustração que os espaços são determinados pelos pontos assinalados.



Em uma poesia tão construtiva, o aspecto formalista predomina e é normal que se pense em uma literatura fria, mas, ao mesmo tempo em que é engenhoso em descrever o salto de um gafanhoto, como no poema acima, cummings tinha uma enorme veia lírica, que se extravasava em amor e sensualidade. Um exemplo é o poema abaixo.


somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A morte anterior de Juan Gelman

Juan Gelman e o companheiro inseparável
Essa dor – esse desespero – Juan Gelman carrega sempre: em 1976 uma patrulha militar invadiu a sua casa procurando por ele, que já estava no exílio. Levaram seu filho com a mulher, que estava grávida, e também sua filha. A filha apareceu dias depois. Do filho e da nora grávida, nenhum sinal. Tudo que Juan Gelman conseguiu saber foi que, levada de Buenos Aires para um cárcere uruguaio, sua nora deu à luz uma criança no Hospital Militar de Montevidéu, em dezembro de 1976. Os restos mortais de Marcelo foram entregues a ele treze anos depois. Só em março de 2000, depois de uma peregrinação sem um só instante de sossego, ele conseguiu localizar a neta, no Uruguai. Foi um encontro denso e intenso. A menina, ao nascer, havia sido adotada por uma família de Montevidéu. Passou 23 anos acreditando ser filha de um chefe de polícia. Encontrou o avô, ou foi encontrada por ele. Soube de sua verdadeira história. Continuou ao lado da mãe adotiva. Juan, na época, disse a um amigo: “Era o que eu queria: que ela soubesse sua verdadeira história. Nós dois, ela e eu, somos órfãos de Marcelo.” Anos antes, em plena busca, ele havia dito uma frase definitiva, ao mencionar o filho desaparecido, a nora desaparecida, a neta que ele não conhecia: “Eu gostaria de ser Deus, para saber o que é o perdão. Não posso perdoar, porque não sou Deus.”

Filho de judeus ucranianos, Juan Gelman nasceu em Buenos Aires. Quando estudante, filiou-se à Federação Juvenil Comunista da Argentina. Poeta e jornalista, participou da principal revista cultural de resistência à ditadura militar. Foi na Crisis, que Eric Nepomuceno conheceu Gelman, quando tinha 25 anos. O parágrafo acima é um trecho do prefácio de Amor que serena, termina? (Editora Record, 2001), coletânea organizada pelo brasileiro.

Gelman sentiu na carne os rigores do regime argentino. Nos últimos 20 anos morou no México, onde morreu aos 83 anos no dia 14 de janeiro. Ironicamente, foi condenado à morte pelo grupo esquerdista Montoneros. Ele era contra a luta armada.

É autor do poema a seguir, um dos meus preferidos.


Gotán

Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.

Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.

Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ela moverá minha boca pela última vez.

Mais um.

Foto

Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca, teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.

Nota: as traduções são de Eric Nepomuceno.


Leia mais sobre Juan Gelman em:
O poeta de olhos tristes (Juan Cruz, El País): http://bit.ly/1aH5mXn
Morre aos 83 anos o poeta argentino Juan Gelman (Bernardo Marín, El País): http://bit.ly/1hrOq8X
Juan Gelman: “Se ha instalado todo un sistema para recortarnos el espíritu” (entrevista para El País, em 28/4/2013): http://bit.ly/1dukyK0

Sobre Eric Nepomuceno, seu tradutor para a edição brasileira lançada pela editora Record::
Eric Nepomuceno e a morte dos navios: http://bit.ly/1apguEY