Spacey sempre foi muito reservado em relação à vida privada. Ao longo de sua vida, um pouco como Rock Hudson, arrumou namoradas fictícias, e, por continuar solteiro, passaram a especular que era gay, o que, peremptoriamente, negava. Saiu do armário forçado. E, por isso, recebeu muitas críticas até da comunidade gay. Imagine então o que estão achando os homofóbicos.
É preciso que esses escândalos venham à tona, para que abusos virem assunto entre a plebe anônima, que sofre tanto quanto os célebres. Se acontece entre atores hollywoodianos, imagine no mundo dos atores da vida cotidiana. Quem sabe, esses admoestadores, que estão por toda parte, nos ônibus, metrôs, nos bares e em ambientes privados, sejam também denunciados e punidos.
Mas vamos combinar: não há um exagero no comportamento das pessoas que se revoltam e exercem “linchamentos morais”? Será que aquele que chama o outro de racista não pode ser um tremendo mau caráter, homofóbico ou machista? E, vice versa? O que muitas vezes é externado por alguém representa apenas um desejo de ser ou parecer mais justo do que realmente é. Kevin Spacey deve responder pelo que fez, sim. Mas, pensando bem, será que o que é lido nas redes sociais, onde cada um pode se manifestar como quer, não é algo semelhante àquele que se revolta e mata um ladrão ou um estuprador, achando que está fazendo justiça? É um modo de sentir-se melhor que o outro, de ser o “justo”, como uma forma de camuflar os próprios defeitos. Há um cheiro de hipocrisia no ar.
Além do assédio
Será uma pena que Kevin Spacey fique marcado definitivamente como “aquele que assediou um menino de 14 anos”. Assediador e pedófilo. Mas, como diz minha amiga Celia Melhen, “entre um assédio e outro, ele é um talento”.
Pois, entre um assédio e outro, Spacey teve grandes atuações, principalmente no teatro, que é menos visível, e eventualmente, cantou, e bem. Que eu saiba, no cinema ouvimos, pela primeira vez, Spacey cantando em “Midnight in the Garden of Good and Evil” (1997), dirigido por Clint Eastwood, a clássica “That Old Black Magic”, de Harold Arlen e Johnny Mercer. O cineasta e ator é grande admirador do jazz. Em seus filmes, a trilha, geralmente, é de temas do gênero. Nesta, todas as canções escolhidas são de Johnny Mercer, em várias parcerias. Os soundtracks de seus filmes são sempre primorosos. É assim com “Madison County” (“As Pontes de Madison”, 2011), e “Bird” (1988).
Ouça “That Old Black Magic”.
Spacey alentava fazer um filme sobre o cantor, compositor, instrumentista e ator Bobby Darin. Realmente sua vida dava um filme. Walden Robert Cassotto – esse era o seu nome real – cresceu acreditando que era filho de sua avó. Como outra estrela de Hollywood, Jack Nicholson, na verdade era filho de quem achava que era sua irmã. Naqueles tempos mais conservadores, Nina Casotto, com 17 anos, engravidou de Bobby e, para que não desse na vista, foi criado como se fosse seu irmão.
Desde cedo, revelou enorme talento com a música. Tocava piano, guitarra e bateria. Seu primeiro sucesso foi “Splish Splash”, aquela música que muitos podem achar que era de Roberto Carlos. Vendeu um milhão de cópias. Envolveu-se com a política e trabalhou com o então senador Robert Kennedy. Darin estava no Hotel Ambassador na noite em que Robert foi assassinado. Nesse mesmo ano, 1968, ficou sabendo era filho de sua irmã Nina. Foram dois episódios que o abalaram enormemente.
Um problema sério de saúde obrigou-o a implantar duas válvulas no coração. Parcialmente recuperado, voltou a apresentar-se, mas acabou morrendo em 1973. Tinha apenas 37 anos. Bobby emplacou vários sucessos. Era versátil. Cantou músicas associadas ao jazz, rock, pop, country e folk.
A participação de Spacey vai da direção, roteiro, atuação e também cantando. O filme não foi bem na bilheteria. Mas mostrou que se fosse cantor não se daria mal. O título escolhido para o filme foi“Beyond the Sea”, uma das músicas que tornou Darin conhecido mundialmente.
Vamos começar por “Mack the Knife”, clássico de Kurt Weill.
A música título “Beyond the Sea”.
O meu preferido, “Dream Lover”.
Veja Spacey cantando “Mind Games”, em “Come Together John Lennon Tribute” (2007).
