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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Joni Mitchell e o jazz

Joni Mitchell e Charles Mingua (foto: Sue Mingus)





Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley. 

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.




O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hate The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.




Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000. 



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Joni Mitchell, standards e orquestras

Joni Mitchell, por ela mesma.
Até para fazer o seu disco de standards, Joni Mitchell foi original. A ideia em “Both Sides Now” (Reprise, 2000) foi a de fazer um álbum programático, ou seja, com um conceito. Joni quis traçar “um arco de relacionamentos românticos modernos”, segundo Larry Klein, então marido e produtor. Nas liner notes, ele escreve que “achou que a ideia era inovadora, excitante e especialmente apropriada, considerando que o ponto central de seu trabalho [o de Mitchell] era a investigação sobre a natureza do amor moderno.” Seria uma suite “documentando um relacionamento, desde o flerte inicial até a consumação otimista, transformando-se em desilusão, o desepero irônico, e, finalmente, culminando numa visão filosófica de aceitação e a probabilidade de o ciclo se repetir por si.”

O conceito é ótimo. Como não estou acostumado a prestar muita atenção em letras, não posso afirmar se conseguiram passar o conceito pretendido. Vou relacionar as canções na ordem para que o leitor tire suas conclusões: “You’re My Thrill” (1933), “At Last” (1942), “Comes Love” (1939), “You’ve Changed” (1968), “Answer Me, My Love” (1953), “A Case of You” (1972), “Don’t Go to Strangers” (1954), “Sometimes I’m Happy” (1925), Don’t Worry Bout Me” (1939), “Stormy Weather” (1933), “I Wish I Were in Love Again” (1937), “Both Sides Now” (1967).

A maioria das escolhidas é bem antiga, e dois são composições de sua lavra bem conhecidas do fã de Mitchell: “A Case of You” e “Both Sides Now”. Todas elas foram arranjadas por Vince Mendoza, um dos mestres da orquestração na atualidade. Larry Klein é um dos magos na produção de discos de cantores e cantoras. E sendo Joni Mitchell, Klein foi um parceiro musical ideal.

O destaque é a música título.




Outro número muito bom é “You’ve Changed”, de Carl Fischer e Bill Carey. A orquestração de Mendoza é de tirar o fôlego.




Mais Joni e orquestra
Depois de “Both Sides Now”, Larry e Joni gravaram o duplo “Travelogue”. Saiu em um box luxuoso, com um encarte de 28 páginas, em capa dura, contendo trechos de letras e pinturas de sua autoria, além de outro, as letras das 22 faixas. Ambos são com orquestra e gravados nos mesmos estúdios, o que faz concluir que podem ter sido realizados juntos. Não sei se foi. “Travelogue” foi lançado em novembro de 2002. É um ano importante na vida dela. Foi o fim do casamento de 20 anos com Larry e também porque declarou que este era seu último disco. Mudou de ideia e lançou mais um: “Shine” (2007).

O estranho é este belíssimo álbum não ter ficado nem entre os 100 mais vendidos, na época. Até para um colecionador da canadense, como eu, passou batido. Sem saber nem que tinha sido gravado, meio que sem querer, encontrei-o na Pop Discos, uma lojinha (ótima) que fica em uma galeria da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo. Nunca tinha visto em lojas como a Tower, HMV e J&R em minhas viagens a Nova York.

Neste, as composições são todas de Mitchell, fora um caco de “Unchained Melody”, incluído em “Chinese Cafe”. Se Vince Mendoza preferiu arranjos mais discretos em “Both Sides Now”, em “Travelogue” são mais vigorosos, exuberantes e delicados, quando o momento pede. É um primor em canções conhecidas em novo contexto. E os músicos participantes, quase todos são do primeiríssimo time, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Kenny Wheeler, Billy Preston, Chuck Berghoffer, Larry Klein, craque no baixo elétrico, além de produtor, e Brian Blade.

Ouça a versão matadora de “Sex Kills”, a última grande canção de Joni Mitchell.




Excepcional também é a clássica “Hejira’.




Ouça “Amelia”




“For the Roses”. O sax soprano, advinhe de quem é.




“Woodstock”

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sting na ótica de Tierney Sutton

Em um primeiro momento, você irá pensar que colocou o CD errado no player. Às primeiras notas, você pensará que colocou “Kind of Blue”. E é “The Sting Variations”, o álbum mais recente da Tierney Sutton Band.

Em 1988, Sutton estreou com “Introducing Tierney Sutton”. Em 2000, lançou o primeiro em uma gravadora de porte maior, a Telarc: “Unsung Heroes”. Esse mesmo ano foi o da estreia de Jane Monheit, com “Never Never Land”. Comprei os dois, o de Jane porque quem a acompanhava era Kenny Barron e sempre avalio cantores desconhecidos por quem é o pianista . No line up de “Unsung Heroes”, aparecia o nome de outro bom tecladista: Christian Jacob. As duas eram afinadas, boas cantoras, belas, mas como diria uma amiga baiana, “não tinham borogodó”. Nas suas perfeições faltava aquela pegada selvagem de uma Dianne Reeves, de uma Dee Dee Bridgewater, um pouco mais velhas que elas. Fiquei com uma ponta de decepção, mas nunca deixei de ouvir cada CD lançado por elas posteriormente.

Meu juízo em relação à Sutton foi mudando, não a ponto de fazê-la uma das minhas preferidas, mas perceber que é uma das boas intérpretes da atualidade. Prestando um pouco mais de atenção, percebi que seus álbuns não eram uma repetição do repertório Tin Pan Alley. Em cada um deles percebia-se um conceito mais ou menos definido, ora centrado em Bill Evans, em Frank Sinatra, mas não de maneira óbvia. Outra qualidade perceptível foi a de que na maioria dos novos lançamentos, passava a assinar The Tierney Sutton Band. Era uma evidência de que os músicos não eram meros acompanhantes. A participação de Christian Jacob é capital, tanto quanto a voz e a peculiar formação, com dois baixistas (Kevin Axt e Trey Henry), e a bateria de Ray Brinker.

Com “American Road”, assinando The Tierney Sutton Band, e “After Blue”, como Tierney Sutton simplesmente, a cantora tem conseguido boa recepção pela crítica. É uma cantora ciente da sua qualidade, demonstrando a maturidade que só o tempo traz. No primeiro explora standards de Gershwin (“Summertime”, “My Man’s Gone Now” e “It Ain’t Necessarily So”), clássicos populares como “Tenderly”, assim como canções emblemáticas do cancioneiro americano como “Amazing Grace”, “Wayfaring Stranger”, “Shenandoah” e “The Water Is Wide”. [sobre “America Road”, leia “Preciso rever os meus conceitos sobre Tierney Sutton”]

“After Blue”, o leitor mais arguto deve estar desconfiado: é um álbum com a música de Joni Mitchell. Do extraordinário “Blue”, Sutton canta a música título e “All I Want”. Apesar de não contar com sua banda de costume, os arranjos são excepcionais e originais, com a participação do Turtle Island Quartet, de Larry Goldings no Hammond B-3, Hubert Laws na flauta e Al Jarreau fazendo o duo em “Be Cool”. É um álbum tão bom quanto “River: The Joni Letters”. Recebeu 4 estrelas e meia. Próximo da perfeição.

Ouça “Woodstock”.




Veja Sutton a cantar “Don’t Go to Strangers”, no Blue Note de Milão.




Entre o pop e o jazz
Outro compositor e intérprete que fica no crossover entre a música popular e o jazz é Sting, um dos três da extinta banda pop/rock Police. Logo depois de desfeita, gravou álbuns com a presença de alguns jazzistas como Kenny Kirkland e Branford Marsalis. Mais tarde, suas ambições musicais chegaram à música erudita, tendo inclusive lançado discos pela Deutsche Grammophon. Pretensões maiores não querem dizer muita coisa em termos de qualidade superior.

As músicas mais populares de Sting, no entanto, continuam sendo as da época do Police. Composições posteriores não são melhores que “Every Breath You Take”, “Every Little Thing She Does Is Magic”, “Walking in Your Footsteps”, “Driven to Tears”,“Synchronicity I” e “Message in the Bottle”, incluídas em “The Sting Variations”, recém lançado álbum de Sutton. “If You Love Somebody Set Them Free”, “Consider Me Gone”, “Fortress Around Your Heart” e “Shadows in the Rain”são de “The Dream of the Blue Turtle”, primeiro solo do inglês.

A escolha da maioria das canções, sendo da época do Police e o álbum solo imediatamente posterior, traem o gosto de Sutton, condizente com o que acha boa parte dos fãs de Sting. De suas composições, a mais popular entre os cantores de jazz é “Fragile”. Caiu no gosto deles, não sei por que. As restantes são “Fields of Gold” e “Language of Birds”.

Ouça“Fragile”. Aqui a banda faz um medley com “Gentle Rain”, um dos maiores clássicos da música brasileira, de autoria de Luiz Bonfá. Essa faixa é um dos destaques do álbum.




Ouça “Fields of Gold”.




Ouça “Synchronicity I”.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bons produtores, bons produtos

O produtor e baixista Klein
Não dá para ignorar a importância da figura do produtor musical. Não é à toa que o britânico George Martin era considerado o “quinto beatle”: é um reconhecimento de sua influência sobre o som do quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. No Brasil, nos anos 1980, o ex-baixista dos Mutantes, Liminha, sob alguns aspectos, pode ser considerado um dos artífices da explosão do pop/rock, produzindo Titãs, Chico Science & Nação Zumbi, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Lulu Santos, Ritchie e outros mais. Às vezes, a mão do produtor pode anular o produto. É o caso de Lincoln Olivetti, muitas vezes acusado de impor um estilo pasteurizado que igualando o trabalho e repertório de artistas díspares como Gal Costa, Wando, Gilberto Gil e Rita Lee.

Por alguma coincidência, um dos grandes produtores da atualidade, começou tocando baixo, como o brasileiro Liminha. Em 1982, Larry Klein entrou para a banda que acompanhava a canadense Joni Mitchell. Tornaram-se parceiros na música e na vida. Produziu com Mitchell uma boa leva de CDs muito bem recebidos pela crítica e representou uma mudança de rumo em sua carreira, reaproximando-a do pop. Mesmo com o fim do casamento, em 1994, ano do lançamento de Turbulent Indigo, continuou a colaborar com ela em Both Sides Now, gravado com orquestra. Aproveitando o formato de Both Sides, gravaram o duplo Travelogue, que contém vários sucessos antigos de Mitchell. O bom produtor é aquele que sabe realçar as qualidades dos seus intérpretes. (sobre Joni Mitchell, leia: http://bit.ly/itpMsv ,  http://bit.ly/k81URE , http://bit.ly/kmauYk , http://bit.ly/eX6YHX , http://bit.ly/md969w)
Além dela, Klein produziu os últimos álbuns de Madeleine Peyroux, Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006) e Bare Bones (2009). Peyroux tinha gravado seu primeiro disco Dreamland em 1996. Imediatamente, por causa do timbre muito parecido ao de Billie Holiday, ganhou projeção. E sumiu. Reapareceu em grande estilo realizando um álbum impecável. Seria a mão de Klein? (sobre Peyroux, leia: http://bit.ly/hEOMMe, http://bit.ly/lYZbSu)

Dentre outros, produziria também o trumpetista e cantor Till Brönner – uma espécie de carbono de Chet Baker piorado – em Oceana (2006) e Rio (2008) – este último, lançado no Brasil. Na minha opinião – conheço apenas Rio – a mão de Klein é primordial para que o disco seja razoável. Juntou uma penca de convidados ilustres: Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Luciana Souza, Annie Lennox, Aimee Mann, Melody Gardot e Kurt Elling. Bom, com um time desses, qualquer curioso se arrisca a conhecer Till Brönner. Foi o que aconteceu comigo.

Larry Klein tem mostrado competência como produtor, principalmente com cantores e cantoras. Em 2007, produziu o CD The New Bossa Nova, de Luciana Souza. Por coincidência, com a mesma “química” que ocorrera com Joni Mitchell: os dois, atualmente, são parceiros na música e na vida.

Para frisar de como o trabalho de um produtor pode ser um diferencial, basta comparar o primeiro CD de Melody Gardot com o segundo, My One and Only Thrill, produzido por ele (sobre Gardot, leia http://bit.ly/eXhQSQ). E fica a expectativa se não acontece no futuro um novo casamento.

Joni Mitchell canta Sex Kills.




Luciana Souza canta Morrer de Amor.



Melody Gardot canta Baby, I’m a Fool.




Publicado inicialmente em 27/10/2009

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Afinal, qual é o problema de Joni Mitchell?

Joni Mitchell, capa da New York Magazine
Em 31 de março, Joni Mitchell, encontrada inconsciente em sua casa, foi internada em um hospital de Los Angeles. Se tivesse acontecido no dia seguinte, poderíamos imaginar que teria sido um trote de primeiro de abril. Mas não é. Passados alguns dias, tem dado mostras de melhora, mas continua internada.

Como quase tudo é original, em se tratando de Joni, até a doença é algo que, até então, nunca tinha ouvido falar, e creio que sou maioria nesse ponto. Ela padece da “doença de Morgellons”. É um negócio tão incomum que a comunidade médica não a reconhece. Resumindo, é uma doença de outro planeta, como Mitchell resume em entrevista à Billboard: “É uma doença estranha e incurável que parece vir de outro planeta. Fibras de diferentes cores são expelidas pela minha pele como cogumelos depois da chuva."

Em seu livro de memórias, tratara disso: “Não conseguia usar roupa. Não consegui sair de casa durante vários anos. Às vezes, era de tal maneira doloroso que eu tinha de me arrastar pelo chão. Ficava cheia de cãibras nas pernas, como se fossem espasmos. Estas dores atingiam-me todos os sítios do corpo que foram atacados pela poliomielite [doença infecciosa que a artista conseguiu vencer quando ainda era criança]”. (trecho retirado de matéria da portuguesa Joana Marques Alves, 5/4/2015. http://www.sol.pt/noticia/128469)

Na mesma matéria, esse mal é assim descrito: “A Doença de Morgellons é um problema de pele muito raro, que se caracteriza pelo ‘formigueiro’, a comichão, os arranhões e a sensação de se estar a ser cravado por ferrões. Para além disso, as pessoas que dizem sofrer desta doença afirmam que existem ‘filamentos fibrosos a sair pelas feridas’ que entretanto se formaram na pele.”

Psicossomático ou não, é uma doença que traz grandes sofrimentos, a ponto de Joni ter de estar internada em um hospital. Parece um caso que apenas a equipe de Gregory House pode curar.

Quem conhece um pouco melhor a cantora/compositora, ao ler as manchetes, deve ter imaginado que tivesse sido internada por algum mal na garganta, esôfago ou pulmão. Fumou toneladas de cigarros. Como ela mesma disse, tornou-se cantora para “fumar dinheiro”. Até onde se sabe, no alto de seus 71 anos, continua “sócia da Souza Cruz”. Presume-se também que, por esses dias, deu uma paradinha. Acho que é proibido fumar em hospitais americanos.


Por que ouvir e amar Joni Mitchell?

Joni se define como uma “pintora que escreve canções”. Desde o início ilustrou suas capas com desenhos e pinturas de sua autoria. Era como dizer: canto, componho, desenho e pinto.

A canadense surgiu no mundo musical para fazer diferença. Encantou o público e encantou os homens. A lista de ex-namorados é extensa: David Crosby, Graham Nash, Leonard Cohen, James Taylor, Wayne Perkins, Jackson Browne, John Guerin, Don Alias, o baixista e produtor Larry Klein, com quem manteve o relacionamento mais duradouro, e os atores Warren Beatty e Jack Nicholson. Dizem que teve um caso com o ator e dramaturgo Sam Shepard. Joni não era exatamente bonita, mesmo quando jovem, mas devia ser tremendamente charmosa e encantadora.

Muito desse encanto emanava de sua música. Quem não deve ter se apaixonado por Joni apenas ouvindo seus discos. Ao amar a sua música, passávamos a amar aquela figura longilínea de rosto anguloso e dentuça. E esse amor tornava-se duradouro, como a perenidade de suas composições. É impressionante como canções como Blue, Both Sides Now ou River, compostas há mais de 40 anos continuam atuais e são prazerosas de se ouvir até hoje. Não é à toa que River tenha sido gravada mais de 200 vezes. Joni não estava sendo presunçosa quando disse uma vez que “a minha música não é projetada para pegar instantaneamente. Ela foi projetada para ser apreciada por toda a vida, mantendo-se como um véu.”


Mitchell e o jazz

Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley.

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.



O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hat e The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



Ouça o show na íntegra. Vale a pena. Infelizmente, o vídeo foi suprimido do YouTube.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.



Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000.



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.




Joni está afastada dos palcos desde 2007 por razões de saúde. Estamos aqui na torcida para que se recupere rapidamente.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

As portuguesas Ana Moura e Cristina Branco gostam de Joni Mitchell

Cristina Branco (esq.) e Ana Moura
Um dos mais belos discos de Joni Mitchell chama-se Blue. É de 1971. Já era conhecida, pelo menos por Woodstock, uma das faixas de Ladies of the Canyon. Não foi ao festival, mas seu namorado foi. Era Graham Nash, um dos componentes do lendário Crosby, Stills & Nash que, aliás, gravaram-na em Déjà Vu (Atco, 1970).

Inicialmente, Joni teve seu nome ligado ao folk americano. Não apenas pelas composições, mas pelas companhias profissionais e pessoais, encaixava-se perfeitamente no rótulo. Em Blue, os músicos que dele participam podem assim ser considerados, caso de Stephen Stills, Russ Kunkel, Sneeky Pete e James Taylor. A base do folk era o violão acústico. Joni era aquela cantora que chegava com o violão debaixo do braço. Era suficiente. Se tivesse um pianinho, ótimo: sentava-se e batucava algumas notas e acordes. Simplicidade enganosa: suas composições eram sofisticadas.

Três composições de Blue se tornaram standards: a música título, River e A Case of You. O folk era uma classificação muito pequena para a vastidão criativa de Joni. No decorrer do tempo foi se associando musicalmente e, de vez em quando, emocionalmente, com Wayne Shorter, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Larry Klein. A essência continuou a mesma e o que mudou foi por um apuro instrumental cada vez maior. Em Hejira, um de seus melhores discos, ouvimos as primeiras contribuições do baixista Jaco Pastorius. No próximo álbum, um dos mais experimentais, a ele se somaram as contribuições de Wayne Shorter, Don Alias, Manolo Badrena, Alejandro Acuña e belíssimos arranjos orquestrais de Michael Gibbs.

Encontrou-se com Charles Mingus e gravou o antológico Mingus, com anuência e participação mais que especial em conversas gravadas que ficaram parte do disco. Pouco tempo depois o baixista, que já estava bem adoentado e preso a uma cadeira de rodas, veio a falecer.

Em 2007, Herbie Hancock lançou River: The Joni Letters (leia em http://bit.ly/10PtiCV), tendo convidados como Leonard Cohen, Luciana Souza, Corinne Bailey Rae (seu River é belíssimo: veja abaixo), Norah Jones e Tina Turner.




Joni Mitchell em releituras portuguesas

Por acaso calhou-me de ouvir cantoras portuguesas nos últimos dias. Se se fala de música da terrinha, é o fado o gênero que primeiro assoma em nossas memórias. Da primeira-dama Amália Rodrigues, passa-se por cantoras que seguem a tradição. Interessante que mesmo gerações mais recentes continuem a abraçar o gênero. Deve ser uma obsessão sebastianista. O fado não é o tipo de música para todos os gostos, assim como o bolero ou o tango, tidos como “coisas de velhos”, mas baixando-se a guarda dos preconceitos e dos conceitos pré-estabelecidos, encontra-se beleza onde menos se espera. O que intérpretes atuais como António Zambujo, Carminho, Cristina Branco e Ana Moura fazem não é simplesmente uma repetição ou diluição. São parte de uma gente que olha para a frente sem deixar de olhar para trás. Não estou citando Teresa Salgueiro, ex-membro de Madredeus, pois ela tem um percurso diferente.

A tradição conta bastante, mas esses cantores são cosmopolitas e não existe nenhum ranço nacionalista, Cantam na língua pátria e cantam em inglês ou francês e até português brasileiro. No álbum mais recente de Ana Moura, que deve ser a mais nova dos citados, três das faixas de Desfado, seu álbum mais recente, são cantadas em nglês. Na última excursão dos Rolling Stones, quando passaram em Portugal, Mick Jagger ouviu Ana em uma casa de fado. Gostou e convidou-a a participar de um dos shows. Cantou No Expectations.

Veja Ana Moura com os Rolling Stones.




Cristina Branco faz uma música com influências bem claras de outros gêneros latinos. Interpreta músicas francesas, argentinas, como Alfonsina y el mar, e brasileiras, como Soneto de Separação e O Meu Amor, de Chico Buarque..

Ouça Cristina Branco cantando a belíssima Alfonsina y el mar.




Pois então, estava esses dias a ouvir cantoras portuguesas e descobri que as duas cantam A Case of You, de Joni Mitchell.

Ouça A Case of You, com Cristina Branco, do CD Ulisses (2005).




Ouça A Case of You, com Ana Moura. A versão em estúdio está em Desfado (2013).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Maria Pia de Vito canta Joni Mitchell

Infelizmente, Bach, Mozart, Handel e todos os compositores que não viveram do século XX em diante puderam registrar suas composições em discos para que pudéssemos conhecê-los como intérpretes. Não estivemos na estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, em Dresden, nem pudemos presenciar o choque da apresentação da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em Paris. Como o russo era um jovem nessa época, pôde usufruir a revolução impetrada por Thomas Edison, gravando a maioria de sua obra pela gravadora americana Columbia. Assim, pudemos ter a experiência de conhecê-lo como intérprete de si mesmo. É uma experiência e tanto, ainda mais por ver que nem sempre um compositor é o melhor intérprete de si; ou talvez por ficar claro que “a criatura” pode suplantar o criador.

Num degrau abaixo, se considerarmos a música erudita como um produto da alta cultura e a popular, da média ou baixa cutura, o fenômeno é o mesmo. Os grandes criadores da música americana do século XX – Cole Porter, Richard Rodgers, Irving Berlin, George Gershwin, para citar alguns – eram compositores, antes de mais nada. Johnny Mercer, Hoagy Carmichael e até Cole Porter chegaram a gravar composições próprias, mas nada que pudessem ser comparadas aos registros de Frank Sinatra, Tony Bennett, Billie Holiday ou Sarah Vaughan. Compositores compunham e cantores cantavam. Essa foi a tônica desses clássicos.

Numa outra vertente temos os compositores/cantores, fenômeno mais evidente a partir dos anos 1960. Uma exceção são os cantores de blues, cujas composições são indissociáveis às suas próprias interpretações. Canções compostas pelas duplas Lennon & McCartney e Jagger & Richards poderiam ser assim consideradas também. As das estrelas solitárias Bob Dylan, Leonard Cohen, Jimi Hendrix e Joni Mitchell, idem. A citação desses nomes não é acidental. Todos eles têm sido gravados por outros cantores e cantoras com certa frequência.

Algumas composições de Joni Mitchell e Leonard Cohen, nos últimos anos, têm sido tão gravados que podem ser rotulados como standards da moderna música popular, decerto, nem tanto quanto um Summertime ou Night and Day, mas devemos observar que são bem mais antigas. Hallelujah, Take This Waltz e I’m Your Man foram cantadas tanto por intérpretes mais ligados ao jazz como à vertente pop. O mesmo acontece com A Case of You e River, de Mitchell.

Foram gravados alguns álbuns com o repertório da canadense bem interessantes. Um muito bom é um em que k d lang homenageia seus conterrâneos Jane Siberry, Neil Young e como não podiam faltar, Cohen e Mitchell: Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch, 2004). Tribute to Joni Mitchell (Nonesuch, 2007), do qual participam Caetano Veloso, Elvis Costello, Björk, Sufjan Stevens, Prince, Brad Mehdau, Emmylou Harris, k d lang,, Annie Lennox, Sarah MacLachlan, James Taylor e Cassandra Wilson – sem dúvida um elenco muito variado – é um tanto desigual. O destaque é a versão de Veloso para Dreamland, música não muito conhecida do LP duplo (é; é daquele tempo) Don Juan Reckless Daughter (Elektra, 1978), vibrante e uma visão personalíssima do brasileiro.

Mais recentemente, foi lançado o CD River: The Joni Letters (Verve, 2007), em que o pianista Herbie Hancock toca acompanhado de Luciana Souza, a própria Mitchell, Leonard Cohen, Norah Jones e Corinne Bayley Rae. Essa última “ataca” um River de arrepiar (leia sobre o disco e ouça Bailey Rae em http://bit.ly/jR7xrK).

Muita classe de De Vito cantando Joni Mitchell
Como todo curioso acha – até o que não deve achar – descobri, faz pouco tempo, um CD de Maria Pia de Vito, tributo à Joni Mitchell: So Right (CAMJazz 2005). A italiana é acompanhada pelos conterrâneos Danilo Rea (piano), Enzo Pietropaoli (baixo) e tem como convidado especial o baterista Aldo Romano. 

Num universo nem tão vasto como o americano, o italiano é pródigo em grandes instrumentistas. Enrico Rava, Stefano Bollani, Paolo Fresu e Stefano Di Battista são bem conhecidos fora da Itália. Alguns nem tanto, como os três que acompanham Maria Pia e a pianista Rita Marcotulli, estão na proa do cenário da música instrumental. Há também instrumentistas “diferentes” – pelo tipo de música que extrapola um pouco a linguagem jazzística – como o pianista Stefano Battaglia e o clarinetista/saxofonista Gianluigi Trovesi, ambos atualmente gravando pela alemã ECM, que são excepcionais.

Maria Pia tem carreira consolidada não apenas como cantora ligada ao jazz. Entre 1994 e 97, com a pianista Rita Marcotulli dividiu um projeto – Nauplia – calcado na música napolitana; faz algumas incursões cantando e se acompanhando com instrumentos eletrônicos. Gravou dois discos com o violonista americano, cocriador do excepcional Oregon, Ralph Towner, e o pianista inglês John Taylor (Verso e Nel Respiro). Colaborou também com o canadense Kenny Wheeler, Joe Zawinul, Michael Brecker e Steve Turre. Resumindo, é do meio.

So Right é um tributo a Joni Mitchell, mas tem quatro canções da lavra de Maria Pia e seus parceiros. A música-título, composta por Pietropaoli é maravilhosa. A outra é Miskin, bem experimental e climática, em que ela cria ambiência com instrumentos eletrônicos e os funde com a voz e com um som percussivo em motivos repetitivos e o piano em acordes ascendentes e descendentes em vaivém. Essa música, como The Sweetest Medicine, aparentemente, foi composta pensando-se na “forma de fazer” da canadense.

Das que são do repertório de Mitchell, várias são excepcionais; algumas nem tanto, pois se diluem em experimentalismos – caso de Big Yellow Taxi, God Must Be a Boogie Man e Woodstock – sem querer que não sejam boas. Quando canta sem “inventar”, demonstra domínio absoluto em seu mister e interpreta magnificamente Amelia, River e A Case of You.


Maria Pia De Vito perfeita em River, em A Case of You, e Amelia.








A bela So Right, música de Pietropaoli



Curiosidade: Maria Pia andou por terras baianas em 2007. Vi na internet.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quando Jaco Pastorius tocou com Joni Mitchell

Em 1976, antes de gravar Hejira, Joni Mitchell procurava um tipo de som diferente do que se ouvia nessa época. Não lhe satisfazia o tipo de som predominante dos baixistas por achá-los um tanto “mortos”. Quando gravava The Hissing of Summer Lawns (1976), mostrou no teclado como pretendia que a linha do baixo fosse em The Jungle Line para Max Bennett, que a acompanhava. Ele odiou; e ela não estava satisfeita.

A perfeita combinação: Pastorius e Mitchell
No álbum seguinte, com a participação de Jaco Pastorius, viu o que era uma ideia que tinha em mente tornar-se real. Finalmente, surgia um baixista que se alternava entre os graves e os médios. Jaco transformou o som de Joni. Basta comparar as faixas em que Max Bennett é o baixista e as que é Pastorius. Impressiona já na primeira faixa, Coyote. A base é a guitarra rítmica de Joni e Larry Carlton e as congas de Bobbye Hall. O instrumento que está em primeiro plano é o baixo de Jaco. É uma verdadeira aula de ritmo e inventividade. Isso não quer dizer, de maneira nenhuma, que Bennett seja uma mau baixista. Pelo contrário, é que ele é mais de marcação e menos solista. Como termo de comparação dos estilos diferentes, Furry Sings the Blues, a terceira faixa, com Bennett no baixo, é perfeita.

A outra música em que Jaco dá um verdadeiro show é Hejira, em que se ouvem além dele, o violão de Joni e a percussão quase imperceptível de Bobbye Hall e algumas notas – perfeitas – da clarineta de Abe Most. A outra da qual Pastorius participa é a última do disco: Refuge of the Roads.

A parceria Pastorius/Mitchell continuaria em outros dois álbuns: Don Juan’s Reckless Daughter (1977), Mingus (1979) e Shadows and Lights (1980). A combinação atinge o auge em Don Juan’s. Nesse disco, o mais ambicioso de Joni, flerta com o jazz, com ritmos latino-americanos e orquestrações do mestre Michael Gibbs. Além de Jaco tocando na maioria das faixas, há participações de Wayne Shorter no sax e Alex Acuña, Airto Moreira, Don Alias e Manolo Badrena nas percussões.

O mais impressionante é o que Pastorius faz na música título, Don Juan’s Reckless Daughter. Com a palma da mão golpeia as cordas do baixo  deslizando-a de cima até em baixo fazendo um som que, onomatopaicamente, é um du du du doom, du du du doom, durante os cinco minutos da música. Depois de três minutos, a palma da mão estava em carne viva.

Mingus foi o álbum em que Joni Mitchell presta um tributo a um dos maiores baixistas de todos os tempos do jazz. Há, inclusive, uma “participação especial” de Charles Mingus. Nessa época, encontrava-se preso a uma cadeira de rodas e vivia no México com sua mulher. Ela, Sue Graham Mingus, permitiu que Joni usasse uma fita em que foi gravado um “Parabéns a Você” em algumas partes do disco. Mingus é um álbum mais orientado ao jazz, por conta do objeto do tributo. Participam, além de Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), Don Alias e Emil Richards na percussão.

Depois desse disco, Pastorius participou da turnê que resultou no DVD Shadows and Lights. As participações são mais que especiais: Wayne Shorter, Randy Brecker (sax-tenor), Pat Metheny (guitarra), Don Alias (bateria e percussão), Lyle Mays (teclados), e o grupo vocal The Persuations. Pastorius foi o diretor musical desse projeto. O registro em DVD é item essencial na prateleira dos amantes da boa música.

Em um relato para a Musician Magazine, em 1987, Mitchell disse que Pastorius era arrogante e ciente do enorme talento que tinha. Ele dizia “Eu sou o máximo. Não sou de me gabar. Só estou dizendo a verdade.” Essa arrogância e o uso da cocaína e do álcool corroeram-lhe o seu talento e a inspiração.

Anos depois, Joni tinha ido à abertura de uma exposição em Nova York. Havia um pequeno restaurante na mesma rua anunciando “Jaco Pastorius Tonight”. Foi vê-lo. Na apresentação, Jaco, ao vê-la, não parava de dizer: Joni Mitchell é o máximo! Ela é a única “isso”, é a única “aquilo”, a ponto de ficar constrangedor. As poucas pessoas no clube também ficaram constrangidas. Joni subiu ao palco, mas deu tudo errado. Foi frustrante.

Em 11 de setembro de 1987, arrumou encrenca com o gerente de um clube na Florida, e na briga, sofreu traumatismo craniano, morrendo dez dias depois. Tinha 36 anos.

Veja Joni e Jaco em The Dry Cleaner from Des Moines, do show Shadows and Lights.