quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Joni Mitchell, standards e orquestras

Joni Mitchell, por ela mesma.
Até para fazer o seu disco de standards, Joni Mitchell foi original. A ideia em “Both Sides Now” (Reprise, 2000) foi a de fazer um álbum programático, ou seja, com um conceito. Joni quis traçar “um arco de relacionamentos românticos modernos”, segundo Larry Klein, então marido e produtor. Nas liner notes, ele escreve que “achou que a ideia era inovadora, excitante e especialmente apropriada, considerando que o ponto central de seu trabalho [o de Mitchell] era a investigação sobre a natureza do amor moderno.” Seria uma suite “documentando um relacionamento, desde o flerte inicial até a consumação otimista, transformando-se em desilusão, o desepero irônico, e, finalmente, culminando numa visão filosófica de aceitação e a probabilidade de o ciclo se repetir por si.”

O conceito é ótimo. Como não estou acostumado a prestar muita atenção em letras, não posso afirmar se conseguiram passar o conceito pretendido. Vou relacionar as canções na ordem para que o leitor tire suas conclusões: “You’re My Thrill” (1933), “At Last” (1942), “Comes Love” (1939), “You’ve Changed” (1968), “Answer Me, My Love” (1953), “A Case of You” (1972), “Don’t Go to Strangers” (1954), “Sometimes I’m Happy” (1925), Don’t Worry Bout Me” (1939), “Stormy Weather” (1933), “I Wish I Were in Love Again” (1937), “Both Sides Now” (1967).

A maioria das escolhidas é bem antiga, e dois são composições de sua lavra bem conhecidas do fã de Mitchell: “A Case of You” e “Both Sides Now”. Todas elas foram arranjadas por Vince Mendoza, um dos mestres da orquestração na atualidade. Larry Klein é um dos magos na produção de discos de cantores e cantoras. E sendo Joni Mitchell, Klein foi um parceiro musical ideal.

O destaque é a música título.




Outro número muito bom é “You’ve Changed”, de Carl Fischer e Bill Carey. A orquestração de Mendoza é de tirar o fôlego.




Mais Joni e orquestra
Depois de “Both Sides Now”, Larry e Joni gravaram o duplo “Travelogue”. Saiu em um box luxuoso, com um encarte de 28 páginas, em capa dura, contendo trechos de letras e pinturas de sua autoria, além de outro, as letras das 22 faixas. Ambos são com orquestra e gravados nos mesmos estúdios, o que faz concluir que podem ter sido realizados juntos. Não sei se foi. “Travelogue” foi lançado em novembro de 2002. É um ano importante na vida dela. Foi o fim do casamento de 20 anos com Larry e também porque declarou que este era seu último disco. Mudou de ideia e lançou mais um: “Shine” (2007).

O estranho é este belíssimo álbum não ter ficado nem entre os 100 mais vendidos, na época. Até para um colecionador da canadense, como eu, passou batido. Sem saber nem que tinha sido gravado, meio que sem querer, encontrei-o na Pop Discos, uma lojinha (ótima) que fica em uma galeria da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo. Nunca tinha visto em lojas como a Tower, HMV e J&R em minhas viagens a Nova York.

Neste, as composições são todas de Mitchell, fora um caco de “Unchained Melody”, incluído em “Chinese Cafe”. Se Vince Mendoza preferiu arranjos mais discretos em “Both Sides Now”, em “Travelogue” são mais vigorosos, exuberantes e delicados, quando o momento pede. É um primor em canções conhecidas em novo contexto. E os músicos participantes, quase todos são do primeiríssimo time, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Kenny Wheeler, Billy Preston, Chuck Berghoffer, Larry Klein, craque no baixo elétrico, além de produtor, e Brian Blade.

Ouça a versão matadora de “Sex Kills”, a última grande canção de Joni Mitchell.




Excepcional também é a clássica “Hejira’.




Ouça “Amelia”




“For the Roses”. O sax soprano, advinhe de quem é.




“Woodstock”

Nenhum comentário:

Postar um comentário