Há alguma semelhança entre Isabel Coixet e Susanne Bier. O fato de serem mulheres e cineastas, pelo menos. Mas, no jeito de abordar dramas humanos, está o maior elo, pelo menos, na minha opinião. É demais dizer que adotamos uma opinião a priori em certas situações? Tal como sentar-se e “predispor-se a”, quando vemos um filme de Tarantino… ou de Hitchcock?
Como ponto de partida, para falar delas, entra um homem: Lars von Trier, o incensado, junto de Vinterberg, criador do movimento “Dogma”. Estranho, no meu tempo de estudante, duas palavras eram consideradas xingamento: “dogma” e “sectário”. Dogmatismo e sectarismo. Sectários éramos todos, mais ou menos militantes dos movimentos estudantis nas décadas de 1970 e 80. Dogmáticos eram os mais próximos às linhas soviética e chinesa, pelo menos era o que achavam os simpatizantes do trotskismo.
Curioso é o caminho de von Trier: de esteta radical (
O Elemento do Crime) a cineasta de “câmera na mão”. Não sei dizer até quanto está ficando menos “dogmático”; mas vejo uma retomada pelos apuros estéticos que estão em sua origem com imagens, antes de mais nada, belíssimas, em seu último
Anticristo. O requinte dos claros/escuros nas imagens em branco e preto, filmagens em câmera lenta sem áudio, contrastes dramáticos de cor parecem o que há de melhor nesse filme. A história é de uma crueza artificial e não possui a qualidade dos esteticismos.
O estatuto do Dogma aconteceu em 1995. No ano seguinte, von Trier faria um de seus melhores filmes:
Ondas do Destino. Jan (Stellan Skarsgörd) trabalha em uma plataforma marítima de petróleo no Mar do Norte. Tira uma licença para casar-se com Bess (Emily Watson) e sem lua-de-mel nenhuma volta ao trabalho. Sofre um acidente que o deixa impotente.
Não é aleatória a citação dele. Há muito do trágico de
Ondas do Destino nos filmes de Susanne Bier. Se não é a tragédia da impotência, ou mais, a de não poder dar o prazer do sexo para Bess, não é pior do que os episódios de morte que, invariavelmente, estão nas histórias da dinamarquesa. Em
Brothers (2004), Michael (Ulrich Tomsen) é convocado ir pelas forças de paz da Otan. É dado como morto após uma missão empreendida no Afeganistão. Quando consegue voltar, tudo mudara em sua casa. O irmão irresponsável, ex-presidiário, assumira seu lugar. Em
Após o Casamento (2006), Jacob (Mads Mikkelsen) trabalha em uma ONG que cuida de crianças carentes na Índia. Vai para a Dinamarca para conversar com um rico empresário que deseja ajudar financeiramente seu projeto. O que fica se sabendo, no decorrer do filme, é a de que Jørgen (Rolf Lassgård) está com os dias contados em decorrência de uma doença terminal, e que é casado com Helene (Sidse Babett Knudsen), sua antiga namorada. O pai de Helene, que está para se casar, na verdade é sua filha e não do empresário. O jogo – ou drama – é a de que Jørgen, sabendo que está para morrer, não quer deixar Helene e a filha desamparadas.
No filme dirigido nos Estados Unidos –
Coisas Que Perdemos no Caminho (
Things We Lost in the Fire, 2007) – Audrey (Halle Berry) perde o marido em um assalto. Encontra conforto com o melhor amigo do marido, Jerry (Benicio del Toro, em esplêndida atuação), um viciado em drogas em recuperação.
A morte não podia deixar de constar em
Em Um Mundo Melhor (2010), filme que entrou em cartaz no iníco de março deste ano. É antes, uma história de pais ausentes. Um deles tem um pai trabalha em uma dessas organizações médicas sem fronteiras. Passa a maior parte do tempo na África. Seu filho, um menino tímido, sofre com os abusos dos colegas valentões na escola. O outro, que ficará amigo de Elia, órfão de mãe e de pai rico e distante de seu dia-a-dia, é meio revoltado e propenso a ter agir com violência. Christian, sem a anuência do outro, vinga-se das humilhações sofridas por Elia. Mas tornar-se amigo de Christian tem seus perigos. Ele não tem limites, agindo criminosamente.
Uma das questões levantadas por Bier é da realização do bem. O que é o bem? O médico que abre mão de uma carreira sossegada e melhor remunerada para cuidar das vítimas de tiranos na África e, para isso, praticamente abandona a família. A cena capital do que é ser médico e cumprir com os princípios de socorrer qualquer um é a de quando, justamente, o causador dos males dos que acorrem às tendas precisa de socorro. Até onde vai a ética?
Há uma cena que caracteriza bem o comportamento de alguém que é pela não-violência. Anton (Mikael Persbrandt), o pai do menino vítima dos valentões, é destratado por um rude mecânico de carros em frente ao filho e do amigo Christian. Ele não reage e é questionado pelos moleques. Anton diz que violência gera violência e isso não dá em boa coisa.
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| Anton (Mikael Persbrandt) no filme Em Um Mundo Melhor |
Em Um Mundo Melhor ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e entrou em cartaz logo após no Brasil. As críticas vão de ótimo (Luiz Carlos Merten), bom (Luiz Zanin Oricchio), a ruim (André Barcinsky, na
Folha de S. Paulo). Mesmo não sendo o melhor Bier, é bom. Pelo menos, é a minha impressão, apesar de tê-lo visto em outubro do ano passado. Não vou revê-lo agora, como não revi os anteriores. É um pouco o caso das “coisas que perdemos no caminho”. Perdemos algumas coisas para não perder outras. E não é questão fechada não rever. Já revi muita coisa. As minhas impressões são as de outubro passado. Posso estar deixando passar alguns elementos importantes, mas em comparação a
Cisne Negro e
O Discurso do Rei,
Em Um Mundo Melhor é melhor.
As críticas de Barcinsky são pertinentes, porém os defeitos do filme são potencializados. A de Oricchio é mais razoável. O título da crítica é “Bem além do pacifismo ingênuo”. Há um certo artificialismo, sim. Quando diz que é um filme de tese, está colocando “filme de tese” como um “apesar”, ou “porém”. Reproduzo um trecho de sua crítica: “Os limites de
Em Um Mundo Melhor são aqueles que em geral aparecem em filmes de tese. Percebe-se que algumas ideias, colocadas umas contra outras, precedem a construção dramática da obra. Daí algumas passagens soarem artificiais. Mas esses impasses não atingem a discussão central: há casos de violência, ou ela é sempre má? A boa notícia é que a diretora tenta ir além de um pacifismo ingênuo e procura dar conta das complexidades do tema. Mesmo os conduzindo a impasses, o que é sempre melhor do que terminar por soluções fáceis.”
Conexões femininas
O “invasor” masculino – Lars von Trier – se inclui entre Coixet e Bier em razão de
Ondas do Destino ter, em comum, com
A Vida Secreta das Palavras (2005), da espanhola, o fato dos dois protagonistas sofrerem um acidente em uma plataforma petrolífera. N’
A Vida…, acontece uma explosão e Josef (Tim Robbins) sofre graves queimaduras e fica impossibilitado de ser transportado para o continente antes de melhorar dos ferimentos.
Hanna (Sarah Polley) é uma moça solitária e, durante as férias de que é obrigada a tirar, procura alguma ocupação. Surge-lhe a oferta de trabalhar como enfermeira para cuidar de Josef. Ficaram apenas algumas pessoas na plataforma, todos homens. Ferido, sem poder enxergar, Josef, assim mesmo, age como sempre deve ter sido: um grandalhão grosseiro acostumado a lidar com rudeza entre seus pares. Estoicamente, Hanna cuida dele e parece não se importar. É uma química difícil de acontecer na vida real: Josef “amolece” com a delicadeza muda de Hanna, que pouco fala. Depois de recuperado, de volta à terra, sai à sua procura. Descobre então que ela é uma refugiada da guerra dos Balcãs.
Isabel é diretora de outro filme belíssimo que recebeu boa acolhida pelo público e pela crítica:
Minha Vida Sem Mim (1998). Ann (Sarah Polley) é diagnosticada com um câncer uterino e, segundo o médico, tem apenas dois meses de vida. Uma de suas resoluções é a de gravar fitas de áudio para cada aniversário de suas filhas pequenas até completarem 18 anos.
As semelhanças não param por aí. A jovem Sarah Polley – nasceu em janeiro de 1979 –, em sua primeira incursão como diretora, realizou um belíssimo filme –
Longe Dela (2006) – em que há semelhanças de abordagem dos dramas humanos. Agora, só falta a Sarah Polley trabalhar em um filme de Bier para fechar o círculo.
O trailer. Bom lembrar que
Hæven, título original em dinamarquês, significa “vingança”.