sexta-feira, 25 de março de 2011

A aquarela do Brasil de Armênio Guedes

Armênio Guedes passou boa parte de sua vida na clandestinidade; outra, fora do país. Por várias décadas, nem conta bancária possuiu. Quando Prestes saiu da cadeia, em 1945, virou seu secretário e cuidava de sua segurança, e por isso mesmo, moraram na mesma casa, no Rio de Janeiro, lá perto do Largo do Machado.

Ainda na Bahia, quando cursava a Faculdade de Direito, entrou para o Partido Comunista e foi militante ativo desde então. Em 1983, foi chamado pelo secretário-geral Giocondo Dias para explicar o processo de expulsão de outro membro do partido. Esse episódio foi a culminância de uma demanda de desgastes que se arrastava há tempos. Desligou-se definitivamente, mas até hoje mantém amizade com muitos de seus companheiros de partido.

Armênio passou a divergir daqueles que pensavam que deveria se seguir a cartilha stalinista, mesmo após a morte do ditador, e defendia a via democrática para fazer frente ao regime militar brasileiro. Mostrava-se contra as táticas guerrilheiras de derrubar o governo. Em 1970, quando o Brasil vivia a fase triunfalista de uma relativa estabilidade econômica, e a conquista do tricampeonato mundial de futebol, bem como parcela do País cantava Eu Te Amo Meu Brasil, composição de Dom e Ravel, junto com Os Incríveis e Elis Regina, o regime obscurantista de Garrastazu Médici torturava, caçava e matava seus adversários. Convém lembrar que Médici atingiu índice de aprovação (82%) equivalente ao do ex-presidente Lula.

Nesse ano, no Rio de Janeiro, foi abordado por um certo “Wilson”, que lhe propôs tornar-se agente da CIA; ciente, é provável, de algumas posições dele, como a discordância das táticas da ANL. Informou ao partido do ocorrido e, vendo que a situação estava ficando deveras absurda e perigosa, foi para o Chile, na época em que, pela primeira vez na América Latina, se instaurava um governo socialista por vias democráticas. Era o ano de 1971.

Pouco antes da crise que acabaria na morte do presidente Salvador Allende, em junho de 1973, foi para a União Soviética participar do “Congresso Mundial pela Paz”. A 11 de setembro, o exército comandado por Augusto Pinochet, pôs fim ao governo democrático de Allende. Guedes teve que ficar por lá. Não foi a primeira vez. Morou em Moscou, coincidentemente, quando morreu Stálin, em 1953. Logo ele que, a essa altura, discordava abertamente da linha ideológica de alguns próceres do partido.

Em Moscou, Armênio ficou hospedado no Rossiya, construído pelo governo soviético. Em 1967, quando foi inaugurado, era o maior hotel do mundo, capaz de acomodar 4 mil pessoas. Luxuoso, abrigava um teatro com 2,5 mil assentos, um clube e academia de ginástica. Tinha até uma orquestra tocando no restaurante durante as refeições. Foi lá que ouviu pela primeira vez russos tocando música brasileira. Eram duas as que faziam parte do repertório. Uma delas era Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, um dos hits – tocavam-na todos os dias –, a outra, mais raramente, era Garota de Ipanema. Asssim Armênio matava saudades do país em que nasceu.

Em 2006, muito longe dos anos do stalinismo, o hotel foi demolido para dar lugar a um complexo imobiliário projetado pelo arquiteto inglês Norman Foster.

O breve relato é pretexto para citar Aquarela do Brasil, talvez a canção mais “internacional” do Brasil. A essa hora, alguém deve estar tocando essa música no oud, no Egito, num shamisen no Japão, numa cítara na Índia, ou na balalaica, na Rússia. Para arrematar, estou disponibilizando uma interpretação com Chick Corea no piano e Béla Fleck no banjo.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Um “mundo melhor” é uma abstração. O pior é o que se vive. Sobre o último filme de Susanne Bier

Há alguma semelhança entre Isabel Coixet e Susanne Bier. O fato de serem mulheres e cineastas, pelo menos. Mas, no jeito de abordar dramas humanos, está o maior elo, pelo menos, na minha opinião. É demais dizer que adotamos uma opinião a priori em certas situações? Tal como sentar-se e “predispor-se a”, quando vemos um filme de Tarantino… ou de Hitchcock?

Como ponto de partida, para falar delas, entra um homem: Lars von Trier, o incensado, junto de Vinterberg, criador do movimento “Dogma”. Estranho, no meu tempo de estudante, duas palavras eram consideradas xingamento: “dogma” e “sectário”. Dogmatismo e sectarismo. Sectários éramos todos, mais ou menos militantes dos movimentos estudantis nas décadas de 1970 e 80. Dogmáticos eram os mais próximos às linhas soviética e chinesa, pelo menos era o que achavam os simpatizantes do trotskismo.

Curioso é o caminho de von Trier: de esteta radical (O Elemento do Crime) a cineasta de “câmera na mão”. Não sei dizer até quanto está ficando menos “dogmático”; mas vejo uma retomada pelos apuros estéticos que estão em sua origem com imagens, antes de mais nada, belíssimas, em seu último Anticristo. O requinte dos claros/escuros nas imagens em branco e preto, filmagens em câmera lenta sem áudio, contrastes dramáticos de cor parecem o que há de melhor nesse filme. A história é de uma crueza artificial e não possui a qualidade dos esteticismos.

O estatuto do Dogma aconteceu em 1995. No ano seguinte, von Trier faria um de seus melhores filmes: Ondas do Destino. Jan (Stellan Skarsgörd) trabalha em uma plataforma marítima de petróleo no Mar do Norte. Tira uma licença para casar-se com Bess (Emily Watson) e sem lua-de-mel nenhuma volta ao trabalho. Sofre um acidente que o deixa impotente.

Não é aleatória a citação dele. Há muito do trágico de Ondas do Destino nos filmes de Susanne Bier. Se não é a tragédia da impotência, ou mais, a de não poder dar o prazer do sexo para Bess, não é pior do que os episódios de morte que, invariavelmente, estão nas histórias da dinamarquesa. Em Brothers (2004), Michael (Ulrich Tomsen) é convocado ir pelas forças de paz da Otan. É dado como morto após uma missão empreendida no Afeganistão. Quando consegue voltar, tudo mudara em sua casa. O irmão irresponsável, ex-presidiário, assumira seu lugar. Em Após o Casamento (2006), Jacob (Mads Mikkelsen) trabalha em uma ONG que cuida de crianças carentes na Índia. Vai para a Dinamarca para conversar com um rico empresário que deseja ajudar financeiramente seu projeto. O que fica se sabendo, no decorrer do filme, é a de que Jørgen (Rolf Lassgård) está com os dias contados em decorrência de uma doença terminal, e que é casado com Helene (Sidse Babett Knudsen), sua antiga namorada. O pai de Helene, que está para se casar, na verdade é sua filha e não do empresário. O jogo – ou drama – é a de que Jørgen, sabendo que está para morrer, não quer deixar Helene e a filha desamparadas.

No filme dirigido nos Estados Unidos – Coisas Que Perdemos no Caminho (Things We Lost in the Fire, 2007) – Audrey (Halle Berry) perde o marido em um assalto. Encontra conforto com o melhor amigo do marido, Jerry (Benicio del Toro, em esplêndida atuação), um viciado em drogas em recuperação.

A morte não podia deixar de constar em Em Um Mundo Melhor (2010), filme que entrou em cartaz no iníco de março deste ano. É antes, uma história de pais ausentes. Um deles tem um pai trabalha em uma dessas organizações médicas sem fronteiras. Passa a maior parte do tempo na África. Seu filho, um menino tímido, sofre com os abusos dos colegas valentões na escola. O outro, que ficará amigo de Elia, órfão de mãe e de pai rico e distante de seu dia-a-dia, é meio revoltado e propenso a ter agir com violência. Christian, sem a anuência do outro, vinga-se das humilhações sofridas por Elia. Mas tornar-se amigo de Christian tem seus perigos. Ele não tem limites, agindo criminosamente.

Uma das questões levantadas por Bier é da realização do bem. O que é o bem? O médico que abre mão de uma carreira sossegada e melhor remunerada para cuidar das vítimas de tiranos na África e, para isso, praticamente abandona a família. A cena capital do que é ser médico e cumprir com os princípios de socorrer qualquer um é a de quando, justamente, o causador dos males dos que acorrem às tendas precisa de socorro. Até onde vai a ética?

Há uma cena que caracteriza bem o comportamento de alguém que é pela não-violência. Anton (Mikael Persbrandt), o pai do menino vítima dos valentões, é destratado por um rude mecânico de carros em frente ao filho e do amigo Christian. Ele não reage e é questionado pelos moleques. Anton diz que violência gera violência e isso não dá em boa coisa.

Anton (Mikael Persbrandt) no filme Em Um Mundo Melhor
Em Um Mundo Melhor ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e entrou em cartaz logo após no Brasil. As críticas vão de ótimo (Luiz Carlos Merten), bom (Luiz Zanin Oricchio), a ruim (André Barcinsky, na Folha de S. Paulo). Mesmo não sendo o melhor Bier, é bom. Pelo menos, é a minha impressão, apesar de tê-lo visto em outubro do ano passado. Não vou revê-lo agora, como não revi os anteriores. É um pouco o caso das “coisas que perdemos no caminho”. Perdemos algumas coisas para não perder outras. E não é questão fechada não rever. Já revi muita coisa. As minhas impressões são as de outubro passado. Posso estar deixando passar alguns elementos importantes, mas em comparação a Cisne Negro e O Discurso do Rei, Em Um Mundo Melhor é melhor.

As críticas de Barcinsky são pertinentes, porém os defeitos do filme são potencializados. A de Oricchio é mais razoável. O título da crítica é “Bem além do pacifismo ingênuo”. Há um certo artificialismo, sim. Quando diz que é um filme de tese, está colocando “filme de tese” como um “apesar”, ou “porém”. Reproduzo um trecho de sua crítica: “Os limites de Em Um Mundo Melhor são aqueles que em geral aparecem em filmes de tese. Percebe-se que algumas ideias, colocadas umas contra outras, precedem a construção dramática da obra. Daí algumas passagens soarem artificiais. Mas esses impasses não atingem a discussão central: há casos de violência, ou ela é sempre má? A boa notícia é que a diretora tenta ir além de um pacifismo ingênuo e procura dar conta das complexidades do tema. Mesmo os conduzindo a impasses, o que é sempre melhor do que terminar por soluções fáceis.”

Conexões femininas
O “invasor” masculino – Lars von Trier – se inclui entre Coixet e Bier em razão de Ondas do Destino ter, em comum, com A Vida Secreta das Palavras (2005), da espanhola, o fato dos dois protagonistas sofrerem um acidente em uma plataforma petrolífera. N’A Vida…, acontece uma explosão e Josef (Tim Robbins) sofre graves queimaduras e fica impossibilitado de ser transportado para o continente antes de melhorar dos ferimentos.

Hanna (Sarah Polley) é uma moça solitária e, durante as férias de que é obrigada a tirar, procura alguma ocupação. Surge-lhe a oferta de trabalhar como enfermeira para cuidar de Josef. Ficaram apenas algumas pessoas na plataforma, todos homens. Ferido, sem poder enxergar, Josef, assim mesmo, age como sempre deve ter sido: um grandalhão grosseiro acostumado a lidar com rudeza entre seus pares. Estoicamente, Hanna cuida dele e parece não se importar. É uma química difícil de acontecer na vida real: Josef “amolece” com a delicadeza muda de Hanna, que pouco fala. Depois de recuperado, de volta à terra, sai à sua procura. Descobre então que ela é uma refugiada da guerra dos Balcãs.

Isabel é diretora de outro filme belíssimo que recebeu boa acolhida pelo público e pela crítica: Minha Vida Sem Mim (1998). Ann (Sarah Polley) é diagnosticada com um câncer uterino e, segundo o médico, tem apenas dois meses de vida. Uma de suas resoluções é a de gravar fitas de áudio para cada aniversário de suas filhas pequenas até completarem 18 anos.

As semelhanças não param por aí. A jovem Sarah Polley – nasceu em janeiro de 1979 –, em sua primeira incursão como diretora, realizou um belíssimo filme – Longe Dela (2006) – em que há semelhanças de abordagem dos dramas humanos. Agora, só falta a Sarah Polley trabalhar em um filme de Bier para fechar o círculo.

O trailer. Bom lembrar que Hæven, título original em dinamarquês, significa “vingança”.



segunda-feira, 21 de março de 2011

Homens amam The Man I Love; e as mulheres, também

“The Man I Love” é uma daquelas músicas preferidas por dez entre dez músicos. Quaisquer interpretações, até as mais “desconstruídas”, não conseguirão abalar a beleza das linhas melódicas desse clássico gershwiniano.

Eleja a sua preferida. É difícil, não? É só começar a pensar e dezenas surgirão. A melancólica de Billie Holiday? Ou a “diferente” de Betty Carter? Ou de Chris Connor, Carmen McRae, Ella Fitzgerald, Doris Day, Helen Forrest, Peggy Lee… bom, vamos parar por aqui. Ou das instrumentais: Miles Davis (grande início com as primeiras notas do vibrafone de Milt Jackson para a entrada do trumpete de Miles), Charlie Parker, Nat King Cole, Art Tatum, Hank Jones… por ora, fico com o belíssimo solo de Thelonious Monk no piano.

Tony Bennett, para poder cantá-la sem se incomodar com o gênero feminino, cantou-a transmutada em “The Girl I Love”, que é como também canta Michael Feinstein. Alguém sabe de algum homem cantando-a com a letra original?

Phineas, o jovem
Somos de gerações anteriores aos dos politicamente corretos e, sendo assim, não ficamos preocupados se, usando tais ou quais expressões estamos sendo incorretos. O amigo Zeca Leal sempre se expressava de maneira bem-humorada e engraçada, punha apelidos em todos — sem que as “vítimas” soubessem quais eram os seus — tinha um conhecimento estúpido de jazz. Somos de gerações diferentes, eu e o Zeca. Morreu com uns 86/87 anos. Depois que passou a ter algumas complicações de saúde, parou de vir à minha casa. Vinha sempre com várias fitas cassetes — para quem não sabe o que é, digamos que eram os pen drive de antigamente — e gravava muitos CDs de discos que um dia os tivera formato LP, os tais vinis, que estão voltando à moda. É que os carros de antigamente, antes dos CDs, eram equipados de “toca fitas”, como era chamado.

Perguntou-me, uma vez, se eu tinha algum disco do Phineas Newborn Jr. Respondi-lhe que sim. E o Zeca: O negão é bom. Imagine um crioulo chamado Phineas; tem que ser bom; já nasceu diferente. Pois me lembrei do Zeca ao ouvir um belo “The Man I Love” com Phineas ao piano, de 1976, quando já o consideravam decadente.

Phineas tem grandes discos gravados na década de 1950. Infelizmente, em princípios dos anos 1960, sua frágil saúde mental fê-lo sucumbir a algumas críticas que lhe foram feitas rotulando-o como um pianista de estilo “fácil”. Ficou internado um tempo em uma clínica para doentes mentais. A partir daí, a intermitência dos problemas mentais tornou a carreira de músico inconstante. Phineas tocava tão fácil a ponto de alguns críticos acharem que tocava uma música “fácil”. Engano. O grande Leonard Feather discordava. Disse que Phineas foi um dos três melhores pianistas quando estava no auge. Mas, injustiças são injustiças, às vezes destruindo vidas. De nada vale a glória depois da morte.

O registro de “The Man I Love” é de 1976, portanto, quando Phineas não era mais “aquelas coisas”. Ouça. É um craque.




Anthony Benedetto, o homem que ama as mulheres. E os homens também o amam. É genial. Veja. Só que na sua versão, é “girl”.