quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O Lee Konitz que eu tinha esquecido, com Kenny Wheeler


 
Lee Konitz e ao fundo, Kenny Wheeler


 

No texto sobre Lee Konitz, depois de sua morte pelo Covid-19, tentei ser abrangente em relação aos discos lançados, mas é uma tarefa quase impossível face ao quanto gravou. Começou jovem, no fim da década de 1940, e tocou até pouco antes de morrer, aos 92 anos.

Meio que aleatoriamente — tenho milhares de CDs —, peguei um de Kenny Wheeler: “Angel Song” (1997), com Lee Konitz no sax alto, Bill Frisell na guitarra,  e Dave Holland no contrabaixo, sem bateria, o que faz a diferença.

A dinâmica nessas composições de Wheeler é um estado de melancolia, que nos empurra aos momentos de introspecção. Tendemos a achar que se a música de alguém é triste, ele é triste? Essa pergunta, não posso responder. Em uma entrevista, Edu Lobo afirma que prefere compor músicas tristes, por achá-las mais belas. São bons exemplos “Pra Dizer Adeus”, “Canto Triste”, “Beatriz”, “Sobre Todas as Coisas”. Há uma certa predominância desse estado nas composições do canadense que se radicou e fez carreira na Inglaterra.

Dentro dos padrões da ECM, segundo seu produtor e dono é o “som mais próximo do silêncio”. É uma busca pelo sublime, dentro da definição do inglês Edmund Burke em “Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias sobre do sublime e do belo” (Papirus/Ed. Unicamp, 1983) e de Immanuel Kant, quando escreve: “Pois, o verdadeiro sublime não pode estar contido em nenhuma forma sensível, mas concerne somente a ideias da razão, que, embora não possibilitem nenhuma representação adequada a elas, são avivadas e evocadas ao ânimo precisamente por essa inadequação, que se deixa apresentar sensivelmente.”

Sem teorizar e entrar na aridez dos conceitos filosóficos, instintivamente, percebemos a beleza, pois ela nos toca de forma indefinida. A melancolia, uma tensão nas notas certeiras, sem vibrato de Kenny Wheeler nos emociona, como o amor que sentimos, sem podermos defini-lo. São sentimentos, sensações apenas. Entram em nós, simplesmente. O som do sax alto de Konitz combina perfeitamente com o de Wheeler.

Há uma questão essencial aqui: ou você entra nesse universo da contenção, da beleza introspectiva, ou não. Se você está em um momento “hey ya”, melhor ouvir o Outkast e vá balançar o seu esqueleto e dar vazão ao seu momento de extroversão.

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