quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Afinal, 1968 foi um bom ano? Parte 2: Jimi Hendrix

No dia 13 de dezembro de 1968, “17 homens, nove militares e oito civis”* (cit. Daniel Aarão Reis, em O Globo, 1/12/2018) subscreveram o Ato Institucional nº 5, que “aprisionou o destino da sociedade brasileira.”* O Ato assinado pelo governo militar apenas selou o golpe de abril de 1964. O que estava ruim ficava pior. 1968 foi um ano estranho e emblemático mundo afora.

Em abril de 1968, nos Estados Unidos, Martin Luther King foi assassinado. Três meses depois, Robert Kennedy, em campanha para a presidência, foi assassinado pelo imigrante Sirhan Bishara Sirhan, na saída do Hotel Ambassador, em Los Angeles. Em outubro, foi lançado o álbum duplo “Electric Ladyland”. As datas são apenas referenciais, para assinalar alguns acontecimentos do ano.

Saindo do exército, Jimi Hendrix iniciou a carreira como músico tocando em bares e clubes. Chas Chandler, baixista dos Animals, assistiu a uma apresentação no Caf‚ Wha?, em Nova York. Percebendo seu potencial, assinou um termo de compromisso com ele e levou-o para tocar em Londres.

Com Noel Redding e Mitch Mitchell foi formada a Jimi Hendrix Experience. Na estreia no mundo discográfico, atingiu o sexto lugar nas paradas inglesas com o single “Hey Joe”. Jimi era o talk of the town, despertando a curiosidade de músicos que despontavam na cena londrina, como Eric Clapton e Pete Townsend.

Jimi tornou-se um pop star quase que instantaneamente, quando apresentou-se no Festival de Monterrey, no ano seguinte, 1967, em seu país natal. Sua performance incendiária, tocando “Wild Thing” foi apoteótica. Consta que Pete Townsend, da banda The Who, invejoso das apresentações surpreendentes do americano, arrebentou a guitarra, batendo-a nas caixas acústicas, lançando-a depois à plateia, imaginando que Jimi não conseguisse fazer algo tão impactante. Só não imaginou que ele ia jogar álcool na sua Fender e botar fogo.

No formato LP, estreou com “Are You Experienced?, e pouco tempo depois, saiu “Axis: Bold As Love”. Mesmo com a fama de maluco, por suas performances explosivas, era um perfeccionista como músico. Sem saber ler uma cifra, era o capeta. Ampliando horizontes para além da composição e da guitarra, passou a palpitar e interferir nas gravações em estúdio. No recém inaugurado Record Plant, de Nova York, tendo como engenheiros de som Gary Kellgren, um dos sócios, e Eddie Kramer, Jimi teve papel fundamental no produto final, atuando como produtor em “Electric Ladyland”. Chas Chandler não gostou nem um pouco.

Em um ambiente que o ex-baixista do Animals definiu como caótico, Hendrix gravou o novo álbum, com a participação de outros músicos além de Redding e Mitchell. Dentre eles, estavam o precoce Steve Winwood, que começou profissionalmente com 14 anos no Spencer Davis Group e depois montou o Traffic, a tocar o Hammond B-3, em “Voodoo Chile”, Mike Flinnigan, no órgão também, em “Rainy Day, Dream Away” e “Still Raining, Still Dreaming”, Al Kooper ao piano, em “Long Hot Summer”, Chris Wood, do Traffic, na flauta, em “1983… A Merman I Should Turn to Be), o baixista Jack Cassady, do Jefferson Airplane, em “Voodoo Chile”, além de pequenas participações que nem entraram na ficha técnica como Dave Mason, ao violão de 12 cordas, e Brian Jones, na percussão, em “All Along the Watchtower”.

A sofisticação de trabalho de estúdio foi um marco na história do rock. O início, com “… And the Gods Made Love”, com distorções de voz e efeitos de estúdio, explorando o estéreo, é extraordinária. São sonoridades climáticas, como no blues “Vooddoo Chile”, com Winwood no Hammond e no baixo de Casady e solos primorosos de guitarra, em “1983... (A Merman I Should Turn to Be)”, “Moon, Turn the Tide... Gently Gently Away”, e eletrizantes, como em “House Burning Down” e em “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan..

A edição dos 50 anos
Além do álbum remasterizado, no CD comemorativo temos um com takes de Hendrix apenas no violão ou guitarra e vozes, e outras, takes preparatórios para as definitivas. Acredito que, como a maioria das edições estendidas, são mais para deleite dos fãs mais fanáticos, Acontece o mesmo com “Live at the Hollywood Bowl, 9/14/68”, inédito oficialmente. É mal gravado e existem outros ao vivo que captam melhor os shows eletrizantes do trio de Hendrix.

Ouça algumas das que compõem o “making of” de “Electric Ladyland”.