sexta-feira, 10 de junho de 2011

O que Nancy King tem de especial

Cantores especiais nem sempre fazem o gosto de todos, até pelo fato de serem especiais. Sem preconceitos ou veleidades elitistas, é mais fácil para o público médio gostar de uma voz “normal” como a de Ivete Sangalo ou de Paula Toller.

Nancy King é a típica cantora das cantoras
Não é só a voz; é o jeito de interpretar, é o seu jeito de cantar, a concepção instrumental, são várias as coisas que fazem de Nancy King alguém especial. Nem tudo o que faz é ótimo: é o ônus da ousadia. Sua voz é envolvente, vai de um grave majestoso a um agudo sensível, sem exageros, na medida. É uma cantora do jazz, pouco dada a apelar para a facilidade de cantar “bonitinho” standards que o público, facilmente, reconhecerá.

King é uma cantora cult. Apesar de ter nascido em 1940 (em 15 de junho completa 71 anos), gravou pouco. O guitarrista Herb Ellis, falecido no ano passado, considerava-a “a maior cantora de jazz”. Apesar da admiração de seus pares, por morar há tempos em Portland e, portanto, fora do circuito do glamour de Nova York ou Los Angeles, não é muito conhecida. Mas vale conhecê-la.

Depois de ter cursado a Universidade do Oregon, começou a cantar e tocava bateria com seus colegas o violonista Ralph Towner e o baixista Glen Moore, que mais tarde formariam o lendário Oregon, banda de formação pouco ortodoxa (além dos dois, os outros componentes eram o percussionista e citarista Colin Walcott e o oboísta, clarinetista Paul McCandless) e de som mais próximo ao “third stream jazz” – uma tendência que se aproximava à música erudita.

Em San Francisco tocou na banda de Pony Pointdexter e com Sonny King. Com dois filhos de colo mudou-se para Helena, Montana, e andou cantando em Las Vegas. Foi para Los Angeles, mas com o nascimento do terceiro filho, preferiu voltar para o Oregon. Em 1978, gravou seu primeiro disco – First Date – com o conterrâneo Steve Wolf, o trumpetista Jack Sheldon, o pianista Frank Strazzeri e o baixista Ray Brown. Iniciou uma parceria regular com o pianista Steve Christofferson no fim dos anos 1970. Em 1995, com o pianista e a The Metropole Orchestra gravaram Straight into Your Heart. Em 1991, gravou Impending Bloom, com o antigo colega de faculdade Glen Moore. Esses dois álbuns apresentam King em sua melhor forma.

O pianista Fred Hersh ouviu Nancy cantar, pela primeira vez, na casa de outro pianista – Art Lande (esse é subvalorizado, mas tem um sentido melódico excepcional). Apesar da promessa de um dia gravarem um disco, tudo ficou no ar, mas aconteceu, posteriormente, de terem a oportunidade de se apresentarem num projeto de duos que aconteceria no Jazz Standard, em Nova York. O registro saiu pela gravadora MaxJazz em 2005. É uma coleção de standards num clima de clube mesmo, intimista. O destaque é I Fall in Love Too Easily. As interpretações de King são bem jazzísticas, com direito a muitos scats e improvisos vocais, que podem não agradar a todo o mundo, mas é um bom demonstrativo de sua versatilidade.

Ouça Nancy cantando Inútil Paisagem (Useless Landscape), incluída em Impending Bloom, de 1995.



Disponibilizo uma apresentação curiosa de King cantando O Pato, com Karrin Allyson, disponível no YouTube. As duas têm se apresentado juntas e Allyson é fã incondicional de King. Veja.



King canta Cheek to Cheek.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Maria Pia de Vito canta Joni Mitchell

Infelizmente, Bach, Mozart, Handel e todos os compositores que não viveram do século XX em diante puderam registrar suas composições em discos para que pudéssemos conhecê-los como intérpretes. Não estivemos na estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, em Dresden, nem pudemos presenciar o choque da apresentação da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em Paris. Como o russo era um jovem nessa época, pôde usufruir a revolução impetrada por Thomas Edison, gravando a maioria de sua obra pela gravadora americana Columbia. Assim, pudemos ter a experiência de conhecê-lo como intérprete de si mesmo. É uma experiência e tanto, ainda mais por ver que nem sempre um compositor é o melhor intérprete de si; ou talvez por ficar claro que “a criatura” pode suplantar o criador.

Num degrau abaixo, se considerarmos a música erudita como um produto da alta cultura e a popular, da média ou baixa cutura, o fenômeno é o mesmo. Os grandes criadores da música americana do século XX – Cole Porter, Richard Rodgers, Irving Berlin, George Gershwin, para citar alguns – eram compositores, antes de mais nada. Johnny Mercer, Hoagy Carmichael e até Cole Porter chegaram a gravar composições próprias, mas nada que pudessem ser comparadas aos registros de Frank Sinatra, Tony Bennett, Billie Holiday ou Sarah Vaughan. Compositores compunham e cantores cantavam. Essa foi a tônica desses clássicos.

Numa outra vertente temos os compositores/cantores, fenômeno mais evidente a partir dos anos 1960. Uma exceção são os cantores de blues, cujas composições são indissociáveis às suas próprias interpretações. Canções compostas pelas duplas Lennon & McCartney e Jagger & Richards poderiam ser assim consideradas também. As das estrelas solitárias Bob Dylan, Leonard Cohen, Jimi Hendrix e Joni Mitchell, idem. A citação desses nomes não é acidental. Todos eles têm sido gravados por outros cantores e cantoras com certa frequência.

Algumas composições de Joni Mitchell e Leonard Cohen, nos últimos anos, têm sido tão gravados que podem ser rotulados como standards da moderna música popular, decerto, nem tanto quanto um Summertime ou Night and Day, mas devemos observar que são bem mais antigas. Hallelujah, Take This Waltz e I’m Your Man foram cantadas tanto por intérpretes mais ligados ao jazz como à vertente pop. O mesmo acontece com A Case of You e River, de Mitchell.

Foram gravados alguns álbuns com o repertório da canadense bem interessantes. Um muito bom é um em que k d lang homenageia seus conterrâneos Jane Siberry, Neil Young e como não podiam faltar, Cohen e Mitchell: Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch, 2004). Tribute to Joni Mitchell (Nonesuch, 2007), do qual participam Caetano Veloso, Elvis Costello, Björk, Sufjan Stevens, Prince, Brad Mehdau, Emmylou Harris, k d lang,, Annie Lennox, Sarah MacLachlan, James Taylor e Cassandra Wilson – sem dúvida um elenco muito variado – é um tanto desigual. O destaque é a versão de Veloso para Dreamland, música não muito conhecida do LP duplo (é; é daquele tempo) Don Juan Reckless Daughter (Elektra, 1978), vibrante e uma visão personalíssima do brasileiro.

Mais recentemente, foi lançado o CD River: The Joni Letters (Verve, 2007), em que o pianista Herbie Hancock toca acompanhado de Luciana Souza, a própria Mitchell, Leonard Cohen, Norah Jones e Corinne Bayley Rae. Essa última “ataca” um River de arrepiar (leia sobre o disco e ouça Bailey Rae em http://bit.ly/jR7xrK).

Muita classe de De Vito cantando Joni Mitchell
Como todo curioso acha – até o que não deve achar – descobri, faz pouco tempo, um CD de Maria Pia de Vito, tributo à Joni Mitchell: So Right (CAMJazz 2005). A italiana é acompanhada pelos conterrâneos Danilo Rea (piano), Enzo Pietropaoli (baixo) e tem como convidado especial o baterista Aldo Romano. 

Num universo nem tão vasto como o americano, o italiano é pródigo em grandes instrumentistas. Enrico Rava, Stefano Bollani, Paolo Fresu e Stefano Di Battista são bem conhecidos fora da Itália. Alguns nem tanto, como os três que acompanham Maria Pia e a pianista Rita Marcotulli, estão na proa do cenário da música instrumental. Há também instrumentistas “diferentes” – pelo tipo de música que extrapola um pouco a linguagem jazzística – como o pianista Stefano Battaglia e o clarinetista/saxofonista Gianluigi Trovesi, ambos atualmente gravando pela alemã ECM, que são excepcionais.

Maria Pia tem carreira consolidada não apenas como cantora ligada ao jazz. Entre 1994 e 97, com a pianista Rita Marcotulli dividiu um projeto – Nauplia – calcado na música napolitana; faz algumas incursões cantando e se acompanhando com instrumentos eletrônicos. Gravou dois discos com o violonista americano, cocriador do excepcional Oregon, Ralph Towner, e o pianista inglês John Taylor (Verso e Nel Respiro). Colaborou também com o canadense Kenny Wheeler, Joe Zawinul, Michael Brecker e Steve Turre. Resumindo, é do meio.

So Right é um tributo a Joni Mitchell, mas tem quatro canções da lavra de Maria Pia e seus parceiros. A música-título, composta por Pietropaoli é maravilhosa. A outra é Miskin, bem experimental e climática, em que ela cria ambiência com instrumentos eletrônicos e os funde com a voz e com um som percussivo em motivos repetitivos e o piano em acordes ascendentes e descendentes em vaivém. Essa música, como The Sweetest Medicine, aparentemente, foi composta pensando-se na “forma de fazer” da canadense.

Das que são do repertório de Mitchell, várias são excepcionais; algumas nem tanto, pois se diluem em experimentalismos – caso de Big Yellow Taxi, God Must Be a Boogie Man e Woodstock – sem querer que não sejam boas. Quando canta sem “inventar”, demonstra domínio absoluto em seu mister e interpreta magnificamente Amelia, River e A Case of You.


Maria Pia De Vito perfeita em River, em A Case of You, e Amelia.








A bela So Right, música de Pietropaoli



Curiosidade: Maria Pia andou por terras baianas em 2007. Vi na internet.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Joanna MacGregor rompe com os conceitos do erudito e do popular

Joanna MacGregor é pop ou erudita?
Julian Casablancas, líder do Strokes, banda de sucesso no mundo pop, no último Festival de Coachella, EUA, desdenhou do jazz duvidando de que alguém possa gostar desse gênero. Imagine, então, o que diria da música erudita. Deveria ouvir Joanna MacGregor e, se for um pouco inteligente, irá rever seus conceitos. Pode ser boutade de garoto bem-nascido metido a bacana, que é o que é, independentemente de seu talento em produzir um som acessível e agradável para a maioria da população jovem.

A formação de Jonna MacGregor é clássica. Estudou música na Royal Academy of Music de Londres e também na escola Van Cliburn de piano, nos EUA. Registrou pela gravadora Collins obras de Debussy, Ravel, Messiaen e Britten, além dos “antigos” Bach e Scarlatti. Por esses dados, pode-se dizer que a pianista tem uma carreira como a de tantos outros virtuoses.

Muito pelo contrário, não há nada de ortodoxo em Joanna; a começar pelo visual. Essa mulher nascida em 1959, portanto uma cinquentona, tem o cabelo cheio de trancinhas afro que “voam” durante suas performances. Há uma energia transbordante que emana à sua simples presença e, com sua música, a mesma coisa. Fez uma turnê pela América Latina, em 2007, apresentando-se, inclusive, em São Paulo, no Teatro Cultura Artística. A que fez na Argentina, no Teatro Coliseu, foi gravada e lançada no CD Live in Buenos Aires.

A primeira peça apresentada com a Britten Sinfonia é o Concerto para cravo e cordas em ré menor BWV 1052. Nossos ouvidos são invadidos por uma avalanche de sons como lufadas de notas que, encadeadas e combinadas, penetram em nossos corpos e mentes. Meio que atônitos e resfolegantes, experimentamos um momento de calma no belo adágio desse concerto. A beleza devastadora, anunciada desde o início, busca o sublime na interpretação enérgica da pianista.

A beleza fria e algo dramática do Concerto em ré maior para orquestra, de Igor Stravinsky, serve como uma espécie de preparação para o set com três obras de John Dowland – Forlorn Hope Fancy, Mr. Dowland’s Midnight, e Can She Excuse – arranjadas por MacGregor. Mr. Dowland’s Midnight é um dos pontos altos com arranjo em que os baixos de Markus Van Horn e Roger Linley se complementam ao piano de Joanna. Se a apresentação tivesse parado por aí, teria bastado. Para ser mais surpreendente ainda, adentra pelo terreno crossover tocando duas peças de Egberto Gismonti – Forrobodó e Frevo –, Milonga del ángel e Libertango, de Astor Piazzolla e Last Round do argentino de origem judaica, Osvaldo Golijov.

Joanna MacGregor é um perfeito exemplo de que a música não deve se limitar a um gênero só. E serve bem para quebrar com alguns preconceitos e é uma amostra de quão amplo é o universo musical.

Ouça Milonga del ángel, de Piazzolla da apresentação em Buenos Aires.



Veja um trecho de uma apresentação de Joanna MacGregor e a Britten Sinfoinia com Dhafer Youssef.