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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Puccini é pop e é jazz

Até quem não gosta de ópera ou de música erudita e nunca viu “Cantando na Chuva”, por não gostar de musicais, deve ter ouvido “Nessum dorma”, uma das árias mais conhecidas. Depois dos milhões de álbuns vendidos de “Three Tenors”, com Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, árias como de Giacomo Puccini, citada acima, caíram, como se dizia antigamente, “na boca do povo”. Quem não a conhece a desse disco – tudo é possível –, deve conhecê-la na interpretação de Andrea Bocelli, o tenor mais pop do mundo, ou, quem sabe, com o espetaculoso André Rieu.

Questão de gosto. A ópera é daquele gênero “amo ou odeio”. Os libretistas capricham em enredos fantasiosos e teatralidade exuberante. Traições, violência, paixões, finais trágicos, nem tudo é leve e engraçado como nas “Bodas de Fígaro” e “Flauta Mágica”, de Mozart. É um gênero over por natureza, e exige uma certa sofisticação cultural/musical de seu ouvinte.

Alguns escolheram cenários que podem ser considerados exóticos, como Verdi, em “Aída”, no antigo Egito, como gancho, em razão da inauguração do canal de Suez, ou o Japão, para cantar a impossibilidade do amor de um tenente americano por uma gueixa. “Turandot”, ópera que Puccini não conseguiu concluir, o cenário é a China.

A ária “Nessum dorma” é a mais conhecida dessa ópera. É Calaf, um dos pretendentes da princesa Turandot, quem canta. Dentre as inúmeras gravações, a dirigida por Zubin Mehta, com Joan Sutherland e Luciano Pavarotti, de 1972, é considerada um clássico.

Ouça “Nessum dorma”, com o italiano.




Tão conhecida e sublime, natural que existam gravações como no jazz, com o trumpetista Lester Bowie e sua Brass Fantasy e até uma com o roqueiro Jeff Beck.

Comecemos com Jeff Beck.




Com Lester Bowie.




E lucevan le stelle
Em cenário mais familiar, Itália, mais precisamente, o pintor Mario Cavaradossi aguarda sua execução, no terceiro ato. É quando canta “E lucevan le stelle”, lembrando-se de sua amada Tosca. É uma ópera com belo libretto e merece ser conhecida até por quem não gosta do gênero. Várias árias são clássicas, sendo “E lucevan…” a mais bela. Uma grande montagem, com cenários de Franco Zefirelli, é a do Metropolitan, regência de Giuseppe Sinopoli, com Hildegard Behrens e Placido Domingo.  É a apresentada aqui.




Alguns músicos mais ligados ao jazz fizeram boas gravações dessa ária. Uma delas é a de Grover Washington Jr, no álbum “Aria”.




Outra bem boa, que postei no YouTube e foi bloqueada é a presente em “Tati” (ECM, 2005). Não foi seu único registro. Ouça a que está em “Rava l’opéra va” (Label Bleu).




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Miles Davis elétrico e Sonny Fortune

O passado me condena: os primeiros Miles Davis que gostei foram os dos anos 1970: Agharta e Get Up with It, dois álbuns que não devem estar entre os preferidos da maioria. Charlie Parker, conhecia de nome. Tinha curiosidade de ouví-lo depois de ler O Perseguidor, conto de Julio Cortázar (veja em http://bit.ly/ICzw2X), de quem era fã incondicional. Era fã dele, de Jorge Luis Borges e de Alejo Carpentier. Os latino-americanos estavam em alta no meio dos estudantes da USP, a ponto de existir uma banquinha montada pela Ciça que vendia livros de arquitetura e também de Roa Bastos, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Lezama Lima e outros autores que não publicados em português.

Os dois Miles foram os primeiros de quase uma centena que hoje tenho dele em CD. Multiplique por dois, pois os primeiros eram no formato LP, ou vinil, como são chamados atualmente, com a onda revivalista, os velhos bolachões 33 rpm. Minhas primeiras aquisições jazzísticas – os puristas não diriam que era jazz –, além desses, foram álbuns do Return to Forever, Weather Report e Jeff Beck, coisas do tipo. O inglês, um dos grandes da cena do rock britânico, com Eric Clapton, Jimmy Page e Pete Townsend, ao contrário deles, não cantava. Em 1975, lançou Blow by Blow, exclusivamente instrumental. Foi sucesso de vendas e ganhou fãs que curtiam o jazz fusion.

Veja Jeff Beck tocando Cause We’ve Ended As Lovers, de Stevie Wonder, uma das melhores faixas de Blow by Blow, em apresentação no Ronnie Scott. O nome da baixista é Tal Wilkenfeld. Pena que, quando veio ao Brasil, Tal não estava mais na banda.



Antes disso, quando ainda estava fazendo o cursinho preparatório para o vestibular, conheci Lucila W. Ela tinha o que eu não tinha: condições financeiras para viajar para fora. Bem antes da era Lula, viagens eram coisa para pessoas da classe média alta, a qual não pertencia. Os primeiros discos da banda inglesa Soft Machine e do Weather Report os conheci por seu intermédio. Emprestou-me e os gravei. É um débito que tenho com ela. Continuamos amigos por um bom tempo e como viajava sempre, cada volta, significava novos sons a descobrir.

Capa de Get Up With It
O Miles Davis elétrico. Agartha é a gravação de um show em Osaka, em 1º de fevereiro de 1975. Get Up with It é um apanhado de gravações de estúdio entre 1972 e 1974, com formações diferentes, mas no básico, seus músicos são quase os mesmos da banda que se apresentara no Japão: Sonny Fortune (sax soprano, sax alto, flauta), Michael Henderson (baixo Fender), Pete Cosey e Reggie Lucas (guitarras), Al Foster (bateria), e Mtume (percussão). Em Get Up with It, em várias faixas, a guitarra era de John McLaughlin, que fora indicado por Tony Williams.


Ouça os 30 minutos iniciais de Agharta.



Em 1974, Miles apresentou-se no Theatro Municipal de São Paulo. Seu problema com o uso abusivo de drogas ilícitas tinha se agravado de tal maneira que uma ambulância ficou estacionada no teatro, caso tivesse algum problema. Sergio Porto, o Stanislau Ponte Preta, uma vez escreveu: “Uma feijoada, para ser completa, precisa de ambulância na porta.” Mais ou menos assim, era a frase. Miles não tinha comido uma feijoada, mas estava um caco, com sérios problemas de saúde e nem tinha chegado nos 50, não se sabe como. Afastou-se do palco e enfurnou-se em seu apartamento em Nova York. O baterista Jack DeJohnette era uma das raras pessoas que ele permitia visitá-lo. Em 1981, depois de muitos rumores de que estava no estúdio de gravação, foi lançado A Man with the Horn. Era um disco um tanto estranho, gravado com músicos jovens pouco conhecidos, sendo um deles seu sobrinho, mas era Miles de volta à cena musical.

No show do Municipal, fãs do velho Miles saíram no meio, da apresentação, mas para os mais jovens, que ouviram e gostaram de Bitches Brew foi um êxtase. Foi a iniciação de muita gente no jazz, por vias tortas, é certo. Continuei minha coleção do trumpetista pela fase de transição para o elétrico: Filles de Kilimanjaro, In a Silent Way e Jack Johnson; Bitches Brew também, pois quem não conhecia, como se dizia, “estava por fora”.

A EMI tinha lançado uma série de jazz do selo Capitol. Foi meu primeiro contato com Coleman Hawkins e o Miles do início da carreira. Era um dos músicos que participava, com Gerry Mulligan, John Lewis, J.J. Johnson, Gunther Schüller, Lee Konitz, dentre outros, do hoje clássico The Birth of the Cool,  

Um outro selo, que representava a Fantasy Records, lançou um álbum duplo de Miles Davis chamado The Tallest Trees. As “árvores mais altas” tinham nomes: Thelonious Monk, Sonny Rollins, Horace Silver e Milt Jackson, além de Davis. 

Para chegar nos registros de Davis com Charlie Parker pela Dial Records foi um passo, se bem que caro, pois existia apenas em versões importadas. Percebi que aquele som que parecia careta aos ouvidos de um adolescente que estava entrando na faculdade era revolucionário.

Anos difíceis. O jazz se encontrava em uma encruzilhada face a mudança da indústria da música ocorrida a partir dos primeiros rebolados de Elvis Presley. Alguns preferiram ignorá-la ou maldizer. Mas era um fenômeno avassalador. Sobrou para o jazz. Miles Davis não quis perder o bonde da história. Ouviu – e gostou – de Jimi Hendrix e Sly and The Family Stone. Antes mesmo do clássico Bitches Brew, considerado o “disco da virada”, Miles já tinha deixado se ser estritamente acústico, incorporando o piano elétrico e a guitarra elétrica.

Sonny Fortune no saxofone alto
Ainda com alguns dos remanescentes do quinteto anterior – Wayne Shorter, Herbie Hancock e Tony Williams –, acrescentou guitarras (John McLaughlin), baixo elétrico (Dave Holland), e teclados eletrônicos (Chick Corea e Joe Zawinul). Hancock resistiu, Foi demitido, readmitido e curvou-se à vontade do chefe. Meio que a contragosto sentou-se no banquinho do piano elétrico. Quem diria: Hancock foi um dos mais radicais nos experimentos com os novos instrumentos que surgiam e foi um dos pioneiros em incorporar a música que nascia nas ruas e nos guetos americanos.

Calcado em solos e ritmos frenéticos das guitarras de Pete Cosey e Reggie Lucas, e longos acordes no órgão, Miles mais uma vez, revolucionava a linguagem da música instrumental em Agharta. Os outros da banda eram Michael Henderson no baixo elétrico, Al Foster na bateria, e Sonny Fortune no saxofone alto e na flauta.

Sonny Fortune. Conheci Fortune assim: tocando com Davis. Em 1975 lançou seu primeiro álbum solo: Awakening. Muito diferente da fase “esquizofrênica” anterior, o disco era bem mais mainstream. À exceção do Fender Rhodes que aparece na última faixa, todos os instrumentos eram acústicos, com um line-up de primeira, a começar pelo belíssimo piano de Kenny Barron e outro craque do mesmo instrumento participando de For Duke and Cannon: John Hicks. Era uma belíssima estreia.

Ouça Awakening, última faixa do disco.



No ano seguinte lançou Waves of Dreams. Quase tão bom, conta com o craque Buster Williams no contrabaixo. O trumpete é de Charles Sullivan, o mesmo do disco anterior. Tem mais percussão, sintetizadores mini-moog e piano elétrico.

Ouça Thoughts. É Sonny no saxophone alto.

 
Por razões comerciais ou por gosto mesmo, Fortune enveredou pelo funk jazz. Pegou o sax alto e começou a tocar “açucarado”, bem naquele estilo Grover Washington e David Sanborn e andou gravando coisas como With Sound Reason. No meio de música de quinta categoria encontra-se uma pérola. É Francisco, de Milton Nascimento. Bela interpretação.

Confira.



Desisti de Fortune a partir daí. Ouvindo discos posterior, vejo, que voltou aos bons caminhos. Em Great Friends (1986), os amigos são Billy Hart, Stanley Cowell, Reggie Workman e Billy Hart. Outro, igualmente bom, é Four in One (1999), com composições de Thelonious Monk, está na companhia de bons músicos como Buster Williams, Billy Hart e Kirk Lightsey.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ol’ Man River, de Rodgers & Hammerstein II, cantada por um roqueiro

Robeson, em PB, e Warfield, abaixo
A história mais conhecida do segundo Show Boat (1951) – a primeira é de 1936 –, dirigida por George Sidney é a de que Lena Horne faria o papel que acabou sendo de Ava Gardner. As duas foram belíssimas, com a diferença de que Lena sabia cantar. Se o filme era um musical, natural seria que fosse a escolhida. Ava foi dublada por Annette Warren. Os produtores ficaram receosos em dar um dos principais papéis a uma negra (por não ter a pele tão escura, ficava naquela situação de ser considerada branca pelos negros e negra pelos brancos). Lena Horne passou a vida reclamando por ter perdido o papel que a ela estava, anteriormente, destinado.

O Show Boat original, como aconteceu com boa parte dos musicais no cinema, é de 1927, e teve sua primeira representação no teatro. Com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II, deixou como legado canções como Make Believe, Can’t Help Lovin’ dat Man e Ol’ Man River.

Esta última, em sua primeira versão cinematográfica, foi cantada por Paul Robeson. No ritmo em que é cantado, perde-se um pouco o tom dramático da letra. Se essa é uma das primeiras, é possível que tenha sido pensada para ser nesse andamento mesmo.

Quando Robeson foi escolhido para o papel de Joe, já era bem conhecido. Pelo aspecto do talento musical, nem há o que se discutir. Robeson era um negro bonito, de porte atlético (jogou futebol americano, profissionalmente), estudou Direito na Universidade de Columbia e, como ator, atuou em Othello, o Mouro de Veneza (nem precisou passar tinta no rosto), de William Shakespeare, no teatro, e atuou em vários filmes. Apesar de todos esses dotes, o maior era a voz de baixo/barítono. O mais importante, no entanto, foi o seu papel na sociedade americana como uma das pontas de lança da luta contra a segregação racial e sua militância em favor dos direitos civis. Politicamente engajado, foi do Partido Comunista americano, e, naturalmente, foi perseguido pelo macarthismo.

No Show Boat de 1951, o papel de Joe foi de outro baixo: William Warfield. Na cena em que Paul Robeson canta Ol’ Man River, Robeson está sentado, enquanto são mostradas imagens relacionadas à letra, e o coro está em cena. A cena, na refilmagem, é noturna e é cantada em ritmo mais lento, do que potencializa sua dramaticidade.

Ol’ Man River foi cantada por Bing Crosby e Frank Sinatra. No mundo pop, essa canção de temática negra, foi cantada por Sam Cooke, Aretha Franklin e Ray Charles. Curiosamente, uma das melhores interpretações é a do branco Rod Stewart, em início de carreira, crooner da banda do britânico Jeff Beck.

Jeff Beck e Rod Stewart em reencontro
Rod Stewart, hoje, é uma sombra do jovem Rod (essa série de American Songbooks é um caça-níquel). Esse ex-coveiro e habilidoso com a bola – tanto que chegou a pensar em se tornar jogador de futebol – virou cantor da primeira banda que de Jeff Beck criou após depois de sair dos Yardbirds. Nesse curto período, a banda gravou dois discos: Truth (1968), e Beck-Ola (1969). O primeiro é espetacular, e contou com participações de Jimmy Page, Nick Hopkins, Ron Wood (com Stewart, depois, formaram o Faces), John Paul Jones, e até de Keith Moon (que não teve seu nome creditado devido a problemas contratuais), que tocou bateria em Beck’s Bolero, e tímpano, em Ol’ Man River. (mais sobre Jeff Beck em http://bit.ly/yUvFua, http://bit.ly/AD1tPO, http://bit.ly/y9SCFy)

Stewart, com sua voz, ao mesmo tempo, áspera e rouca (em tempos menos politicamente corretos, dizia-se que era uma voz branca de alma negra) brilha em faixas como You Shook Me e Rock My Plimsoul; mas se supera em Ol’ Man River. Que Sinatra me perdoe: é a minha preferida. Tudo é perfeito: o órgão de Nick Hopkins, os tímpanos de Keith Moon e, também a guitarra de Jeff Beck.

Ouça.



A de 1936 é cantada pelo grande Paul Robeson.



A do segundo Show Boat.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jeff Beck provoca comoção e emociona

Pode-se dizer que o CD Emotion & Commotion vai por três vertentes conceituais. Uma serve como homenagem a Jeff Buckley, morto precocemente em 1997, a segunda, voltada a alguns clássicos do jazz e do blues (Over the Rainbow, I Put a Spell on You, de Screamin’ Hay Hawkins), e à música erudita (Nessum dorma, ária “carne-de-vaca”, mas uma das mais belas do repertório operístico, de Turandot, de Puccini). Há uma quarta vertente, na verdade, que são as composições próprias com Jason Rebello, tecladista da banda faz um bom tempo.

O cabelo e a energia de Jeff Beck continuam iguais
Antes de conhecer esse álbum mais recente de Beck, que estava sem gravar há sete anos, li uma crítica comparando-o com outros lançamentos ditos “crossover”. A partir da amostragem da ária de Puccini ou a composição de Britten, fica longe dessa classificação, pelo menos da forma de como entendo o que chamam de “crossover”. Tal rótulo cabe melhor em alguns álbuns gravados por Elvis Costello e Sting para o selo Deutsche Grammophon. Elegy for a Drunkirk, composição de Dario Marinelli, que fecha o disco, é o que tem mais essa “coloração crossover” por conta da base orquestral imponente sob a bela interpretação vocal de Olivia Safe e um solo pungente do inglês.

Emotion & Commotion, se não é páreo em relação a Blow by Blow, é um disco que não pode ser ignorado. A banda ajuda: Vinnie Colaiuta na bateria, Rebello nos teclados, e a ninfeta genial Tal Wilkenfeld no baixo. Ajudam as participações especiais de Joss Stone, Olivis Safe e Imelda May (será que a mãe era uma admiradora de Imelda Marcos).

A inclusão de Corpus Christi Carol, do conterrâneo Britten, é mais por conta do “referencial Buckley”, que a gravou em Grace. A outra é Lilac Wine, conhecida originariamente na voz de Nina Simone. A de Buckley, em Grace também, é excepcional. A de Beck, na voz de Imelda May é ternamente bela. O inglês acerta na escolha de Joss Stone interpretando I Put a Spell on You, outro clássico cantado por Nina Simone, apesar dos esgares que, por vezes, soa como diluição da forma “soul” de cantar. Over the Rainbow, original de E.Y. Harburg e Harold Arlen, na minha opinião, nesse disco, se não subtrai, tampouco soma.

O momento “power” fica com Hammerhead, em que Jeff faz uma introdução “Hendrix” e entra um arranjo orquestral “rocker”, e com There’s No Other Me, novamente, com Joss Stone, e belas intervenções de baixo.

Leia também: http://bit.ly/g3jMAq, http://bit.ly/e8vsNE, http://bit.ly/hYiXbX. Sobre Jeff Buckley, leia http://bit.ly/goVlXb, e http://bit.ly/g3BROn

Veja a performance de Jeff Beck interpretando Nessum dorma.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A apresentação de Jeff Beck no Via Funchal, SP

Achei que Jeff Beck tinha se apresentado no Brasil antes, mas não. Disse, no show, que ocorreu em 25 de novembro no Via Funchal, ser a primeira vez. As apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo aconteceram por conta do lançamento do último CD Emotion and Commotion. Não o ouvi ainda, mas a crítica tem elogiado o disco, que apresenta algumas canções não exatamente do repertório do rock, como a conhecida ária Nessum dorma, da ópera Turandot, de Puccini, e Over the Rainbow, clássico de Harold Arlen e letra de E.Y. Hayburg. Além da banda, conta com uma orquestra, trilhando a onda que costumam chamar de crossover, atraindo, tanto os “roqueiros” flertando o formato erudito, como o contrário, casos de Yo-Yo Ma e Gidon Kremer, ou de cantoras consagradas no universo clássico como Jessye Norman, Barbara Hendricks, Frederica von Stade… bom, a lista é bem grande. Nessum dorma, por ser um tema belíssimo e tão popular, se não me falha a memória, foram registradas por Branford Marsalis e Grover Washington, músicos ligados ao jazz.

Jeff adora uma roupa sem manga
Em razão da generosidade do meu amigo Jay Horvath, convidado por ele, fui ver o show. Foi uma mescla de alguns sucessos consagrados, como Led Boots, do clássico do fusion, Blow by Blow, de 1974, e músicas do novo CD. Beck iniciou com Plan B, bem pauleira, para esquentar a plateia, que respondeu com entusiasmo. Seguiu com Corpus Christi Carol e Hammerhead, do novo álbum, desconhecidas do público. Esquentou mesmo com um solo performático da baixista Rhonda Smith, craque no palco em vista da experiência de ter tocado na banda de Prince. Tal Wikinfeld, a baixista anterior, uma lourinha com cara de menina, é mais técnica que Rhonda, mas com maior presença, vestida de preto, calça justa, gestos e poses. Narada Michael Walden é um poderoso baterista substituiu Billy Cobham na banda de John McLaughlin na época do Mahavishnu Orchestra) e tocou anteriormente com Beck em Wired, na década de 1980. É também músico de estúdio requisitado (tocou em discos de Diana Ross, Mariah Carrey, Aretha Franklin e Whitney Houston. Ambos dão um peso considerável ao conjunto do som. Complementa a banda o experiente Jason Rebello, que acompanhou vários músicos de jazz e também, Sting.

Os destaques do show foram a citada anteriormente, Over the Rainbow, People Get Ready, clássico de Curtis Mayfield, e I Want to Take You Higher, poderosa composição conhecida na interpretação de Sly and The Family Stone. O ponto negativo, segundo meu ponto de vista, foi um canhestro How High the Moon, clássico do jazz. Quando Beck empunhou a Gibson Les Paul, imaginei que fosse acontecer algo de muito especial (só tinha o visto com a Fender Stratocaster). Soltaram um vocal absurdamente feio em playback para a performance da banda. Horrível. Não fosse isso, teria sido um show irrepreensível.

Para fugir do trânsito pós-show, não assisti ao último bis: Nessum dorma. Fui na do amigo Jay: melhor perder uma música do que ficar uma hora preso no trânsito da saída. Há um vídeo disponível com orquestra da ária de Puccini. Confira.



Jeff Beck e a baixista Rhonda Smith:




Jeff Beck toca Led Boots com a antiga baixista, Tal Wikenfeld.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jeff Beck no Brasil

Esse texto foi publicado no blogue do jornalista Paulo Moreira Leite, no ano passado, e, aproveitando a vinda de Jeff Bek ao Brasil – apresenta-se hoje no Via Funchal, São Paulo – estou republicando no meu blogue. Os comentários são mais em cima de sua breve aparicão em Blow Up, de Antonioni.


Em uma cena do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, o fotógrafo protagonizado por David Hemmings, vai parar num bar em que a banda de rock Yardbirds está tocando a música Stroll on. Dois de seus componentes, além de Eric Clapton, transformaram-se, mais tarde, em ícones da guitarra no rock. Os ingleses Jimmy Page, Jeff Beck e Clapton formam o grande trio da guitarra e, por coincidência, ou porque o mundo é muito pequeno, tocaram na mesma banda, os Yardbirds. Por conta do destino, Jimi Hendrix, aquele que é considerado o melhor guitarrista de todos os tempos, iniciou sua carreira na Grã-Bretanha, apesar de ser americano de Seattle. Todos moravam na mesma cidade em meados da década de 1960.

Jeff Beck, um ego do tamanho de sua habilidade
Por outra obra do destino, dos três ingleses, o mais prestigiado naquela época, ficou para trás. Clapton, que foi “Deus”, e Jimmy Page, que se consagrou no Led Zeppelin, ficaram mais famosos que Jeff Beck. Várias razões contribuiram para que isso acontecesse. Uma delas, provavelmente, foi o ego “gigante” de Beck e, consequentemente, sua dificuldade de trabalhar com pessoas que pudessem concorrer com ele. Em Blow Up, o amplificador Vox da guitarra de Jeff Beck começa a “chiar”. Ele se irrita, esmurra o amplificador, arrebenta a guitarra e a lança em direção à plateia. O público briga avidamente para pegar a guitarra destruída. O fotógrafo consegue pegá-la. Thomas – que deve ter sido inspirado no grande fotógrafo da “swinging London”, David Bayley – sai com ela e depois, joga-a no lixo. É claro que, sendo Antonioni, aquele objeto fetichizado tem um significado: jogá-lo fora é desprezar as idolatrias ou seus objetos. Numa entrevista, anos depois, Beck disse que odiou Antonioni, dizendo ser ele um cara “metido a intelectual” ou qualquer coisa parecida. Vejam, a “subversidade contracultural” de Antonioni não foi entendida pelo jovem Beck.

Depois desse filme, lançado em 1966, Antonioni dirigiu outro grande filme “contracultural” no seio dos Estados Unidos. Zabriskie Point, produzido pelo marido de Sofia Loren, o produtor Carlo Ponti, é a própria síntese daquele tempo, retratando revoltas estudantis, intermináveis assembleias, movimentos libertários contra a segregação racial. Zabriskie tem um dos finais mais impressionantes do cinema. Um palacete construído no alto de uma montanha, em que capitalistas discutem sobre um grande projeto imobiliário, explode em bilhões de partículas que voam pelos ares em camera lenta acompanhado pela música “psicodélica” de Pink Floyd. Antonioni era um cara antenado, atento aos movimentos do mundo. Ao mesmo tempo em que Godard fazia sua A Chinesa do outro lado do oceano, num discurso caracteristicamente na tradição europeia do pensamento, o italiano Antonioni foi à América para tentar entender o movimento contracultural americano in loco.

A “aparição” de Jimi Hendrix foi “mortal para o “Deus” Clapton. Eric ficara tão impressionado com Jimi, que quase desistiu de continuar a tocar guitarra. O alcool e as drogas não conseguiram destruí-lo e está até hoje na ativa. Deus foi bondoso com ele, pois sobreviveu a Jimi e a tudo. Deus também tem sido bondoso com Jimmy Page. Ele continua inteiro e ainda é referência para várias gerações de novos guitarristas. Jeff Beck, que era o grande do meio dos anos 1960, não teve a glória de seus conterrâneos britânicos e não é, por isso, menor. Continua um grande guitarrista, mas tem uma carreira, por vezes, errática. Tem grandes discos e um deles é o instrumental Blow by Blow, de 1975.

Jeff Beck é um estranho na seara do chamado jazz-rock,  jazz-fusion, jazz-progressivo, e outros “jazzis”. Nomes associados a esses gêneros são músicos de jazz que absorveram a linguagem do rock, como Chick Corea, Joe Zawinul, Herbie Hancock ou Miles Davis. Mesmo assim, Beck, músico nascido sob a influência do rhytm-blues americano, gravou um dos melhores discos fusion de todos os tempos. Acompanham Beck o tecladista Max Midleton, o o baixista Phil Chen e o baterista Richard Bailey. É um belo showcase das habilidades do guitarrista. Há uma química fenomenal com o Fender Rhodes de Middleton e os sons de Beck. A produção do mestre George Martin é perfeita. Abusa-se dos efeitos do estéreo nos sons que saem do piano elétrico: dançam nos canais esquerdo e direito, “etereamente”, flutuando sobre a marcação firme do baixo e da bateria. Beck tem um jeito diferente de tocar, recorrendo pouco da paleta, usando bastante o dedão (usa três dedos, incluindo o polegar) e, abusando da alavanca para distorcer o som, produzindo uma verdadeira miríade de sons possíveis. Além da infinidade de sons que Beck tira de seu instrumento, Blow by Blow é uma coleção de climas que se associam à sugestibilidade de títulos como Air Blower Scatterbrain e Freeway Jam. O momento mais belo, no entanto, é em ’Cause We’ve Ended as Lovers, de Stevie Wonder. É um clássico inesquecível. Para quem não conhece, creia, é um pedaço do paraíso.

Vejam Jeff Beck em ’Cause We’ve Ended as Lovers no Ronnie Scott. Pena que a baixista Tal Wilkenfeld não está mais com ele. Prestem atenção em sua performance.