quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ol’ Man River, de Rodgers & Hammerstein II, cantada por um roqueiro

Robeson, em PB, e Warfield, abaixo
A história mais conhecida do segundo Show Boat (1951) – a primeira é de 1936 –, dirigida por George Sidney é a de que Lena Horne faria o papel que acabou sendo de Ava Gardner. As duas foram belíssimas, com a diferença de que Lena sabia cantar. Se o filme era um musical, natural seria que fosse a escolhida. Ava foi dublada por Annette Warren. Os produtores ficaram receosos em dar um dos principais papéis a uma negra (por não ter a pele tão escura, ficava naquela situação de ser considerada branca pelos negros e negra pelos brancos). Lena Horne passou a vida reclamando por ter perdido o papel que a ela estava, anteriormente, destinado.

O Show Boat original, como aconteceu com boa parte dos musicais no cinema, é de 1927, e teve sua primeira representação no teatro. Com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II, deixou como legado canções como Make Believe, Can’t Help Lovin’ dat Man e Ol’ Man River.

Esta última, em sua primeira versão cinematográfica, foi cantada por Paul Robeson. No ritmo em que é cantado, perde-se um pouco o tom dramático da letra. Se essa é uma das primeiras, é possível que tenha sido pensada para ser nesse andamento mesmo.

Quando Robeson foi escolhido para o papel de Joe, já era bem conhecido. Pelo aspecto do talento musical, nem há o que se discutir. Robeson era um negro bonito, de porte atlético (jogou futebol americano, profissionalmente), estudou Direito na Universidade de Columbia e, como ator, atuou em Othello, o Mouro de Veneza (nem precisou passar tinta no rosto), de William Shakespeare, no teatro, e atuou em vários filmes. Apesar de todos esses dotes, o maior era a voz de baixo/barítono. O mais importante, no entanto, foi o seu papel na sociedade americana como uma das pontas de lança da luta contra a segregação racial e sua militância em favor dos direitos civis. Politicamente engajado, foi do Partido Comunista americano, e, naturalmente, foi perseguido pelo macarthismo.

No Show Boat de 1951, o papel de Joe foi de outro baixo: William Warfield. Na cena em que Paul Robeson canta Ol’ Man River, Robeson está sentado, enquanto são mostradas imagens relacionadas à letra, e o coro está em cena. A cena, na refilmagem, é noturna e é cantada em ritmo mais lento, do que potencializa sua dramaticidade.

Ol’ Man River foi cantada por Bing Crosby e Frank Sinatra. No mundo pop, essa canção de temática negra, foi cantada por Sam Cooke, Aretha Franklin e Ray Charles. Curiosamente, uma das melhores interpretações é a do branco Rod Stewart, em início de carreira, crooner da banda do britânico Jeff Beck.

Jeff Beck e Rod Stewart em reencontro
Rod Stewart, hoje, é uma sombra do jovem Rod (essa série de American Songbooks é um caça-níquel). Esse ex-coveiro e habilidoso com a bola – tanto que chegou a pensar em se tornar jogador de futebol – virou cantor da primeira banda que de Jeff Beck criou após depois de sair dos Yardbirds. Nesse curto período, a banda gravou dois discos: Truth (1968), e Beck-Ola (1969). O primeiro é espetacular, e contou com participações de Jimmy Page, Nick Hopkins, Ron Wood (com Stewart, depois, formaram o Faces), John Paul Jones, e até de Keith Moon (que não teve seu nome creditado devido a problemas contratuais), que tocou bateria em Beck’s Bolero, e tímpano, em Ol’ Man River. (mais sobre Jeff Beck em http://bit.ly/yUvFuahttp://bit.ly/AD1tPOhttp://bit.ly/y9SCFy)

Stewart, com sua voz, ao mesmo tempo, áspera e rouca (em tempos menos politicamente corretos, dizia-se que era uma voz branca de alma negra) brilha em faixas como You Shook Me e Rock My Plimsoul; mas se supera em Ol’ Man River. Que Sinatra me perdoe: é a minha preferida. Tudo é perfeito: o órgão de Nick Hopkins, os tímpanos de Keith Moon e, também a guitarra de Jeff Beck.

Ouça.



A de 1936 é cantada pelo grande Paul Robeson.



A do segundo Show Boat.

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