Quando entrou no Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, Dom Um Romão, no fim de 1971, era um veterano. Estava com 46 anos. Todo frequentador das noites cariocas o conhecia. Começou participando de orquestras de rádio ainda nos anos 1940, com o Copa Trio, em que era o baterista, tocou em muitas noites do Beco das Garrafas e na boate Vogue. Participou do álbum Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958), tocou com Sergio Mendes e, como um dos membros de seu sexteto, o Bossa Rio, participou do lendário show no Carnegie Hall que apresentou a bossa nova aos americanos. O mesmo sexteto toca com Cannonball Adderley em seu disco “brasileiro” Cannonball’s Bossa Nova.
Dom Um fazia o diabo na bateria, misturando samba, bossa nova e jazz. Para Armando Pittigliani, influenciou todos os bateristas surgidos depois dele. Diz que “não há realmente um baterista jovem que não tenha um pouco de Dom Um no seu ‘jogo de pratos’, na sua acentuação do grande bombo, na marcação do contratempo no prato-de-pé e sobretudo naquele contra ritmo, com a baqueta esquerda cruzada sobre a caixa, que é, diga-se de passagem, um dos fortes do fabuloso drummer.” Alguns o chamavam de “Mefistófeles da Bateria”, pelo que fazia no instrumento e também pelas características faciais.
Em 1964, Romão gravou seu primeiro álbum, chamado Dom Um, como líder. Com arranjos de Waltel Blanco, com participações de JT Meirelles, Kaximbinho, Cipó, Jorginho e Paulo Moura, é uma aula .
Tendo participado de Flora Purim é MPB (RCA, 1965), Dom Um foi convidado pelo produtor e dono da Pablo Records a mudar-se para os EUA. Tocou com Stan Getz, Astrud Gilberto, participou também do famoso álbum de Tom Jobim com Frank Sinatra, excursionou pela Europa e fez parte do Brazil ’66, de Sérgio Mendes.
Acompanhando Flora Purim, Airto Moreira, pouco depois de ter mudado para os EUA, teve a sorte de ser apresentado a Miles Davis. Foi tão sortudo que é um dos que participa de Bitches Brew, , considerado o marco do jazz fusion. Dois outros membros regulares da banda, Joe Zawinul e Wayne Shorter, criaram o Weather Report e levaram Airto.
Airto participou do disco de estreia do Weather, mas tinha assumido cumprir uma agenda de shows com Miles Davis e preferiu sair. Dom Um Romão entrou na banda por sua recomendação. Ficou até meados de 1974.
Por conta de estar em uma banda tão importante, Romão chamou a atenção da gravadora Muse e lá gravou dois álbuns: Do Um Romão (1972) e Spirit of the Times (1973). Os dois têm mais ou menos as mesmas formações instrumentais e mesclam composições próprias, algumas de Dom Salvador, com quem tocara no início dos 1960, no Brasil, e de autores brasileiros como Edu Lobo, Milton Nascimento e Sivuca. São bons discos.
Ouça Ponteio, que está em Spirit of the Times.
Depois
Dom Um entrou para a superbanda Blood, Sweat & Tears, mudou-se para a Europa e montou a Dom Um Romão Quintet. Depois disso, não soube mais dele. Sei que morreu em 2005. Noutro dia, “descobri” um álbum chamado Rhythm Traveller, de 1998, produzido por Arnaldo DeSouteiro, gravado com músicos brasileiros. Interessante. Ainda ouço o seu primeiro solo, de 1964, para admirar o seu jeito único de tocar.
De Rhythm Traveller, muito boa é a versão para o clássico Mysterious Traveller. Como eu gostava dessa composição de Wayne Shorter! Acho que foi o último do Weather em que participou.
Ouça.
Ouca o seu primeiro, de 1964, com vários clássicos brasileiros. A batida em Telefone, de Menescal, é irresistível.
Um início estupendo, vivo: assim é a primeira música de Sons de Sobrevivência. Mais vivo, impossível. Pifaiada lembra um pouco Hermeto Pascoal, um pouco Egberto Gismonti. Mas, longe de qualquer especulação de que imitem esses dois grandes mestres da música instrumental brasileira. O que apresentam é um som muito original, a começar pela formação inusual: dois percussionistas e um pianista.
O duo de percussionistas tem um nome, por si, curioso. Simone, nascida Sousa, é “Sou”. Guilherme Kastrup, que por um momento confundo o sobrenome com uma das personagens capitais de Thomas Mann – Hans Castorp, de A Montanha Mágica – usa as quatro letras iniciais para compor o nome do duo: Soukast. “Sou” é a primeira pessoa do verbo ser; muito forte, assim como é a presença de Simone. A união resultante lembra dois outros objetos: a expressão “soul” e a banda Outkast, que é, na verdade, uma dupla, composta por André Lauren Benjamin e Antwan André Patton.
Mas essas ilações não têm nada a ver com o que é o “Soukast Taubkin”. Taubkin, não por acaso, é o sobrenome de Benjamin, junto com André Mehmari, maiorais do piano em São Paulo. E seu instrumento faz a diferença em Pfaiada, faixa de abertura. É o quente e o frio: o calor da percussão enérgica de Simone e Guilherme, também os autores desta música, com o piano “cabeça” de Benjamin. Gota d’Água começa quase sem percebermos. É a segunda faixa. O piano de Taubkin continua introspectivo, com um toque dramático tenso.
O Soukast surgiu assim, como é descrito por Guilherme: ““Do encontro entre duas almas atraídas pelos tambores nasceu o SOUKAST. Duo com a minha parceira Simone Sou. Dois “galego-dos-zoio-azul-e-pé-preto”, como ela mesma nos apelidou um dia! Tivemos como ponto de partida o desafio de fazer música somente com nossas percuterias e samplers. Criamos um repertório e um espetáculo, nos divertimos um bocado e passamos a convidar amigos pra passear e participar dessas paisagens sonoras.” Simples assim.
Simples também foi o início da parceria com Taubkin, assim descrito por ele: “Em 2010 recebi um convite pra tocar em um concerto com o SouKast – o duo do Gui com a Sou. Já havia curtido muito o duo ao vê-los em uma apresentação na Dinamarca. E sempre fui muito fã dos dois. Assim que foi com alegria que recebi este chamado. Fizemos esta apresentação em uma séria instrumental do Sesc. E aconteceu tudo da melhor forma. Tocamos peças ensaiadas e improvisamos. A minha participação desde o primeiro encontro, se deu criando em cima do que eles já haviam composto.Fui imaginando harmonias e melodias, sobre as peças por eles criadas e que soam muuuito bem só com o duo, como vocês podem ouvir no Tocador.”
Agora, em 2015, está sendo lançado Sons de Sobrevivência pelo Núcleo Contemporâneo, selo criado por Taubkin, e internacionalmente, sai pelo Adventure Music.
Veja a apresentação de Pfaiada no show do Sesc, em 2011, tendo Taubkin como convidado.
Veja outro número: Vinheta Pétalas e Improviso. Esta não faz parte do CD Sons de Sobrevivência.
Veja-os em O Tocador, composição de Simone e Oleg Fateev, seu parceiro pelas aventuras internacionais.
Sou fã de carteirinha de Benjamin Taubkin. Acho que, por isso, a minha preferida é Improviso (E o Que Veio Depois), depois de Pfaiada. Ouça.
Ele nem tinha completado 18 anos e partia rumo a Califórnia. Não foi para “viver sobre as ondas” e nem ser “artista de cinema” como aquele garoto da música de Lulu Santos e Nelson Motta. O negócio de Fabiano do Nascimento era o violão. Sem querer, estava fazendo o mesmo caminho de Laurindo de Almeida, Oscar Castro-Neves, violonistas como ele, e Sérgio Mendes, brilhante pianista de jazz que, estando lá, resolveu ser pop.
Ao ir em busca de novos horizontes, repetia o que fizera seu tataravô Ladário Teixeira. Nem o fato de ser cego o impediu de tornar-se um grande saxofonista e apresentar-se em palcos europeus e americanos. Era tão prestigiado que recebeu elogios do filho do inventor do saxofone, Adolph Sax. Ladário, ciente das deficiências do instrumento para a execução de peças eruditas que tocava muito bem, ajudou a criar um modelo em que foram acrescentados quinze notas. Assim surgiu o “Modelo Ladário”, fabricado pela Selmer. O impressionante é que isso foi faz muito tempo: há quase cem anos.
Baseado em Los Angeles, Fabiano montou a banda TriOrganico, com Tiki Pasillas e Pablo Calogero. Lançou o álbum Sul, com o saxofonista Sam Gendel, e agora, está previsto para os próximos dias o seu primeiro solo: Dança dos Tempos.
O disco conta com a participação especial de Airto Moreira e, além de Fabiano, os outros músicos são Ricardo “Tiki” Pasillas e Kana Shimanuki nos vocais. Desde a primeira audição fica evidente que Fabiano é um virtuose, um daqueles talentos incontestáveis que o Brasil gosta de gerar. Seu som é de uma energia contagiante e dedilhado limpo na melhor tradição que produziu Baden Powell e Raphael Rabello.
A primeira faixa é Forró Brasil, de Hermeto Pascoal. A bateria de Tiki Pasillas faz a diferença. É aquela batida bem característica, que, a princípio, só os brasileiros fazem. Mas Pasillas é americano, um americano de alma brasileira. O entendimento dos dois beira a perfeição.
Ouça Forró Brasil.
Em Ewe, o violão de Fabiano é discreto, para que brilhem a percussão de Airto e a voz de Kana Shimanuki, cantando em português. Estranho? Não. Kana é canadense, filha de pai japonês e mãe brasileira nascida na Bahia. Por alguma razão – será porque a percussão é de Airto? – sua voz lembra a de Flora Purim.
Ouça Ewe.
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A terceira é O Ovo, mais uma de Hermeto, e, de novo, a batida de Pasillas surpreende. O som da percussão fica na altura do violão. O primeiro em que Fabiano toca sozinho é Iemenjá. Baden Powell deve estar agradecido por ter um violonista tocando tão lindamente sua música. É interpretação de um mestre, e Fabiano tem pouco mais de 30 anos.
Primeira Estrela é uma canção conhecida nas vozes de Luli e Lucina. Aqui é cantada por Fabiano. Craque ao violão, não faz feio nos vocais. É a segunda participação de Airto. Seu violão de sete cordas, às vezes, lembra aquele som dos violeiros.
Se tudo até a quarta faixa é muito bom, sua interpretação de Étude, de Villa-Lobos, é genial. Inicia-se com o violão e uma percussão que vai crescendo e torna-se dominante. É uma das melhores coisas que ouvi neste ano.
Ouça.
Kana volta em Minha Ciranda, cantiga conhecida de Mestre Capiba. Sua voz combina perfeitamente. A mixagem é interessante. O violão tem um pouco mais de peso do que os vocais e a percussão discreta de Airto. Em algumas passagens é aumentado o volume da voz, e o solo do violão fica abaixo da base do violão. Interessante. Nana é outra cantiga, desta vez cantada por Fabiano. O violão é tão impressionante que mais parecem dois; ele sola e toca a base. É uma aula.
Em Tocatta em Ritmo de Samba de no.2, volta-se a outro grande compositor brasileiro: Radamés Gnatalli. Começa com o ritmo inebriante de Pasillas. Há uma interrupção para a apresentação do tema e logo mais, a volta da bateria acompanhando o violão. Na próxima, Fabiano resolve estraçalhar. Novamente, em solo, executa Se Ela Perguntar, de Dilermando Reis (sobre ele, leia http://bit.ly/1hRhN5N). Mortal. Ouça.
E para terminar, como que quisesse mostrar do ainda é capaz, entra com um tema próprio: Tupi. Belíssimo. Ao fim dela, ficamos com vontade de ouvir novamente o disco.
João Donato e Chet Baker juntos: o grande disco “que não houve”
Foi lançado pela editora Melrose Brooks o livro Funny Valentine – The Story of Chet Baker, de Mathew Ruddick. É um catatau com 830 páginas e é bem provável que seja traduzido para o português. Teve uma época em que era chique conhecer ou citar Chet Baker, ou melhor, o álbum Chet Baker Sings. Os “bacanas” possuem certos códigos. Enquanto é do conhecimento de poucos é o máximo. Aí, cai na boca da patuléia. Daí em diante, deixa de ser.
A vida de Baker ficou maior do que sua arte. Bonito, talentoso, devastado pelas drogas pesadas, e ainda morre pulando da janela de um hotel em Amsterdam. Concorda que sua história “dava um bom livro”? O de Ruddick não é o primeiro e nem será o último.
O LP, lançado em 1956, era item de colecionador. Poucos o tinham, e nesse caso, em estado imprestável de tanto ser tocado. E não eram muitos os que tinham dinheiro para comprar discos. LPs eram bem caros. Mesmo na minha adolescência, no início dos anos 1970, em um período de um ano, conseguia comprar cerca de 10 LPs. Está certo que a mesada que recebia era uma miséria. A qualidade dos nacionais era péssima e os importados eram caríssimos. Para cada nove nacionais adquiridos, comprava um importado. Aos poucos os discos foram ficando baratos (ou tivesse passado a ganhar um pouco mais). Até o fim da era dos LPs, tinha cerca de 4 mil.
O amigo Alberico Cilento, adolescente na época em que saiu Chet Baker Sings, lembra de uma de suas férias em que passaram um mês na praia e levaram quatro LPs. Um era esse e os outros, Canção do Amor Demais, Joias de Erroll Garner e Inolvidable, de Lucho Gatica. Passaram todos os dias ouvindo apenas isso. Imagine como as músicas devem ter “colado” em suas memórias. Não estranhe que o disco de Gatica esteja na lista. Fazia o maior sucesso. O chileno, um dos gigantes do bolero, gravou Inolvidable em Cuba com os Irmãos Castro, no violão e contrabaixo, influenciado pelas harmonias do guitarrista Barney Kessel em Cry Me a River, de Julie London.
Salto para o fim dos anos 1990
A Vera Galli, velha e querida amiga – e antenada –, conta uma história engraçada. Um dia, meio a uma conversa perguntou a uma amiga se conhecia Chet Baker. Ela respondeu: “Nunca fui lá.”
Os “bacanas”, nesse meio tempo já sabiam quem ele era. Falava-se que João Gilberto fôra influenciado pela maneira “cool” de Baker cantar. Enfim, o pessoal da bossa nova falava muito dele e das harmonias, avançadas para a época, de Barney Kessel. De tanto falarem da influência do americano sobre a bossa nova, Chet caiu na boca da patuleia.
O Brasil foi conhecendo a música de Baker pelas bordas. Foram lançados aqui, primeiro os gravados na Europa, depois que passara por prisões, internações e nem tinha mais os dentes da arcada superior, terrível para um trompetista. A voz perdera aquela delicadeza juvenil do início da carreira. Eram álbuns, desiguais, muito inferiores aos do início de sua carreira. Anos depois, por volta de 1990, apareceu um disco chamado The Best of Chet Baker Sings, com o subtítulo “Let’s Get Lost”. Tinha sido lançado pouco antes um documentário (virou cult) dirigido pelo fotógrafo de moda Bruce Weber com este nome. Além das doze do original, foram acrescentadas outras oito gravadas em outros álbuns feitos para a Pacific Jazz. Foi a apresentação do melhor de Chet.
O meu Chet Baker Sings
Os CDs musicais foram lançados em 1979 pela Philips. Custavam bem mais que os LPs e demorou um pouco para pegar. A contrapropaganda alardeava quanto à pobreza do som digital (verdade) e diziam que a superfície metalizada dos CDs degradaria em até cinco anos (mentira).
Comprei meu primeiro aparelho em 1987, em Nova York, e cerca de 20 CDs. Paguei uma grana preta na alfândega. O fiscal da polícia federal não considerou minhas alegações de que música era cultura. Disse até que em todo LP vinha escrito “Disco é cultura”. E era verdade. A besta não ficou nem um pouco comovida com meus argumentos.
Em 1990 fui ao Japão. CDs que nunca tinham sido lançados nos EUA estavam disponíveis, se bem que, mais caros. Um dos achados foi um “complete” de Billie Holiday com todas as gravações da Columbia. Em anos posteriores saíram no Brasil e nos EUA, mas separados e com o título The Quintessential of Billie Holiday. Não vinha com os “alternate takes” e um livreto com as letras de todas as canções.
Grande achado mesmo foi Chet Baker Sings. Sonhava com ele em CD. O problema é que havia um outro com o mesmo título acrescido de “My Funny Valentine”. Na dúvida, comprei os dois. Neste segundo, constavam dez das doze do original. A capa era com Chet empunhando um violão, imagem do mesmo William Claxton, autor das melhores imagens de Chet nos anos 1950. Essas fotos foram reunidas em um livro chamado Young Chet (Schirmer Art Books, 1993). Parece que o produtor e dono da Pacific Jazz Dick Bock, para ganhar um troquinho a mais, reutilizava as matrizes fonográficas acrescentando alguns instrumentos e os “relançava”. Neste, estão listados Joe Pass, Bud Shank, Lawrence Marable, Corky Hale na harpa, além de um naipe de cordas, ausentes no LP original.
Fui pego novamente na alfândega. Trazia um amplificador Denon de 20 quilos e 90 CDs. Quis o bom destino que aparecesse uma pessoa dizendo que eu era funcionário da Varig. Não era. Minha irmã era. Estranhando a minha demora, pediu a uma colega de trabalho que fosse ver por que eu demorava. O fiscal disse: “Fecha a mala. Está liberado.” Não tive de pagar nada. Saí de um jeito tão atabalhoado que esqueci de pegar o passaporte de volta, que, à essa altura, já estava no bolso dele.
Era, no Brasil, provavelmente, um dos únicos a ter Chet Baker Sings. Vários amigos correram para a minha casa, não por minha causa, mas por Chet, no intuito de gravá-lo em fita cassete (não existiam ainda os CDs graváveis). Minha amiga Tila Leal pediu-me que gravasse para o seu pai. Disse-me ela que, quando começou a ouvir, chorou. Por causa de Chet ficamos amigos. O Zeca passou a vir com frequência a minha casa. Nunca saía sem ter gravado umas três fitas de jazz. Conhecia Frank Sinatra como poucos. Conto essa história em http://bit.ly/1yYZu3y. Era muito amigo de Dick Farney. Fazia o imposto de renda dele. Possuía vários discos de playback com as bases de Nelson Riddle, sem a voz. A cantora Sylvia Telles pegou vários emprestados, e não devolveu.
Ouça Chet Baker Sings na íntegra.
O Zeca era espirituoso, fazia piada de tudo e aprendi muito com ele. Adorava Dave Brubeck e Oscar Peterson. Passei a ouvir a turma do cool jazz com mais atenção por causa dele. Adorava em Chet, principalmente o trompete sem vibrato. O Zeca “introduziu” Bud Shank, Shelly Manne e Clare Fischer na minha discoteca.
Sempre gostei de cantores de jazz. Em certo momento, de tanto ouvir certos standards, passei a me interessar pelas letras, nem tanto pelo teor e mais para (tentar) cantar junto. “Acompanhava” Ella e Louis Armstrong de cór em canções como Moonlight in Vermont, Cheek to Cheek, Stars Fell on Alabama, Tenderly e muitas outras. Comecei “na unha”: ouvia dezenas de vezes a mesma música com uma caneta e uma folha de papel. Hoje, qualquer letra está disponível na internet. O Zeca era meu consultor para resolver as minhas dúvidas. Disse uma vez: “O melhor jeito de pegar as letras é ouvindo Frank Sinatra. Não existe ninguém com a dicção dele. Facilita muito.” Facilitou mais depois emprestando-me várias publicações importadas com letras de músicas mais conhecidos do cancioneiro americano. Mais tarde, achei um livro chamado Reading Lyrics (Pantheon Books, New York, 2000) com mais de mil letras. O bom é que não se limita aos mais consagrados como Cole Porter e Ira Gershwin.
O disco que Donato não gravou
João Donato morou, em períodos intercalados, nos Estados Unidos. Em 1965, fazia uma temporada com seu trio no clube Trident, em Sausalito, cidadezinha próxima à San Francisco. O “special guest” era Chet Baker. Na matéria publicada em 13/5/2013, na Folha de S.Paulo, sobre a biografia escrita por Ruddick, assinada por Roberto Evangelista, há uma referência sobre um episódio capital na vida do trompetista. Como sempre, estava sempre atrasado. Chegou com um lenço cobrindo a boca toda ensanguentada. Tinha levado uma surra de cinco jovens negros, aparentemente, sem razão. “Fiquei chateado, claro – ver tudo aquilo acontecer com uma pessoa bonita, com quem eu trabalhava todos os dias. Ele não podia tocar da mesma maneira depois disso. Então eu o mandei para a casa e disse, se cuide”, falou Donato. Uma observação: pelo artigo da Folha, o incidente ocorreu em 1965, enquanto mais de uma fonte dá como 1968.
Em consequência da agressão sofrida em 1966, Chet teve que tirar todos os dentes da arcada superior, fato desastroso para um trompetista. Ficou afastado por um período. Chegou a trabalhar de frentista em um posto de gasolina. Quando voltou a tocar, não era mais o mesmo.
Mesmo antes que o vício da heroína o dominasse, os amigos achavam que Baker já gostava de viver perigosamente. Joyce Freeman, ex-mulher do pianista e arranjador de vários discos seus, Russ Freeman, conta que, uma vez saíram com ele em seu Aston Martin. Dirigia bem, mas gostava de se arriscar. Ela lembra dele ter-lhe dito, uma vez, que tinha pavor de heroína. Tinha experimentado e jogado fora. O problema começou quando passou a namorar uma francesa amiga de vários junkies.
O título Let’s Get Lost do documentário de Bruce Weber e da canção de Frank Loesser e Jim McHugh funciona como a perfeita síntese de uma época. Depois de duas guerras mundiais havia desencanto dos que as viveram e esperança dos sobreviventes e de uma juventude que havia nascido durante os conflitos. O florescimento do rock, Bill Haley e Seus Cometas, o bebop, o cool jazz, a aparição de figuras emblemáticas como James Dean e Marlon Brando se incluem nessa transformação. Era uma mistura de inconformismo e ingenuidade. Baker, com sua beleza dúbia, queixo duro de macho e, ao mesmo tempo angelical, e voz delicada, de certa forma, era uma síntese dessa época. Viver no limiar do perigo, como Joyce Freeman exemplifica no jeito de Baker dirigir era a imagem de uma geração.
Veja-o cantando Almost Blue, de Elvis Costello. É uma das grandes músicas do Baker da última fase.
Em 1968, época em que foi “special guest” do brasileiro, era uma sombra do que havia sido. Era um homem destruído, mas algo do mito persistia. Mesmo depois que mudara para a Europa era cultuado por antigos fãs e músicos.
Quando tocavam no Trident, Baker e João combinaram de gravar um disco. Depois da surra que levou, ficou o dito pelo não dito. Resultaria em um bom disco? Não dá para saber. O que teria sido nunca será.
Menos conhecido em sua terra natal do que em certos países, Diego Figueiredo, paulista de Franca, é um cara boa praça, muito simpático. É um craque no violão, um dentre muitos que cá nasceram. O Brasil é o país do futebol e do violão. Bem tocado, é bom frisar. Desde Carlos Barbosa Lima, mais velho que Rogério Caetano, Yamandu Costa, Raphael Rabello e Marcus Pereira, apenas para lembrar de alguns, somos a terra das cordas, bem, posso estar exagerando.
Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.
Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.
Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.
Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.
A palavra Capricho vem de “capriccio”, do italiano. É uma palavra interessante pelas formas com que é usada. Uma delas é dizer que “fulana é caprichosa”, o que pode significar que faz as coisas com cuidado, esmero. Ao mesmo tempo, pode ser alguém que fica a mudar de ideia a toda hora. E, efetivamente, é o nome de uma revista cinquentenária da editora Abril, conhecida por ser uma das pioneiras em publicar fotonovelas. Antes das telenovelas faziam o maior sucesso. Provavelmente pessoas com menos de 40 anos nunca viram ou leram uma.
Antes ou depois disso, é uma nomenclatura utilizada na música. Muitos devem conhecer os 24 Caprichos de Paganini, no original italiano, “caprices”, variação de “capricci” ou “capriccio”. O termo é usado também por Rimsky-Korsakov em Capriccio Espagnol e Igor Stravinsky em Capriccio para Piano e Orquestra. Capriccio é o título da última ópera de Richard Strauss. Não deve deixar de ser citado seu uso em outras formas de arte. São célebres as 80 gravuras da série Los Caprichos, do espanhol Francisco Goya.
Quem acompanha Hamilton de Holanda no Facebook deve desconfiar que ele possui o dom da ubiquidade. Um dia está se apresentando em São Paulo, ou na Itália ou Alemanha, gravando um novo disco com não sei quem, ensaiando com Paulinho da Viola para uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, enfim, a impressão é a de que está em vários lugares ao mesmo tempo tal a sua hiperatividade profissional. Nessa toada, são lançados álbuns, um atrás do outro, com sua participação. Lançou dois geniais no ano passado: Mundo de Pixinguinha e Que Será, este em parceria com Stefano Bolani. No terceiro, chamado Trio, que não conheço, fazem parte alguns “caprichos”: Capricho de Raphael, de Espanha, do Sul, do Carmo e de Santa Cecília.
Outros caprichos vieram e juntam-se aos citados anteriormente e transformaram-se em um álbum duplo. Como os “caprichos” de Paganini, os de Hamilton totalizam 24. Quer conhecê-los? Fácil. Ele disponibilizou na internet “de grátis”. É só digitar http://hamiltondeholanda.com/caprichos/#musicas.
Na única vez em que tive oportunidade de ver Romero Lubambo tocando foi quando apresentou-se com Dianne Reeves no Bourbon Street. Não tem nada de estranho um brasileiro tocando com a cantora. Para quem não sabe, Dianne começou fazendo vocais na banda de Sergio Mendes. Romero é um sujeito simpático, expansivo, e sua forma de tocar tem a ver com isso.
Lubambo estudou música na adolescência, mas na hora do “vâmu vê”, foi cursar engenharia na PUC-Rio. Mas a música deve ter falado mais alto. Tomou coragem e foi tentar conquistar a América. Está lá desde 1985, ou seja, há quase trinta anos. Mas o Brasil, como aquela maldosa piada de que os nordestinos saem de lá, mas o nordeste não sai deles, Romero não traiu suas raízes.
Com Nilson da Matta e Duduka da Fonseca, todos com pés firmemente ficados em solo americano, formam o Trio da Paz. Romero tem parcerias importantes com Yo-Yo Ma e o cubano Paquito D’Rivera, aliás, homenageado em “Paquito en Bremen”, em seu álbum mais recente, do qual passo a falar daqui por diante: “Só: Brazilian Essence”.
Romero é um músico requisitado; além de Reeves, tocou com Michael Brecker, Jane Monheit, dentre outros, e é participante frequente quando brasileiros como Ivan Lins, Leny Andrade e Luciana Souza gravam ou apresentam-se além das nossas 200 milhas.
Contamos com ótimos violonistas locais como Marco Pereira, João Rabello, Rogério Caetano e Yamandu Costa, que poderiam muito bem estarem se destacando fora do Brasil. Outros, como Laurindo de Almeida, Los Indios Tabajaras (Natalício e Antenor Lima), Luiz Bonfá, Baden Powell, Oscar Castro-Neves, Carlos Barbosa-Lima, os irmãos Assad… bom, acho que estou esquecendo de alguns, mas, realmente, é um contingente bem grande, preferiram emigrar.
Não faltam clássicos da bossa nova na incursão solitária de Lubambo. Suas escolhas recaem em um belo“Insensatez”, “Brigas Nunca Mais”, “A Felicidade” (Jobim), e dois originais de Carlos Lyra (“Você e Eu” e “Coisa Mais Linda”). Completam a sua incursão solitária a óbvia “Aquarela do Brasil”, “Paquito in Bremen”, “Pedra Bonita”, de Mario Adnet, “Song for Kaya”, “Luísa”, “Samambaia”, “By the Stream” e “Laura”. O “só” do título é bom, porque é um álbum solo. O único momento em que está acompanhado, é com ele mesmo. Em “Coisa Mais Linda” é seu violão e ele cantando. E não é que nesse quesito, o rapaz se dá bem? Poderia até gravar um com violão e voz. Seria melhor que Eliane Elias, desculpe a ousadia de não gostar dela como cantora.
Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.
Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.
O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.
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Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.
Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.
Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton
Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional". Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.
Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.
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Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?
Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.
No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.
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Provavelmente, a informação fosse menos pulverizada há trinta anos e fôssemos mais jovens e nos reuníssemos mais, em virtude de sermos estudantes e “desocupados”. Os interesses eram muito próximos e as conversas e gostos, como em qualquer grupo, tendiam a ser parecidos. Milton Nascimento era uma unanimidade, mais até do que Chico Buarque e Caetano Veloso. Em 1976, quando foi lançado um disco chamado, simplesmente, Milton, gravado nos EUA, com participação de Herbie Hancock e Wayne Shorter, em menos de uma semana, todos o conheciam de cor e salteado – como se dizia antigamente –, e qualquer conversa, se fosse sobre música, giraria em torno de Milton. Dois vocalises eram os nossos preferidos: Francisco e The Call (A Chamada). Esta última não era inédita; tinha sido gravada em Milagre dos Peixes, em 1973. Mas a do disco americano era especial. Milton, dois anos depois de ter se tornado conhecido no Brasil, gravaria Courage, pela americana A&M Records, em 1968. Seu segundo disco “americano” foi uma espécie de continuação a Native Dancer (1975), disco de Wayne Shorter.
Nem um ano depois de lançado Milton, nasceu André Mehmari, em Niterói, RJ. Em uma apresentação de muito tempo atrás, no SESC-Pompeia, de Jussara Silveira, fiquei impressionado com o pianista. Minha memória de filtro Melita não registrou o seu nome, mas acho que era ele. Desde que o “descobri”, efetivamente, na medida do possível, tenho comprado seus discos. Um dos que mais tenho ouvido se chama Lachrimae (Cavi Records, 2005). É um CD com algumas composições próprias e alguns clássicos como Dindi, Só Louco, Francisco, Amor Perfeito (Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito) e um Pra Dizer Adeus (Edu Lobo) de ouvir de joelhos.
Pois estava falando do disco que Milton lançou em 1976. Não sei se são muitos que conhecem a sua interpretação de Francisco, com vocalise de Monica Salmaso. Vale ouvir.
Ouça a original, com Milton. Não vale comparar, por favor.
No mês de agosto, foi aberta a exposição de Cildo Meireles no Itaú Cultural, em São Paulo. É um dos brasileiros mais bem posicionados no mercado de arte. Depois de participar de uma exposição em Londres e de individual no MoMA, em 1990, passou a fazer parte do circuito internacional, muito antes do “auê” que se faz em torno do trabalho de Beatriz Milhazes.
Pela matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo (perdi a data de quando saiu), A exposição é resultado de uma ideia de mais de 30 anos. Na matéria, Silas Martí diz que Cildo, “num LP, […] decidiu gravar de um lado o som dos maiores rios brasileiros, Amazonas, São Francisco e Paraná. Do outro, orquestrou uma composição de gargalhadas.” Nas palavras de Cildo, “acabou virando um contraponto dessa tragédia que é a morte dos rios. Fica entre essa coisa solene, grande dos rios e a distensão que os rios têm.”
Isso lembra alguma coisa? Pois minha memória remota trouxe à baila um LP lançado pelo percussionista Naná Vasconcelos, em 1973 portanto, alguns anos antes da ideia ter surgido na cabeça de Meireles. Veja a coincidência: o disco se chama Amazonas, e a última faixa, chamada Um Minuto, é… um minuto de gargalhadas. E assim termina.
Por uns bons anos, antes de Naná ficar conhecido fora do Brasil, Airto Moreira reinou absoluto nos polls das revistas especializadas em jazz: ganhava disparado, anualmente, o título de melhor percussionista. Em terras locais, Moreira fez parte do Quarteto Novo, com Heraldo do Monte, Théo de Barros e Hermeto Pascoal. Lançaram um disco em 1967 pela gravadora EMI-Odeon. Depois de mudar para os EUA, o destino deu uma mão ao catarinense: foi tocar com Miles Davis. O outro que chamou atenção do americano foi Hermeto, que teve até música surrupiada. Participou das primeiras formações das bandas elétricas de Chick Corea, gravou discos pela CTI – de Creed Taylor – e tocou com outra estrela brasileira, Eumir Deodato, que ficou conhecido pelo “estrago” que fez com Also Sprach Zarathustra. O genial, cordato nazista e notório pão-duro Richard Strauss deve ter pulado do túmulo: depois que o inglês Stanley Kubrick utilizou a abertura dessa peça em 2001, Uma Odisseia no Espaço, o mundo descobriu que havia um outro Strauss além de Johann, o das valsas.
Na década de 1970, Naná excursionou com o argentino Gato Barbieri (é o autor da trilha de Último Tango em Paris), lançou Africadeus, em 1972, de volta ao Brasil, gravou Amazonas, pela Philips. Dentre as participações nos discos de Milton Nascimento, o ponto alto acontece em Milagre do Peixes (1973). Sua participação é um diferencial. Devido a alguns problemas com a censura do governo militar, a maioria das letras – algumas em parceria com o cineasta Ruy Guerra – foi proibida. Resultado: quase que inteiramente instrumental, o que sobressaem são os vocalises de Milton e os efeitos vocais de Naná. O disco começa com Os Escravos de Jó, com as vozes de Milton, Clementina de Jesus e Naná. É uma “entrada” impactante. Em Carlos, Lúcia, Chico e Tiago, novamente, destacam-se a percussão e os sons que Vasconcelos faz com a voz. A Chamada é o ponto alto: a conjunção dos vocais “desolados” de Milton e a parte percussiva é perfeita.
Quando Naná gravou A Dança das Cabeças (1976) com Egberto Gismonti era artista pronto. Além desse, ambos fizeram o Duas Vozes (1984). Participou de vários do cast da ECM; como líder, lançou Saudades, em 1979.
O ponto alto da carreira de Vasconcelos são os do Codona, lançados pela gravadora alemã. Foram três os discos e três eram os componentes, que formaram essa banda cujo nome vem das duas letras iniciais de cada um: “Co”, de Colin Walcott, “Do”, de Don Cherry, e “na”, de Naná. Walcott era percussionista e citarista; foi um dos componentes, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, do Oregon. Don Cherry foi um dos expoentes da avant-garde; no início da carreira, tocou com Ornette Coleman e John Coltrane.
Em 1973, época em que foi lançado Amazonas, não comprei. Como todo disco instrumental – imagino que foram prensados poucos – sumiu rapidamente das lojas. Consegui fazer uma cópia em fita-cassete. Ouvi muito, mas fitas magnéticas degradam, e chegou uma hora em que não pude mais ouvir Amazonas. Há pouco tempo, arrumei uma cópia em mp3. Semanas depois, leio a matéria sobre a exposição de Cildo Meireles. É boa ocasião para ouvirmos Naná novamente.
Ouça Um Minuto, faixa final de Amazonas.
O fantástico berimbau cósmico de Naná em seu primeiro disco, Africadeus. É de uma apresentação em Roma, em 1983.
Dilermando nasceu em Guaratinguetá (Guará, como os nascidos lá gostam de dizer), interior de São Paulo, que fica mais ou menos na metade do caminho, na Via Dutra, para o Rio. Entre uma cidade e outra, preferiu ir para a capital; não a de seu estado natal, mas para a capital do Brasil.
Dilermando e o violão
O amigo Armênio Guedes deu-me um presente valoroso: o Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, organizado por Ricardo Cravo Albin. É a quem recorro para saber que nasceu em 1916 e faleceu no segundo dia do ano de 1977. A curiosidade é a de que foi professor de violão do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Curiosidade mesmo. Sabe-se que o criador de Brasília era um pé de valsa (meu pai, fotógrafo por profissão, sediado à época em Passos, MG, tirou uma foto de Juscelino dançando com uma moça, em São Sebastião do Paraíso), e tornou, pelo menos, uma música famosa: a canção folclórica Peixe Vivo. O JK brasileiro, pelo que parece, antecipou o JK americano em alguns anos quanto ao interesse “exacerbado” por pessoas do sexo feminino.
Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.
Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:
Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.
Descalço com Kim Novak
Kim Novak e JK: descalços
Ninguém mais antipresidencial. Ele trouxe a gargalhada para a Presidência. Nenhum outro chefe de estado, no Brasil, teve essa capacidade de rir – e nos momentos mais inoportunos, menos indicados. Dir-se-ia que ele tinha sempre um riso no bolso, riso que ele puxava, escandalosamente, nas cerimônias mais enfáticas. Os outros presidentes têm sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Cada qual se comporta como se fosse a estátua de si mesmo. Não Juscelino. Quando ele tirou os sapatos para Kim Novak (que achado genial! que piada miguelangesca!), ele foi o antipresidente, uma espécie de cafajeste dionisíaco. Eu diria que jamais alguém foi tão brasileiro. O novo Brasil é justamente isso: – um presidente que tira os sapatos para uma beleza mundial. (Nelson Rodrigues no jornal Brasil em Marcha, 10/2/1961)
Numa dessas tardes quentes de verão e a rua com poucos carros passando, o silêncio é quebrado pela algazarra de algumas crianças e cães que latem o dia inteiro. Coloco Pintando o Sete, de Rogério Caetano. Encontro-o no meio de uma pilha de discos sobre a bancada do equipamento de som. No meio de tantos comprados recentemente, ficou esquecido. Paulatinamente, o som toma conta da sala.
Curioso é o fato de dois dos bons instrumentistas revelados nos últimos anos serem do Planalto Central. Rogério nasceu em Goiânia e Hamilton de Holanda (carioca) cresceu em Brasília. Interessante também é o número de músicos jovens tocando choro, atualmente. Nos anos 1970, ocorrera um boom desse gênero, com jovens – naquela época – formando conjuntos e tocando em bares. As gravadoras lançavam discos de Waldir Azevedo, Joel Nascimento e Altamiro Carrilho entre tantos outros. Em 1976, Paulinho da Viola lançou dois discos ao mesmo tempo: Cantando e Chorando. Esse último continha apenas choros de antanho e alguns compostos por ele. Acompanhado do pai, o violonista César Farias, do pianista Cristóvão Bastos e do mestre Copinha na flauta e sax, Paulinho fez um disco memorável e, provavelmente, despertou o interesse de muitos jovens que ouviam mais rock que música brasileira. Num belo filme exibido em 1977, Chuvas de Verão, Carlos Diegues encerra-o com a tomada de uma rua de subúrbio e Pedacinho de Céu, de Waldir Azevedo, como fundo sonoro. Nessa cena, Diegues sintetiza algo de muito caro ao gênero choro.
Rogério, além de virtuoso no violão de sete cordas, demonstra ser bom compositor. A primeira faixa, Violão na Gafieira é sua. É vigorosa, daquelas que poderiam ser tocadas numa gafieira. Em Rogerinho no Sete, toca com Maurício Carrilho, autor da música, e com Luciana Rabello no cavaquinho. Em seguida, ouve-se Valsa de Mãezinha, de Caetano e Hamilton, interpretada por ele e Yamandú Costa, ambos no violão de sete cordas. Belíssima. Em Carioquinha da Gema, Hamilton esmerilha no bandolim de 10 cordas e André Vasconcelos, no baixolão, e Rogério no violão, o acompanham. Pintando o Sete e Milena são dois belíssimos solos de violão. Em Saída pela Esquerda, outra composição de Rogério, as cordas (três violões e o cavaquinho) se contrapõem ao som áspero do trombone de Zé da Velha e o trompete de Silvério Pontes. Correr com Medo, um tour de force dos dois amigos brasilienses, em ritmo alucinante, fecha esse belo disco que vale a pena ser conhecido. Dino 7 Cordas e Raphael Rabello tem um sucessor à altura.
Veja e ouça Rogério Caetano tocando Samba em Prelúdio, clássico de Vinícius de Moraes e Baden Powell.
Victor Biglione veio com seis anos ao Brasil e por aqui ficou. É um dos grandes guitarristas brasileiros, apesar de ter nascido em Buenos Aires. O que ele faz com a sua Washburn J6 Montgomery não está escrito em algum lugar. Faz jus ao guitarrista Wes Montgomery, que nomeia a guitarra.
Classificá-lo como instrumentista jazz fusion é reducionismo. Seu dedilhado é a de um jazzista que segue a trilha de Wes Montgomery e Grant Green. Não é barulhento como John Scofield (graças a Deus), é melódico e mestre em construir linhas harmônicas de ótimo gosto. Realizou discos (muito bons) com Andy Summers (ex-Police) e Marcos Valle. É excepcional o CD Live in Montreal, com o tecladista e compositor de Samba de Verão.
Excepcional mesmo, ou tanto quanto, é o CD dedicado ao compositor Antonio Carlos Jobim, Uma Guitarra no Tom (Delira Music, 2009). Constam no disco clássicos como Lígia, Só Danço Samba, Chovendo na Roseira (Double Rainbow) e Samba de Uma Nota Só. Confira Victor tocando Água de Beber.