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| Naná Vasconcelos, autor do clássico Amazonas |
Pela matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo (perdi a data de quando saiu), A exposição é resultado de uma ideia de mais de 30 anos. Na matéria, Silas Martí diz que Cildo, “num LP, […] decidiu gravar de um lado o som dos maiores rios brasileiros, Amazonas, São Francisco e Paraná. Do outro, orquestrou uma composição de gargalhadas.” Nas palavras de Cildo, “acabou virando um contraponto dessa tragédia que é a morte dos rios. Fica entre essa coisa solene, grande dos rios e a distensão que os rios têm.”
Isso lembra alguma coisa? Pois minha memória remota trouxe à baila um LP lançado pelo percussionista Naná Vasconcelos, em 1973 portanto, alguns anos antes da ideia ter surgido na cabeça de Meireles. Veja a coincidência: o disco se chama Amazonas, e a última faixa, chamada Um Minuto, é… um minuto de gargalhadas. E assim termina.
Por uns bons anos, antes de Naná ficar conhecido fora do Brasil, Airto Moreira reinou absoluto nos polls das revistas especializadas em jazz: ganhava disparado, anualmente, o título de melhor percussionista. Em terras locais, Moreira fez parte do Quarteto Novo, com Heraldo do Monte, Théo de Barros e Hermeto Pascoal. Lançaram um disco em 1967 pela gravadora EMI-Odeon. Depois de mudar para os EUA, o destino deu uma mão ao catarinense: foi tocar com Miles Davis. O outro que chamou atenção do americano foi Hermeto, que teve até música surrupiada. Participou das primeiras formações das bandas elétricas de Chick Corea, gravou discos pela CTI – de Creed Taylor – e tocou com outra estrela brasileira, Eumir Deodato, que ficou conhecido pelo “estrago” que fez com Also Sprach Zarathustra. O genial, cordato nazista e notório pão-duro Richard Strauss deve ter pulado do túmulo: depois que o inglês Stanley Kubrick utilizou a abertura dessa peça em 2001, Uma Odisseia no Espaço, o mundo descobriu que havia um outro Strauss além de Johann, o das valsas.
Na década de 1970, Naná excursionou com o argentino Gato Barbieri (é o autor da trilha de Último Tango em Paris), lançou Africadeus, em 1972, de volta ao Brasil, gravou Amazonas, pela Philips. Dentre as participações nos discos de Milton Nascimento, o ponto alto acontece em Milagre do Peixes (1973). Sua participação é um diferencial. Devido a alguns problemas com a censura do governo militar, a maioria das letras – algumas em parceria com o cineasta Ruy Guerra – foi proibida. Resultado: quase que inteiramente instrumental, o que sobressaem são os vocalises de Milton e os efeitos vocais de Naná. O disco começa com Os Escravos de Jó, com as vozes de Milton, Clementina de Jesus e Naná. É uma “entrada” impactante. Em Carlos, Lúcia, Chico e Tiago, novamente, destacam-se a percussão e os sons que Vasconcelos faz com a voz. A Chamada é o ponto alto: a conjunção dos vocais “desolados” de Milton e a parte percussiva é perfeita.
Quando Naná gravou A Dança das Cabeças (1976) com Egberto Gismonti era artista pronto. Além desse, ambos fizeram o Duas Vozes (1984). Participou de vários do cast da ECM; como líder, lançou Saudades, em 1979.
O ponto alto da carreira de Vasconcelos são os do Codona, lançados pela gravadora alemã. Foram três os discos e três eram os componentes, que formaram essa banda cujo nome vem das duas letras iniciais de cada um: “Co”, de Colin Walcott, “Do”, de Don Cherry, e “na”, de Naná. Walcott era percussionista e citarista; foi um dos componentes, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, do Oregon. Don Cherry foi um dos expoentes da avant-garde; no início da carreira, tocou com Ornette Coleman e John Coltrane.
Em 1973, época em que foi lançado Amazonas, não comprei. Como todo disco instrumental – imagino que foram prensados poucos – sumiu rapidamente das lojas. Consegui fazer uma cópia em fita-cassete. Ouvi muito, mas fitas magnéticas degradam, e chegou uma hora em que não pude mais ouvir Amazonas. Há pouco tempo, arrumei uma cópia em mp3. Semanas depois, leio a matéria sobre a exposição de Cildo Meireles. É boa ocasião para ouvirmos Naná novamente.
Ouça Um Minuto, faixa final de Amazonas.
O fantástico berimbau cósmico de Naná em seu primeiro disco, Africadeus. É de uma apresentação em Roma, em 1983.
Milton Nascimento canta San Vicente, com Naná.
Gismonti e Naná.

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