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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Os melhores discos segundo a revista Downbeat (parte 2)

Estou repetindo a lista dos dez melhores do ano, pela revista Downbeat, para poder falar alguma coisa acerca dos que eu conheço.

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33

O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.



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O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.

Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.

Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.



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Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.

O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.

Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.




Do décimo primeiro ao trigésimo

A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.

Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.

Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.



Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.

Ouça Hope, uma das melhores do CD.



Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).

Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.  

Ouça Killer, do álbum Samdhi.




American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.

Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.

Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Brad Mehldau e Kevin Hays ao piano

Depois de alguns projetos que fugiam de uma linguagem mais estritamente jazzística, com as gravações recentes realizadas por duas cantoras líricas – Renée Fleming e Ann Sofie von Otter –, o solo Elegiac Cycle e Highway Rider (nesse álbum duplo, os arranjos para orquestra de câmara são do pianista), foi lançado em 2011 um disco de duo com o também pianista Kevin Hays. Não estou considerando o CD/DVD Live in Marciac, lançado no início de 2011, por este ser um álbum ao vivo.

Música para dois pianos ou a quatro mãos são comuns. Até entre iletrados musicais “rola” um Frère Jacques em residências que têm um piano na sala: quem nunca tocou?. Não era diferente no século 18 ou 19. As tão populares reuniões que se davam (deve ocorrer ainda, creio) em volta de um violão não são muito diferentes das que aconteciam em torno de um piano-forte, um cravo ou um piano. Schubert, Brahms, Mozart, Fauré e Rachmaninov não se furtaram em compor nesses dois formatos. E não faltam intérpretes especializados. Exemplos: Katia e Marielle Labèque, Lyubov Bruk e Mark Taimanov, Alfons e Aloys Kontarsky. Nem me refiro às duplas ocasionais como Daniel Barenboim e Georg Solti (ambos excelentes na batuta e no piano), Nelson Freire e Martha Argerich, ou Radu Lupu e Murray Perahia. No jazz, também, não chegam a ser incomuns os encontros de bons pianistas. Não me deixam mentir Herbie Hancock e Chick Corea, e nem Tommy Flanagan e Hank Jones.

Como nem sabia da existência do CD Modern Times, ao vê-lo na livraria Ateneo, de Buenos Aires, minha atenção se deveu à presença do nome de Brad Mehldau. Confesso minha ignorância quanto a Patrick Zimmerli; considerando-se as letras em que os nomes estavam grafados na capa, o disco era de Zimmerli, sendo Brad Mehldau e Kevin Hays os executantes (se bem que, pode-se considerar o efeito gráfico da perspectiva: mais próximo, maior). Mesmo assim, resolvi comprar e, depois, tinha adorado a capa com um detalhe de Classic Landscape, de Charles Sheeler, do acervo da National Gallery of Art, Washington.

Na primeira audição, já me senti atraído pela energia dos dois pianos – Mehldau no canal direito do estéreo, e Hays no esquerdo. De “prima” as que mais me chamaram a atenção foram Lonely Woman, de Ornette Coleman, e um trecho de Música para 18 Músicos (Music for 18 Musicians), do minimalista Steve Reich. Essas obras sempre estiveram entre as minhas favoritas, antes mesmo de ouvi-las nesse CD. Qual um Corinthians x Palmeiras, achava Reich o máximo e Philip Glass chato. Lembro de tê-lo visto, no início dos anos 1990, no Centro de Convenções do Anhembi, São Paulo, e ter dormido. Hoje, meus juízos sobre Glass não são tão radicalmente negativos; inclusive, no CD, está registrado um trecho de seu Quarteto de Cordas nº 5, que é bem bom. Agora, Ornette Coleman é Ornette Coleman (sobre sua apresentação em São Paulo, em 2011, leia em “A luz de Ornette Coleman”).

Nesses discos diferenciados em que Brad participa nunca falta um texto extenso no encarte. Em Modern Music não é diferente. Ficamos sabendo então que os dois pianistas são amigos há tempos e Zimmerli é o “terceiro homem” do projeto. Saxofonista, inicialmente, pendeu para a composição. Nas peças do disco, os pianistas seguem uma partitura – escritas por Zimmerli. Como nas sonatas de música erudita, há trechos (cadenzas) em que o intérprete tem a liberdade de improvisar. A grande riqueza desse disco, além da inegável competência dos pianistas, são os arranjos. Vibrantes e sofisticados, são ricos melodicamente e uma experiência única. As quatro composições de Zimmerli (Crazy Quilt, Generatrix, Celtic Folk Melody, e Modern Music), Unrequited (Mehldau), Elegia (Hays) e as anteriormente citadas de Steve Reich, Philip Glass e Ornette Coleman, formam um caleidoscópio de cores, climas e momentos de puro deleite musical.

Ouça Lonely Woman. Preste atenção no arranjo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Horizontes de Brad Mehldau

O explorador da música Brad Mehldau
As grandes lojas, ou, pelo menos, as mais conhecidas na década de 1970, eram o Museu do Disco e a Hi-Fi. Esta última ficava no shopping Iguatemi, que era o único naquela época. À custa de bom marketing e de preços nem tanto, era a de maior sucesso. A melhor mesmo, em termos de música popular era o Museu do Disco, que trazia as novidades em discos importados caríssimos, principalmente para os padrões financeiros de seus consumidores, na maioria, estudantes que viviam de mesadas. As outras duas importantes eram a Bruno Blois e a Brenno Rossi, mais focadas em discos de jazz e música erudita.

O comprador do Museu do Disco era o Odair. Viajava constantemente e os adquiria de grandes atacadistas americanos. A primeira loja ficava na rua Dom José de Barros, quase esquina com a Avenida São João. Abriram outra no mesmo Shopping Iguatemi a 50 metros da Hi-Fi. O mercado foi mudando e as duas lojas não existem mais, assim como a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Depois de sair do Museu do Disco, trabalhou em outros estabelecimentos menores situados nas rua Pamplona, e o outro, na alameda Jaú. Com o fim dessa loja, ficou um tempo na loja Laserland, situada na Avenida Rebouças, uma das últimas a ter um bom catálogo de música erudita, popular e jazz. Depois, nunca mais ouvi falar dele. Muitos de nós “descobríamos” por onde andava e ficávamos clientes das lojas por onde passou.

Na pequena loja, próxima ao Colégio Dante Alighieri, foi que “conheci” o pianista Brad Mehldau, apresentado pelo Odair. Era um cara antenado, não apenas em relação ao rock, mas ao jazz também. Recomendou-me um CD chamado The Art of the Trio, volume I, isso em 1997. Desde então, Mehldau está na minha CDteca, com mais de uma dezena de títulos.

Jovem, Mehldau, se destacou em um dos formatos mais tradicionais do jazz, o trio. Dos primeiros discos lançados pela Warner, o primeiro foi Introducing Brad Mehldau, e os três posteriores se chamavam The Art of the Trio I, II e III.

No primeiro, cinco são standards e quatro, composições próprias. Os títulos dão uma pequena pista do que será dito adiante: Angst, Young Werther, London Blues, e Say Goodbye. Angst é uma expressão cara ao romantismo alemão; Os Sofrimentos do Jovem Werther, de J. W. Goethe é considerado o marco do romantismo alemão. O protagonista de Goethe provocou uma onda de suicídios na época.

Um outro elemento relevante à tendência de Mehldau em se identificar com esse sentimento “romântico”, tendendo à melancolia e à dor, é a escolha das músicas do repertório popular. Provavelmente, digo provavelmente porque não tenho certeza, ele foi o primeiro a incorporar ao jazz, composições de Nick Drake (sobre ele, leia em http://bit.ly/v65tVj), um inglês atormentado que pôs fim à vida com 26 anos. Outra “escolha” – podemos dizer “descoberta”, de tão belas que são as suas interpretações – foram composições da banda inglesa Radiohead, liderada por Thom Yorke: Exit Music (for a Film), Paranoid Android, e Knives Out. Ultimamente, depois de algumas visitas ao Brasil, tem interpretado O Que Será?, de Chico Buarque e Milton Nascimento. Músicas dos Beatles não são novidade no repertório jazzístico. Algumas canções já podem ser consideradas standards, tal o número de intérpretes que se curvaram à beleza das linhas melódicas de John Lennon, de Paul McCartney e de George Harrison.

Emblemático mesmo, em relação a essa identificação com o romantismo alemão foi seu quinto disco solo. Elegiac Cycle (WB 1999). Em um longo texto, no encarte, aborda temas ligados à criação artística, transcendência, morte, perenidade e imortalidade. Acerca do título: “Sempre fui atraído por obras de arte elegíaca, que lamentam tantos tipos de perda, do mais profundo até a mais prosaica das mortes – o que os franceses chamam apropriadamente de ‘petite-mort’.” Cita como exemplos Goodbye Pork Pie Hat, de Charles Mingus, e Alabama, de John Coltrane. Menciona também exemplos de obras que não são elegíacas propriamente, mas possuem um caráter elegíaco, segundo Mehldau, caso das obras finais de Brahms ou a “pungência de Bill Evans” em You Must Believe in Spring, gravada pouco tempo antes de morrer, aos 51 anos. Mehldau diz, ainda, que “em um nível profundo e íntimo, há o medo do nosso próprio fim, que, paradoxalmente, nos impulsiona a viver e criar.”

O longo texto do encarte de Elegiac Cycle revela um intérprete diferenciado, mais intelectualizado que a maioria de seus pares. Bem, as coisas podem ser bem específicas: um grande talento musical pode até ser analfabeto ou, como sempre foi e é comum, não ter tido aprendizado formal teórico ou prático. Alguns foram tão geniais, como Erroll Garner, a ponto de o nosso pianista mor, Nelson Freire, dizer que gostaria de tocar como ele. O que quero dizer com isso é que essa faceta de Brad é externa à música. Certo? Mais ou menos certo. No caso dele, percebe-se, em vista dos álbuns posteriores, que essa reflexão filosófica está vinculada a uma ligação com o romantismo alemão, não apenas literária, mas à música de Schubert, principalmente, em um formato caro ao compositor, os lieder. Apesar de ter morrido muito jovem – 31 anos – em decorrência da sífilis, compôs cerca de 600 canções. Esse gênero teve continuidade com Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Gustav Mahler e Richard Strauss, com Maurice Ravel, Claude Debussy e Gabriel Fauré, Mussorgsky e Rachmaninov, e na língua inglesa, Benjamin Britten e Vaughan Williams.

Não sei dizer se é um tanto extemporânea essa “retomada” do lied que Brad Mehldau realizou em dois álbuns posteriores: Love Sublime (Nonesuch, 2006) e Love Songs (Naive, 2009). Não são discos para todos os paladares, até para os seus fãs costumeiros. É preciso alguma “iniciação” à música erudita e até ao gênero mais específico que é o lied.

Love Sublime segue bem a cartilha do lied. Sete poemas de Rainer Maria Rilke (Livro das Horas) serviram de base para os lieder. Segundo Mehldau, “esses poemas são o testemunho da espiritualidade no desenvolvimento de um jovem, e eles falam para a ambivalência que muitos de nós experimentamos na medida em que questionamos e formulamos nossas crenças.” Dá para perceber como esse “arcabouço intelectual” é essencial na sua obra. Completam o CD três canções com letras do poema The Blue Estuaries, de Louise Bogan, a partir de sugestão de sua parceira nessa empreitada, Renée Fleming, e a canção título – Love Sublime – composta pelo pianista e sua mulher Fleurine. Apesar de todas essas boas referências (Mehldau, a excepcional soprano americana e Rilke), confesso que não gostei muito. A culpa é de Schubert, Mahler e cia.: é impossível deixar de compará-lo com esses mestres, levando-se em conta que o lied é um gênero (bem) particular.

Love Songs é um álbum – na minha opinião, mais uma vez – melhor. Desta feita, a parceira é a sueca Anne Sofie von Otter. As canções que compõem o primeiro CD são o resultado de uma encomenda feita pelo Carnegie Hall ao pianista para que compusesse canções para a voz de von Otter. Os poemas escolhidos foram os dos americanos e.e. cummings e Sara Teasdale, e do inglês Philip Larkins. Sem querer comparar e já comparando, o canto de Renée Fleming, em algumas ocasiões, parece um tanto deslocado (ou será o piano de Mehldau?), o que não acontece na performance de von Otter. Mesmo assim, as canções compostas por Mehldau são tensas e um tanto pesadas. Minha impressão é a de que falta alguma delicadeza e riqueza de cores e modulações tão presentes nos lieder de Schubert que, a meu ver, representa sua maior influência ao compô-las.

Agora, esqueça das reservas feitas quanto ao primeiro CD. No segundo, von Otter mescla a entonação lírica com a voz branca. A sueca deu mostras de que, mesmo fora do território lírico, é superlativa, no CD For the Stars (2001), que gravou com Elvis Costello, pela Deutsche Grammophon.

A primeira faixa do segundo CD é Avec les temps, de Léo Ferré. É um início de arrepiar, e com domínio total cantando em francês. Esse alto nível se mantém nas interpretações de Chanson des Maxence, de Michel Legrand, em Chanson des vieux amants (esta, belíssima) e em Dis, quand reviendras-tu, de Barbara. Algumas músicas registradas são bem conhecidas pois são do repertório popular, como Calling You, parte da trilha do filme Bagdad Café, e Blackbird, de Lennon & McCartney (Mehldau gravou mais de uma vez, tanto em piano solo como em formato trio. Outro ponto alto é Marcie, da candaense Joni Mitchell; digo ponto alto em relação a um disco de qualidade superior.

O propósito inicial, ao falar de Brad Mehldau, foi o de fazer algumas considerações sobre o CD Modern Music, do pianista em duo com Kevin Hays, lançado em 2011. Essas considerações ficaram longas demais. Pois assim, esse CD fica para a próxima.

Im abemdrot, de Franz Schubert, cantada por Anne Sofie von Otter.


Anne Sofie von Otter canta o clássico What Are You Doing the Rest of Your life?, de Michel Legrand, acompanhada por Brad Mehldau. Essa canção está no segundo CD de Love Songs.


Brad Mehldau interpreta Exit Music (for a Film), de Radiohead.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fleurine canta Supertramp

Sem ser uma crítica, a voz de Roger Hodgson é um bocado irritante. Torço para que os mais fanáticos fãs do Supertramp não passem a me odiar. Aqueles que compartilham da minha opinião têm uma alternativa: ouvir a belíssima The Logical Song, com Fleurine.

A bela holandesa
Em 2000, apresentou-se no Teatro Alfa acompanhada no piano por Brad Mehldau. O acontecimento era surpreendente, pois Brad estava sendo considerado o melhor pianista da nova geração e vinha como coadjuvante. Chegou ao palco, sentou-se ao piano, e a estrela era uma bela loura de voz delicada, mas nada empolgante. Muitas pessoas foram embora durante a apresentação. Quando findou, restavam umas 60 pessoas na plateia.

O motivo de eu ter ido ao show foi porque, se não me engano, era a primeira vez que Brad Mehldau se apresentava em terras tupiniquins. Na época, já possuía todos os seus CDs, todos importados. De lá para cá, veio, algumas vezes, apresentando-se só ou em trio. Virou “da casa”. Na vez em que tocou no Auditório Ibirapuera, SP, executou O Que Será Que Será, de Chico Buarque e Milton Nascimento.

A razão de Mehldau vir como simples acompanhante tinha alguma “motivação”. Eram namorados. Agora, devem estar casados.

Apesar de Fleurine não ser grande cantora, mostra-se ousada ou, pelo menos, tenta se diferenciar da mesmice de cantoras como Jane Monheit, Therry Sutton e uma infinidade de outras, que repetem ad infinitum o repertório de standards. Andou gravando compositores do “pop/rock”, como Jimi Hendrix, Nick Drake, Peter Frampton e Paul Simon. Inclui no repertório alguns compositores brasileiros e chegou a compor originais na língua portuguesa (apresentou no Teatro Alfa uma delas, feita com ajuda de uma amiga brasileira). Além disso, colocou letras em temas instrumentais de Brad e de Pat Metheny.

Fire, o penúltimo álbum, foi produzido por Robert Sadin. O conceito “heterodoxo” desse produtor é responsável por trabalhos muito interessantes como The Gershwin’s World, de Herbie Hancock, e, The Art of Love, disco baseado em obras de um compositor Guillaume de Machaut, do século XIV, com participações de Milton Nascimento, Madeleine Peyroux, Natalie Merchant, Brad Mehldau, dentre outros.

É esperar para ver o que vem a seguir com Fleurine.


Ouça a bela interpretação de The Logical Song por Fleurine: