Mais ou menos na mesma época, surgiram duas cantoras de vozes pequenas e afinadíssimas: Jane Monheit e Tierney Sutton. Eram o oposto das duas últimas grandes damas vivas do jazz: Carmen McRae e Sarah Vaughan, que tinham morrido uns dez anos antes delas gravarem seus primeiros álbuns, com vozes poderosas e marcantes.
Jane estreou em 2000 com “Never Never Land”. Tierney, dois anos antes, lançara “Introducing Tierney Sutton”. Esta última tinha 35 anos, 14 a mais que a primeira. Acostumado com a potência e expressividade de Vaughan e McRae, e do talento incontestável de Shirley Horn, outra veterana, “redescoberta” pela gravadora Verve, fiquei bem crítico com as duas novatas. Minha impressão era a de que eram afinadas e não muito mais que isso.
Vi por duas vezes Jane Monheit no Bourbon Street, em São Paulo. Minha maior lembrança é a de que, na primeira vez, estava bem magra, recém casada com o baterista da banda. Lembro também que a pianista era muito boa. Não guardei seu nome. Era japonesa, isso sei. Na segunda vez, Jane continuava linda. A diferença é que estava, no mínimo, uns dez quilos mais pesada, desculpe a frivolidade. Tierney, não sei, acho que nunca veio ao Brasil.
Para mim, o que mudou com o passar do tempo, foi a de que não tenho vontade de ouvir Jane, enquanto Tierney ainda me provoca curiosidade. A banda, que está com ela faz uns 20 anos, é um primor. Ela, inclusive incorporou-a ao seu nome. Não se apresenta com o seu nome, simplesmente, é The Tierney Sutton Band. Fazem parte dela Christian Jacob, bom pianista que se revelou tocando com Maynard Ferguson, os baixistas Trey Henry e Kevin Axt e o baterista Ray Brinker. Dois baixistas, isso mesmo. Seus últimos álbuns são muito bons, sempre concebidos a partir de um conceito, ou melhor, uma proposta.
“After Blue” (2013), adivinhe a referência? Joni Mitchell? Acertou. É uma pós-leitura, digamos. Não é com a banda. Tem participações do Turtle Island Quartet, Larry Goldings (belíssimo em “Court and Spark”), Serge Merlaud na guitarra, Hubert Laws, Kevin Axt (este, da banda), Peter Erskine, Ralph Humphrey e Al Jarreau.
Ouça “Court and Spark”.
Ouça também ‘Blue”, com participação do Turtle Island Quartet.
Joni Mitchell não é a única homenageada. Outro foi Sting, com “The Sting Variations” (2016), este com o quarteto. É interessante porque faz um mélange com temas do jazz nas composições de Gordon Summers, ou melhor, você sabem o nome verdadeiro do rapaz. Como uma cantora genuína do jazz, Sutton transforma temas conhecidos, como “Every Little Thing Is Magic”, “Sincronicity”, “Fragile” e outras.
Veja ela e o quarteto em “Driven to Tears”. “So What”, de Miles Davis serve de introitus para o tema do ex-Police.
Em 2016, Sutton e sua banda participaram da trilha sonora de “Sully”, filme de Clint Eastwood. Foi a ideia de fazerem um álbum com temas de cinema. O subtítulo, que não está na capa e sim no site é “19 songs in five acts”. O grande homenageado é a Alan, que com Marilyn Bergman, foram letristas de temas do cinema, como “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand. Aliás, aos 93 anos, Alan faz um belíssimo dueto com Tierney em “How Do You Keep the Music Playing”.
Ouça.
Um dos bons destaques é “The Sound of Silence”, de Paul Simon, com uma introdução bombástica e bela. E é belo o acompanhamento com o som de contrabaixo e tabla, com a voz de Sutton. Depois tem um solo de piano de Christian Jacob, muito bom, que lembra McCoy Tyner.
Outro que gosto muito, com um belo trabalho de baixo elétrico o acústico é “If I Only Had a Brain”, bem jazzy.
Bom, para fechar, “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand e Alan e Marilyn Bergman.
Uma última: “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Lembra-se de Marilyn Monroe cantando?
Mostrando postagens com marcador Jane Monheit. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jane Monheit. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 23 de maio de 2019
quinta-feira, 22 de junho de 2017
O brilho solitário do piano de David Benoit
![]() |
| David Benoit em gravação no Steinway Hall |
Lançou cerca de 25 discos, mas não é tão reconhecido como pianista. O crítico Scott Yanow, do site allmusic, é um tanto crítico – ou maldoso – ao dizer que é “um dos performers mais populares num idioma de algum modo impreciso chamado jazz contemporâneo.” Cita outro crítico, Alex Henderson, que descreve “sua música de fundo melódico leve” como “new age with a beat”. Talvez seja um pouco injusto descrevê-lo assim.
Logo depois, Yanow dá uma suavizada e reconhece que Benoit é autor de bons álbuns, mas os que lançou na sua longa parceria com a GRP Records, buscam claramente as paradas, ou seja, são comerciais. Mas vamos combinar: não é pecado querer vender bem ou ser popular.
Bom, nem conheço bem a obra de Benoit. Confesso que não é dos que acompanho. Gostei, no entanto, de “2 in Love”, em que Jane Monheit canta com ele acompanhando-a ao piano. Com exceção da última faixa, as outras são de sua autoria, com letras de Lorraine Feather, Spencer Day e Mark Winkler. É um belo disco, com bons arranjos de sua lavra, e Jane está muito bem, até melhor do que em alguns de seus álbuns, sem exagerar em volteios musicais, um tanto afetados, na minha opinião.
Acabei por me interessar por Benoit, por meio de “2 in Love”, que ouvi por causa de Monheit, e não por ele. Por ter gostado, resolvi ouvir “The Steinway Sessions”, recém lançado.
“The Songs We Sang” (David Benoit, Mark Winkler) é um dos destaques.
É um solo, naturalmente. Como vários fabricantes de instrumentos, como a Gibson, Fender, Yamaha, Zildjian e outras, a Steinway tem os seus contratados. Sendo um dos exclusivos daquela que é considerada a melhor fabricante de pianos, Benoit foi convidado a gravar. Optou por fazê-lo no próprio Steinway Hall. No álbum constam algumas de suas composições e de outros, comoElton John e Dave Brubeck. Desvestindo-se de preconceitos, bom, nem tive como ser preconceituoso, por pouco conhecê-lo, achei que Benoit é um belo pianista, muito bom e constrói belas sonoridades. Confira a seguir.
“Strange Meadowlark”, se Dave Brubeck, a que eu mais gostei. Não é tão diferente do original, mas é belo assim mesmo.
“I Remember Bill Evans”. Belíssimo.
Com “Kei’s Song”, de sua autoria, abre o disco.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Wanda Sá com seus amigos
![]() |
| Wanda Sá e o velho amigo Menescal |
Como as ondas das praias cariocas, Sylvinha Telles, considerada uma das grandes intérpretes da bossa nova, hoje, encontra-se um tanto esquecida. Como as ondas, daqui a pouco vão se lembrar dela. Tinha voz pequena, delicada, e combinava bem com o gênero. Meu amigo Zeca Leal era amigo de Sylvia e Candinho, seu primeiro marido. Emprestou vários discos de playback com orquestrações de Nelson Riddle de canções de Frank Sinatra para ela treinar o seu canto. Disse-me que ela dava umas belas atravessadas. Tinha bom ouvido. Deve-se, em parte, o esquecimento de Sylvinha, à morte precoce em um acidente automobilístico em 1966. Era garota ainda. Mal tinha passado dos trinta.
Parte da turma da bossa nova reunia-se no apartamento de Jairo Leão. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli eram os frequentadores mais assíduos. Para Nara Leão, filha de Jairo, tornar-se cantora foi um passo natural. Apesar de associada à bossa nova, no início da carreira, na menina de classe média alta, um dia, a voz do morro soou mais forte, assim como para Carlinhos Lyra. Nara participou do Teatro Opinião. Cantava Carcará com João do Valle e Zé Keti. Ela foi maior que os gêneros. Fez até um songbook de Roberto Carlos, quando isso nem moda era.
Wanda Sá é da segunda dentição da bossa nova, assim como a turma que se reunia na casa de Nara. Em 1964, lança o belíssimo Wanda Vagamente. Participa também do Brasil 65, de Mendes, nos EUA. “Desaparece” da cena musical depois de casar-se com Edu Lobo. Opta por criar os três filhos. Separa-se de Edu em 1982 e, paulatinamente, retoma a carreira interrompida. Volta a se apresentar e a gravar, quase sempre com seu antigo professor de violão Roberto Menscal.
Ouça Vagamente na íntegra.
O tempo longe dos palcos não a fez perder o bonde. A voz, inclusive, mais grave, ganhou maior expressividade. Não é mais a voz da garota de Vagamente. Em comemoração aos seus 70 anos, completados em 11 de julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino lançou Wanda Sá ao Vivo em DVD. Os registros foram feitos no Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro e conta com vários e velhos amigos como Marcos Valle, João Donato, Carlos Lyra, Dori Caymmi e a americana Jane Monheit. [sobre Jane, leia http://bit.ly/1CBbj7U].
Nada melhor que comemorar datas como essas com os amigos.
Ouça Inútil Paisagem, com participação de Jane Monheit.
Ouça também faixa que abre o disco: Só Me Fez Bem. Era uma das músicas de Vagamente. É uma bela composição do ex-marido Edu Lobo, em parceira com Vinícius de Moraes.
Veja Wanda e Menescal em O Barquinho.
Os dois cantam Rio no programa Ensaio.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Jane Monheit e o gosto dos outros
![]() |
| O autógrafo de Jane com algumas gotas de whisky |
Por ser costumeiramente uma mesa só de homens, imagine o tipo de comentários que surgiam quando os shows eram de representantes do sexo feminino, é claro, além das críticas e elogios específicos relacionados aos músicos, ao repertório, à execução, de certo solo do pianista, do baixista ou do saxofonista? Lembro que uma cantora nos impressionou especialmente por suas formas e pela beleza. O Conde não deixou de prestar atenção – e tecer comentários – em certas características físicas bem ao gosto dos brasileiros de Nnenna Freelon. Todos à mesa concordaram. E também quanto à voz, que seja dito. Aliás, a pianista, uma japonesa, de quem não recordo o nome, era muito boa.
Como vimos Jane Monheit por três vezes em ocasiões diferentes, percebemos certas mudanças físicas. Jane, mesmo hoje, com 35 anos, continua com um rosto muito bonito e seus lábios carnudos chamam muito a atenção. As observações, na primeira vez, foi quanto à pele alva, perfeita, belos olhos emoldurados por sombrancelhas bem desenhadas e nariz perfeito. Mas precisávamos arrumar um defeito. Era um pouco cheinha.
Na segunda vez, para nossa surpresa, estava bem magra. Comentário masculino, com algo de chauvinismo: “deve estar apaixonada.” Verdade. O felizardo estava do seu lado: era Rick Montalbano, seu baterista. Bom, não disse uma palavra de suas qualidades como intérprete até agora. É afinadíssima. É, no entanto, uma qualidade que esperamos de qualquer intérprete.
Na terceira vez em que fomos vê-la no Bourbon – como John Pizzarelli havia ficado “freguês” dos palcos brasileiros – estava gordinha de novo. Aqui não direi o que foi comentado à mesa. Entre a primeira e a terceira vez havia ficado fã de Ivan Lins e cantou algumas de suas músicas e, obviamente, temas jobinianos.
O primeiro disco de Monheit foi Never Never Land, lançado em 2000, na esteira do segundo lugar conquistado no prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition. Fôra avaliada por um júri primeiro time: Dianne Reeves, Diana Krall, Nnenna Freelon, Dee Dee Bridgewater e Joe Williams. Nos álbuns seguintes, como no primeiro, prevalecem os standards, com um ou outro tema mais recente como A Case of You, de Joni Mitchell, e é acompanhada por um músicos de jazz excepcionais como Alan Broadbent, Ron Carter, Christian McBride, Tom Harrell, Kenny Barron, Hank Crawford, Bucky Pizzarelli (pai de John Pizzarelli), Toots Thielmans e Geoffrey Keezer. Demonstração de prestígio.
Em In the Sun, de 2002, Jane canta, pela primeira vez Ivan Lins: Começar de Novo e Once I Walked in the Sun (se não me engano, em português é A cor do pôr-do-sol, letra de Celso Viáfora). Once I Walked in the Sun é cantada com participação de Lins. Começar de Novo é com arranjo de Vince Mendoza e no final há um belíssimo e mínimo solo de trompete de Tom Harrell. Confira. É um dos melhores Começar de Novo até agora registrados.
É evidente a paixão de Jane pela música brasileira. Em Surrender (2007), das dez faixas, seis são de brasileiros. Como de costume, inclui uma composição de Ivan (participa cantando também) – Rio de Maio –, outra da feliz parceria com Viáfora. As outras são de Jobim, Dori Caymmi e Sérgio Mendes. O toque “pop” é a gravação de Overjoyed, de Stevie Wonder. É um bom disco.
Agora em 2013, Jane acaba de lançar The Heart of Matter, seu décimo álbum. Ouvi e baixou a bronca. Apesar de considerá-la afinadíssima, é muito certinha para o meu gosto. Tem alguma coisa faltando. Em matéria da Downbeat (junho de 2013), Allen Morrison tece rasgados elogios à cantora. Depois de ouvir por algumas vezes, vou discordar. Enjoei. Seu jeito “sensual” de cantar, arfante, me faz lembrar o que o Zeca Leal, amigo que faz falta, agora que se foi, com seus comentários ácidos e engraçados. Disse uma vez que alguns intérpretes cantam com um fole na garganta. Para cada frase, uma puxada de ar, como se estivesse afogando. Não tinha percebido o quanto Monheit “arfa” e suas modulações vocais, sabe, aquelas em que a voz vai num sobe e desce suspirante, especialmente em Two Lonely People (quarta faixa), é irritante. Allen Morrison escreve que “ela nunca cantou melhor ou com maior convicção, desmentindo a sabedoria convencional de que a melhor arte nasce das cinzas da desgraça.” O que escreve outro Bobby Reed, da mesma revista, em “Editor’s Picks” do mês de maio, é só elogios. Estou começando a pensar que sou o único que não gostou do disco. Outra coisa que passou a irritar-me e havia percebido nos shows, mas não incomodava tanto é sua tendência a reforçar um lado sensual, não apenas pelos movimentos no palco, assim como pelo modo de cantar, cheio de modulações e, como havia dito, arfante. Garanto porém que deve ter muitos que adoram esse seu estilo. Prefiro Julie London.
Última coisa: não falta Ivan Lins. Desta vez, canta Depende de Nós e A Gente Merece Ser Feliz. Curiosidade: Sing, aquela do Vila Sésamo. A melhor do disco: Born to Be Blue, de Mel Tormé e Robert Wells.
Ouça Sing.
![]() |
| Uma das faces da sensualidade de Jane |
Na terceira vez em que fomos vê-la no Bourbon – como John Pizzarelli havia ficado “freguês” dos palcos brasileiros – estava gordinha de novo. Aqui não direi o que foi comentado à mesa. Entre a primeira e a terceira vez havia ficado fã de Ivan Lins e cantou algumas de suas músicas e, obviamente, temas jobinianos.
O primeiro disco de Monheit foi Never Never Land, lançado em 2000, na esteira do segundo lugar conquistado no prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition. Fôra avaliada por um júri primeiro time: Dianne Reeves, Diana Krall, Nnenna Freelon, Dee Dee Bridgewater e Joe Williams. Nos álbuns seguintes, como no primeiro, prevalecem os standards, com um ou outro tema mais recente como A Case of You, de Joni Mitchell, e é acompanhada por um músicos de jazz excepcionais como Alan Broadbent, Ron Carter, Christian McBride, Tom Harrell, Kenny Barron, Hank Crawford, Bucky Pizzarelli (pai de John Pizzarelli), Toots Thielmans e Geoffrey Keezer. Demonstração de prestígio.
Em In the Sun, de 2002, Jane canta, pela primeira vez Ivan Lins: Começar de Novo e Once I Walked in the Sun (se não me engano, em português é A cor do pôr-do-sol, letra de Celso Viáfora). Once I Walked in the Sun é cantada com participação de Lins. Começar de Novo é com arranjo de Vince Mendoza e no final há um belíssimo e mínimo solo de trompete de Tom Harrell. Confira. É um dos melhores Começar de Novo até agora registrados.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
É evidente a paixão de Jane pela música brasileira. Em Surrender (2007), das dez faixas, seis são de brasileiros. Como de costume, inclui uma composição de Ivan (participa cantando também) – Rio de Maio –, outra da feliz parceria com Viáfora. As outras são de Jobim, Dori Caymmi e Sérgio Mendes. O toque “pop” é a gravação de Overjoyed, de Stevie Wonder. É um bom disco.
Agora em 2013, Jane acaba de lançar The Heart of Matter, seu décimo álbum. Ouvi e baixou a bronca. Apesar de considerá-la afinadíssima, é muito certinha para o meu gosto. Tem alguma coisa faltando. Em matéria da Downbeat (junho de 2013), Allen Morrison tece rasgados elogios à cantora. Depois de ouvir por algumas vezes, vou discordar. Enjoei. Seu jeito “sensual” de cantar, arfante, me faz lembrar o que o Zeca Leal, amigo que faz falta, agora que se foi, com seus comentários ácidos e engraçados. Disse uma vez que alguns intérpretes cantam com um fole na garganta. Para cada frase, uma puxada de ar, como se estivesse afogando. Não tinha percebido o quanto Monheit “arfa” e suas modulações vocais, sabe, aquelas em que a voz vai num sobe e desce suspirante, especialmente em Two Lonely People (quarta faixa), é irritante. Allen Morrison escreve que “ela nunca cantou melhor ou com maior convicção, desmentindo a sabedoria convencional de que a melhor arte nasce das cinzas da desgraça.” O que escreve outro Bobby Reed, da mesma revista, em “Editor’s Picks” do mês de maio, é só elogios. Estou começando a pensar que sou o único que não gostou do disco. Outra coisa que passou a irritar-me e havia percebido nos shows, mas não incomodava tanto é sua tendência a reforçar um lado sensual, não apenas pelos movimentos no palco, assim como pelo modo de cantar, cheio de modulações e, como havia dito, arfante. Garanto porém que deve ter muitos que adoram esse seu estilo. Prefiro Julie London.
Última coisa: não falta Ivan Lins. Desta vez, canta Depende de Nós e A Gente Merece Ser Feliz. Curiosidade: Sing, aquela do Vila Sésamo. A melhor do disco: Born to Be Blue, de Mel Tormé e Robert Wells.
Ouça Sing.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Preciso rever meus conceitos sobre Tierney Sutton
![]() |
| Tierney Sutton |
Desde tempos imemoriais, “beleza põe mesa”. Chato dizer isso: apesar da propalada evolução da humanidade, certas coisas não mudaram muito. Enquanto um “feião” como Humphrey Bogart ou Sean Penn dão certo, uma penca de “bonitões” enveredam pelo caminho do sucesso sem possuirem o mesmo talento. A “boniteza” funciona também na música, principalmente no gênero feminino.
Um dado curioso – pode estar até um pouco fora do contexto – é o de atrizes bonitas que encontraram um nicho como cantoras. Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Lena Horne são exemplos. No Brasil, tivemos Norma Benguell e Odette Lara. Particularmente, minha interpretação preferida de Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, continua sendo a de Odette. Pelo jeito, não se interessou em prosseguir na sua carreira de intérprete.
Em medidas e doses diferentes, Diana Krall, quando foi lançado Only Trust Your Heart, pela GRP Records, deve ter despertado alguma impressão extramusical: aquela loura da capa, com os os olhos enigmaticamente semicerrados, era um bom apelo à curiosidade. Quem comprou o disco por essa razão, exclusivamente, ganhou um prêmio extra: a moça era uma tremenda pianista e, cantava bem; possuía uma voz cálida e poderosa. Eram muitos predicados em uma só pessoa. Depois disso, “descobriram” seu primeiro disco – Steppin’ Out –, lançado pela canadense Justin Time, de dois anos antes. Diana estava pronta desde o primeiro disco.
Diana Krall era um bom produto para a indústria fonográfica. O mundo do jazz havia ficado órfão de Sarah Vaughan (falecida em 1990), Ella Fitzgerald (1996) e Carmen McRae (1994). A era das divas tinha terminado. Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewate, e até as com mais quilômetros rodados, como Shirley Horn, Abbey Lincoln, Anita O’Day e Nancy Wilson eram ótimas, sem a aura, no entanto, do trio citado.
Próximo do fim do século passado, o mercado fonográfico tinha passado a investir pesado na imagem, mais até do que nas virtudes musicais. Entre Madonnas e Michaels Jacksons, em um nicho que nem precisava de tantos apelos comerciais, certas coisas se replicavam. Ampliou-se o investimento em qualidades extramusicais. Aí entra o apelo estético. Em tempos de culto a celebridades e “descerebrados”, a “boniteza” era um ás a mais na manga dos marqueteiros. Nessa senda aberta, Jane Monheit era a aposta da pequena N-Coded Music, Tierney Sutton, pela Telarc, Nenna Freelon, pela Columbia/Sony, e Norah Jones, pela Blue Note.
Sempre fiquei com os pés e as mãos para trás. Sempre tentei não cair nessa armadilha.
Tierney Sutton e American Road
Sutton, Freelon, Monheit e Jones aparentavam ter qualidades além da beleza ou do charme. Bem, estou comentando sobre Sutton. Pois, sentia que faltava alguma coisa nela e em Jane Monheit. Afinadas, quase perfeitas, mas faltava aquele “a mais”, aquilo que nos impele a ouvir vezes e vezes e nos fascinar.
Em alguma hora, pode acontecer uma surpresa. Quando ouvi Desire (2009), nesse ano, percebi alguma diferença. American Road, o mais recente, lançado em 2011, então, é muito bom.
O que faz uma boa cantora, além de boa voz? Suingue? Ritmo? Inteligência? Bom, um dos grandes pecados é ter boa voz e não captar o sentido do que canta. Isso pode ser resolvido, parcialmente, com um bom produtor, alguém que saiba escolher um bom repertório, bom acompanhamento, bons instrumentistas. No caso de Sutton, o dado que sinaliza essa transformação é a de que seus álbuns, desde On the Other Side (2007), constam como sendo da Tierney Sutton Band. É uma grande diferença. Pode ser falsa a minha impressão, mas parece que a participação de Christian Jacob e dos restantes Kevin Axt e Trey Henry, nos baixos (sim, a banda tem dois baixistas), e Ray Brinker na bateria, mudaram o conceito do som; não são apenas acompanhantes; são partes de um todo.
Jacob é um francês emigrado e, no início, fez parte da banda do trumpetista Maynard Ferguson. De formação erudita, interessou-se em cursar uma escola mais voltada ao jazz para “aprender” a improvisar. Sem querer desmerecer a cozinha (baixos e bateria), seu piano faz muita diferença. É um estilista. Sutton encontrou o seu “Flanagan”, assim como Billie Holiday teve Teddy Wilson, e Ella Fitzgerald teve Tommy Flanagan (daí a referência acima), e Hank Jones.
A “Band” de Sutton deixou-a mais solta; não é apenas a voz afinada à frente de boa fachada. Somaram-se a esses dois atributos uma interpretação mais livre: a voz anasalada é parte do conjunto, ou seja, a voz é um instrumento, como são os baixos, o piano e a bateria. Como um elemento das partes que fazem o todo, por exemplo, faz um Amazing Grace maravilhoso; seu canto é acompanhado pela marcação do contrabaixo e o que é quase um hino vira uma peça, que sem perder a majestade, é uma outra “majestade”. Em três standards gershwinianos de Porgy and Bess “in a row” – It Ain’t Necessarily So, Summertime, e My Man’s Gone Now – revela sua verve jazzística, e muito bem. São três interpretações de tirar o chapéu.
Em mais um standard – Tenderly –, evidencia-se o casamento da vocalista com o pianista. Jacob ataca na notas mais graves, em andamento lento para a voz muito bem colocada, sem dramatismos gratuitos: belo duo. E quando, achamos que é suficiente, Sutton vem com outras surpresas. Entoa um belíssimo Somewhere, em que a tensão crescente desemboca em três palavras: “somehow, someday, somewhere”. Something’s Coming e Cool completam a trilogia Leonard Bernstein/Stephen Sondheim, de West Side Story.
O fecho é um duo maravilhoso de Sutton e Jacob, em America the Beautiful. Bem, comecei por Amazing Grace e quase esquecia de falar das primeiras. Sutton começa com um spiritual tradicional: Wayfarer Stranger. Serve para esquentar os motores. A temperatura aumenta com o medley Oh Shenandoah/The Water Is Wide, duas outras tradicionais, a primeira americana e a segunda, escocesa. A terceira é On Broadway, conhecidíssima na interpretação de George Benson, que é puro balanço com o baixo e a bateria “quebrando tudo”. Aí, chega Amazing Grace, que foi por onde comecei. E é o que você vai ouvir.
Esta versão de “Amazing Grace” é diferente da que consta no CD. É de uma apresentação ao vivo.
Ouça “Wayfaring Stranger”, a faixa de abertura.
Assinar:
Postagens (Atom)





