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quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Brasil de Jun Miyake

Jun Miyake e seu flugelhorn
Quando da inauguração do centro cultural Japan House, em maio, um dos eventos foi a apresentação de Jun Miyake e de Ryuichi Sakamoto, no Auditório Ibirapuera. O segundo é bem conhecido dos brasileiros. Apresentou-se, inclusive, com Paula e Jaques Morelenbaum, seus parceiros do projeto Casa. Bem antes de enveredar-se pela exploração de nossa música, que iniciou-se, provavelmente, depois que fez parcerias com o americano Arto Lindsay, pernambucano de nascimento, muitos sabiam dele, não por sua Yellow Magic Orchestra, mas por sua participação em “Bom Dia, Mr. Lawrence”, de Nagisa Oshima, como ator e também como autor da música tema “Forbidden Colors”, cantada pelo ex-Japan, David Sylvian.

Bem menos famoso aqui, os jornalistas tiveram de recorrer aos releases e ao Google para escrever sobre Jun Miyake. Um deles, aliás, uma delas, da Folha de S. Paulo, escreveu: “De suas lembranças mais frescas, salta-lhe a da ocasião em que decidiam juntos a capa da trilha sonora de ‘Pina’, premiado documentário de Wes Anderson.” (FSP, 7/5/2017). Desconfio de que tenha confundido com outro diretor cujo nome tem dois “dabliús”, mas a questão nem é essa. Faltou em todas as matérias – pelo menos, nas que cheguei a ler –, por pouco saberem dele, o dado mais importante, já que Miyake estava se apresentando no Brasil: sua proximidade com os ritmos brasileiros. Em nenhum lugar escreveram que lançou um álbum, em 2003,  chamado “Innocent Bossa in the Mirror”, tendo como parceiros musicais Vinícius Cantuária e Arto Lindsay.

Não sou um especialista sobre a obra do japonês, mas com o pouco que conheço, sei dessa ligação com o Brasil, não apenas com esse disco, mas com outros que vieram mais tarde. Coincidentemente, ambos têm ligações com o país, presumo, devido à “ajuda” de Arto Lindsay. Antes de trabalhar com Jaques Morelenbaum, na década de 1980, o pernambucano participa de alguns álbuns de Sakamoto, dentre eles, “Beauty” e “Heartbeat”.

Há outros pontos em comum, e aí, casualmente, incluo o “talking head” David Byrne: a participação frequente em trabalhos em outras áreas como o cinema, o teatro e a dança, colaborando com nomes consagrados como Bob Wilson, Twyla Tharp, Wim Vandekeybus Pina Bausch, Alejandro González Iñárritu, Bernardo Bertolucci e Nagisa Oshima.

Tanto Sakamoto como Miyake são craques no manejo de instrumentos eletrônicos e samples. Nas matérias das publicações brasileiras escreveram que Miyake escolheu o trompete por causa de Miles Davis. Bom, informação bem menos relevante do que suas parcerias com Lindsay.

Depois de cursar na Berklee College of Music, voltou ao Japão e passou a destacar-se mais como compositor do que como trompetista, devido ao talento em criar belas linhas melódicas. Evidente que toca trompete e flugelhorn, mas predomina sua atuação como tecladista e no uso da eletrônica.

Sonoridades brasileiras estão presentes em “Stolen from Strangers” (2008) e em “Lost Memory Theater Act 1” (2013),  – cito apenas os que conheço – por meio de ritmos e na voz de Arto Lindsay. No primeiro, várias são na língua portuguesa, como “Alviverde”, “O Fim” (belíssima) e “Outros Escuros”, co-compostas e cantadas por Arto. Miyake é fiel em suas parcerias. Cantuária participa de algumas faixas, além de Lisa Papineau e The Cosmic Voices of Bulgaria (em 1975, foi lançado o álbum “Les Mystères de Voix Bulgares”, que fez um sucesso enorme, a ponto de ser lançado no Brasil alguns anos depois; tantos anos depois, as cantoras devem ser outras, mas imagino que essa formação seja derivada desse álbum).

Em “Lost Memory Theater Act 1”, mesmo com os anos que separa do anterior, lá estão Cantuária, Papineau e as moças búlgaras. Novamente, Lindsay aparece: nas duas primeiras – “Assimétrica” e “Exibida” – canta e é coautor. Outras participações interessantes são a de Dhafer Youssef, no oud, David Byrne e a “desaparecida” Nina Hagen. Em “Lost Memory Theater Act-2” (2015), Arto não participa, mas Vinícius Cantuária está em duas faixas.

Em outras palavras, esqueceram de citar o que era mais relevante, quando apresentou-se no Brasil.

Ouça “Alviverde”, com Arto Lindsay.



Outra parceria de Arto: “Turn Back”.



Mais uma: “Outros Escuros”.



Deixando Lindsay de lado, veja a apresentação de Miyake, com a participação da Cosmic Voices from Bulgaria, em “White Rose”.



Um número interessante, presente em “Lost Memory Theater Act-2”, meio fora do contexto, é o clássico “Que Sera Sera”, de Jay Livingstone e Ray Evans, que lembra um pouco o clima das trilhas de Angelo Badalamenti. A voz principal é de Chie Umezawa.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O prestígio de Vinícius Cantuária lá e cá

Vinícius Cantuária e Bill Frisell, ao fundo.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.

Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.

É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.

No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.

Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.

Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post),  dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.

Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.


Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.



Ouça trechos de todas as canções do disco.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Vinícius Cantuária virou mexicano

Até a capa é “mexicana”
Depois de tanto tempo sem ouvir falar de Vinícius Cantuária, pensei que tinha virado mexicano. Pelo menos, foi a primeira impressão, ao começar a ouvir seu mais recente disco. Nas duas primeiras faixas, Cantuária canta na língua hispânica. A terceira é instrumental, e a quarta se chama Lágrimas Mexicanas… cantada em português.

Lágrimas mexicanas é o título do disco, lançado em 2010, que foi realizado com o americano Bill Frisell. Faz tempo que Cantuária o conhece, tendo participado de, pelo menos um disco dele – Tucumã (1989) –, lançado pelo selo americano Verve. Esse guitarrista é deveras eclético. Com seu nome ligado ao jazz, está sempre a variar de gêneros. Basicamente instrumentais, gosta de fundir gêneros como o country e o folk. Seu estilo de tocar não segue a tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall. Tem predileção por distorções discretas e não faz o tipo “o mais rápido do Oeste”.

Cantuária passou a ser mais conhecido tocando com Caetano Veloso, apesar da experiência anterior como membro da banda de rock progressivo O Terço. Era o baterista da Outra Banda da Terra, que acompanhou Caetano na época de Muito (1978). Na turnê e no disco, tocava violão também. Sua faceta compositora se popularizou – principalmente pelo número de ouvintes – com Só Você, sucesso e parte da trilha sonora de uma novela, cantada por Fabio Jr.

A outra é a doce Lua e Estrela, gravada por Caetano Veloso, em Outras Palavras (1981). Quem não se lembra dos versos singelos e delicados dessa música? “Menina do anel de lua e estrela/ Raios de sol no céu da cidade/ Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde/ Penso em você, fico com saudade”. O seu talento foi reconhecido e gravou dois discos pela RCA Victor. Tem mais em terras brasileiras, mas “desapareceu”. Mudou-se para os EUA e prosseguiu na carreira como artista e compositor, e o foco mudou. Não abandonou a música brasileira: é, ainda, essencialmente, um brasileiro que mora e grava lá.

É o que se depreende, a partir de Tucumã (tenho-o em casa, nunca mais ouvi, no entanto) e do recente Lágrimas… Curioso que sou, vi no site da Amazon e comprei fiando-me naqueles samples de 15 segundos cada. É difícil um juízo a partir disso: corri o risco. E o bom é quando as expectativas se superam. Uma amiga a quem fiz ouvir o disco disse ter gostado e comentou da variedade rítmica das faixas. É verdade: essa é a riqueza dele. Ninguém é estrela nesse disco tocado por dois apenas; nem a guitarra de Bill Frisell está tão característica. Antes da primeira audição, a pergunta que surgiu foi exatamente: onde o som meio “havaiano” do americano iria se encaixar com o estilo do brasileiro? E combinam muito bem. Conta-se o tempo em que se conhecem e por terem gravado anteriormente.

A multiplicidade se justifica no produto resultante desse projeto. É um som híbrido, cantados em espanhol, português e em inglês, e algumas instrumentais. É a própria expressão da cultura multiétnica de um lugar como Nova York e, crescentemente, do resto do país norte-americano. Depois das “lágrimas mexicanas” serem vertidas em português, vertem-se na mesma língua, as Lágrimas de Amor. Nessa doce canção, Cantuária se apresenta por inteiro no que parece característica maior: um lirismo presente desde Lua e Estrela.

Cafezinho é um baião “americanizado”, apenas instrumental, com uma levada irresistível, mas não para ser dançada num salão. A sexta faixa, El Camino, é maravilha pura, com belos acordes etéreos de Bill. Aquela Mulher é um sambinha bem ao estilo de Cantuária, com uma batida econômica e voz contida sobre um ritmo fundido à guitarra quase sem efeitos do americano. Depois de Brigas de Namorados, o CD termina com Forinfas, cantado em português. Despojada, lembra vagamente Nostalgia, a última faixa de Transa, de Caetano Veloso, aquela que é cantada pelo baiano e Gal Costa, só que num ritmo bem menos rocker.

Quem está com saudades de Vinícius Cantuária vai se esbaldar com o CD Lágrimas Mexicanas. Ouça a maravilhosa El Camino.




Veja os dois em Lágrimas Mexicanas.